Visceral
15 Fugitivos
Notas iniciais
O laboratório estava trancado quando Rina chegou. A porta era maciça, com duas partes que se encontravam no meio, e, mesmo forçando a faca na minúscula fresta entre elas, não conseguiu as mover nem um centímetro — e ainda arriscou quebrar a faca. Xingou baixinho, pensando rápido no que fazer.
O acesso era através de um painel eletrônico — Rina já tinha visto alguns soldados usarem um cartão para liberar a passagem quando a escoltavam até lá. Poderia tentar quebrar o painel, mas talvez isso apenas bloqueasse permanentemente a entrada. Então ela refez os próprios passos, procurando pelos corpos caídos que vira no caminho. Alguém teria um cartão desses. Aquela era sua melhor aposta. Talvez sua única aposta.
E algo aconteceu.
Ainda estava com a habilidade ativada e mal tinha se afastado quando os sons da batalha, antes abafados e distantes, explodiram do lado dela. Rina parou.
Olhou para cada lado, mas não conseguia avistar nada. Pelo barulho, no entanto, era como se estivessem logo ali, gritando em seus ouvidos. Estranhou. Aquilo não era um bom sinal.
Sua respiração acelerou, mas Rina forçou ela a acalmar. Voltou a andar, sentindo os tímpanos quase explodirem, como se tudo estivesse sendo amplificado por um alto-falante. Ao mesmo tempo, a luz do corredor brilhou com uma intensidade tão grande que quase a cegou. Precisou fechar os olhos e tampar as orelhas para evitar que, novamente, o coração disparasse.
O que diabos estava acontecendo?
Esperou por um segundo. Dois. Muitos. Mas a sensação não passava. Tudo doía. Tudo era claro demais, barulhento demais, até quente demais. O corpo parecia se rebelar contra ela. Sentia um peso nos pulmões, como se o ar fosse feito de chumbo. Nunca tinha se sentido assim antes. Rina achou que iria enlouquecer.
Mas não podia continuar parada, ela sabia disso. Não iria ter outra oportunidade daquelas tão cedo. Seguiu em frente, obrigando as pernas a cooperarem.
Havia dois corpos no cruzamento dos corredores. Rina se agachou depressa, tateando o corpo do primeiro, vasculhando os bolsos agitada. Nada.
Pensou em cancelar sua camuflagem, mas não teve coragem. Não tinha ninguém por perto, mas ainda assim, ouvia passos a todo tempo como se estivesse cercada, e a mera ideia de que seria capturada e trancada de volta era sufocante demais para que arriscasse. Apertava seu peito mais do que qualquer outra dor.
Ela já estava hiperventilando quando passou para o segundo. Por pouco não pensou em desistir. Mas viu um crachá preso em uma correia ao redor do pescoço do soldado e o arrancou na mesma hora.
Voltou para o laboratório acelerada, pressionando o cartão no painel de qualquer jeito, esperando ouvir o sinal sonoro anunciando a autorização. Quase desabou quando ouviu. As portas deslizaram suavemente para os lados e ela praticamente se arrastou para dentro.
Esperou as portas se fecharem novamente. Não conseguindo se concentrar mais, Rina desativou sua habilidade e se fez visível novamente. Estava arfando, caída no chão frio.
E, como mágica, sentiu um peso de mil quilos ser retirado de dentro dela. Aos poucos, os sons da fortaleza voltaram ao volume normal, os olhos pararam de arder. A pele ainda estava quente, mas até mesmo essa sensação começava a se dissolver.
Ela não entendia. De onde tinha vindo aquela dor? Sentiu um terror quando a hipótese cruzou sua mente. Tinha sido sua invisibilidade a causadora daquilo? Estremeceu só de pensar. Não, precisava ter outra explicação.
Se puxou para cima, ficando de pé. Olhou ao redor enquanto esperava o corpo acalmar. O lugar estava vazio e escuro, apenas um zumbido quieto vinha das máquinas em suspensão. Bipes suaves apitavam em uma cadência sonolenta e pequenas luzes vermelhas e verdes piscavam em alguns dos monitores. De resto, tudo dormia.
Rina conhecia bem aqueles zumbidos. Aqueles bipes, aquelas luzes. Conhecia tão bem que repuxou o braço instintivamente ao passar na frente de uma das máquinas, como se alguém fosse surgir com mais alguma agulha para enfiar em sua veia.
Parou quando viu alguns frascos e reconheceu a substância ardida que a injetavam de tempos em tempos. Em um pequeno refrigerador acomodado em cima do balcão, vários tubos de coleta descansavam com um conteúdo escuro. Rina estreitou os olhos, abriu a porta da geladeira e puxou um dos tubos pra perto do rosto. Uma etiqueta escrita a mão trazia o seu nome.
Ela deu um sorriso sem sabor. Em seguida, retirou o lacre do tubo e o largou no chão, deixando o sangue escorrer pela abertura. Fez o mesmo com o tubo seguinte. E o seguinte. E o seguinte. Até não restar mais nada nas prateleiras.
(…)
Hiei seguiu em direção ao passadiço, subindo as escadas aos pulos. Toda a parte central da fortaleza estava vazia, mas ele podia ouvir os gritos e os sons da batalha vindo das áreas laterais, onde se concentravam as entradas. O exército de Mukuro devia estar aglomerado nas áreas mais críticas, tentando conter a invasão. Ele não fazia ideia qual era o motivo para aquilo tudo, mas também não fazia questão de saber. A fortaleza que explodisse. Com todos dentro.
Chegou na galeria que ligava as partes norte e sul. Como esperado, estava movimentada. Pilastras já quebradas pelos estrondos, estilhaços espalhados pelo chão. Viu sangue também, dos soldados atingidos pelos escombros, mas também dos atacantes, empilhados e moribundos. A fortaleza era rígida e resistente, com proteções reforçadas no exterior; mas, ainda assim, o estrago seria grande. Bastava furar uma das defesas para que todas as outras caíssem também.
Alguns batalhões passavam por lá, gritando ordens. Outros, preparavam trincheiras. O deck de observação ficava na ala sul, alguns andares mais acima, e as escadas que precisaria subir ficavam depois daquele corredor.
Aquilo era uma inconveniência — Hiei estava desarmado, e contando apenas com seu braço esquerdo. Mas teria que dar conta. Ou morreria tentando.
Hiei começou a correr, saltando pelos obstáculos e ignorando os soldados que olhavam para ele de maneira confusa e incrédula. Alguns tentaram o agarrar, mas ele escapou de todos — alguns, depois de um soco ou dois.
Vários exclamavam seu nome, talvez surpresos ou indignados. E um deles chegou a praticamente suplicar que ele os ajudasse.
— Você era nosso comandante! — Alguém falou — Onde está sua lealdade?
Hiei teria rido, não fosse o desgosto que estava sentindo. Mas ele parou de correr. Olhou para o sentinela que havia feito o pedido absurdo — um jovem, provavelmente jovem demais para estar ali — seu olhar se desviando para a arma que segurava com as duas mãos.
Uma espada longa. Não era sua katana, mas parecia bem conservada e iria servir. Então mirou um soco no maxilar do soldado, esperou que o golpe o fizesse soltar a espada e a catou do chão.
Era estranho usar apenas a mão esquerda para a empunhar. Sentiu um ligeiro desconforto. Mas ele tinha confiança suficiente em suas habilidades para saber que era mera questão de tempo para que se sentisse satisfeito com o manejo novamente.
Estava prestes a partir quando o mesmo soldado de antes o chamou.
— Não leve minha espada! — ele gritou, ainda caído no chão, segurando o queixo dolorido — Eu sei onde está a sua.
Isso fez Hiei parar no lugar. Foi até ele e apontou a lâmina para o seu rosto. Não teria o menor problema em enfiá-la na boca do infeliz e cortá-la fora caso estivesse mentindo, e queria deixar isso claro.
— Onde?
(…)
— Rina?
Ela se virou. Ainda estava no escuro. Dezenas de frascos e tubos de ensaio estavam quebrados no chão, líquidos de cores claras e escuras derramados. Rina já tinha empurrado duas bancadas inteiras, rasgado todas as pastas e documentos que tinha encontrado e estava agora começando a destruir alguns dos equipamentos quando ouviu seu nome.
Era um dos cientistas que muitas vezes a acompanhou nos exames. Eles eram vários, e pareciam se revezar como assistentes de laboratório. Não sabia o nome de nenhum, já que não era permitido contato com quase ninguém da fortaleza — uma das formas de Mukuro manter o controle apertado sobre ela. Mas conhecia muito bem o rosto de todos seus torturadores de jaleco.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou — Foi Shigure, não é? Ele sempre questionou nossos protocolos. Quando a senhora Mukuro descobrir-
O cientista parou de falar. Olhou para o chão horrorizado.
— O que você fez?
Ele se agachou, tentando recolher o material no chão inutilmente. Rina não podia se importar menos. Sabia que nenhum daqueles pesquisadores era treinado para o combate e que ele não lutaria com ela.
Mas poderia soar o alarme.
Então Rina o agarrou e o colocou de pé. Encostou a faca em seu abdômen.
— O que mais tem aqui?
Ele a olhou com um profundo pavor.
— Eu não posso permitir que você continue destruindo nosso trabalho.
— Eu não dou a mínima para o que você acha que pode ou não pode — E ela empurrou a ponta da faca mais um pouco. Deixou que ele a sentisse espetando — Mas se você não quer que essa faca entre até o final, devia começar a falar.
O youkai engoliu em seco.
— Por favor, Rina…
— Não é possível que você valorize mais essas amostras malditas do que a própria vida.
— Não é tão simples assim como você pensa…
— Por que não? — Ela afundou a arma um pouco mais. Ele soltou um ganido de dor — O que Mukuro estava fazendo comigo?
O rosto do cientista tremeu. Rina o segurava de tal modo que ficava impossível que saísse do lugar — não que o medo que sentia permitisse o menor movimento, de qualquer modo. E antes que ela continuasse cumprindo a promessa de sumir com a lâmina da faca para dentro do seu estômago, ele concordou em mostrar.
(…)
Hiei não sabia se acreditava ou não no soldado, por isso manteve a espada consigo. Bem podia ser uma armadilha — de Mukuro não duvidava mais nada.
O barulho da batalha ficava mais distante a cada passo no caminho inverso. Os corredores, mais vazios. Aquilo estava sendo um desvio e tanto do seu plano de fuga, mas ele precisava conferir.
Quando chegou, as portas estavam fechadas, mas não trancadas. Apenas encostadas. Quantas vezes ele já não tinha entrado por elas no passado?
Eram portas grandes e imponentes, as maiores dentre os cômodos da fortaleza. O quarto de Mukuro ficava logo atrás delas.
Ele entrou. O lugar estava vazio. O aposento era enorme e silencioso e, apesar do inferno que a fortificação tinha se tornado naquela madrugada, era também frio.
Hiei não perdeu muito tempo, correndo logo os olhos pelas paredes. De um lado do quarto, viu o presente de aniversário que a dera certa vez. O pai, eternamente preso à planta curativa de Kurama, permanecia vivo sofrendo as torturas de Mukuro.
E do outro, em um pequeno pedestal do lado da cama, envolta em um tecido negro, estava a katana. Como um prêmio, um troféu. Era assim que Mukuro o enxergava? Apenas mais um objeto do passado para sua coleção? Ou seria ele um novo trauma a ser superado?
Ele bufou, incomodado com a ideia. E pensar que houve um tempo em que achava que ela o compreendia mais do que ninguém…
Hiei largou a espada que carregava e foi até a sua. Envolveu a empunhadura com a mão esquerda e a pegou do pedestal. Tirou da bainha. O metal reluziu na penumbra, refletindo a luz tímida da lua que saía de trás das nuvens. Parecia mais afiada do que nunca, como se ninguém a tivesse tocado desde a última vez que ele a usara. E talvez fosse verdade. Talvez Mukuro tenha impedido qualquer outra pessoa de encostar um dedo naquela espada.
Ele voltou a guardar a katana na bainha e a prendeu na cintura, um pouco desajeitado. Apesar de não estar do lado usual, parecia se encaixar perfeitamente em seu corpo. Como se fosse uma parte de si.
Era um conforto, de certa forma, mas também um lembrete de tudo que tinha suportado naquele lugar até então. Uma raiva voltou a subir pelo peito, ficando presa na garganta e enchendo sua boca com um sabor amargo. Adoraria deixar a katana trabalhar uma última vez naquela fortaleza.
No entanto, quando ouviu os passos resolutos surgindo pela porta do quarto, não sacou a espada de imediato, apesar da vontade. Reconheceu aquele som. Conhecia aquele andar.
E, como esperado, lá estava ela. Exatamente como ele imaginava — parada, imóvel, com aquela aura fria que sempre soube usar melhor que qualquer arma.
— Veio buscar sua espada — ela falou, e Hiei não sabia se ela estava satisfeita com isso ou não. Mukuro sabia bem mascarar suas feições.
— Vai tentar me impedir?
— Se eu quisesse te impedir, nem mesmo teria entrado aqui dentro.
— Ótimo. Então saia da frente.
Ele deu alguns passos adiante, mas Mukuro não saiu do lugar. Continuou bloqueando a passagem. As mãos atrás do corpo, o olhar fixo nele.
— Você me causou mais dano do que muitos inimigos declarados, Hiei — ela disse — Mas ao menos eles eram isso: inimigos. Deles não podia esperar outra coisa. Mas de você?
— E por que não está lá fora, tentando impedir o caos que tomou conta do seu reino, lutando contra seus inimigos de verdade? Ou perdeu o controle disso também?
Mukuro não respondeu, mas sua energia tremulou, ameaçadora.
Ver sua fortaleza se tornar um campo de batalha devia estar sendo amargo. Hiei só lamentava não ter sido ele o responsável por aquele pandemônio.
— Me perguntei mais de uma vez por que trouxe Rina para mim. Sabia que eu não costumo perdoar desertores. Que eu veria seu gesto como uma traição. E ainda assim, você veio. Você me enfrentou. Apenas por causa dela? A vida dela valia tudo isso?
Hiei fechou a mão, sentindo os dedos se apertarem. Uma nova onda de raiva o varreu.
— O que fez com ela?
— Permiti que a tratassem, como me pediu. Você deve se lembrar. Shigure a operou, recuperou sua perna.
— E depois?
Mukuro deu de ombros. Era como se o assunto não a interessasse, como se não fizesse diferença. Mas Hiei desconfiava que não era verdade aquele desinteresse.
— Ficaria ofendido se soubesse que ela foi embora sem você?
— É claro que não.
Ela sorriu. A sobrancelha que tinha exposta no rosto se ergueu.
— Mesmo? Me parece bem altruísta de sua parte. Afinal, arriscou sua própria vida em prol da dela… Não esperava que ela fizesse o mesmo por você?
Ele sentiu a mão coçando para levantar a espada contra ela. Fazê-la pagar na mesma moeda pelo que tinha feito com ele, resolver a situação do jeito que mais gostava: com sangue.
Mukuro notou. Reconhecia como ninguém quando a energia de Hiei ganhava tonalidades combativas. Mas ela nem se mexeu, apenas deu uma risada, seca e curta.
— Pensa que consegue me atacar? No seu estado?
Ele rangeu os dentes. Se a fala dela deveria dissuadi-lo, teve o efeito contrário.
Hiei afastou um dos pés para trás e assumiu sua postura ofensiva, a mão já na empunhadura e pronta para o golpe. Estava fraco, ele sabia. Ela sabia. Mas não fraco demais para tentar.
Antes que tivesse tempo, no entanto, Mukuro ergueu a mão, conjurando um pequeno campo de força na sua frente, não demonstrando o menor esforço. Hiei apertou os olhos, sabendo que o gesto era uma defesa e um ataque ao mesmo tempo. Pulverizaria a lâmina no instante em que chegasse perto.
Ainda assim, Hiei não cedeu. Apenas acirrou ainda mais a posição.
— É irônico, não acha? — Mukuro falou, uma fagulha de mágoa atravessando seu rosto, tão rápido que ele quase não viu — Que uma vez fui eu a te mostrar que ainda valia a pena viver. E que foi você quem me ensinou que o passado não precisa me definir.
Ficaram em silêncio. Imóveis dentro daquele impasse.
— E olhe agora para nós — ela continuou —Presos nos mesmos padrões destrutivos que juramos deixar para trás.
Hiei a encarou, a respiração pesada. A mão segurava a espada ainda mais firme.
— Quando abandonei meu posto, não estava apenas cansado da rotina — ele disse devagar — Estava cansado de você.
Mukuro não respondeu, mas os lábios apertaram sutilmente, algo entre raiva e ressentimento refletindo em seu rosto. Hiei continuou:
— Você virou a sombra do que já foi um dia. A paz não te libertou. Só te destruiu por dentro. No fim, continua precisando de ódio pra existir, não é? Antes era seu pai. Agora sou eu. Ou Rina.
— Quem é você para me falar em paz quando é o primeiro a rejeitá-la? A fugir no menor sinal de estabilidade? — ela retrucou — A verdade é que ainda não encontrou seu propósito. Segue procurando às cegas por algo que nem mesmo sabe o que é.
Um novo silêncio se seguiu. As palavras pareciam suspensas no ar entre eles. Nenhum dos dois ousou arriscar se mexer, ambos congelados em suas posições.
— Eu achava que te entendia, Hiei — Mukuro falou por fim.
— Eu também achava.
Na mesma hora, a porta do quarto se abriu. Um soldado apareceu, apressado, mas estancou ao ver a cena, visivelmente surpreso.
— Senhora — ele falou, um pouco incerto com o que se passava lá dentro — O portão leste caiu. Nossas defesas estão comprometidas.
Ela deu um suspiro pesado. Irritado. Hiei se manteve quieto. O sangue latejava tão forte pelas têmporas que ele conseguia ouvir seus próprios batimentos.
Mukuro não desfez o campo de força em momento nenhum.
— Estou indo. Fale para Kirin continuar posicionado na ala oeste. E quanto a você — disse, se voltando para Hiei, o tom baixo e intimidador — suma da minha frente antes que eu mude de ideia.
Ela fez uma pausa, o rosto mais sério do que nunca.
— Mas não espere misericórdia — Mukuro completou, mantendo o timbre ameaçador na voz — na próxima vez que cruzar meu caminho.
— Eu digo o mesmo — Hiei respondeu no mesmo tom.
Ela saiu junto do soldado, deixando Hiei sozinho. Por um rápido momento, ele cogitou ir atrás. Encerrar o assunto nos seus termos, do seu jeito. Odiava não concluir o que havia começado.
A primeira vez em que lutaram, Mukuro quase o obliterou. Ele sempre quis uma revanche.
Mas finalmente Hiei começava a entender que o duelo com ela nada tinha a ver com a força física. Talvez nunca tivesse.
Então o momento passou. Engoliu o impulso e o orgulho. Guardou a espada de volta na bainha, virou as costas e seguiu na direção oposta.
(…)
Rina olhava com desconfiança para a sala que tinha acabado de entrar. Ainda segurava a faca, agora apontada para as costas do cientista que tinha a levado para uma porta escondida nos fundos do laboratório.
Era uma porta metálica, trancada por um mecanismo intrincado e um painel numérico que Rina forçou o youkai a digitar.
Assim que pisou lá dentro, o cheiro a atingiu como um soco no nariz. Algo químico e forte, pungente, do tipo que faz os olhos e nariz arderem. Rina reconheceu a substância na mesma hora: éter. Era o que Dimitri sempre usava quando Rina se machucava. Ou quando queria ter um barato.
Ela virou o rosto, esfregou os olhos, mas entrou mesmo assim, empurrando o youkai de jaleco na frente.
— O que é isso? — ela perguntou.
As luzes da sala se acenderam automaticamente no teto, uma a uma. Eram verdes, esquisitas. Davam ao lugar uma coloração alienígena.
No centro da câmara, um tanque vertical, como os de renegação que havia visto antes. Mas esse era maior, com um vidro cilíndrico mais grosso, cheio de um líquido espesso que, naquela luz, parecia igualmente verde. E, flutuando no líquido, estava… algo.
Rina chegou mais perto, arrastando o cientista com ela. E por pouco não derrubou a faca no chão com o espanto que sentiu.
Havia um criatura dentro do cilindro. A forma era vagamente humanoide, mas ainda parecia em formação. Os membros não estavam completos, a pele era lisa e tão fina que parecia translúcida, mostrando as veias azuis correndo como fios de alta tensão pelo corpo claramente feminino. Um tubo saía de suas costas, conectado à parede do tanque, e no centro do peito, um núcleo pulsava lentamente, como se mantendo aquele ser em um estado de hibernação.
O rosto era deformado. Saindo do topo da cabeça, os fios pálidos do cabelo rosa ondulavam pelo líquido. Já os olhos da criatura estavam fechados, mas Rina tinha certeza que eles seriam prateados como os dela.
— O que…
Rina não conseguiu completar a frase. Estava sem ar. Olhava mesmerizada para a forma viva dentro do cilindro, querendo perguntar, mas já sabendo a resposta. Um calafrio percorreu sua espinha. Era como olhar para um espelho distorcido, para uma versão de si mesma que nunca deveria existir.
— Isso… sou eu?
O cientista também gaguejou. A faca de Rina começava a entrar na sua pele sem que ela percebesse.
— B-bom… teoricamente é uma cópia genética…
— Um clone?! Mukuro estava tentando me clonar?
— Seria mais como uma… uma recriação da sua matriz energética. Nós injetamos seu DNA em um vetor biológico e usamos seu youki como catalisador para acelerar o processo-
— Do que você está falando? Por que Mukuro quer um clone meu?
— Porque seu genoma é riquíssimo! Tem combinações complexas que nunca vimos antes, uma capacidade de reestruturação celular sem igual! Imagine as possibilidades que temos nas mãos! Conseguimos em meses o que levaria anos-
— Por quê? — ela perguntou de novo, gritando dessa vez. A faca já arrancava um pouco de sangue — O que Mukuro pretende fazer com isso? Usar como arma?
O cientista soltou um grunhido fino de dor. Engoliu em seco. Balbuciou algo sem sentido e Rina empurrou a lâmina mais um pouco. Ele gemeu novamente.
— Não, não, eu juro! É apenas para fins de pesquisa!
O youkai fez uma pausa, o suor encharcando o jaleco. Rina continuou pressionando, pouco convencida.
— Rina, nós não sabemos até quando… — ele travou, procurando as palavras — Veja bem, ainda estamos só começando a descobrir os potenciais, as aplicabilidades do seu DNA. E ter um espécime como esse nos permitiria manter as pesquisas mesmo depois que… bom…
— Depois que o quê?
— Que você não estivesse mais aqui.
Rina ficou quieta um minuto. Tentou deixar que o cérebro se organizasse, os pensamentos correndo mais rápidos do que ela conseguia alcançar.
— Mukuro pretendia mesmo me deixar ir?
Nenhuma resposta. Apenas a hesitação por não saber o que dizer.
Ou pelo que não queria dizer.
O cientista de repente parecia ainda mais nervoso, ainda mais ciente da faca prestes a rasgá-lo. Todo o corpo tremia agora. E a confirmação nunca veio.
— Não era isso não é? — ela falou.
— Rina… por favor…
Ele não precisou falar mais nada. A ficha caiu na hora.
Ela não iria ser libertada. Iria ser morta.
Fosse pelas mãos da comandante ou fosse pelos testes intermináveis. Tinha um prazo de validade, que pelo visto todos ali já estavam cientes. Todos, menos ela. E Mukuro tinha sido ligeira em garantir uma cópia. Uma cópia que, com certeza, daria bem menos trabalho do que ela.
Nunca se sentiu tão descartável. Era só isso que ela era para Mukuro: um mero conjunto de células, para ser replicado e testado à exaustão.
Agora tudo parecia óbvio, e Rina se sentiu estupida por não ter pensado nisso antes. Por que Mukuro deixaria uma Yuuma viva e solta no Makai quando podia ser a única a ter aquela linhagem valiosa em sua posse?
Em um acesso de raiva, Rina empurrou o cientista para frente, jogando-o no chão. Teve ódio, nojo, pânico. Sabia que Mukuro a estava usando para muito mais fins do que havia dito inicialmente, mas nunca poderia imaginar aquilo.
A náusea subiu pela garganta.
— Existem outros?
— Não! Eu juro! Esse foi o primeiro que deu certo, que conseguimos manter vivo mais do que algumas horas!
O primeiro. Então existiram outros. Quantas versões dela mesma Mukuro havia tentado? Uma nova onda de enjoo subiu pela garganta.
Logo ao lado do tanque, uma tela emitia toques sonoros a cada intervalo de alguns segundos, como se estivesse monitorando sinais vitais. Parecia estável. Rina voltou sua atenção para aquilo.
— O que vai fazer? — o cientista perguntou vendo Rina chegar perto do monitor.
— Como desliga isso?
— Você não entende! Não pode-
Rina o agarrou de novo do chão. O jogou para o computador.
— Vamos!
— Eu não posso, você não entende! Isso é maior do que-
— Quer saber, doutor? Cansei de você.
E Rina enfiou a faca por debaixo do queixo do youkai, rasgando a mandíbula. Puxou a lâmina até a garganta e deixou que sangrasse até a morte no piso frio.
Chutou o corpo para o lado. Olhou mais uma vez para o monitor e, sem paciência, começou a arrancar todos os fios que viu à mostra. Tentou quebrar a tela. Amassar os equipamentos. Mas tudo que conseguiu foi silenciar a máquina — a criatura seguia pulsando dentro do líquido.
A repulsa que sentia por aquilo foi aos poucos se transformando em desespero. Rina pegou a faca de novo, avançou contra o vidro, desferiu alguns golpes. Mas era maciço demais e ela não conseguiu nem uma rachadura.
Logo estava ofegante. Tentou uma última vez perfurar aquele tanque, colando a testa no vidro e olhando de perto a má formação daquele monstro que deveria ser sua cópia. A faca caiu da sua mão, fracassada.
Perdida e sem saber mais o que fazer, Rina agarrou a base do tanque com ambas as mãos. E gritou.
Pela primeira vez em anos, deixou sua energia fluir sem controle algum. Por completo, sem uma única amarra dessa vez. Uma sensação de formigamento partiu da base da espinha quando ela canalizou toda a força e explodiu o cilindro com um jato de pura fúria. Todas as luzes do teto piscaram. O líquido jorrou pela sala, inundando o chão. A criatura afundou entre os estilhaços, sem emitir som algum.
Ela caiu de joelhos. Esgotada. Assustada. Mas também satisfeita. Eufórica.
Pelo canto do olho, viu que alguns cabos elétricos tinham sido rasgados do tanque e agora cuspiam faíscas elétricas, carregados de energia. Cada vez que chegavam perto do líquido, ameaçavam uma pequena chama. Rina sabia que não ia demorar para aquela faíscas se transformassem em labaredas e consumissem tudo.
Perfeito.
Se não podia derrotar Mukuro, ao menos destruiria o que ela tanto valorizava ali dentro.
Mas antes de sair, ainda tinha mais uma coisa a fazer.
Com as mãos trêmulas, pegou a faca novamente e foi até o seu clone. Talvez não resistisse fora do tanque, mas ela não ia arriscar. Cravou a lâmina no núcleo, fazendo o sangue esguichar pelo corpo claro. A criatura se debateu, talvez por dor, talvez por reflexo. Mas Rina só arrancou a faca de volta quando ela já estava imóvel.
(…)
Hiei atravessou de volta toda a fortificação. Notou, em algum momento, um pico de energia inusitado, quase um lampejo de tão rápido. Era familiar. Aquilo puxou sua atenção por alguns segundos, e, por um instante, considerou mudar de direção e investigar a fonte, mas ele sacudiu o rosto e retomou o trajeto.
Não encontrou Kirin, nem Shigure nem nenhum dos membros de elite, todos pelo visto ocupados demais para o perseguirem. Hiei não era mais prioridade ali.
Chegou de novo na galeria que separava as alas norte e sul, passou de novo pelos mesmos batalhões. Viu grupos duelando entre si, soldados e invasores. Os assaltantes eram visivelmente o lado mais fraco. Morriam aos montes, o exército de Mukuro claramente tinha vantagem tática — ainda assim, eram numerosos o suficiente para manter as tropas ocupadas.
Hiei disparou pelo corredor, precisando se desviar ainda mais dos golpes, nem sempre conseguindo. Acabou se envolvendo em mais lutas do que queria. Agora, com o assalto à fortaleza mais avançado, mais entravam em seu caminho. E mais acabavam morrendo pelo fio da katana.
O manejo ainda não estava do jeito que queria, e, por mais de uma vez, tentou levar a mão direita — ausente — até a espada, em um gesto automático. Se recriminou baixinho pela falha.
Além disso, ele sentia a espada nem sempre o obedecendo como antes. Mas os golpes não precisavam ser perfeitos, apenas eficazes. Compensava a perda de precisão com velocidade, e isso tinha sido suficiente para abrir passagem — ainda que levando junto alguns arranhões não calculados.
Até que parou, sentindo um odor estranho no ar, vindo de longe. Era um cheiro quente e ferroso, como metal queimado. Olhou para trás e viu uma pequena camada de fuligem começando a cobrir as paredes mais ao longe. A temperatura subia, ainda que discretamente, e o ar parecia carregado com o gosto de fumaça.
Hiei entendeu na hora do que aquilo se tratava. E que, mais do que nunca, precisava ir embora.
(…)
Ela precisava sair dali. Urgentemente.
O fogo tinha começado pequeno, mas se alastrado com rapidez assim que tocou no líquido inflamável.
Rina voltou para a parte principal do laboratório. A que eles não mantinham escondida. As luzes piscavam, o cheiro forte dos químicos pairava no ar. Tudo ali ficava quente e abafado, o incêndio anunciando sua aproximação.
Ela foi até a porta que dava para a saída. O corredor estava vazio — ninguém monitorava aquela parte da fortaleza, todos os soldados provavelmente ocupados demais com os invasores. Mas ela sabia que não teria essa facilidade por todo o trajeto.
Tentou se lembrar das palavras de Shigure. O cérebro estava um caos, agitado ainda pelo que tinha acabado de ver e fazer, os pensamentos completamente indomáveis. Mas ela forçou a concentração. Do contrário, iria morrer ou pelo fogo ou nas mão de algum youkai dentro daquela fortificação — ambas as hipóteses inadmissíveis.
Veio um estalo. Ela saiu do laboratório com uma ideia improvável na cabeça. As paredes tremeram mais uma vez com alguma nova explosão longe dali — o barulho chegou atrasado e distante, mas forte o suficiente para que todas as estruturas se abalassem. Parte do teto caiu, os fragmentos se espatifando aos pés de Rina. Ela arquejou. A mão suja de sangue quase deixou a faca cair.
Virou em outro corredor. Encostou na parede quando viu três soldados passarem correndo na outra ponta, sem nem notar a presença dela. Fechou os olhos, querendo se tornar invisível novamente, quase uma súplica. Mas a dor que sentiu da última vez fez Rina pensar duas vezes. Ainda não tinha entendido o que tinha acontecido, mas o coração estava acelerado demais para que conseguisse raciocinar. Era melhor poupar suas energias.
Havia uma escada, ela tinha certeza. Só não se lembrava exatamente onde — aquelas passagens eram todas iguais, ainda mais quando todos os seus nervos estavam focados demais na sobrevivência para conseguir dar atenção para a memória.
Mas Rina tinha o instinto a seu favor. Uma vida inteira navegando o mundo às avessas a tinha garantido uma intuição quase impecável. Então ela a seguiu, interrompendo os passos quando necessário, os acelerando quando a oportunidade se apresentava. Usou os escombros de escudo mais de uma vez, e forçou a audição a trabalhar dobrado enquanto desviava das rotas mais movimentadas.
Ela não sabia como, mas de alguma forma, encontrou o que queria. Fechou os olhos, contou até cinco e ativou sua habilidade, apenas para atravessar aquele último trecho e alcançar o que supôs ser sua melhor alternativa. Torceu para não sentir nada dessa vez.
A escada de serviço a esperava no lado oposto de um longo saguão, aparentemente ignorada. Ela apenas precisava chegar até lá. Porém Rina, agora camuflada, sentiu todas as dores como a última vez, a atacando mais forte do que a espada de qualquer um dos sentinelas seria capaz. Ela não conseguia compreender. Mas seguiu mesmo assim.
Desviou de alguns youkais mortos, de outros ainda vivos e brandindo armas, mordendo o próprio punho para impedir que gritasse de dor. Lágrimas começaram a cair dos seus olhos sem que se desse conta. As dores tinham vindo mais rápido e mais intensas do que da última vez.
Tocou na maçaneta. Por um breve segundo, temeu que estivesse trancada, mas o alívio varreu seu corpo como um rio quando a descobriu sem tranca alguma. Abriu apenas uma fresta e se esgueirou. Ainda encontrou forças para subir um lance de escadas antes de voltar a ficar visível e desabar de joelhos com um grito sufocado na garganta. O sangue nas veias parecia lava de tão quente.
Esperou um tempo, secando as lágrimas. Ninguém a seguiu. Os sons da batalha que era travada na fortaleza nem passavam da porta. Ela se levantou, olhando para os degraus ascendentes que a esperavam. Inspirou fundo e torceu para seu instinto estar certo mais uma vez.
(…)
Quando Hiei alcançou por fim o deck de observação, no andar mais alto da fortaleza, achou que estaria sozinho. Mas encontrou o lugar ocupado por invasores.
Um pequeno grupo de guerreiros estava reunido ali, se reagrupando antes do próximo ataque. Eles olharam para Hiei com surpresa, o reconhecendo por causa de seu papel junto a Mukuro no passado.
Hiei não tinha o menor interesse em lutar com nenhum deles, mas podia sentir que o sentimento não era o mesmo do outro lado. Todos tinham armas em riste.
Então ele fez o mesmo.
— Eu sugiro que me deixem passar.
Durante alguns segundos, ninguém falou nada. Mas logo alguns dos youkais explodiram em uma risada. Estavam em quatro, tinham o dobro do tamanho de Hiei e armas igualmente maiores. Mas o que mais provocava a chacota era a visão do braço decepado.
— Um aleijado querendo nos dar ordens!
— Imbecis… não preciso de duas mãos pra acabar com vocês.
Os youkais mostraram os dentes, convictos. A sede de sangue dos quatro era tão forte que chegava a ser palpável.
Antes de dar alguma chance para que eles agissem, Hiei correu até o que havia lhe dirigido a palavra e, em um único movimento, saltou para o alto, arrastando a espada consigo. A katana cortou o demônio de baixo para cima, abrindo um rombo que subia do baixo ventre até o começo do pescoço.
O guerreiro caiu, banhado no próprio sangue, sem nem ter conseguido sair do lugar.
Os outros se lançaram a ele, urrando de raiva, e Hiei pulou mais uma vez, defensivo. Eles eram hábeis, e um gesto errado o colocaria em risco. Por isso, para disfarçar o descompasso, agarrou a empunhadura com ainda mais firmeza e investiu em movimentos curtos e contidos. Nada que fosse tirar seu equilíbrio, mas suficiente para causar danos.
Os ataques não saíram tão limpos quanto gostaria, mas mais dois acabaram indo para o chão desse modo.
Procurando o último, Hiei girou no próprio eixo, içando a espada em uma defesa automática. Mas não precisou desferir o golpe.
Ele já estava no chão, um corte preciso atravessando a garganta.
Hiei estreitou os olhos. Depois os abriu em genuína surpresa. E, por um segundo, ficou sem reação.
Atrás do corpo do guerreiro, estava Rina. Inclinada para frente, as mãos apoiadas nos joelhos, a faca ainda presa em uma das palmas. Parecia esbaforida, quase colocando os pulmões para fora.
— Rina…?
Ele baixou a katana. Deu meio passo involuntário até ela. Parou antes de alcançá-la.
— Achei que já estaria longe. Ou morta — falou, ainda tentando absorver aquela improvável realidade.
Ela era última pessoa que esperava encontrar naquele caos. Para Hiei, era certo que seus caminhos jamais se cruzariam de novo. Tão certo que nem lhe ocorreu buscá-la ali.
Mas, pela primeira vez, não se importou de estar errado.
Rina esboçou uma tentativa de risada. Ela saiu falha, sem ar.
— Desculpa te desapontar — respondeu, tomando fôlego — Pensou que ia se livrar tão fácil assim de mim?
Ele deixou o canto do lábio se erguer em um sorriso discreto. Ela levantou a cabeça, notou o sorriso e relaxou seu rosto também.
Só então ele notou. A bata de Rina estava molhada de sangue e de outros restos que ele não conseguiu identificar. O rosto igualmente sujo. E os braços, cobertos de hematomas.
— O que aconteceu com você? Está um lixo — ele perguntou — Esse sangue-
— Não é meu — respondeu com pressa — Longa história. Agora será que podemos sair daqui?
Hiei concordou, mas ainda continuou a estudando por mais um tempo. As pernas não estavam mais enfaixadas. Não tinham mais as feridas. Apesar do estado deplorável, ela tinha se recuperado das lesões.
O dia no Makai raiava por trás deles de maneira preguiçosa. Rina limpou o suor que escorria da testa, exausta. Também demorou a sair do lugar, ainda exaurida pelo esforço que tinha feito para chegar até ali.
Logo as portas do deck voltaram a bater. Um novo grupo arrombava a entrada, invadindo o terraço com pressa. Instintivamente Hiei e Rina se viraram para olhar. Uma fumaça negra também escapava pela porta atrás do bando, que gritava desesperado pelo calor do fogo. A mesma fumaça subia em nuvens gordas, saindo da fortaleza e se espalhando pelo céu.
A urgência voltou a tomar conta.
— Vamos — ele falou. A ordem de sempre.
Correram juntos até a borda do terraço. Hiei parou por um instante. A olhou de lado. Ela fez o mesmo. O corpo em alerta, a tensão percorrendo os dois como uma corrente elétrica.
Hiei não precisou falar nada, Rina entendeu na hora. E assentiu.
Então num impulso, Hiei a puxou pela cintura, como tinha feito no primeiro dia que passaram juntos no Makai.
Mas dessa vez, ela não reclamou.
Apertou seu braço e deixou que ele a carregasse, saltando juntos para fora da fortaleza.
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