Visceral
4 Noite de ametista
Convencer Hiei tinha sido mais difícil do que Kurama esperava. Ele sabia que Hiei podia ser bem teimoso quando queria, e Kurama o achou até mais fechado que o habitual quando apareceu no seu quarto na noite anterior. Não demonstrou muita atenção à história que Kurama contou sobre Haru, e não pareceu nem um pouco interessado na proposta que acabara de receber.
— Eu não sou guia turístico — disse, lacônico, quando Kurama sugeriu que ele escoltasse Rina pelo Makai — Se ela é tão poderosa, por que não faz o trajeto sozinha?
Mas Kurama sabia também que Hiei não ficaria muito tempo no Ningenkai. Quase nada o prendia ali. No máximo, iria ver se Yukina estava bem e talvez vagar um pouco pela noite, agora que o Mundo dos Humanos vinha recebendo outros youkais com alguma frequência. Se estava entediado no Makai, ficaria muito mais no Ningenkai, um lugar sem grandes atrativos para um demônio como ele. Kurama só precisava usar isso a seu favor.
Decidiu oferecer parte da recompensa prometida por Haru a Yusuke, mesmo sem o consentimento do amigo. Sabia que Yusuke não se importaria em abrir mão de parte do pagamento se isso significasse não precisar acompanhar Rina. Ao menos seria um problema a menos para ele (e para Keiko, que, apesar de negar, continuava olhando torto para alguns casos que envolviam o Mundo dos Demônios).
Kurama disse a Hiei que ele poderia escolher um dos tesouros da família, o que com certeza seria valioso. Se ao menos metade dos tesouros ainda existisse, estariam entre os itens mais valiosos e poderosos do Makai — sem falar nas armas de poder incomparável. Os Yuuma, afinal, eram uma tribo de guerreiros.
Mas acima de tudo, a viagem daria a Hiei a chance de conhecer melhor sobre o clã. Mesmo que o passado do Makai não lhe despertasse tanto interesse, não seria no mínimo curioso ver em primeira mão a possibilidade de um novo poder ascender por aquelas terras?
Hiei aceitou a oferta na manhã seguinte. Disse que o faria apenas porque não tinha nada melhor para fazer e que não se responsabilizaria pela mulher durante a viagem. Ela que tomasse conta de si mesma. No máximo, garantiria que ela chegasse viva ao destino.
Aquilo já era o bastante. E quando Yusuke o telefonou para contar sobre a decisão de Rina mais tarde naquele dia, o timing não podia ter sido melhor.
(...)
Rina encheu o cantil de metal com seu bourbon favorito, tomando um gole antes de recolocar a tampa, e o guardou na jaqueta. Em seguida, olhou para a garrafa de vidro com o líquido pela metade. Pensou por um tempo e acabou colocando a garrafa dentro da bolsa de lona que tinha em cima da cama.
Juntou mais algumas coisas, fechou a bolsa, a ajeitou no ombro e saiu do apartamento. A sirene de polícia soava ao longe na rua, mas Rina não deu importância. Não apenas pelo fato de estar acostumada com as frequentes batidas policiais no bairro, mas porque sabia que aquela seria provavelmente a última vez que ouviria aquele som.
Yusuke a esperava no local combinado, acompanhado de mais outra pessoa. Era um homem baixinho, vestes pretas, olhos vermelhos, brilhantes e intensos. Rina tentou estudar aquela nova figura enquanto caminhava em direção a eles, mas não conseguiu decifrar muito bem o que encontrou. Apenas teve a sensação de que ele também era como ela. Que ele também era um… youkai.
— Tem certeza que não prefere esperar até amanhã? — Yusuke perguntou. O sol tinha se posto três horas atrás e o céu agora era um manto azul marinho manchado de nuvens pretas.
— Tenho.
Não pretendia dar mais explicações do que isso. Se ela queria entender melhor o que estava acontecendo, melhor ir logo de uma vez.
Aquela decisão não havia sido tão difícil assim, por mais que ela detestasse admitir. Na verdade, era um tanto quanto óbvia, e ela sabia disso desde a primeira vez que Yusuke a contou sobre Haru.
— E você, quem é? — ela perguntou para o único a quem ainda não tinha sido apresentada.
Ele lançou um ar aborrecido ao ouvir a pergunta.
— Hiei é quem vai te acompanhar — Yusuke explicou, sucinto — Ele conhece bem o Makai, você vai estar em boas mãos.
Ela deu de ombros. Odiava depender de alguém, mas sabia que estava sem muitas alternativas, ao menos por enquanto. Uma vez no Makai, poderia dispensar a escolta e achar o caminho sozinha.
— Ótimo, então vamos — ela disse.
Hiei, que até então estava ao lado de Yusuke, de repente surgiu na frente de Rina. Apareceu de um jeito tão abrupto que era como se tivesse se materializado do nada, o olhar aborrecido de antes dando lugar a outro, muito mais penetrante.
Aquilo a sobressaltou. A íris vermelha do demônio flamejava. Era quase como se estivesse a enxergando por dentro.
— Por que está escondendo sua energia? — ele perguntou.
— Isso não é da sua conta.
Hiei estreitou os olhos. Parecia um felino estudando sua presa, prestes a atacar. Continuou a encarando por longos segundos, tempo suficiente para Rina começar a se sentir incomodada. Mesmo assim, ela não se mexeu. Sustentou o olhar pelo tempo que precisou.
Até que ele curvou o canto da boca em um sorriso sarcástico e relaxou os ombros.
— Heh.
Rina teve certeza de que havia um tom de deboche naquele grunhido, mas não teve tempo de retrucar. Sem nem ao menos se despedir do amigo, Hiei se virou e a mandou o seguir. Aquelas vestes escuras se misturaram com o céu noturno e Rina não teve outra opção senão obedecer.
(...)
O Makai conseguia ser ainda mais sombrio que o mundo a que Rina estava acostumada. No começo, ela se sentiu sufocada, mas a sensação durou apenas o tempo necessário para que seu organismo se habituasse à nova atmosfera. E, apesar da escuridão, ela descobriu que podia enxergar claramente.
Hiei a obrigou a ir na frente. Queria manter os olhos nela. Ele não havia dito isso, mas nem precisava; estava óbvio que não confiava em Rina. Havia lido algo nela quando a olhou daquela maneira desconfortável momentos atrás e riu daquele jeito irônico.
Rina não gostou nem um pouco daquilo. Sentia uma desagradável sensação de ter seus pensamentos invadidos, como se ele já soubesse o que ela ainda nem havia premeditado. Yusuke talvez fosse mais fácil de enganar, mas aquele pequeno diabo não estava nos planos dela.
— Quanto tempo até chegarmos lá? — ela perguntou.
— Não sei. Alguns dias.
— Dias?! — Rina exclamou e parou de andar para olhar para ele. Hiei estava tão sério quanto antes.
— Se você ficar parando, vai demorar ainda mais. Ande.
Ela voltou a caminhar com ele às suas costas. No começo, um pouco mais lenta do que antes, mas os cutucões que levava a faziam apressar o passo até o ponto de quase começar a correr. Hiei seguia colado logo atrás.
Decididamente não estava esperando por uma viagem de dias. No máximo algumas horas, talvez um dia inteiro. Mas só. Claro, havia também a possibilidade de ele estar mentindo. Se não confiava nela, por que ela deveria confiar nele? Talvez tivesse dito aquilo para mantê-la preocupada e dependente da sua ajuda. Talvez até mesmo tivesse escolhido passar por aquela floresta apenas para assustá-la na primeira noite, fazê-la acreditar que realmente precisava dele.
Se ele achava que conseguiria, então não a tinha decifrado tão bem assim
— Onde vamos passar a noite?
— Já está cansada?
— É claro que não!
— Então continue andando.
Rina decidiu abandonar qualquer nova tentativa de conversa. Seguiu calada, as pernas quase em modo automático, enquanto tentava aprender aquele caminho. A floresta parecia sem fim e idêntica em muitas partes, mas não a ponto de confundi-la totalmente.
Andaram pelo que pareceu horas, apesar do céu escuro não ter sofrido nenhuma mudança durante todo o percurso. Rina estava acostumada a passar noites em claro. Estava acostumada a dar quase nenhuma importância para o sono, algo que para ela era pura perda de tempo. Preferia ficar acordada, de preferência sozinha ou com alguém com quem pudesse se divertir a seu modo — alguém que pudesse ser dispensado quando ela bem entendesse.
Não era difícil encontrar companhias assim. Muitos tentaram ser seus amantes — e, ela admitia, muitos conseguiram. A maioria, porém, apenas por uma noite. Poucos voltavam a dividir os mesmos lençóis com ela uma segunda vez. Rina tinha seus critérios. Achava que, quanto menos repetisse os parceiros, menos dor de cabeça teria. E, até então, nada lhe provava o contrário.
— Espere aqui — Hiei falou.
Rina estancou a caminhada. Por algum tempo, chegou a esquecer que ele estivera atrás dela, de tão silencioso que eram seus passos. Se perguntou se ele tinha lido seus pensamentos em algum momento, e achou a ideia tão divertida quanto absurda. Se virou para encará-lo, mas ele não estava em lugar nenhum.
Olhou ao redor, confusa. Ele a tinha abandonado? Não, ele não faria isso. Não depois de obrigá-la a andar na frente dele, de pretender saber mais sobre ela do que ela queria que ele soubesse. Não, com certeza era algum truque.
Então Rina esperou, se agarrando na alça da bolsa que trazia no ombro. Se manteve alerta. Abriu todos seus sentidos. O silêncio da floresta era impecável, quase alucinante se comparado ao barulho da cidade que ela estava acostumada.
Ele voltou logo depois. Parecia vindo de lugar nenhum, como se nunca tivesse saído.
Sem falar nenhuma palavra, passou seu braço pela cintura de Rina. A segurou com força. Rina tentou protestar, mas a rajada de ar que sentiu no rosto a pegou de surpresa e embaralhou seus pensamentos. Seu cabelo todo estava jogado para trás, o ruído do vento interrompia o silêncio e ela se deu conta que não tinha mais o chão a seus pés. Estava no ar, em movimento, presa pelo braço de Hiei. Ele saltava, tomando impulso em formas abstratas que encontrava pelo caminho, e a arrastava com ele.
Pousaram em um terreno plano e rochoso, quase sem vegetação. Ele a soltou assim que firmou os pés na superfície. Rina continuou sem entender, e precisou de alguns segundos para se recuperar da vertigem.
Então caminhou até a borda do terreno, olhou para baixo e viu a mata que deixaram para trás, muitos metros abaixo. Estavam no alto de um planalto, a uma altura tão grande que ela se perguntou como tinham conseguido vencer aquela distância em tão pouco tempo. Sozinha, ela demoraria horas.
— Aqui está bom para passarmos a noite — Hiei falou, se aproximando por trás.
— Por que aqui?
— Algum problema? Não vai me dizer que tem medo de altura.
Ele tinha o mesmo sorriso cínico de antes, o mesmo olhar cintilante. Rina queria responder alguma coisa, mas não lhe daria aquele gosto. Sabia que qualquer que fosse sua resposta, ele a consideraria uma vitória. E ela entendeu imediatamente o que aquilo significava.
— Boa noite — ele falou ao se afastar.
Hiei deitou próximo a um arbusto no meio do planalto, as mãos sob a cabeça.
Rina olhou para baixo novamente. Tentou calcular a distância para o solo, mas a tontura que ainda sentia tornava impossível de estimar com precisão. Sem falar na copa das árvores, dificultando a visão. De qualquer maneira, era alto o bastante. No mínimo, quebraria uma perna ou um braço se tentasse descer sozinha. No máximo, quebraria o pescoço.
Rina riu quando olhou de novo para o demônio. Os olhos vermelhos agora estavam bem fechados. Aquela tinha sido uma ideia e tanto de garantir que ela ainda estaria por perto quando ele acordasse.
Ela procurou um lugar para se acomodar e deitou também. Contemplou o firmamento infinito cor de ametista, mas logo fechou os olhos. Dormiu mais rápido do que imaginou que fosse dormir. Mas isso não tinha problema.
Amanhã seria mais esperta do que ele.
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