Visceral
26 Cinzas
O terreno nunca tinha sido tão difícil. Nem quando escalaram aquela montanha nevada, nem quando atravessaram um pântano — nada era pior do que aquele cânion desgraçado, com seu chão irregular, suas subidas e descidas íngremes, suas partículas de poeira que grudavam no rosto a cada brisa soprada.
Hiei ainda mancava um pouco, mas disfarçava bem. Rina sabia que a dor persistia, assim como sabia que ele não admitiria jamais. Mantinha o ritmo forte e constante, como se cada segundo do trajeto fizesse diferença, mais apressado e determinado do que nunca.
Estava mais calado também, mais focado. E mais vigilante. Olhava por cima do ombro a cada momento, os olhos alertas escaneando tudo. A mão não saia de perto da espada. Era como se estivesse esperando uma emboscada a cada curva.
E quando, em determinado momento, o som de galopes pareceu perto demais, ele a puxou, rápido, firme, decidido, antes que ela sequer tivesse tempo de qualquer coisa. A segurou atrás dele, contra uma rocha, enquanto se certificava que não havia ninguém, que era apenas alarme falso, que era seguro continuar. Rina não disse nada. Nem reagiu, tomada pela surpresa daquele gesto brusco. Mas pôde ver de perto as linhas tensas do pescoço dele, cada fibra tão rígida e repuxada que parecia prestes a romper.
Ela entendia. O último ataque também a deixara mais nervosa do que o normal. E toda vez que olhava para Hiei, só conseguia se lembrar dos momentos de pânico que tinha passado. De como ele quase havia morrido na sua frente, de como ela se sentiu sozinha, de como ameaçou explodir tudo.
A conversa com Gintaro ainda a assombrava. Viu pelos olhos do mercenário quão absurda fora sua ameaça, quão insana fora sua reação. E mesmo assim, ainda que se envergonhasse de suas ações e palavras, Rina sabia que, se fosse preciso, faria tudo novamente.
E aquilo, sinceramente, a apavorava.
Preferiu não contar nada a respeito para Hiei. O que ele diria se soubesse? Que foi uma idiota por não conseguir controlar suas emoções? Que tinha sido irresponsável? Uma louca?
Ela não queria descobrir o que ele diria. Assim como não queria correr o risco de passar por nada daquilo mais uma vez.
A decisão de se separarem pesava em sua mente. Quando a ideia ocorreu, pareceu a única alternativa possível. Ficar sozinha — ficar sem ele — seria dolorido, mas nunca tão dolorido quanto a impotência, o desespero e o medo visceral que passou naquela caverna quando pensou tê-lo perdido para sempre.
Estava fazendo aquilo para a proteção de ambos. Estava mais do que claro que, enquanto estivessem juntos, seriam caçados juntos. Ele não precisava dessa sentença de morte, não merecia. A linhagem de Rina era mesmo odiosa, e ela já tinha aceitado esse fato. Mas Hiei? Hiei não tinha nada a ver com isso.
Rina tateou a cintura, procurando a adaga. Sentiu o metal frio, a única segurança que tinha. Podia estar com seus poderes reduzidos, sua energia limitada, mas a adaga, aquela nunca falhava.
Levantou os olhos para Hiei, seguindo na frente, com seu jeito firme, o andar duro.
Em parte, Rina queria que ele tivesse aceitado a separação imediata. Seria como arrancar uma farpa de dentro da pele: difícil, mas necessário. Doeria como o inferno — mas passaria.
Porém, outra parte dela, uma que ela tentava sufocar, estava grata por ter ganhado uns dias a mais ao seu lado — mesmo sabendo o quão mais complicado seria se despedir depois. Mas Rina não conseguia evitar. O coração parecia querer explodir em mil pedaços cada vez que ouvia a voz dele, a pele fervia toda vez que se esbarravam.
Justamente por isso precisava manter distância. Quase não puxou assunto durante a caminhada, continuava evitando o encarar. Tinha que ser forte em sua escolha. Pois se o que sentia por ele era forte, a raiva que tinha de si própria, maior ainda.
Porque Rina era de fato maldita. Talvez fosse o sangue Yuuma correndo em suas veias, ou talvez fosse apenas ela própria — alguém fadada a trazer a morte a quem quer que estivesse por perto.
Tinha sido assim com seus pais. E tinha sido assim com Dimitri.
Com Dimitri, porém, não foi seu youki. Não foi uma explosão acidental nem uma perda de controle. Com Dimitri, Rina só precisou de sua adaga e de uma decisão. Ela deixou a lâmina entrar no pescoço dele com a naturalidade de quem bebe um copo d'água. Deixou o sangue manchar sua mão e o deixou morrer sozinho numa cama de hotel barato. Apenas porque precisava se livrar dele e daquele seu jeito tóxico, daquele relacionamento no qual as margens entre abuso e respeito vinham se borrando há tempos.
Ainda que Hiei falasse o contrário, Rina sabia a verdade sobre si mesma. Ela era, sim, um monstro. Um monstro quando perdia o controle, um monstro quando mantinha o controle. Não importava o que fizesse; ela era destrutiva. A situação com Gintaro deixou isso bem claro.
E ela não podia deixar Hiei ser o próximo.
(…)
— Está vendo alguma coisa? — ela perguntou quando ele subiu em uma pedra mais alta para olhar a ravina ao longe.
Ele esperou um pouco antes de responder, como se quisesse ter certeza.
— Não — foi tudo que falou, sem elaborar mais.
Rina suspirou. Esperou ele descer, o que levou mais tempo do que normalmente levaria — ele ainda sentia as pontadas na lateral do abdômen, Rina tinha certeza.
— Acha que estamos no caminho certo?
— Difícil dizer — Hiei respondeu. E, mais uma vez, não elaborou.
O dia iria se pôr em breve, o que significava acampar a céu aberto. Mais uma noite de vigília.
Tudo que sabiam era que o xamã habitava as entranhas do cânion. Segundo Kangetsu, nos arredores de uma queda d'água. Era a única referência que tinham, e pensaram que se seguissem o córrego que vinha do vale fluvial, encontrariam a cascata. Mas o córrego já tinha terminado e eles agora navegavam aquele desfiladeiro às cegas, provavelmente perdidos — ainda que Hiei evitasse usar essa palavra.
Rina olhou para o céu, calculando quanto tempo tinham antes de escurecer. Pouco. Muito pouco. Mas não havia o que fazer a não ser continuar. E quando a noite caiu de vez, foram obrigados a fazer uma parada.
Procuraram a área mais escondida que encontraram e Hiei acendeu uma fogueira mínima, apenas brasas suficientes para cozinhar. Comeram em silêncio, olhando para direções opostas — ele para a trilha adiante, ela para o fogo moribundo.
Assim que terminaram, ele apagou as brasas com terra, mergulhando-os em escuridão total para evitar que as chamas atraíssem atenções indesejadas. Ficaram em silêncio. Próximos o suficiente para sentir o calor um do outro, mas distantes em tudo que importava. Cada suspiro parecia dez vezes mais alto, cada movimento uma intrusão no espaço alheio.
Os sons daquele lugar eram assustadores na escuridão: pedras rolando distantes, animais rastejando, o chiado do vento. Rina queria dizer algo, puxar algum assunto qualquer, mas não encontrava as palavras. Persistia nela o medo de que, se abrisse a boca, mudaria de ideia sobre deixá-lo. Pediria que Hiei continuasse com ela e que não fosse embora nunca mais.
A conversa entre eles foi, então, breve e monótona. Podiam se enganar dizendo que, naquele labirinto de paredões rochosos, as vozes podiam ecoar e serem ouvidas ao longe. Que, portanto, era apenas questão de sobrevivência ficarem quietos.
Mas os dois sabiam que simplesmente não havia o que falar.
(…)
O corte no braço de Rina cicatrizava lentamente — devagar demais para um youkai. Não sangrava mais, como nos primeiros dias, mas a ferida se recusava a fechar completamente, deixando a região avermelhada e sensível. E toda vez que tentava sentir seu youki, encontrava o mesmo bloqueio. Ele estava lá, pulsando sob a superfície, mas liberá-lo exigia esforço. Hiei tinha razão: ela seria um alvo fácil desse jeito.
— Como está o braço? — ele perguntou, ao notar que Rina discretamente verificava a ferida.
— Ainda dói… Quanto tempo acha que vai demorar pra voltar ao normal?
— Não sei — Hiei disse, lacônico. Mas depois acrescentou — Talvez o xamã possa responder.
Rina concordou, pensativa. Toda vez que verificava o próprio corpo, sentia a garganta se fechar. Não somente pelo machucado, mas pelas manchas que também se espalhavam. Não eram mais discretas e translúcidas como antes, como quando ainda conseguia ignorar — agora, algumas eram escuras como nanquim.
Elas ameaçavam se romper em buracos negros em breve, evidenciando na superfície o estrago feito por dentro, em como estava sendo devorada viva por aquela doença maldita que insistia em voltar.
Rina sempre puxava a manga comprida depressa, cobrindo tudo antes que Hiei notasse o pedaço negro se destacando, um contraste brutal com a pele clara. Não sabia explicar, mas a ideia de que ele descobrisse a doença a deixava mais ansiosa do que a doença em si. Como se fosse um atestado de fraqueza. Como se deixasse claro que ela sempre teria limitações, que nunca seria a pessoa que ele achava que ela podia ser. E Rina já vinha escondendo aquilo há tanto tempo que revelar a verdade agora seria pior do que nunca contar nada.
E já não fazia diferença, fazia? Se separariam em breve e ela poderia procurar uma solução por conta própria. Ou aceitar sua condição. Hiei nunca precisaria saber. E Shigure que a desculpasse pela promessa não cumprida.
Mas aquilo era assunto para depois. Ainda conseguia aguentar mais um tempo. Precisava conseguir. Só mais uns dias. Só até seu corte cicatrizar, até o nível do seu youki voltar ao normal.
Ela balançou a cabeça, afastando o assunto. E notou que, com o canto do olho, Hiei a observava.
— Posso fazer uma pergunta? — Rina perguntou, tentando mudar o foco dos próprios pensamentos.
— Desde quando você pede autorização?
Rina soltou uma risada baixa, fraca, quase inaudível — mas que Hiei ouviu. E a olhou de relance mais uma vez.
— Por que mudou de ideia sobre o xamã?
— Já planejava ir até ele depois de te deixar com Haru — Hiei disse — Estou só adiantando a visita.
— Então não acha mais que ele é um charlatão?
Ele ficou calado, como se considerando a pergunta por vários segundos. Repuxou o braço direito de leve, num reflexo involuntário. Só então respondeu:
— Não sei. Espero que não.
Rina também esperava. Eles precisavam de uma boa notícia, para variar. Não aguentava mais tantas pedras no caminho.
(…)
À medida que o dia se arrastava, Rina ficava mais certa de que teriam que de novo acampar no escuro, comer em silêncio, ter uma noite mal dormida. Seus pés doíam com as bolhas formadas durante a caminhada, os músculos das pernas ardiam a cada passo. Não conseguia treinar como antes, então Hiei nem se dava ao trabalho de propor algum exercício nos esparsos intervalos que tinham.
Os dois se entreolharam, no entanto, quando um barulho começou a se revelar ao longe.
Era um estrondo baixo, um rugido constante que ecoava pelas paredes de pedra. Eles seguiram o som. E como esperado, começaram a sentir o cheiro de musgo, de terra molhada.
Uma cascata imponente se descortinou na próxima curva. Branca, imensa, majestosa, a bruma das águas colando na pele. Caía formando espuma na piscina natural logo à frente, de uma cor tão turquesa que parecia saída de um quadro. Era cercada por enormes rochedos vermelhos e por árvores baixas, mas frondosas.
— Acha que é aqui? — Rina perguntou, esperançosa, elevando a voz para se fazer ouvir diante do barulho.
Hiei olhava ao redor, absorvendo os detalhes. À primeira vista, não havia sinal de vida por lá. Nenhuma habitação, nenhum objeto, nenhum rastro de energia. Mas ele captou algo no ar, estreitou os olhos, e se deixou guiar pelos sentidos.
— Venha — Hiei falou, se aproximando da cachoeira.
Rina o seguiu, o coração acelerado. O sol ia se pôr em breve, e tudo que ela queria era a certeza de que estavam no lugar certo. Que aquela não era mais uma armadilha.
Ele começou a seguir o contorno da piscina natural até chegar mais próximo dos paredões de pedra que protegiam o lugar. Ali, viu que a água seguia por um riacho, em uma trilha estreita, quase escondida, que continuava entre os rochedos.
Começaram a acompanhar as margens do riacho. A água tinha a mesma coloração fantástica, um azul-esverdeado cor de joia que contrastava com as pedras de tons terrosos.
Quando o cânion se afunilou demais, Rina e Hiei foram obrigados a molhar os pés e seguir por dentro do rio. A água alcançava os joelhos — menos fria do que Rina esperava — e ia ficando lentamente mais escura à medida que o sol descia no horizonte, jogando uma luz dourada na paisagem.
Depois de vários minutos, quando o som tranquilo da correnteza ia aos poucos substituindo o estrondo da queda d'água, eles atravessaram mais uma passagem estreita — dessa vez, tão apertada que precisaram andar de lado, os corpos quase se arrastando entre uma parede e outra. E, enfim, a trilha se abriu.
O córrego se alargou, as margens se expandiram e, ao fundo, algumas construções se elevavam sobre o rio, suportadas por estacas de madeira, como palafitas.
Rina prendeu a respiração. Eram casas. Uma vila. Estariam habitadas?
— O que querem aqui? — uma voz grossa veio de outra direção.
Os dois se viraram na mesma hora. Rina tocou na adaga presa na calça, Hiei deu um passo para frente dela.
O dono da voz estava à esquerda, a alguns metros de distância. Tinha cabelos grisalhos e desgrenhados, uma barba por fazer igualmente branca. As roupas compridas — calças e blusas de linho largas, cor de grafite — cobriam praticamente todo o corpo.
— Estamos procurando o xamã que alega manipular as Chamas Negras Mortais — Hiei falou.
O sujeito ficou em silêncio, os olhos espremidos como se decidindo se deveria responder.
— Como chegaram até aqui? Quem os enviou?
— Kangetsu — Hiei respondeu — Do templo na montanha.
O estranho balançou a cabeça em reconhecimento ao ouvir o nome. Pensou por mais um instante e enfim começou a se aproximar. Não portava nenhuma arma à vista, e as vestes simples também não pareciam esconder nada. Mas quando ele chegou perto, Rina notou as pontas dos dedos que escapavam pelas mangas compridas: a da esquerda, escura como a noite, enquanto a direita tinha o mesmo tom claro do rosto.
— É um demônio de fogo, não é? — ele falou, olhando para Hiei — Curioso. Tem décadas que não encontro um.
— Você é quem estamos procurando? — Rina perguntou, nervosa.
O céu ainda guardava um pouco da claridade do dia, mas o sol já estava escondido pelas enormes rochas que rodeavam o lugar, e tudo mergulharia no breu muito em breve. Mais um dia estava indo embora.
O homem olhou para ela por um instante, mas depois se voltou para Hiei novamente. O olhar recaiu sobre seu braço amputado.
— O que Kangetsu andou te contando? Que posso te dar um braço novo? — ele perguntou.
— Você pode? — Hiei perguntou de volta.
A cabeça do youkai se inclinou para o lado, medindo Hiei. Exalava uma aura fortíssima e não parecia nem um pouco com medo daquela interação — mesmo que a mão de Hiei estivesse sobre a espada o tempo inteiro, em uma postura tão defensiva quanto agressiva.
— Ainda que eu pudesse, por que acha que eu deveria? Esse tipo de controle não é para qualquer um.
— Eu não sou qualquer um — Hiei disse, em um rosnado baixo.
O xamã ergueu uma sobrancelha, um sorriso condescendente se abriu.
— Como se chama, demônio de fogo?
Ele hesitou um pouco antes de responder.
— Hiei.
— E ela?
Rina sentiu a tensão que já lhe era familiar, mas nada no rosto do homem dizia que ele a tinha reconhecido.
— Não importa quem ela é — Hiei falou, antes que Rina tivesse chance de responder. Não que ela estivesse disposta a se apresentar naquele momento, de qualquer forma — Não estamos aqui pra perder tempo. Responda a pergunta: pode ou não fazer algo pelo meu braço?
— Certo — ele concedeu — Sou Zennosuke, e sim, sou provavelmente quem Kangetsu estava se referindo. Ele não teria o orientado a me procurar se não visse algo em você. Mas primeiro me diga, Hiei: por acaso ao menos já domina a técnica das Chamas Negras? Consegue invocar o Dragão?
— É claro que consigo.
— Então me mostre.
Hiei fechou ainda mais o rosto, como se a mera dúvida do xamã fosse uma ofensa. Rina tinha certeza de que, em outra ocasião qualquer, Hiei diria que não precisava provar nada para aquele infeliz e iria embora. Mas aquela não era uma ocasião qualquer.
— Muito bem — Hiei falou, ligeiramente contrariado — Se afaste, se não quiser ser dizimado — ele disse para o xamã. E, virando-se para Rina, completou, em uma voz mais baixa — você também. Fique longe.
Rina assentiu. Deu alguns passos para trás, mas quando parou, Hiei mandou que se distanciasse ainda mais, o que ela fez. Foi para longe e esperou.
Então o Jagan de Hiei se abriu. Ele se concentrou, elevando o braço esquerdo.
A atmosfera começou a mudar. O vento já soprava, mas de repente aumentou. Virou rapidamente um vendaval, balançando todas as árvores e arrastando a água do córrego. Rina precisou proteger o rosto da poeira que se levantou.
Uma energia pesada cresceu ao redor. O ar ficou denso, raios cortaram o céu, agora escurecido. Trovões eclodiram, sacudindo o chão. Da mão esquerda de Hiei, labaredas enormes e arroxeadas irromperam. Elas não apenas iluminavam seu rosto; também pareciam consumir toda a luz ao redor. A terra debaixo dos seus pés estalou.
E, ao seu chamado, a energia se condensou. Um dragão surgiu.
Denso, negro, rasgando o ar. Uma massa de youki que serpenteava como se querendo devorar tudo, rugindo de um jeito que fazia o próprio cânion tremer, uma vibração que Rina conseguiu sentir dentro dos ossos.
Toda a cor fugiu de seu rosto com a visão. Ela perdeu o ar. A pressão a comprimia, esmagando seu peito, e ela ficou imóvel, cristalizada no lugar, assistindo a tudo sem conseguir desviar os olhos.
O animal avançou, destruindo tudo pelo caminho, até colidir em um dos paredões de pedra. O barulho da explosão engoliu todo o silêncio e a rocha simplesmente desapareceu com o impacto, como se nunca nem tivesse existido.
O dragão se desfez.
Rina ficou sem palavras, o pulso mais acelerado do que jamais esteve. Quando olhou para Hiei de novo, o braço esquerdo dele estava parcialmente chamuscado, os dedos travados como se em dor. Ele tentou disfarçar, mas Rina notou um pequeno espasmo muscular.
— Interessante — Zennosuke falou, chegando mais perto — Tem falhas, mas não é ruim para um demônio jovem como você.
Hiei ouviu aquilo em silêncio, o rosto todo contraído e os olhos fulminantes. Rina achou que ele iria atacar o outro demônio ali mesmo.
— Por que você não mostra o que consegue? — Hiei exigiu — Nunca soube de nenhum outro youkai que tivesse conseguido acessar as Chamas com sucesso.
O xamã o encarou, novamente o mesmo olhar calculado e o meio sorriso paternalista. A impressão era que estava avaliando cada gesto, cada palavra de Hiei.
— É isso que quer ver?
E, dizendo isso, puxou a manga esquerda da camisa.
Todo o braço, até onde se podia ver, era negro, com veias roxas subindo pela pele. Estava tudo opaco, mas de repente as veias se iluminaram, ganhando um brilho intenso. Logo todo o resto do braço pareceu acender também, como se estivesse em brasas — mas ao mesmo tempo, era etéreo, não mais sólido como antes. Chamas roxas surgiram de seus dedos, pequenas e controladas. E todo o membro se incendiou. Era tão perfeito que era difícil acreditar que ali debaixo não havia ossos, ou carne, ou ligamentos. Que era apenas youki solidificado.
Hiei assistiu à demonstração com um olhar compenetrado, a boca semiaberta, acompanhando a precisão com que Zennosuke fazia o fogo em sua mão se expandir ou retrair a seu critério, sem demonstrar nenhum esforço, fosse físico ou psíquico. Ao contrário das chamas de Hiei, que eram agitadas e agressivas, essas estavam em perfeito controle.
Rina chegou mais perto, curiosa. Só então notou que também havia um terceiro olho na testa do xamã, aberto e reluzente. Maior do que o de Hiei, com uma íris amarela que ocupava quase tudo. A energia que ele emanava era ainda mais poderosa agora, talvez até mais forte do que a que Hiei demonstrara com o dragão. Rina sentiu novamente a pressão no tórax, a garganta fechando. A aura podia não ser belicosa, mas era tão imponente que a dava calafrios.
E ela entendeu que o fogo que o xamã exibia não era menor por ser mais fraco; mas porque o poder que tinha sobre ele era absoluto. E que agora era parte integral do seu corpo.
— Como conseguiu isso? — Hiei perguntou. Tentava esconder o quão impressionado tinha ficado, mas havia um quê de ansiedade na voz que não conseguiu disfarçar por completo.
O braço do xamã voltou ao estado anterior — opaco, sólido, veias roxas. Tão rápido que era como se tivesse apertado um botão. O domínio que ele tinha era tão impecável que fez Rina se envergonhar das suas técnicas grosseiras. Mais do que isso, fez ela sentir, de um jeito amargo, o quão longe ainda estava do que podia ser considerado poder.
— Décadas de prática — Zennosuke respondeu, deixando a manga cair de volta.
— Me ensine — Hiei falou. O tom era imperativo, mas não escondia totalmente a urgência, a necessidade que ele tinha daquilo.
O que fez o xamã novamente erguer a sobrancelha.
— Já falei que não é tão simples assim. Por acaso acha que tem a resiliência necessária?
— O que você quer em troca?
Zennosuke riu, o som claramente desdenhoso.
— Acha que estou à venda? Sou apenas o condutor. Quem cobra o preço são as Chamas. Você como usuário deve saber disso.
— Como assim preço? — Rina perguntou, de repente ficando alarmada.
— Não importa — Hiei interferiu — Apenas diga o que é.
O xamã ficou calado, os olhos intensos analisando Hiei, ponderando. Rina podia sentir a tensão de Hiei naqueles breves segundos de espera, como estava se segurando para não expelir alguma arrogância.
— Onde conseguiu o Jagan? Ele não é natural — Zennosuke perguntou.
— O seu por acaso é?
— Responda a pergunta — exigiu, em um tom ríspido.
— Foi um transplante, feito por um cirurgião. Não sei onde ele conseguiu — Hiei respondeu, a contragosto.
Zennosuke permaneceu calado. Não esboçou nenhuma reação, como se a resposta não tivesse sido satisfatória. Ou como se fosse exatamente o que ele já esperava.
— E o seu? — Rina perguntou, movida pela curiosidade. Teria sido paciente de Shigure também?
— Nasci com ele.
Rina viu o espanto brotar no rosto de Hiei. Durou mais segundos do que ele costumava permitir.
— Então é assim que conseguiu dominar tão bem a técnica — Hiei concluiu em um comentário introspectivo, como se a informação só agora estivesse se encaixando — Jaganshis naturais são raros.
Mais uma vez, Zennosuke nada disse. Observou Hiei atentamente, por tempo demais, como se estivesse tomando naquele instante alguma decisão.
Até que o xamã ergueu os olhos, notando o céu já tingido pela noite.
— Como vieram por indicação de Kangetsu, podem ficar aqui esta noite. Amanhã conversamos, demônio de fogo. Não tenho um pupilo há anos, ainda não estou certo se quero um agora. Mas admito que aprecio sua determinação. E talvez as Chamas apreciem também.
Depois apontou para as casas de palafita sobre o rio, que Rina tinha visto ao chegarem. Agora eram meras sombras ao longe.
— As cabanas estão vazias, são parte de uma antiga aldeia abandonada. Ninguém reside aqui além de mim. Durmam onde preferirem.
Com um aceno, Zennosuke se virou para deixá-los. Rina e Hiei ainda o acompanharam em silêncio, até ele sumir entre as rochas, claramente preferindo o isolamento.
Rina olhou para Hiei, os olhos perguntando o que fariam agora.
— Vamos — ele falou.
Escolheram a primeira choupana que pareceu firme o bastante para conseguirem subir pela escada de cordas sem que arrebentasse. A cabana era simples, de madeira, com um cômodo principal e outros dois menores. Estava vazia, a não ser por algumas esteiras de palha no chão. Rina largou a bolsa no canto.
Depois de verificar a casa por dentro — não havia muito o que olhar de qualquer modo — Hiei foi para o lado de fora, onde uma plataforma de madeira se estendia na parte da frente, formando uma espécie de alpendre.
Se sentou ali, encostado na parede. Rina, sem saber muito o que fazer, o acompanhou.
Por um tempo, não falaram nada. Apenas observaram o céu cor de ametista pontilhado de estrelas, ouviram o barulho das águas batendo nas estacas logo abaixo.
— Eu não sabia que você podia fazer aquilo com o dragão — Rina falou — Por que nunca mostrou antes?
— Não é pra ser usado à toa, só quando é muito necessário.
Rina assentiu, distraidamente. Ainda pensava no poder que tinha presenciado, na forma como toda aquela energia condensada tinha comprimido suas costelas, roubado o ar dos seus pulmões. Ela sempre pensou que fosse poderosa, mas aquilo era outro nível. E a ideia de que os Yuuma de antigamente eram capazes de feitos ainda mais assombrosos do que aquele era tão terrível quanto era inebriante.
— Eu achei incrível… — admitiu, baixinho.
Hiei manteve o rosto voltado para a paisagem, mas um sorriso leve se desenhou de maneira discreta em sua boca.
— Se ele te aceitar como aprendiz… acha que teria que ficar aqui por anos? — ela continuou.
— Não vou precisar de tanto tempo.
— Ele disse que levou décadas.
— Virei mestre das Chamas e aprendi a controlar o Dragão em bem menos tempo que isso.
Rina concordou, sem saber como argumentar. Ele provavelmente estava certo. Tinha visto Hiei fazer mais coisas com um braço só do que a maioria das pessoas era capaz mesmo tendo os dois. Não duvidava que ele conseguiria superar Zennosuke. Não duvidava nem um pouco.
Ela voltou a mergulhar no silêncio. O vento estava tranquilo, mas soprava em rajadas fortes de vez em quando. Rina dobrou os joelhos na frente do corpo, os envolveu com os braços. Não tinham uma fogueira naquela noite para se aquecer e o frio começava a se alojar. Ela sentiu o corpo tremer.
— Acha que estamos seguros aqui? — Rina perguntou, com medo da resposta.
Espiou Hiei de lado. Mesmo ali, ele não havia relaxado completamente. Os olhos continuavam atentos, a postura continuava prestes a desembainhar a espada no menor ruído suspeito.
— É cedo pra dizer — ele respondeu — Mas você pode deitar. Eu fico de vigília essa noite.
Os olhos de Rina se guiaram novamente até Hiei. Ele a evitou.
— Nós podemos revezar.
— Estou sem sono.
Ela ficou quieta, pensativa. Não era insônia, ela sabia. Hiei estava em um estado hipervigilante desde que saíram daquela caverna, quase neurótico.
— Você não tem culpa por aquela emboscada — Rina arriscou, tentando ver sua reação.
— Eu nunca falei que tinha.
— Por que parece que está tentando compensar então?
Hiei se virou tão rápido que Rina até recuou involuntariamente. Algo na maneira como a encarava a fez segurar a respiração por um segundo ou dois, como se o tivesse acusado de algum crime.
— Eu não estou compensando — respondeu, os dentes trincados — Por que tem que questionar tudo, Rina?
"Porque eu não vou aguentar ver você morrer na minha frente de novo, seu imbecil," foi o que Rina pensou, mas não conseguiu articular. Será que Hiei não entendia que era ela quem se sentia culpada?
— Eu não sou sua responsabilidade, Hiei.
A expressão dele endureceu. As palavras seguintes saíram graves, difíceis.
— Enquanto estiver comigo, você é.
— Logo não vou ser mais — ela falou. Talvez mais para si mesma do que para ele.
Hiei soltou o ar com força. A mandíbula ficou rija como aço, travada.
— Vá dormir — Hiei disse, mais um comando do que um conselho — Depois resolvemos isso.
— Já está resolvido.
E sem esperar que ele retrucasse novamente, Rina se levantou para o deixar sozinho, o coração feito um tambor dentro do peito. Mas antes de entrar no casebre, a mão dele a agarrou.
Rina olhou para trás. Ele estava de pé, a encarando com aquele jeito intenso, algo obscuro por trás do semblante fechado.
Hiei fez menção de abrir a boca, mas em vez disso só cerrou os dentes, deixando-os à mostra. Algo passou pelos seus olhos, algo passageiro, mas inconfundível. Era medo.
— Eu não preciso — Rina começou, mas parou no meio da frase. Chega de rodeios — Eu não quero sua proteção, Hiei. Não posso deixar que você continue se arriscando por mim! Não vou conseguir carregar esse peso na minha consciência!
— Existem ameaças que você não entende. Perigos que não está acostumada.
— Eu não ligo. Prefiro encarar o que quer que seja sozinha do que ficar me preocupando com você.
Os olhos de Hiei escureceram. A mão apertou ainda mais sua pele. Rina podia ver o conflito estampado na face dele, a indecisão de quem carrega palavras difíceis de soltar. Ela não sabia que palavras eram essas — e também não estava certa se queria saber. Seu coração já tinha dúvidas o suficiente.
Tentou desviar o rosto, mas a imagem dos olhos dele já queimava em sua mente. Ela achava que partir seria a coisa certa a fazer. Mas, pela primeira vez, teve a terrível sensação de que aquele adeus seria um erro do qual jamais se recuperaria.
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