Visceral
25 Dores inevitáveis
Os olhos de Hiei estavam pesados quando ele acordou, como se colados com cimento. A dor veio pouco a pouco, subindo pelo corpo, mas se concentrava principalmente no tórax, uma pressão esmagando seu peito. Até respirar era trabalhoso.
— Hiei?
A voz de Rina parecia distante, mas quando finalmente suas pálpebras se descolaram, viu que ela estava do seu lado. Ele tentou levantar, mas uma pontada nas costelas o fez mudar de ideia, e ele parou no meio do movimento.
— Cuidado — ela falou.
Rina colocou o braço em suas costas e o apoiou, erguendo seu tronco devagar até que ele conseguisse se sentar. Hiei sentiu uma nova fisgada, repuxou os lábios, comprimiu os olhos. Como um gesto tão simples podia ser tão difícil?
— Onde estamos? — ele perguntou, sentindo a garganta arder. O ar parecia áspero quando passava por ali, arranhando tudo no caminho.
— Eu não sei, foi o primeiro lugar que achei — Rina disse, o olhar preocupado e abatido. Colocou uma mão em sua testa — Como está se sentindo? A febre baixou um pouco.
— Eu vou ficar bem — falou automaticamente.
Mas as rugas de preocupação não deixaram o semblante de Rina, como se a dor dele estivesse doendo nela também. E não era só isso. Os olhos estavam fundos e vermelhos, a pele opaca. Quando ela notou que Hiei a encarava, desviou o rosto, tirou a mão da sua testa.
— Você está desidratado. Precisa beber um pouco d'água — ela falou, pegando o cantil e entregando para ele.
Hiei concordou. Tomou um gole, e a água desceu pesada, difícil. Mas ela tinha razão, a boca estava seca. E acabou bebendo tudo, dificuldade ou não.
— Graças a Deus você acordou — Rina falou. Hiei podia sentir todo o cansaço na voz dela — Eu achei… eu não sei o que eu achei.
Rina pegou o cantil de volta e o prendeu entre as mãos. Era como se estivesse procurando algo para se ocupar, para preencher o vazio.
Só então Hiei notou o braço dela. Um rasgo vertical enorme na manga da camisa, logo abaixo do ombro direito. E, por cima do tecido cortado, uma atadura presa na pele de qualquer jeito, um pouco suja de sangue e poeira.
Ele se lembrou de quando a vira rapidamente na batalha, da energia truncada dela. Sentia a mesma coisa agora, como se o youki de Rina estivesse preso, sem conseguir sair. E não porque ela estava suprimindo.
A mandíbula dele travou igual tinha travado antes. Aquilo não era bom.
— Está ferida — Hiei observou, apontando com a cabeça para o braço dela.
Rina olhou para o próprio machucado.
— Não é nada.
— Seu youki foi selado — falou.
— Ainda consigo usar um pouco. Mas dói — Rina disse, ainda encarando as gazes manchadas que tinha ao redor do braço. Depois se virou para ele — É melhor trocar seu curativo.
E ela deixou o cantil de lado e começou a remexer dentro da bolsa, provavelmente aliviada por finalmente ter encontrado o que fazer.
— Você lembra o que te atingiu? — ela perguntou.
— Uma explosão.
— Te pegou em cheio — Rina confirmou — Está com algumas queimaduras. Talvez algum dano interno também.
O barulho alto, que quase furou seus tímpanos, ainda estava fresco nas memórias de Hiei. A dor que seguiu também. Assim como o cheiro de queimado, como tudo ficou escuro depois, como o corpo não obedecia, como foi difícil quando ela o colocou de pé, o forçou a andar. Ele precisou quase ser arrastado.
Do caminho em si, não tinha muitas lembranças. Só de como os pés e pernas pesavam como chumbo e era nela que se escorava durante todo o trajeto.
— Você me trouxe pra cá sozinha? — Hiei perguntou.
— Uhum.
Rina achou o esparadrapo e a gaze na bolsa e agora dava sua atenção para o peito de Hiei, com a naturalidade de quem já tinha visto e feito aquilo antes. Começou a descolar lentamente as bandagens, puxando com cuidado para poupar a pele. O adesivo saia com dificuldade, mas ela parecia ter prática: sabia exatamente onde e como arrancar cada uma das tiras.
Hiei olhou para baixo, tentando ver o ferimento. Cada pedaço de gaze que ela tirava deixava à mostra uma pele ardida; uma parte com uma crosta escura, outra, com bolhas que tinham estourado debaixo do curativo e cuspido sangue e outros líquidos pegajosos. Pedaços de um tecido escuro — sua camisa, provavelmente — ainda estavam grudados ali, fundidos com a pele, que ela provavelmente ainda não conseguira arrancar.
— Parece melhor — ela murmurou mesmo assim.
Rina tentava ao máximo parecer focada e profissional. Não tirou os olhos da área queimada, usava apenas as pontas dos dedos, tinha o rosto sério, o maxilar travado, o olhar fixo. Mas Hiei sentia que não era apenas dedicação. A formalidade era forçada demais. Aquilo era também uma maneira de evitar todo o resto. Evitar falar, talvez evitar pensar.
Ele ficou em silêncio, deixando ela fazer o trabalho. As mãos de Rina estavam ligeiramente trêmulas e frias, mas ela fingia não perceber, e ele fez o mesmo.
E, enquanto aguardava que Rina terminasse, uma nova memória surgiu nas lembranças de Hiei. A voz de Gintaro, no caos da luta, quando Hiei já estava no chão. Poderia estar enganado — ele não estava completamente lúcido aquela hora — mas algo dizia que não estava. Que tinha sido ele, lá, surgindo quando ele estava no chão.
— Aquele mercenário maldito — ele falou, uma irritação cortante por baixo de cada palavra.
— O quê?!
Rina levantou os olhos, a boca semiaberta, sobrancelhas erguidas como se tivesse levado um susto.
— Ele apareceu lá. Quando estávamos lutando. Não foi?
— Ah sim… — ela respondeu, um pouco aérea, como se a mente tivesse ido para longe e voltado no segundo seguinte — Sim, lá ele apareceu sim. Ele ajudou a gente.
— Ainda está nos seguindo?
Ela ficou calada um momento.
— Estava. Mas não sei mais — Rina respondeu, em um tom quieto — Não quero falar dele.
E voltou a cuidar do ferimento, agora passando um pano umedecido nas áreas mais afetadas, a boca mais apertada do que nunca.
Hiei também cerrou os dentes. Já não bastava ele ter sido derrubado por aqueles assassinos incompetentes e saber que precisou ser arrastado por Rina até aquele lugar. Descobrir que também tinha sido ajudado de novo por aquele infeliz era muita humilhação.
Tinha sido um milagre que o desgraçado simplesmente não tivesse largado ele caído onde estava e carregado Rina consigo.
— Eu andei pensando… — Rina começou a falar. Depois parou, como se não soubesse como continuar.
— Pensando o quê?
Rina contraiu a mandíbula. Tentou parecer forte e decidida, mas os olhos a traiam. Os olhos diziam a Hiei que ela estava mais insegura do que nunca.
— Que talvez a gente devesse se separar. Quando você já estiver melhor.
A testa de Hiei se franziu de leve.
— Por quê?
— Porque sim. Tenho o mapa, não preciso de você pra encontrar o caminho. Posso fazer isso sozinha.
Hiei não respondeu.
As palavras o incomodaram de um jeito que ele não conseguia justificar. Rina levantou o rosto para ele rapidamente, mas voltou a abaixar logo em seguida.
— Eu posso garantir que receba o pagamento que foi combinado, se esse é o problema — ela acrescentou.
— Você sabe que não é pelo pagamento que estou fazendo isso.
— Pelo que é então?
Rina voltou a comprimir os lábios, mas os cantos vacilaram sutilmente. Hiei pensou por um tempo na pergunta, inicialmente sem saber explicar. Mas logo entendeu o desconforto. Era sua palavra em jogo — única explicação possível.
— Eu não gosto de quebrar minhas promessas — Hiei disse por fim, sério, como se aquilo fosse algo do qual não estivesse disposto a abrir mão.
— Só isso?
— O que mais seria?
Nenhum dos dois falou mais nada. Apenas uma goteira insistente preenchia o silêncio da caverna, marcando o tempo.
Quando Rina terminou, guardou tudo na bolsa e sentou do lado dele, apoiando as costas na parede de pedra. E fechou os olhos, finalmente deixando transparecer quão esgotada estava. Os ombros estavam caídos, a boca soltou um suspiro. Hiei se perguntou quanto tempo estavam ali e há quanto tempo ela não descansava. Pelo jeito como o corpo dela parecia querer colapsar a qualquer momento, ele diria que muito.
Tola, ele pensou. Se sacrificando assim quando ela mesmo estava ferida e indefesa. Devia ter se preocupado primeiro com a própria recuperação.
— Você precisa dormir — Hiei falou.
— Eu sei — Rina respondeu, ainda de olhos fechados, umedecendo os lábios — Mas não posso.
— Eu fico de vigia.
Mas ela balançou a cabeça negativamente com veemência.
— Você nem consegue ficar de pé — Rina justificou.
— E você consegue fazer alguma coisa?
— Eu me viro, se precisar.
— Acabada desse jeito?
Rina finalmente abriu os olhos. Irritada.
— Você acordou pra testar minha paciência, foi isso?
Teimosa. Mas Hiei não discutiu mais.
(…)
Levou mais um dia inteiro para que Hiei conseguisse levantar sem que a dor nas costelas não fosse excruciante demais. O machucado no peito ainda incomodava, mas quando Rina fez uma nova troca de curativos, ardeu um pouco menos do que da vez anterior.
Rina também parecia um pouco melhor, apesar de não ter deixado Hiei ver o machucado no braço. Quando precisava, ela se distanciava, levantava a manga rasgada, inspecionava tudo sozinha e colocava uma bandagem nova. Mas a mancha de sangue que sempre marcava a gaze limpa o dizia que o corte estava demorando para cicatrizar — mais do que o normal.
O jeito com que se comportava perto dele, no entanto, continuava… estranho. Ele a pegava olhando em sua direção por tempo demais, ao mesmo tempo em que evitava o encarar diretamente. Ele sabia que ela tinha chorado — não era burro, e aqueles olhos inchados não enganavam ninguém — mas Rina nunca falou nada a respeito e ele também não procurou saber. Não era da sua conta.
A luta dela contra o sono eventualmente foi perdida em algum momento durante o dia. Rina acabou cochilando, deixando a cabeça cair para o lado até encontrar o ombro dele, onde ficou apoiada até ela acordar de novo — Hiei não se mexeu em momento algum. Preferiu deixar que ela dormisse, ainda que a posição o deixasse ligeiramente incomodado. Apenas ligeiramente. Sentir a respiração dela, estável e suave, em sua pele, não era tão desagradável quanto achou que fosse ser.
Quando acordou, Rina demorou para se dar conta de onde estava. Mas quando o fez, se levantou com um pulo, parecendo um gato assustado, como se dormir tivesse sido um erro.
Ele a chamou, e ao atender, ela finalmente o encarou diretamente. Os olhos, antes tão vivos, prateados e brilhantes, pareciam agora duas bolas cinzas e sem luz. Hiei queria dizer algo, mas não sabia o que. Talvez mandar ela parar de se preocupar tanto com ele. Talvez dizer que ela precisava se cuidar. Mas nenhuma palavra saiu.
Ela sustentou o olhar por alguns segundos, igualmente calada, mas depois quebrou o contato, se distanciando para cuidar de alguma outra coisa qualquer.
— Vamos precisar de mais comida logo — ela falou, checando a bolsa. Os dois já estavam racionando o pouco que ainda tinham, mas os suprimentos estavam quase no fim.
— Eu posso ir buscar alguma coisa.
— Não, ainda não pode sair, não se recuperou.
— Eu estou bem — Hiei insistiu. Mas como ela ainda balançava a cabeça decidida, ele acrescentou — Já sobrevivi a ataques muito piores, não vai ser isso que vai me matar.
Rina titubeou diante da declaração. Uma expressão estranha surgiu em seu rosto, e Hiei quase podia ver o nó se formando, as palavras que ela segurou para não soltar.
— O que foi? — ele perguntou, vendo os olhos dela parecem perdidos por um instante, como se não soubessem no que se fixar — O que não está me contando?
Rina inspirou devagar e emendou em um suspiro pesado. Fez uma pausa. Limpou a garganta. Depois, abraçou o próprio corpo.
— Você parou de respirar por alguns segundos — ela disse, em um tom quase confessional, a voz falhando um pouco — Eu tive que… eu tive que trazer você de volta.
Hiei ficou apenas imóvel, processando a informação em silêncio, desconcertado com a descoberta. O ar pesou entre eles, tão denso e sufocante que era palpável. Ela não ofereceu mais detalhes, mas estava claro. O choro, a decisão de prosseguir sem ele, o jeito como vinha agindo.
Rina se achava responsável.
— É por isso que quer continuar sozinha? — ele perguntou, em uma voz baixa — Acha que posso morrer se formos atacados de novo? Que está me fazendo um favor?
— Acho mais seguro assim — Rina se limitou a dizer, a cabeça voltada para um ponto distante do chão.
Seguro para ele, que não seria mais alvo dos caçadores de recompensa? Ou seguro para ela, que não precisaria mais correr o risco de ter a vida dele nas mãos?
Hiei já tinha visto Rina abalada antes. Nervosa, tensa, até assustada. Como quando contou sobre a morte de seus pais ou quando viu pela primeira vez aquele maldito cartaz com seu rosto desenhado. Mas agora era diferente. Agora ela mal olhava em sua direção.
Como se algo tivesse mudado.
E aquilo o fazia se sentir diferente também. Não sabia explicar. Só sabia que não gostava, nem um pouco. Era uma sensação estranha, inoportuna, um aperto que vinha de algum lugar que ele não identificava.
— Bobagem — ele declarou.
Afinal, Hiei tinha crescido com ladrões. Ataques e emboscadas fizeram parte de sua vida no Makai por muito tempo. Nada daquilo era novidade.
Mas, de repente, um medo irracional se instalou. Não da morte, mas de que Rina fosse cabeça dura o bastante para não ver as coisas desse modo.
(…)
Hiei passou a noite em claro. Rina falou que ele devia dormir, que o corpo precisava de repouso, mas a única que pegou no sono foi ela, encolhida perto da parede. Quando ela começou a tremer muito de madrugada, Hiei não sabia se era pelo frio úmido da caverna ou se estava tendo pesadelos. De qualquer forma, procurou algo na bolsa para a cobrir.
A comida dos dois de fato estava escassa. Como água, podiam contar com a que pingava pelas paredes de pedra, vinda de alguma fonte externa. Parecia limpa, o que ao menos era suficiente. Mas como alimentação, só restavam farelos dos provimentos que carregavam na bolsa.
Hiei levantou quando os primeiros raios de sol entraram pelas frestas, testando seu equilíbrio. Ainda sentia uma tensão nos músculos, uma pontada nas costelas, a dor pulsante na queimadura do peito — mas não o bastante para o fazer sentar de novo.
Procurou Rina, mas ela ainda dormia. Então pegou a katana que estava largada no canto, ajeitou na cintura e saiu, protegendo os olhos do sol e olhando ao redor com cuidado para avaliar o local.
Estavam no meio de uma ravina, com paredes de rocha gigantes e alaranjadas que subiam em direção ao céu. Não havia muita vegetação por perto, a não ser pequenos arbustos ou árvores baixas, sem frutos. O vento ali era forte por causa do corredor formado pelas elevações, e ele logo sentiu o rastro de algum animal rasteiro.
Seguiu a trilha, mas outra coisa o fez parar de supetão, mão automaticamente indo para o pomo da espada. Virou o rosto na direção do que seus sentidos agora captavam. Era outra presença — não de um animal, mas de outro youkai. Um que ele conhecia bem.
Soltou a empunhadura e seguiu o novo rastro. E como esperado, Kurama estava ali, em pleno cânion, provavelmente se guiando também pelo youki de Hiei.
Os dois se encararam ao se aproximarem, Kurama sem conseguir esconder a surpresa. Os olhos se arregalaram com incredulidade, a boca abriu ligeiramente.
— Hiei! — ele exclamou — O que aconteceu com você?
Hiei apertou os lábios incomodado. Não por ter encontrado Kurama, mas pelas perguntas que ele sabia que viriam.
— Alguns contratempos.
— Contratempos? Hiei, você perdeu um braço!
— O que veio fazer aqui? — ele perguntou, em vez de continuar o assunto — Algum problema?
Kurama franziu o rosto, a testa enrugando. Demorou alguns segundos a mais para responder, provavelmente considerando se devia ignorar o estado caótico de Hiei ou não. Por fim, pareceu se decidir.
— Onde está Rina?
— Por que quer saber? — Hiei devolveu.
O jeito como a resposta veio — abrupta, defensiva — pegou Kurama de surpresa, fazendo sua sobrancelha se erguer de leve.
— O Reikai está atrás dela. Achei que deveria saber — ele falou.
Uma onde de choque percorreu o corpo de Hiei, e, num primeiro momento, achou não ter entendido direito.
— Como assim? — ele perguntou, ainda mais defensivo, os olhos ainda mais estreitos.
— Eles sabem quem ela é. E sabem que matou humanos no passado. Ela fez um bom trabalho escondendo sua natureza demoníaca antes, já que Koenma só conseguiu a rastrear agora…
— Rina nem sabia que era youkai. O que fez antes não era da conta do Reikai.
Hiei sentiu a tensão se formando, deixando seus músculos rígidos, o pescoço dolorido. Aquela era uma má notícia. Não, uma péssima notícia.
— O Mundo Espiritual não se importa muito com isso — Kurama disse — Nem Enki, infelizmente. Ele autorizou que o Esquadrão Especial capture Rina no Makai. Querem que ela responda pelos crimes cometidos no Ningenkai.
— E o imbecil do Koenma concorda com isso? E o papo de melhorar as relações com os demônios do Makai?
Kurama colocou as mãos atrás do corpo, o olhar analítico em cima de Hiei.
— Não faz muita diferença o que Koenma pensa a respeito… por enquanto, ele só está tentando manter o equilíbrio, evitar que as tensões voltem a escalar. E pra isso, precisa agradar o Esquadrão de vez em quando. Se isso significa eliminar uma youkai com esse tipo de antecedente-
— Eliminar? — Hiei o interrompeu.
Kurama hesitou.
— Rina é perigosa demais pra só ficar presa — justificou, com um certo pesar — Esse é o posicionamento do Mundo Espiritual.
Um silêncio maciço os envolveu. O estômago de Hiei se contraiu, a raiva agora queimando mais do que qualquer outro ferimento. Sem perceber, a mão foi para a espada. Os olhos de Kurama acompanharam o movimento, ainda mais intrigado. Era como se achasse estranho ver a katana do lado oposto ao que Hiei sempre carregava, como se ainda tivesse muitas perguntas a fazer.
— Estão com medo dela —Hiei falou, sem esconder o asco que sentia por tudo aquilo — Covardes.
— Não é só o Reikai que está interessado nela, não é? — Kurama falou — Eu vi os cartazes. A chegada de Rina causou uma turbulência por aqui também.
Hiei não falou nada. Apenas desviou o rosto, ainda perdido nos pensamentos, na hipótese de Rina ser caçada pelos generais do Esquadrão Especial. Hiei sabia muito bem o tipo de poder que eles tinham, o tipo de arma, de equipamento. E, principalmente, o tipo de desprezo que sentiam por demônios. Não seriam piedosos com ela. Nem descuidados.
— Não imaginei que ainda estivesse com ela — Kurama continuou — Já se passaram cinco meses. Deveriam ter chegado a essa altura.
— Eu falei que tivemos contratempos — ele respondeu entre os dentes.
— E ainda assim, não a abandonou? Hiei… não está desenvolvendo sentimentos por Rina, está?
Os olhos de Hiei faiscaram com a pergunta. Primeiro confusos, depois coléricos. A boca inteira se curvou para trás, a mão fechou.
— Não seja ridículo! Que raio de pergunta é essa?
Kurama não elaborou, nem insistiu. Somente anuiu.
— O que pretende fazer? — ele perguntou — Sabe que se bater de frente com o Reikai, vai ser julgado e condenado também.
— Como assim? — Hiei respondeu, ainda cuspindo de raiva — Espera que eu simplesmente a entregue?
O rosto de Kurama se suavizou um pouco, como se esperasse aquela resposta. Mas logo voltou a ganhar contornos de preocupação.
— Posso falar com Koenma. Sugerir que não ajam enquanto ela ainda estiver com você, pra que terminem o resto do trajeto sem serem importunados. Mas depois disso…
A ideia o enfureceu. Hiei ficou calado, a mandíbula travada, dentes trincados com profundo desgosto. Odiava depender de favores ou da clemência dos outros, principalmente quando vinham do Reikai.
Por isso quase recusou. Quase xingou Kurama também, pela sugestão. Seria seu primeiro instinto.
Mas se segurou no último segundo, como se algo tivesse falado mais alto. E percebeu a atenção com que Kurama o fitava. Aquela raposa era astuta demais.
— Você já fez isso, não é?
Kurama sorriu discretamente, assumindo a culpa.
— Sim, já falei com ele. Achei que você fosse recusar. Pedi que segurasse por mais dez dias a ação, para dar tempo de chegarem até Haru. Acha que é o suficiente?
— Vai servir. Diga àquele imbecil pra realmente ficarem fora do nosso caminho então. Se formos emboscados, eu vou revidar, Esquadrão ou não — respondeu — Não tenho medo daqueles vermes.
O semblante de Kurama novamente focou no braço cortado de Hiei, que notou e retraiu o corpo em resposta.
— Não parece estar exatamente em vantagem… — ele comentou — O que aconteceu com você, Hiei?
— Não importa.
Kurama o observou por um longo momento, os olhos verdes analisando cada detalhe. Mas Hiei não estava disposto a oferecer maiores explicações e sabia que Kurama o conhecia o suficiente para não pedi-las.
— Você ao menos tem um plano para remediar isso?
— Tem um xamã perto daqui — Hiei respondeu relutante, depois de uma pausa.
E, mais uma vez, não prolongou o assunto. Kurama somente suspirou, concordou e aceitou que Hiei sabia o que estava fazendo. Mesmo sem parecer estar muito convencido disso.
Antes de se despedirem, ainda perguntou se ele precisava de alguma coisa. Alertou para possíveis perigos — Kurama tinha encontrado dois saqueadores no caminho com o cartaz de Rina, eliminado os dois. Mas poderiam ter outros.
Hiei grunhiu que não precisava de nada. Que estava com pressa. Mas Kurama apontou para um ninho de roedores ali perto de qualquer maneira, caso fosse isso que Hiei estivesse procurando antes de o encontrar.
— Tome cuidado, Hiei — ele pediu.
E, depois disso, se afastou.
(…)
Rina já estava acordada na hora em que Hiei voltou. Ela levantou com pressa assim que o viu, alvoroçada.
— Você sumiu! — ela o acusou — Onde você estava?
Ele apenas ergueu a mão carregando o roedor abatido como se fosse resposta suficiente. E se sentou perto da entrada da gruta para iniciar um fogo baixo com os gravetos secos que encontrara também.
— Não podia ter me avisado? E se tivesse acontecido alguma coisa com você?
— Você estava dormindo.
Rina bufou, contrafeita, soltando um xingamento. Mas foi até ele e sentou ao seu lado de pernas cruzadas, a fome provavelmente falando mais alto do que qualquer outra irritação.
Os dois prepararam a caça em silêncio. A cabeça de Hiei ainda estava na conversa que tivera com Kurama. Ele sabia que se o Reikai estava tão decidido a capturá-la, ela não teria a menor chance. Pelo menos não naquele estado. Recuperar-se não seria o bastante, ela precisava de mais treinamento, mais tempo, mais preparo.
E Rina precisava saber que não era apenas de caçadores de recompensa que estava sendo o alvo. Precisava entender a gravidade da situação. Talvez isso a fizesse desistir da ideia estúpida de partir sozinha.
Então olhou na direção dela, pronto para dar a notícia. E congelou, sem conseguir falar.
— O que foi? — ela perguntou, notando a expressão dele.
— Nada.
Hiei ficou calado. Pois quando a viu daquele jeito — abatida, cansada, os olhos correndo nervosamente até a abertura na rocha, a expressão dura de quem tenta mascarar o medo — não conseguiu abrir a boca.
Se ela já estava daquele jeito e, pior, preocupada com ele, por causa dos bandidos que andavam enfrentando pelo caminho, o que faria se soubesse que a ameaça era maior ainda?
Rina não iria entender o quanto precisava dele. Ou talvez até entendesse, mas estava tão nervosa que iria ignorar o óbvio. E, em vez disso, o que iria pensar era que, mais do que nunca, ele não podia seguir com ela. Que ela não poderia permitir que Hiei se arriscasse ainda mais.
Hiei sentiu o maxilar se apertando. Segurou com tanta força um dos gravetos que ele se partiu ao meio. Rina lançou um olhar inquisitivo, que ele fingiu não ver.
Diabos. Por que aquela decisão sobre contar ou não estava pesando tanto para ele?
O mais lógico e pragmático seria falar para Rina. Deixar que ela decidisse tendo todas as informações disponíveis. Mas cada vez que tentava formar as palavras, se lembrava da expressão quebrada no rosto dela. Do terror que escapou de sua voz quando disse "você parou de respirar".
— Sobre o que eu falei — Rina começou de repente, a voz rouca — Sobre a gente se separar…
— O que tem?
Ela se empertigou, como se a postura a desse mais coragem.
— Acho que você também já não precisa mais de mim — afirmou, decidida — Posso trocar seu curativo mais uma vez hoje, mas depois você fica por conta própria. E a gente pode dividir os suprimentos de primeiros socorros que sobraram. Não é muita coisa, mas já ajuda.
Uma nova dor no estômago atingiu Hiei. A respiração dele ficou mais pesada, o corpo mais travado.
Rina não tinha experiência com o Esquadrão Especial. Não tinha controle perfeito do seu poder, não tinha ainda explorado todas suas capacidades. E, para piorar, ainda estava ferida.
Ficar sozinha, portanto, significava ser capturada pelo Reikai. Significava…
"Ela é perigosa demais para ficar presa", as palavras de Kurama voltaram à sua mente.
— Você ainda não se recuperou — ele respondeu — Vai morrer na primeira armadilha.
— Eu não vou. E isso não vai ser mais problema seu.
Hiei a olhou de relance, irritado, querendo dizer que ela tinha razão. Que não era problema dele se ela queria ser tão estupida e precipitada daquele jeito.
Mas não. Era problema dele também. Afinal, tinha sido sua fraqueza que havia dado a ela essa impressão, de que ele poderia morrer se continuassem juntos. Logo, era ele quem precisava fazer algo a respeito.
Procuraria o xamã. Daria um jeito no braço. Retomaria o domínio impecável das suas Chamas Negras, voltaria a usar sua katana com a precisão de sempre.
Quanto ao Reikai, só precisava ganhar tempo para pensar no que fazer. Kurama prometera dez dias, e ele esperava que os malditos ao menos cumprissem com o combinado.
Contaria tudo para ela, claro, mas não agora. Agora ela só tomaria decisões impensadas, baseadas em medos infundados.
— Eu sei que você é maluca, mas não precisa ser burra também. Vou procurar o xamã que Kangetsu mencionou. Vá comigo, ao menos até estar mais forte. Você sabe que não está conseguindo usar sua energia como deve.
Rina ficou no mais absoluto silêncio. Vários segundos se passaram, a expressão dela se intensificando cada vez mais.
E, por algum motivo que Hiei não compreendia, aquilo deu a ele uma ansiedade que não estava acostumado. Como se a resposta dela importasse mais do que devia. Mais do que tudo.
— Tudo bem — ela disse por fim, baixinho — Só mais uns dias.
Hiei assentiu, com certo alívio. Comeram juntos, mais calados do que nos últimos dias. Depois olharam o mapa, discutiram possíveis rotas. Quase como antes.
Quase. Pois a ansiedade no peito de Hiei, inexplicavelmente, não o deixou em momento nenhum.
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