Visceral
5 Mimetismo
Notas iniciais
Hiei estava de pé antes mesmo do nascer do sol. O sono tinha sido curto, mas o suficiente para que ele recuperasse as energias para continuar o longo percurso que ainda tinha pela frente — e que pretendia fazer no menor tempo possível. Perder tempo não estava nos planos.
Além do mais, preferia se manter sempre um passo à frente de Rina. Ele havia deixado claro para Kurama que aceitava aquele trabalho apenas pela recompensa e para escapar do tédio dos últimos dias. Mas no fundo, havia também uma certa curiosidade, ainda que quase inconsciente, sobre aquela mulher. A história do clã o instigou. Se não fosse Kurama quem tivesse contado, talvez não tivesse acreditado em nem metade dela. Mas aquela raposa era muito mais veterana do que ele quando se tratava das antigas lendas do Makai. E ao menos ele tinha razão em uma coisa: Rina de fato não pertencia aos humanos.
No entanto, à primeira vista, a curiosidade se transformara em desapontamento. Achou que reconheceria em Rina uma aura combatente, que teria uma impressão ao menos um pouco mais marcante. Mas aparentemente, ter sido criada por humanos a tinha transformado em um desses animais de cativeiro, despreparados para a vida na selva. Hiei já não sentia mais o mesmo desprezo pelos humanos que tinha no passado, mas ele sabia que o Ningenkai não era o lugar ideal para demônio algum se desenvolver propriamente — salvo raríssimas exceções, das quais Rina pelo visto não fazia parte.
E, ainda por cima, por alguma razão que não sabia explicar, ele não confiava nela. Não que Hiei confiasse em estranhos com facilidade, mas com Rina, a desconfiança passava um pouco da linha que ele considerava normal. Ela passava a impressão de que tinha alguma coisa a esconder. E que era tola o bastante para supor que era a mais esperta entre os dois. O tipo de pessoa que acha que sabe mais do que realmente sabe — e Hiei teria prazer em vê-la quebrar a cara algumas vezes durante a jornada. O Makai não era para os fracos.
Ele olhou para Rina, que ainda dormia. O sol nasceria em breve, e se ela não despertasse por conta própria, ele seria obrigado a acordá-la. Hiei franziu a boca com desgosto pela ideia.
Rina, porém, logo abriu os olhos. Hiei ainda a encarava, sentado por perto, e levantou assim que percebeu que ela estava desperta. Tinha pressa em continuar o caminho e sair da floresta. Aquilo ainda era apenas o começo.
— Por acaso estava me observando enquanto eu dormia? — ela perguntou, pegando Hiei de surpresa.
— Pare de falar besteiras e levante. Não pretendo passar outra noite aqui.
Rina se sentou, sentindo cada pedaço das costas reclamar de dor pela noite no chão duro. O pescoço também estava tenso, e ela o massageou de leve. Depois, abriu a jaqueta, pegou o frasco de metal e tomou um gole curto, limpando a garganta. A bebida sentou rápido no estômago vazio.
— Pelo visto não vamos comer nada tão cedo — falou, olhando ao redor.
— As frutas dessa floresta não são boas para comer. Podemos caçar algo mais tarde.
Rina ficou de pé e calmamente guardou o cantil no bolso interno do casaco. Mal tinha terminado de fechar o zíper quando foi novamente agarrada pela cintura da mesma maneira que na noite anterior, perdendo o contato com o chão no mesmo segundo. Dessa vez, no entanto, em vez de subir, estavam descendo.
Ele a levou para o meio da floresta, a descida sendo bem mais rápida que a subida ao platô. O vento criado pela aceleração dos dois rumo ao solo fez o cabelo de Rina esvoaçar e cobrir parte do seu rosto, mas ela mal teve tempo de se livrar dos fios antes que pousassem. Em poucos segundos, estavam em terra firme.
Antes que ele a soltasse, porém, Rina prendeu o seu pulso, o segurando com força ao seu lado e o impedindo de se afastar.
— Nunca mais faça isso — ela falou entre os dentes. Comprimiu ainda mais o punho de Hiei entre os dedos.
— Me solte se não quiser perder o braço.
Hiei tinha a mão esquerda imobilizada por Rina, ainda envolvendo seu corpo. Já a mão direita, livre, segurava a empunhadura da katana presa pela bainha na cintura. Bastaria um simples movimento para executar a ameaça que acabara de fazer. E Hiei não teria o menor problema com isso. A única promessa que fizera a Kurama havia sido entregar a mulher viva — não necessariamente inteira.
— Acha que estou com medo de você? — ela respondeu. Ainda o prendia com força.
— Eu avisei.
Ele sacou a espada e puxou o braço esquerdo para forçá-la a se virar para ele. No momento em que desceu a lâmina, no entanto, ela o soltou. Deu um salto rápido para trás, se distanciando de Hiei e escapando do corte no segundo exato.
Rina o encarou com um ar de desafio. Mas ele apenas riu e guardou a arma.
— Você é mesmo pretensiosa…
— Eu não preciso que continue me acompanhando. Já me trouxe até aqui, já fez sua parte. Agora deixe que eu continuo sozinha.
— Não é assim que funciona. Agora vamos. Já perdemos tempo demais.
Ele se virou, indicando que pretendia continuar a caminhada. E ela que o seguisse. Não teve mais receio em dar as costas para Rina; Hiei tinha plena confiança de que pressentiria qualquer movimento suspeito que partisse dela. E foi justamente a ausência de movimento que o fez se virar para trás de novo. Hiei suspirou aborrecido ao ver que Rina continuava no mesmo lugar.
— Quanto Yusuke está te pagando? — ela perguntou.
— Por que está assumindo que ele está me pagando alguma coisa?
— Porque nem em um milhão de anos você faria isso de graça.
Ele a encarou por um instante.
— Você está fazendo qualquer valor ser pouco demais para esse trabalho. Ande antes que eu me arrependa de ter aceitado. Não me faça ter que te arrastar comigo.
Rina esperou mais um pouco, mas enfim concordou — ao menos em teoria. Começou a caminhar apressada, passando por ele e tomando a dianteira. Hiei apenas a observou, tendo o cuidado de a manter no seu campo de visão. Não que ela conseguisse o despistar. Ainda que ela acelerasse demais o passo ou mesmo chegasse a correr, ele estava certo de que a alcançaria em dois tempos.
E ela sabia disso, claro. O curto espaço de tempo com que tinham dividido a convivência tinha sido suficiente para Rina ter certeza de que ele podia superá-la em agilidade e destreza. Mas ela também tinha uma carta na manga. E achava que aquela seria uma boa hora para usá-la.
Pois Rina não negava que vinha se sentindo diferente desde que cruzaram para o Makai. Seu corpo reagia de um modo estranho à atmosfera local. Estranho, mas bom. Continuava ela mesma — mas melhor.
Rina fechou os olhos enquanto caminhava. Sentiu as folhas batendo no seu corpo, o vento passando no rosto. Respirou fundo. E arriscou.
Em vez de correr, parou completamente. E sentiu que o mundo parou junto com ela.
Atrás dela, Hiei também interrompeu os passos. Sacou a espada mais por impulso do que qualquer outra coisa. Olhou para frente, incrédulo. Ele vinha acompanhando Rina de perto, e ela estava ali o tempo todo.
Até que então, não estava mais.
Hiei estreitou os olhos e se virou rápido. Encontrou apenas as árvores, absolutamente imóveis. Nenhum ruído, nenhum farfalhar das folhas ou da grama seca. Nada. Ele estava sozinho.
Manteve a espada firme na mão direita, olhando com o máximo de atenção ao redor. Chegou a pensar que ela pudesse ter se teletransportado, mas descartou a ideia: se Rina tivesse tal capacidade, teria feito isso na primeira noite, enquanto ele dormia. Não, não era esse o caso. Hiei podia sentir: ela ainda estava lá. Ao menos por enquanto. Ele só não podia vê-la.
Um sorriso torto se desenhou em seu rosto. Por dentro, achava graça da inocência de Rina em achar que conseguiria fugir dele. Não, não era graça. Era pena. Ao menos havia que dar o braço a torcer em uma coisa: o youki de Rina era incrivelmente sutil. Ela tinha um controle invejável sobre a própria energia, algo que nem todo demônio alcançava. Mas ainda estava presente, apesar de parecer evaporar aos poucos.
E só quando sumiu por completo, Hiei se mexeu. Partiu com rapidez por entre as árvores, dando início à caçada. Ela iria pagar caro por aquele atrevimento. A encontraria nem que fosse para ensinar uma lição.
(...)
Hiei detestou admitir, mas só encontrou Rina graças ao poder do Jagan. Não que houvesse problema em utilizar seu terceiro olho; ele apenas achava que aquela perda de tempo não era digna o bastante para merecer seu uso.
A idiota havia se afastado da trilha. Ido por um caminho que apenas os mais imprudentes ou estúpidos seguiam. Qualquer viajante com um pingo de bom-senso — ou ao menos, experiência — sabia que aquela era uma área a ser evitada. E claramente em Rina faltavam os dois.
Assim que a localizou, viu que ela já estava visível novamente. Não estava sozinha — como ele já imaginava — mas ao menos ainda estava viva. Talvez não por muito tempo.
Rina estava encurralada, cercada pelos youkais rastejantes que habitavam aquele bosque de bambu. Eles eram pequenos e atarracados, o corpo roliço e pesado — mas apesar disso, ágeis e perigosos. Atacavam sempre em bando. Subiam nos pés de bambus ou se arrastavam rente ao chão. Usavam seus dentes serrilhados sem cerimônia em suas vítimas e tinham uma pele grossa, difícil de perfurar.
Hiei a observou de longe por um tempo. Ela tinha uma certa habilidade, precisava admitir. Conseguia desviar das investidas, chutar alguns para longe e até ser mais rápida do que eles. Fora alguns arranhões, parecia estar ilesa até agora. Mas tudo que tinha ao seu dispor era uma pequena adaga, curta e insuficiente demais para causar qualquer dano naquele tipo de criatura.
Ele praguejou baixinho, pelo trabalho que ela estava lhe dando. Aqueles youkais não eram exatamente poderosos, eram inconvenientes.
Em um breve instante, seus olhos se cruzaram. Rina viu que ele estava ali, a observando. E mesmo assim, não pediu ajuda. Não falou nada, não acenou. E Hiei considerou que talvez devesse deixar que ela aprendesse a lição por mais um tempo. Era uma ideia atraente.
Porém ele logo desistiu. Ela resistia bem, mas iria cansar em breve e acabar servindo de banquete para aqueles monstros. Soltou o ar pelo nariz, irritado, e entrou no bambuzal.
Os youkais não demoraram para o cercar também, ávidos. Hiei navegou com agilidade entre os troncos, mas ainda assim, um o pegou desprevenido. Ele sentiu os dentes fincarem em seu ombro, e o jogou para longe, o atravessando com a katana no ar.
Fez o mesmo com os outros, a lâmina afiada partindo um a um. Em poucos cortes, a maioria dos corpos caiu morta. Um sangue escuro e viscoso manchou a lâmina, um cheiro ácido encheu o ar.
Rina o encarou, a adaga ainda em mãos, a respiração alterada.
— Se você quer morrer, da próxima vez me avise que eu mesmo faço o trabalho — ele falou.
— Eu estava dando conta.
Os olhos de Hiei flamejaram.
— Faça isso de novo e te deixo aqui.
Guardou a katana e se virou sem se dar ao trabalho de ordenar que o seguisse. Rina ainda se manteve parada por mais um pouco, sabendo que ele não a iria esperar dessa vez. Viu ele se afastando, refazendo o caminho de volta para a parte segura da floresta. Ela queria retrucar. Queria deixar ele ir embora. Queria seguir pelo caminho oposto.
Mas não fez nada disso. “Merda,” pensou. Comprimiu os lábios com força e seguiu atrás dele.
(…)
Rina não notou no começo, mas havia sangue no ombro de Hiei. As vestes estavam escuras e ensopadas na parte de trás, o tecido rasgado. Ele mantinha o braço imóvel, ciente do machucado que devia estar ardendo como o diabo.
Por um tempo, ela não falou nada. Pensou em fingir não ter visto, em ignorar. Não era problema dela. E Rina sabia que Hiei iria preferir assim. Mas o silêncio não durou muito tempo.
— Seu ombro — ela falou.
Ele não respondeu. Continuou andando como se nada o tivesse interrompido. Sequer olhou para trás.
— Você está sangrando — ela insistiu.
— Eu sei.
— E vai deixar assim? Ele pode infeccionar. Você já mal consegue mexer o braço.
Nenhuma resposta novamente. Hiei já não estava mais sendo prático. Não era só teimosia. Era orgulho. E disso, Rina entendia bem.
— Você vai desmaiar se continuar perdendo sangue desse jeito.
— Precisa de mais do que um corte desses pra conseguir fazer isso.
— Bom, se isso acontecer, não conte comigo pra te carregar.
Ele então parou e lançou um olhar desconfiado. Levou a mão até a empunhadura da katana, como precaução. Como ameaça também.
— Seja rápida.
Rina ficou ligeiramente surpresa. Achou que ele manteria a birra até o fim. Colocou a bolsa que carregava no chão, tirou de lá a garrafa de bebida e uma camiseta. Depois, afastou o manto que cobria os ombros de Hiei e deu uma boa olhada na ferida. A pele estava aberta em um rasgo profundo e irregular, parte da carne exposta, quase como se tivesse sido arrancado um pedaço. O sangue ainda escorrendo grosso e constante, longe de coagular. O formato lembrava vagamente uma mordida. Um leve frio percorreu sua espinha.
Se apenas uma mordida tinha feito ele sangrar daquele jeito, o que teria acontecido com ela se Hiei não tivesse aparecido naquele bambuzal?
— Não é o ideal, mas é o que temos pra hoje…
E Rina despejou parte do álcool por cima do ferimento, limpando com a camiseta imediatamente em seguida. Hiei soltou um palavrão.
— O que pensa que está fazendo? — esbravejou.
— Limpando o machucado. Esqueci de avisar que ia arder.
Assim que limpou boa parte do sangue do ombro de Hiei, Rina procurou uma parte ainda seca da camiseta e pressionou o machucado com uma das mãos. Com a outra, bebeu um gole do álcool antes de tampar a garrafa e a jogar de volta para a bolsa.
— Pelo menos não parece ter atingido nenhuma artéria — ela comentou — Mas chegou perto… e rasgou o músculo. É melhor não mexer esse braço por enquanto.
— Como você sabe isso?
Rina hesitou por um instante diante da pergunta.
— Minha mãe. Ela era enfermeira.
Rina apertou com mais força a camiseta e Hiei soltou um grunhido discreto de desconforto. Mesmo contrariado, permitiu que ela continuasse.
— Por que está fazendo isso?
— Você realmente não consegue confiar em ninguém, né?
— Eu realmente não consigo confiar em você.
— Justo — ela murmurou.
Amarrou a camiseta ao redor do ombro dele com força para segurar o sangue e terminou o trabalho. Hiei olhou de esguelha para o curativo improvisado, ajeitou as vestes e retomou a caminhada sem titubear.
Rina pegou a bolsa do chão e seguiu atrás dele.
Ela era pragmática. Também não confiava em Hiei. Mas começava a se dar conta de uma verdade inconveniente.
Ela precisava dele.
Ao menos por enquanto.
(...)
O céu já estava tingido de um roxo profundo quando Hiei parou.
— Aqui — ele falou, sucinto.
Cobriram uma boa distância aquele dia, trocando poucas palavras além do necessário. Tinham saído há pouco da mata fechada e chegado em um campo, onde um rochedo se erguia imponente. Foi ali que Hiei decidiu parar.
Haviam capturado um pequeno animal durante o caminho e ele rapidamente acendeu uma fogueira entre os galhos secos. Enquanto a carne assava sob o fogo, se sentou com as costas contra uma pedra e apoiou a espada ao seu lado.
Rina largou a bolsa perto de um tronco retorcido e se sentou também, grata por poder descansar. A perna doía por causa da caminhada, mas ela não demonstrou ou falou uma palavra a respeito. Sabia que ele também não perguntaria. Ou que sequer notaria.
Por minutos, só as fagulhas do fogo se faziam ouvir. Nenhum bicho. Nenhuma ameaça.
Nenhuma palavra.
Foi Rina quem cortou o silêncio.
— O que você ganharia me levando ao destino combinado?
Ele esperou um pouco antes de decidir responder.
— Uma peça de tesouro da sua família.
— E se não forem minha família?
— Aí já não é problema meu.
Ficaram em silêncio novamente. Rina abaixou a cabeça, pensativa, enquanto Hiei se escorava no rochedo. Os braços estavam cruzados, o olhar, oposto a Rina.
— O que você sabe sobre mim? — ela perguntou.
— O necessário — Ele fez uma pausa breve e continuou — O que foi aquilo mais cedo?
Rina o espiou pelo canto do olho. Ele não a encarava, preferia manter os olhos fixos na fogueira. Mas ela sabia do que ele estava falando.
Ainda assim, ela perguntou.
— Aquilo o quê?
— Você. Sumindo.
Ela sorriu satisfeita.
— Só um truque — respondeu. E por alguns segundos, pensou em deixar assim mesmo. Mas depois completou — Uma técnica de camuflagem. Não achei que fosse funcionar com você…
Hiei soltou um muxoxo.
— Que patético…
— Patético, mas conseguiu te enganar.
Ele não respondeu. Mas Rina teve certeza de que, por um instante, ele pensou em perguntar mais.
— Esperava mais de alguém que supostamente vem de uma linhagem de guerreiros. Tudo que fez até agora foi se esconder e usar uma faca que nem pode ser chamada de arma.
— Essa faca já fez estrago em gente maior que você — ela falou, pegando a adaga e indo até a fogueira.
Rina se deu conta de que estava faminta. Pegou um pedaço da carne, cortou com a adaga e empurrou metade em silêncio na direção de Hiei. Ele aceitou com um aceno quase imperceptível. Não agradeceu.
Nenhuma novidade.
E o silêncio voltou a se instalar entre os dois.
A noite no Makai tinha um cheiro metálico, como se o ar estivesse sempre prestes a se partir. As fagulhas da fogueira subiam devagar, e por um instante, Rina deixou o olhar se perder entre elas.
— Mas se fizer aquilo novamente, vai ser a última vez — ele falou, em um tom baixo.
— Nossa, pra algo tão patético, até que isso te incomodou bastante...
— Não deixa de ser um truque barato. E não pense que vou te resgatar toda vez que decidir bancar a engraçadinha.
Rina guardou a adaga, a prendendo na parte de trás da cintura. Pensou por um instante. E decidiu jogar limpo.
— Hiei, eu sou uma pessoa prática. Detesto depender dos outros, mas eu não sou burra. Subestimei o Makai. Haru talvez tenha as respostas que eu estou procurando, e agora sei que se tentar chegar por conta própria, vou perder mais tempo do que estou disposta a perder. Só quero que a gente chegue o mais rápido possível. Quando isso acontecer, pode pegar quantos tesouros desejar, pois não me importa.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a encarou, o rosto sério sem demonstrar nenhuma emoção enquanto ouvia aquela conversa. E foi então que notou o estado em que ela estava: roupas sujas, rasgadas, o braço com arranhões, a bota esfolada. A ousadia de mais cedo tinha cobrado seu preço.
— Em outras palavras, você depende de mim.
— Só estou propondo uma trégua.
Ele grunhiu qualquer coisa em resposta. Nem sim, nem não. Tudo bem, era o bastante. Rina sorriu, sem mostrar os dentes. Encostou-se contra o tronco e fechou os olhos.
— Boa noite, Hiei.
Ele não disse nada em retorno. Mas quando ela abriu os olhos, só por curiosidade, viu que ele ainda estava acordado. Observando o fogo.
Sentiu o calor da fogueira no rosto. Não estava mais irritada. Só exausta. Dormiu antes de perceber.
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