Visceral

33 Herança


A primeira coisa que Rina notou ao acordar foi a dor na perna — mais fraca do que no dia anterior, mas ainda presente. A segunda foi o calor de Hiei ao seu lado.

Ele tinha adormecido também, o braço enegrecido ainda sobre o ombro dela, pesado, mas não de um jeito incômodo. A respiração dele era calma, repousada. O cordão com o pingente agora estava ao redor do pescoço, subindo e descendo acompanhando o movimento do peito. Por um instante, Rina teve até medo de se mexer demais e quebrar o momento.

Pois sob a luz pálida da manhã, enquanto ainda dormia, Hiei até parecia… tranquilo. Ele costumava ser tão bruto e fechado que, por vezes, era difícil acreditar que havia mais por trás daquela fachada. Que ele tinha seus próprios traumas.

Ela tocou seu rosto de leve. O movimento foi sutil, mas suficiente, e Hiei abriu os olhos de pronto. Olhou para ela por alguns segundos, piscando ainda sonolento, como se tomando consciência da presença dela ali, ainda tão perto dele. Sem reclamar, sem franzir o cenho, apenas registrando um fato. Mas, no momento seguinte, já estava alerta. Toda a vulnerabilidade havia se evaporado, o semblante enrijecendo como de costume.

E ergueu o tronco, afastando o braço dos ombros de Rina.

— É melhor levantarmos.

Rina concordou. Ele se puxou para cima primeiro, em um movimento rápido, e procurou pela katana deixada ao seu lado.

— Consegue ficar de pé? — ele perguntou, ajeitando a espada na cintura.

Em vez de responder, Rina colocou as mãos no chão e tentou se levantar. Sentiu a perna latejar no primeiro movimento e parou. Hiei ofereceu a mão, um gesto pequeno, mas que ela sempre apreciava. Dessa vez, no entanto, ela recusou.

— Espera. Eu consigo.

E ela tentou novamente. Impulsionou com a perna boa, segurou a parede com as mãos e empurrou o corpo para cima. Por pouco não perdeu o equilíbrio, mas encontrou firmeza no chão e conseguiu se manter estável.

— Vai conseguir andar desse jeito?

— Eu dou um jeito — ela disse. Precisava dar.

Hiei não discutiu, apesar do olhar demorado que deu para a perna dela. Apenas recolheu um cantil de água e uma pequena bolsa de couro que estava no canto, e entregou os dois para Rina.

— Pra ajudar com a dor — explicou — Mastigue um pouco antes de engolir.

Rina abriu a bolsa e encontrou ali um punhado de lascas de árvore esbranquiçadas. Pegou algumas, investigou, cheirou.

— Onde conseguiu isso?

— Kurama deixou pra você.

Rina assentiu. Lembrava-se claramente da kitsune prateada que aparecera para oferecer ajuda quando ela mal conseguia ficar de pé. Acima de tudo, lembrava-se de como achou que não ia aguentar quando ele começou a retirar a bala presa na sua perna. Mas Hiei confiava nele, então ela fez o mesmo. E, no fim, parecia que ele sabia o que estava fazendo.

Portanto, colocou algumas na boca, e a sensação foi estranha, como se estivesse comendo madeira. Mas fez como Hiei orientou e mascou as lascas por um tempo, até tudo virar uma polpa amarga e adstringente. Quando empurrou tudo com a água do cantil, sentiu a língua começar a ficar dormente.

— Melhor? — ele perguntou. Já estava com postura pronta de sempre, olhando para fora das paredes da ruína como se escaneando o lugar, seu olhar afiado como o de uma águia.

— Ainda não — respondeu Rina, secando os lábios com as costas da mão e odiando a sensação que tinha ficado na boca — Mas vamos.

Hiei assentiu. Não fez nenhum comentário quando viu a dificuldade dela nos primeiros passos, mas, quando começaram a andar, ela notou que ele se mantinha deliberadamente lento, ajustando o ritmo dele ao mancar dela.

Rina sentiu os primeiros efeitos da planta não muito tempo depois. O peso na perna diminuiu, a dor deixando de ser um tormento para virar apenas um incômodo. Ainda assim, o retorno levou uma manhã inteira, e ela chegou a usar o galho de uma árvore morta como apoio para dar descanso ao osso fraturado.

Hiei aproveitava para fazer exercícios leves para o braço toda vez que tinham uma parada para descanso, o progresso sendo lento, mas consistente. Ela, em algum momento, ingeriu mais uma das cascas de árvore para dor. Os efeitos colaterais não eram agradáveis — além da dormência na língua, surgiu também uma queimação no estômago vazio —, mas o conforto era inegável. E isso a ajudava mais pela paz de espírito do que qualquer outra coisa — o que Rina menos queria era ser surpreendida em mais um ataque enquanto a perna latejava daquele jeito.

O trajeto inteiro, no entanto, estava vazio. Sem emboscadas, sem agentes do Reikai à espreita, sem outros incidentes. Apenas a vastidão nua do Makai, o cenário baldio e a terra seca. Tudo era tão desolado naquela região que Rina sentia como se fossem as últimas pessoas vivas da face da Terra.

O máximo de vida que encontraram foi um pequeno córrego, raso demais para mergulhar, mas suficiente para se refrescarem. Rina aproveitou para lavar o rosto e limpar o sangue seco das mãos, dos braços, do resto do corpo. A sujeira era fácil de apagar; as cicatrizes demorariam mais. Rina ainda não sabia no que elas se tornariam com o tempo, se traumas ou troféus.

Depois reabasteceram o cantil e se permitiram mais uma pausa, breve como todas as outras.

— Considere a hipótese de Haru não estar mais lá — Hiei falou — Ou de estar morto.

— Eu sei — respondeu Rina, em voz baixa.

Rina havia sim considerado todos os cenários possíveis em sua cabeça, inclusive o de simplesmente nem tentar rever o velho ancestral. De mandar Hiei parar e falar para mudarem de rota, para nunca mais voltarem. Mas Rina falara sério sobre não querer mais fugir.

E, ainda que detestasse admitir, a aversão que sentia pela própria raça havia, lentamente, dado lugar à curiosidade. Voltar para sua vida humana como se nada tivesse acontecido agora parecia uma alternativa absurda, e fingir que não tinha relação com o antigo clã também não parecia mais uma opção. Como poderia negar o que tinha sentido naquela fortaleza? Como esqueceria a sensação reconfortante da energia presa naquelas paredes?

Rina tinha demorado uma vida inteira para se sentir verdadeiramente em casa, fosse Makai ou Ningenkai, e agora, se pegava ansiando justamente pelo último lugar que imaginou que fosse ansiar.

Quando o sol já estava alto, a montanha de pedras despontou no horizonte. Rina inspirou fundo. A visão trazia lembranças mais viscerais do que ela gostaria. Veio novamente o medo do que encontraria lá dentro — um medo diferente do que sentira no dia anterior, quase uma angústia.

Se aproximaram. Logo perto da entrada, o corpo de dois agentes jaziam sob uma mancha seca e vermelha na terra, um corte preciso em cada um que Rina tinha certeza de ter sido causado pela katana de Hiei.

A fortaleza em si já não estava mais completamente encoberta pelo deslizamento de pedras como ela tinha visto antes. O Esquadrão de Defesa havia explodido a entrada, e um buraco enorme revelava o corredor interior. Os dois seguiram.

Por dentro, os escombros eram ainda mais numerosos. A fortificação já estava destruída antes, mas agora lembrava um cenário de guerra. Pedaços das paredes estavam caídos por todo lado, áreas completamente inutilizadas, poeira cobrindo tudo. A luz entrava por várias crateras no teto e, assim, mais iluminado, o lugar parecia ainda mais triste e solitário do que ela gostaria.

— Ele ainda está aqui — Rina falou, sentindo, como da primeira vez, seu youki respondendo aos resquícios de energia do lugar. Misturavam-se ao que ela achava ser de Haru também, de um jeito fraco, porém indistinguível.

Em um dos corredores, sangue e mais um corpo. Nenhum dos dois falou nada, Rina apenas se recordando de tudo o que tinha acontecido. Sua mão formigou com o youki que pulsou em resposta e ela fechou o punho, tentando contê-lo. Raiva, orgulho — do que fizera — e um pouco de remorso — do que não fizera — se misturaram em uma coisa só dentro dela.

Antes de seguirem para o quarto de Haru, Rina, no entanto, virou na outra direção. Refez os passos que tinha seguido com o mercenário, procurando o corredor onde o tinha visto pela última vez. Encontrou mais corpos, mais sangue, mais detritos. O som dos tiros parecia ainda ecoar em seu ouvido. Mas não viu Gintaro nem suas espadas. Rina apertou os lábios em um sorriso discreto. Talvez o mercenário tivesse mesmo conseguido escapar no fim das contas. Ao menos ela gostaria de acreditar que sim. E que iria encontrá-lo para fazer o pagamento devido, que ele não teve a chance de receber pelo trabalho.

— O que foi?

— Nada — Rina disse — Só queria ver uma coisa. Vamos…

E os dois retomaram o caminho para o quarto onde Rina havia conversado com Haru no dia anterior. As portas do aposento do youkai estavam agora ainda mais quebradas. Havia um rombo em uma das paredes e, assim como no resto da fortaleza, mais escombros espalhados ao longo do corredor.

Rina parou diante da entrada, incerta. Era estranho. Não tinha criado nenhum afeto profundo por Haru, mas, ainda assim, o receio do que encontraria a deixou inquieta. Fez seu estômago borbulhar.

Hiei deu alguns passos a mais, mas também parou ao perceber a hesitação de Rina. Se virou para ela.

— Qual o problema? — perguntou.

Rina não soube o que dizer.

— Posso verificar pra você, se quiser — ele ofereceu.

— Não — ela disse depois de cogitar a hipótese por um instante — Não precisa.

Ainda assim, ela hesitou um pouco mais. Hiei aguardou. E ela enfim entrou no quarto.

Estava parcialmente destruído. Lascas da porta quebrada estavam no chão, manchadas de sangue. A cama estava vazia, um dos pés quebrado, as almofadas e mantas reviradas. Na cabeceira, um buraco de bala. E mais sangue.

Novamente o nervosismo subiu pelo peito. Mas a cama vazia ainda era um bom sinal.

— Ele não pode ter ido longe — Rina falou, tentando não pensar no sangue que manchava a cama.

Hiei vasculhou o resto do aposento, mas não encontrou nenhuma outra saída ou espaço. Olhou atrás dos entulhos, procurou rastros de youki. Nada.

Rina saiu do quarto, o andar apertado e ansioso, a mandíbula travada. Procurou sentir a energia dele novamente — ela estava certa de que não havia se enganado. Que o youki dele ainda persistia entre aquelas paredes, que ela conseguia distinguir. Mas a cada passo, mais sua certeza começava a rachar. E o medo do que encontraria aflorou mais uma vez.

Foi Hiei, no entanto, que o localizou. Saiu na frente, o Jagan aberto e iluminado na testa. Virou por alguns corredores, ignorando a carnificina do caminho, até chegar a um pequeno alçapão no piso, escondido entre os escombros. Ele parou. Rina olhou para ele. Não precisou perguntar se ele tinha certeza; era como se ela já soubesse que ali era o lugar.

Rina puxou a porta para cima. O alçapão aberto revelou uma passagem apertada, com uma pequena escada que descia rumo ao subsolo. Dessa vez, Hiei deixou que Rina liderasse.

A escada descia por metros abaixo da fortaleza, em degraus curtos de concreto que pareciam não ter fim. Ela os levou a um porão mal iluminado, mas que não parecia muito amplo. O espaço ali dentro era abafado, o ar quente e pesado, ainda mais claustrofóbico do que a parte de cima. Se o andar superior parecia abandonado por séculos, ali embaixo talvez tivesse sido por milênios.

— Rina?

Ela reconheceu a voz fraca de Haru de imediato. Se virou, os olhos se acostumando à luz fraca.

Haru estava no canto, escondido na penumbra, sentado contra a parede. Ao lado dele, a mão ainda segurava um bastão quebrado ao meio, como se ele tivesse se arrastado até ali com dificuldade. Rina foi até ele, se agachou ao seu lado. Parecia ter envelhecido séculos de um dia para o outro. O rosto estava pálido, os olhos fundos, a respiração irregular.

— Eu sabia que sobreviveria… — ele disse, com a voz ainda mais rouca do que ela se lembrava. O tom de alívio, no entanto, era genuíno — E que voltaria…

Um engasgo interrompeu a fala. Depois, seus olhos se arrastaram até Hiei, que permanecia de pé logo atrás dela.

— Você deve ser o enviado de Urameshi, não é? — Ele fez uma pausa. O ar passava pelo nariz de forma barulhenta. Cada fala parecia um suplício — Suponho que veio coletar o pagamento.

Rina não precisou olhar para Hiei para saber que ele havia fechado a cara. Pôde ouvir em sua voz.

— Não é por isso que eu vim.

— De qualquer forma… fiz um acordo com Urameshi. E sempre cumpro minha palavra.

Haru inclinou o rosto para o lado, olhando para algo além dos dois.

— Rina, sua herança… tudo que eu consegui recuperar está aqui.

Ela guiou o olhar para o canto, para o lado onde Haru apontava. Viu o contorno de alguns sacos de couro abertos, de caixas ou talvez baús. E, esparramando-se pelo chão, caindo das bolsas abertas, viu joias douradas incrustadas de pedras preciosas que brilhavam mesmo no escuro. Ela segurou uma exclamação de surpresa.

— Eu pensei que o Reikai… que eles podiam encontrar… — Haru justificou — Que levariam embora nossos tesouros. Não podia deixar…

Rina voltou a olhar para ele, agora com pena. As palavras saíam com esforço, demoradas. A respiração era difícil, o olhar estava mais apagado do que ela se lembrava.

Ele tossiu de novo, e só então Rina notou. Uma mancha enorme e escura em seu peito; o tecido da roupa com dois pequenos buracos redondos e queimados na borda. Ela se lembrou da cama quebrada, baleada, suja de sangue. E arregalou os olhos, sem entender como não havia se dado conta antes.

— Você foi atingido!

Como ele havia conseguido se arrastar até ali com uma bala alojada no peito, Rina não sabia.

— Não se preocupe — ele disse — Tentaram atingir meu núcleo, mas não chegaram — Haru puxou o ar com dificuldade — Não chegaram nem perto.

— Consegue levantar? Podemos te tirar daqui, te levar lá pra cima.

Ela já estava se preparando para ficar de pé, mas Haru a segurou. Os dedos finos estavam trêmulos ao redor do seu pulso.

— Não… eu não tenho muito tempo. É melhor… é melhor que me deixem.

Rina apertou os lábios. Olhou para Hiei como se pedindo uma segunda opinião.

— Ele está certo — disse — Vai ser perda de tempo arrastá-lo pra algum lugar se já está morrendo.

Ela relutou, mas enfim concordou, balançando a cabeça com um "tudo bem" em voz baixa. Depois, pegou a bolsa com as cascas de árvore e o cantil de água e ofereceu os dois a ele.

— Coma algumas. Vai ajudar com a dor.

Haru aceitou. As mãos trêmulas dele fisgaram uma das lascas e ele examinou, os olhos fracos parecendo reconhecer. "Salgueiro branco," ele murmurou. Mastigou por um tempo e depois engoliu, junto com a água. Devolveu tudo para Rina.

— Haru… — ela começou, depois de esperar alguns segundos enquanto a planta medicinal se assentava no estômago do youkai — Você disse que podia me contar sobre nossa história. Eu voltei porque quero aprender. Quero entender melhor o que fomos. O que fizemos.

Haru soltou uma risada fraca que terminou em tosse.

— Precisaria de muito mais tempo... Temos séculos de história. Mas farei o meu melhor... Você merece saber sua origem. Ao menos um pouco…

— Vou fazer uma ronda na área — Hiei anunciou, discreto, olhando diretamente para Rina. Ela apenas acenou, concordando.

E ele os deixou a sós.

Rina se acomodou melhor no chão, esticando a perna. Ao menos já não doía tanto quanto antes. Olhou para Haru, que parecia piorar a cada segundo, torcendo para que a erva fizesse efeito logo. Por um breve instante, lamentou que tivesse demorado tanto para encontrar com ele — mas se o encontro tivesse sido mais cedo, Rina teria reagido do mesmo jeito? Teria estado tão aberta a aprender sobre sua linhagem?

Ela achava que não.

— Nós somos uma das raças mais antigas do Makai — ele começou — A linhagem mais pura… Chegamos a ser o maior clã em atividade. Tínhamos milhares, centenas de milhares… E você vem de uma longa… longa linha de guerreiros, Rina. Sei que agora não pareço… mas liderei batalhões inteiros. Assim como meus pais. E os… os que vieram antes deles.

A informação foi absorvida em silêncio. Mesmo naquele estado, não era tão difícil enxergar um guerreiro em Haru — ele tinha conseguido segurar o ataque do Reikai por algum tempo, afinal. E sobreviver, ainda que não fosse durar muito mais tempo.

Mas aquilo a fez pensar também em como seria se ela tivesse nascido entre eles. Não havia dúvidas de que ela teria seguido os mesmos passos, que teria sido uma guerreira também, provavelmente treinada desde o nascimento. Que talvez tivesse realizado grandes feitos.

Rina desviou os olhos, subitamente constrangida. Por um momento, aquela imagem pareceu real demais. Haru, no entanto, não pareceu notar.

— Nosso domínio antigamente era vasto, controlávamos áreas enormes — ele continuou — Por séculos, fomos imbatíveis. Fazíamos nossas próprias leis… e as cumpríamos com rigor. Éramos conhecidos por isso, pela dureza com que aplicávamos nossas regras… a nós mesmos, mas também a qualquer um que nos desafiasse. Assim, metade do Makai era nossa aliada, a outra metade… inimiga.

Ele fez uma pausa. Nova tosse, mas ao menos a voz já não parecia tão rouca. Haru pediu o cantil e bebeu mais um gole. Limpou a garganta.

— Éramos respeitados por todos… mas nos afundamos em guerras cada vez mais sangrentas… e demoradas.

— Não era respeito — Rina falou — Era medo o que tinham de vocês. De nós.

Ele não respondeu. A respiração dele, ainda barulhenta, foi o que preencheu o vazio nos segundos seguintes.

— Deixamos o poder nos cegar, eu admito… Resistimos o quanto pudemos, mas um a um…

Um pigarro. Forte. Haru precisou fazer uma interrupção, mas quando voltou, a voz seguiu mais firme. A planta parecia finalmente estar ajudando.

— Um a um fomos perdendo os aliados. Já nossos guerreiros… — E Haru estendeu o braço. Fino, pálido, com manchas escuras que não reagiam mais à Cristalização — Os que não morriam em batalha, morriam por… você sabe.

Não precisou terminar de falar para que Rina entendesse. Era o que Zennosuke havia contado também, sobre como a doença havia acelerado o declínio do que um dia foi o clã mais poderoso do Makai. Uma maldição, realmente. Ou talvez um castigo. Mas Rina não falou nada.

— Eu não podia deixar que nossa linhagem se fosse para sempre, Rina. Poucos, bem poucos, chegam aos nossos pés. Eu quero que entenda isso… que você é… especial.

Rina teve um sobressalto com a maneira como ele dissera aquilo.

Especial.

Já tinha ouvido aquele adjetivo antes, ainda na fortaleza de Mukuro, quando a importância do seu sangue começou a ficar clara. Ainda assim, ela nunca tinha se enxergado dessa forma. No começo, apenas por se recusar a glorificar o que para ela era sinônimo de desgraça. Depois… depois por simplesmente nunca se sentir boa o bastante.

Ela baixou os olhos, pensativa.

— Você entende, não é? — Haru continuou — O Makai talvez esteja em paz agora… mas essa não é a natureza dos youkais.

— Paz? Esse é o Makai em paz?

— Você não tem ideia do que eu vi, do que esse mundo passou… Alianças são importantes, mas no final… é a lei do mais forte. As maiores vitórias são aquelas conquistadas na força.

— Se só força bastasse, talvez ainda houvesse mais de nós — Rina rebateu, um pouco surpresa consigo mesma.

Mas só agora ela entendia. Rina sempre achou que podia lidar com tudo sozinha. Que devia lidar com tudo sozinha. Mas, ironicamente, tinha sido Hiei, outro lobo solitário, que a havia provado o contrário.

Rina sabia que tinha chegado mais longe com ele do que jamais teria chegado por conta própria. E ela não falava apenas da distância que tinham percorrido.

— Junte aliados, se precisar… mas não deposite neles toda sua esperança. Os nossos se voltaram contra nós assim que… assim que os primeiros problemas apareceram.

— Quer dizer que foram traídos?

Haru confirmou com um aceno curto e devagar. Arranhou a garganta novamente.

— Não nego que não soubemos lidar… que nossa diplomacia era feita pelo fio da espada… e que esse isolamento foi parte da nossa ruína. Por isso… por isso você agora tem a chance de fazer diferente. De fazer melhor. E quando a paz do Makai sucumbir, e o caos voltar a reinar… você precisa estar preparada.

— Preparada… — Rina repetiu, com a voz distante.

— O líder atual, Enki… é um covarde. Impondo decretos, ignorando nossa realidade… acha que está ajudando os demônios do Makai, mas está só… comendo na mão do Reikai.

O silêncio caiu entre eles de novo. Rina inspirou fundo, tentando imaginar como aquele mundo podia ficar ainda mais inóspito. Haru teria razão? O destino do Makai era ser sempre um lugar marcado pela violência?

— É por isso, Rina… que você precisa fazer com que o nome Yuuma volte a impor respeito. Como deve ser.

— Eu não… — ela começou a falar, mas deixou a voz morrer. Não sabia como continuar. O que ela podia fazer?

Haru então apontou novamente para os tesouros no canto. A mão se levantou com dificuldade, o dedo tremendo ao ser esticado.

— Há mapas, antigos tratados, documentos com nossa história que consegui recuperar… e algumas de nossas fortificações ainda estão preservadas. O clã pode voltar a ser uma força…

— O que você espera de mim é impossível — ela disse, baixinho.

— Não é… Você é uma Yuuma, Rina… Você é espe–

Ele tossiu. Sangue escapou de sua boca. Não conseguiu completar a palavra, mas não precisaria. Ela ressoou de novo dentro de Rina como da primeira vez.

— Você sabe do que é capaz — ele voltou a falar, agora segurando seu braço. O aperto, diferente da primeira vez, estava muito mais vigoroso. Como se as cascas de salgueiro ingeridas tivessem devolvido parte das forças dele — Traga a glória de novo ao nosso clã. Faça com que o nome Yuuma seja temido novamente por todo o Makai. Prometa…

— Temido? — ela questionou — Foi assim que fomos dizimados. Que fizemos mais inimigos do que podíamos, que perdemos nossos aliados.

— Só se conquista o respeito pelo medo, Rina… Ainda vai aprender… Sem medo, sem recuo… esse sempre foi o lema… Não pode fugir do que está no seu sangue…

Ela balançou a cabeça. Não se sentia nem um pouco respeitada por ninguém que supostamente teria medo de sua raça. Mukuro tentou controlá-la. Os reinos que invadiram a fortaleza de Mukuo colocaram uma recompensa em sua cabeça. E agora, o Reikai queria matá-la. O nome Yuuma só angariava ódio, e mais nada.

— Não é esse o caminho — Rina disse.

Ao seu lado, Haru tossiu, mais forte dessa vez, soltando seu braço. Depois, deixou escapar um suspiro pesado. Podia ser a dor voltando, ou apenas irritação pela teimosia de Rina.

Ela espiou de novo os tesouros no canto. Pensou por um momento e se levantou, indo até uma das arcas. Quando a abriu, a encontrou repleta de moedas, algumas de prata, mas a maioria de ouro, reluzentes. Pegou uma das douradas e a virou entre os dedos. Num dos lados, um brasão; a frase "Sem medo, sem recuo" gravada logo abaixo. No outro, um ideograma que ela interpretou sem precisar pensar muito. Yuuma. As moedas tinham todas a marca do clã. Não sabia estimar o quanto tudo aquilo valia, mas Rina tinha certeza de que era mais dinheiro do que ela jamais teve.

Guardou a moeda no bolso, e logo uma outra caixa, mais à frente, chamou sua atenção. Nela, vários pergaminhos amarelados se acumulavam, alguns rasgados pelo tempo, outros ilegíveis. Mas muitos ainda intactos.

Pegou alguns. Como Haru indicara, ali estavam tratados, plantas detalhadas de castelos, relatos de guerra… milênios de história, estratégias militares, segredos antigos.

— Haru, isso aqui… — Rina começou, se virando para o youkai. Mas não terminou de falar.

A cabeça de Haru pendia para frente, os braços caídos ao lado do corpo. O som cortante da respiração já não existia mais.

Ela ficou ali, parada, olhando para ele. Para o último Yuuma antes dela. Dando-se conta de que ela era agora a única que restava, a única a carregar aquele sangue, aquele nome.

A princípio, não soube o que fazer. Depois, desviou os olhos, voltando-os para os manuscritos que tinha nas mãos.

Pensou, por um bom tempo, no que tudo aquilo significava. Se algum dia chegaria a atender a todas as expectativas que depositaram sobre ela.

Ou se sequer queria atender.

(…)

Quando Hiei voltou, encontrou Rina ainda entre os pergaminhos. Olhou para Haru, depois para ela, mas não disse nada. Ela preferiu assim.

Ele a ajudou a organizar tudo o que tinham encontrado nos sacos de couro — a de lona, de Rina, ainda estava jogada no quarto de Haru desde antes do ataque do Esquadrão, e buscaram essa também. Assim como o pequeno punhal de prata de Haru. O mesmo que ele utilizara para a Cristalização. Rina o pegou, cogitando o que fazer, até, por fim, decidir guardá-lo consigo.

Levaram tudo para cima. Rina ainda não tinha ideia do que ia fazer com aquelas bolsas — não podiam ficar peregrinando pelo Makai carregando todo aquele valor. Iriam chamar a atenção demais. Mas podia pensar nisso depois.

— O que quer fazer com ele? — Hiei perguntou, olhando para Haru — Enterrar?

Rina ponderou por um tempo.

— Vamos sair daqui — Foi a resposta dela.

Carregaram as bolsas até o lado de fora. O dia estava quente, ainda estranhamente quieto, de um jeito quase solene. Como se o mundo inteiro estivesse em pausa.

Ela olhou para o que restava da fortaleza, debaixo de todas as rochas, com parte já destruída. Recheada de corpos, de morte. Inspirou fundo.

Então fechou os olhos, concentrou o máximo de youki que conseguiu e projetou sua energia com força para a montanha de pedras. A base cedeu. Depois, em cadeia, todo o resto desabou — paredes, teto, pilares. Um estrondo ensurdecedor que fez os dois tamparem os ouvidos e virarem o rosto para se protegerem da nuvem de poeira que se ergueu.

— Ele escolheu esse lugar pros seus últimos dias. Não acho que teria sentido tirá-lo daqui.

Hiei assentiu, sem questionar.

— É melhor irmos embora antes que essa explosão atraia alguém — ele disse.

Mas Rina continuou olhando para os escombros por mais algum tempo antes de responder. Como se quisesse guardar a imagem na memória.

— Tudo bem.

Sem falar mais nada, os dois dividiram as bolsas entre si — quatro ao todo — e se afastaram.

Pela primeira vez, sem destino certo.