Visceral

14 Conflagração


Notas iniciais
Perdão pela demora! Não abandonei de novo a fic não, é só falta de organização de minha parte, de tempo livre e às vezes, de inspiração. Mas tá tudo certo, vamos em frente.

Hiei já havia decorado cada centímetro daquele teto. Cada fissura, cada sombra, cada poeira acumulada nas frestas da cela que Mukuro o havia jogado.

O tempo ali não seguia lógica. Era impossível saber quantos dias haviam se passado desde a última vez que estivera fora da prisão. A cela, sem janelas, nem mesmo o ajudava a distinguir com clareza o dia da noite. Sua única orientação era notar a movimentação dos soldados, os sons vindo dos andares acima dele, as nuances que havia aprendido a identificar.

Incômodo maior, no entanto, era o antebraço direito, que teimava em doer de tempos em tempos — outro fato que desafiava a lógica. Automaticamente levava a mão esquerda até o lado dolorido, apenas para se dar conta de que não havia mais nada lá e que a sensação estava apenas na sua cabeça. Se irritava, não apenas pela ausência do membro, mas pela mente pregando peças.

A amputação, na altura do cotovelo, tinha demorado para cicatrizar. Sabia que havia sido levado para a enfermaria e tido o corte cauterizado mas, apesar de sua regeneração costumar ser rápida, dessa vez ela foi lenta e arrastada. Por semanas, a ferida persistiu, deixando a pele avermelhada e sensível. Ocasionalmente, um filete de sangue surgia de dentro da ferida, que, por muito tempo, se recusou a fechar. E, quando finalmente isso aconteceu, deixou a pele marcada por crostas escuras e irregulares.

A explicação, Hiei logo descobriu, estava nos ofudas presos no alto da grade. Como da primeira vez, tinham sido colocados como uma garantia extra para segurá-lo em sua cela. Porém dessa vez eram diferentes. Mais fortes. Mais numerosos. Mais mágicos. Mukuro tinha reforçado a proteção depois de sua primeira fuga e conferido aos papéis pintados à mão mais do que uma capacidade bloqueadora; eles agora também o drenavam.

Isso justificava não apenas o atraso da cicatrização, mas também o cansaço fora do comum que vinha sentindo, e, principalmente, a sensação constante de que sua força havia sido reduzida a um décimo do que costumava ser. Usar o Jagan estava fora de cogitação. Hiei sentia-se sem energia. Esgotado. Talvez a lâmina de Shigure também tivesse contribuído — sabia que a espada circular do cirurgião-guerreiro tinha propriedades singulares que nem ele mesmo entendia — mas Hiei sabia que eram os talismãs de Mukuro os principais culpados.

Ao menos agora não havia mais uma corrente amarrando sua perna ou qualquer outra parte do corpo. Dessa vez, podia circular livremente pelos poucos metros que tinha a disposição, chegar perto da grade e explorar as paredes. Continuava, no entanto, mais restrito do que nunca — cortesia dos ofudas.

Se mantinha deitado praticamente durante todo o dia, porém mais por pura teimosia que por necessidade ou pela fraqueza. Simplesmente recusava-se a interagir com qualquer um dos sentinelas que raramente passavam pelos corredores da masmorra.

Não que recebesse muitas visitas, de todo modo. Mukuro provavelmente havia proibido qualquer um de interagir com Hiei depois do fiasco da última vez. Ainda assim, ocasionalmente via o rosto de algum guarda pelo canto do olho, seja fazendo a ronda, cumprindo alguma obrigação qualquer ou vindo entregar a única refeição do dia a que tinha direito.

E mesmo com a proibição da rainha, alguns arriscavam uma provocação. O chamavam de nomes, o atiçavam para uma luta, perguntavam onde estava sua espada — essa, claro, já bem longe de sua vista, talvez descartada ou até mesmo quebrada. Mukuro realmente havia aprendido sua lição dessa vez. Perguntavam também sobre suas chamas, as mesmas que haviam ceifado a vida de Yano. Hiei sentia a raiva consumi-lo quando ouvia a pergunta, mas não lhes dava o gosto de ver sua impotência. Continuava deitado, as costas para a grade, esperando que cansassem.

Naturalmente, havia tentado conjurar seu dragão durante a reclusão, ou ao menos produzir alguma faísca. Mais de uma vez. Mas o poder estava adormecido, fraco demais, quase inexistente — outra precaução de Mukuro transformada em tortura. Tudo que Hiei havia se sacrificado tanto para conseguir — o controle das chamas mortais, seu terceiro olho, os níveis elevados de energia — lhe tinha sido roubado.

Era só durante a noite que ele se levantava. Aproveitava-se da certeza de que não seria importunado para treinar movimentos com a mão esquerda, algo que havia sido negligente nos últimos anos e que agora cobrava seu preço.

Apesar de ter certa habilidade com os dois lados — anos de uma vida em combate o havia ensinado a importância de ser ambidestro — a mão direita sempre fora sua dominante e se apoiava nela para a maioria dos seus golpes, desde o manejo com a espada até o domínio das Chamas Negras. Mas agora era evidente que isso teria que mudar se pretendia sair dali.

E ele pretendia.

Praticava socos, equilíbrio, métodos de combate. Não havia nada que pudesse simular o peso e forma da katana e, portanto, o treino não era tão completo quanto gostaria; ainda assim, ia aos poucos se acostumando com sua nova mobilidade e explorando as possibilidades com esse lado do corpo.

Era nas madrugadas também que pensava em quão injusta havia sido Mukuro por tentar incapacitá-lo daquela forma. Teria sido mais honesto que o matasse de vez, ou que o deixasse se defender com uma luta, mas ela nunca faria isso: não arriscaria vê-lo vencer seus soldados sozinho, um a um. Também, ao mesmo tempo, não o deixava morrer. Piedade? Ou apenas covardia?

No entanto, apesar de toda sua motivação, as semanas e meses se arrastavam. O silêncio da cela, por vezes, se tornava insuportável até mesmo para ele. Hiei não tinha a paciência nem a genialidade de Kurama, e não era raro ficar entediado por causa do espaço apertado a que tinha direito e pela ausência de notícias.

Com tanto tempo sozinho, era inevitável que seus pensamentos se voltassem para Rina. Não ouvia sobre ela desde quando tentou escapar a primeira vez. Perguntar era inútil, servia apenas para zombá-lo ainda mais. Ninguém daria respostas, e, se dessem, ele provavelmente não confiaria.

Portanto, durante esse tempo, havia formulado duas hipóteses: A primeira era que Rina deveria estar muito longe dali. Durante sua fuga malsucedida, e consequente captura, tinha visto que ela estava ilesa e, apesar de algemada, andava livre. Sem soldados a segurando. Sem estar trancada em uma cela. Então talvez não tivesse mais serventia para Mukuro e tinha sido liberada. Ou até mesmo tivesse conseguido fugir por conta própria — Rina sabia ser sorrateira, ainda mais podendo se camuflar quando queria. Seria uma tola se ainda não tivesse se aproveitado.

Era isso ou estava morta. Fosse por problemas médicos ou por ordens de Mukuro.

De qualquer maneira, julgava que sua chance de encontrá-la novamente era nula, e que Yusuke teria que se contentar com o trabalho feito pela metade.

Mas isso, com o tempo, foi deixando sua mente. No momento, se preocupava mais com sua própria sobrevivência, sua própria maneira de escapar dali, sua chance de recuperar suas forças. Com os treinos noturnos.

E foi numa das muitas madrugadas que passou acordado que ouviu o estrondo que o fez parar de imediato com qualquer outra coisa que roubasse sua atenção. O barulho soou longe e perto ao mesmo tempo, e ele ficou parado, olhando para o canto superior direito da cela na expectativa de pressentir alguma coisa.

O que seguiu, no entanto, foi um silêncio prolongado e assustador.

(…)

Rina apertou com força a faca que Shigure havia esgueirado para ela em sua última visita. Era uma faca de combate, não tão pequena quanto a adaga que costumava usar antigamente, mas era robusta e, pelo que ela podia perceber, afiada o suficiente.

Tinha passado as últimas duas noites em claro e sozinha na ampla câmara que servia de quarto. Não por ansiedade ou qualquer coisa do tipo, mas simplesmente porque temia perder a mínima chance que teria para escapar dali. Segundo o youkai cirurgião, eram altas as possibilidades de a fortaleza sofrer um ataque nos próximos dias, e ela poderia aproveitar a confusão para tentar a liberdade.

Não conseguia acreditar que Mukuro não estivesse a par de tal ataque, caso ele viesse mesmo a ocorrer, nem que seu exército não tivesse as estratégias corretas para conter algo desse tipo, mas o que ela sabia? Por via das dúvidas, optou pela vigília.

Durante os dois últimos dias, também não foi importunada. Não recebeu visitas de Mukuro nem foi solicitada a ir ao laboratório depois da visita de Shigure, e assim, as últimas 48 horas haviam passado mais devagar do que de costume.

O silêncio era mais incômodo do que confortante. Servia apenas para que a cabeça de Rina fosse preenchida pelas palavras de Shigure, que se misturavam às lembranças confusas e aos planos igualmente abstratos que ela havia traçado.

Ora pensava em Hiei, ora questionava seu propósito ali no Makai, ora contemplava a própria morte. Havia a convicção de estar sendo usada por Mukuro para planos cujos propósitos sequer compreendia, assim como a raiva pela própria incapacidade de lidar com a situação.

De fato, a vida entre os demônios era muito diferente da vida entre os humanos. Era muito mais visceral.

Os olhos se arregalaram, no entanto, quando seus ouvidos captaram o que parecia ser o estalo de múltiplas explosões ecoando pelas profundezas da fortaleza. E, junto com os olhos, todos os seus sentidos igualmente se aguçaram. A frieza do metal da faca em sua mão a trouxe de volta à realidade e ao que de fato importava.

Sair dali.

(…)

Do lado de fora, a noite era fria e nevoenta, até mesmo para os parâmetros do Makai. Lideranças de vários reinos menores se reuniam sob a iluminação fraca de pequenas lamparinas, já que a lua estava completamente encoberta naquela madrugada. Um mutirão de milhares se formava ao redor deles, composto de lacaios e demônios comuns em sua maioria, mas junto de pelo menos cinco dezenas de guerreiros experientes.

Já haviam debatido o assunto centenas de vezes, inicialmente de maneira informal, como mera reclamação, até que aos poucos começarem a se organizar organicamente.

Assaltar a fortaleza de Mukuro era um ato ousado, até mesmo insano, diziam alguns. Ninguém queria a inimizade da rainha, muito menos achavam que teriam poder de fazer alguma coisa antes de serem sumariamente massacrados.

No entanto, o passar dos meses alimentou os rumores de que a herdeira Yuuma estaria se aliando a Mukuro. Junto com os rumores, cresceu também o rancor daqueles que se sentiam traídos. Mukuro devia ter se livrado dela como falou que faria, e não ter dado abrigo, teto e comida por tanto tempo. Estava claro que não podiam mais confiar na governante.

Além disso, o próximo torneio estava cada vez mais perto. Temiam que a aliança com a Yuuma não passava de um estratagema de Mukuro para garantir o primeiro lugar. Talvez forçar Enki a renunciar ou até mesmo acabar com a competição de uma vez por todas e reinar absoluta, jogando por terra qualquer chance de que outros pudessem vir a governar o Mundo dos Demônios.

O plano precisava ser simples, pois não seria eficaz elaborar uma estratégia muito complexa com uma multidão tão diversa quanto a que haviam reunido. Invadiriam a fortaleza, procurariam a youkai que consideravam uma abominação e dariam no fora, de preferência somente após terem cortado o pescoço da infeliz. Precisavam ter certeza que aquela linhagem continuaria extinta.

Não esperavam que tal ataque seria fácil de lograr; era difícil guardar segredos dessa magnitude naquelas terras e Mukuro certamente já esperava por tal investida. Por isso, separariam os flancos e abordariam a estrutura móvel por lados diferentes, na expectativa de dividir as defesas e abrir as brechas necessárias.

A maioria daqueles demônios reunidos ali morreria na primeira espadada, mas os líderes já contavam com isso. Buscavam apenas números para causar a algazarra necessária para deixar o caminho livre para que os guerreiros, estes sim com alguma chance real, tivessem êxito.

E naquela madrugada, quando tudo já estava silencioso e vazio na fortaleza, sacaram os artefatos explosivos preparados de antemão e, em sincronia, deflagaram o ataque planejado.

(…)

Hiei reconhecia o som de uma batalha a léguas de distância. Não precisaria presenciar a detonação para ter uma ideia do que estava acontecendo: uma invasão. E das grandes. Mas os soldados de Mukuro tinham um treinamento decente, seriam capazes de conter um ataque, dependendo de quão organizado fosse o inimigo. Pelo menos era o que Hiei acreditava.

Não que ele se importasse muito com a fortaleza em si ou com o exército que a defendia. Na verdade, tudo aquilo era irrelevante. Mas para ele, importava o quanto aquela nova situação poderia afetá-lo — para o bem ou para o mal.

Veio mais um estampido. O teto da cela se abalou, fragmentos se descolaram e estalaram no chão aos milhares. Após o longo silêncio, agora ele tinha o oposto, um barulho de fundo que mais parecia uma trilha sonora difusa de gritos e ranger metálicos.

Hiei fechou o punho quase por instinto, mas logo sentiu um pouco de dor e afrouxou os dedos em resposta, seguido de um resmungo. Desejou não ter se exaurido tanto nos treinos da madrugada, muitas vezes se forçando a ir além do que aguentava. Agora que precisaria estar em sua melhor forma, o corpo protestava.

A violência dos corredores da fortaleza continuava chegando até ele através de vibrações surdas que percorriam paredes, teto, toda a estrutura. Ele ainda não sabia exatamente o que motivava aquilo — o uso do seu Jagan continuava bloqueado pelos amuletos no alto das grades que o continham, e aquilo não ajudava em nada a melhorar seu humor.

Mas sabia que não era uma boa ideia continuar ali. Qualquer desordem do lado de fora era uma excelente oportunidade a ser aproveitada e ele não iria permanecer contido em seu canto sem usar isso a seu favor.

No quarto, talvez quinto estrondo, algo mais do que fragmentos de pedra caiu do teto. Se desprenderam também alguns dos selos, soltos pelo baque. Hiei estreitou os olhos. Aguardou. Prestou atenção em seu corpo, notando como sua energia voltava aos poucos, os ofudas perdendo a força.

As paredes voltaram a estremecer, os estampidos cada vez mais frequentes, as explosões uma atrás da outra. Mais papéis se descolaram. Agora restavam apenas alguns — insuficientes para o segurarem. Hiei sentiu todo o corpo se aquecer com o youki que voltava a circular, as dores sendo esquecidas, o vigor de sempre retornando.

Um sorriso se formou, satisfeito e um pouco cruel. Reuniu a energia e a concentrou no punho. Ela pulsava, ainda mais potente do que se lembrava.

Se virou para a entrada da cela e jogou o cotovelo para trás preparando um soco, mas antes que completasse o movimento, um grupo de youkais surgiu pela escada do calabouço.

Os demônios vinham correndo, afobados e quase se atropelando um ao outro. Praticamente caíram sobre as barras, se empurrando como se não houvesse tempo a perder com boas maneiras, todos falando ao mesmo tempo, irritadiços e apressados.

Hiei parou por um instante, atônito, e um dos youkais fez o mesmo, olhando diretamente para ele, único ocupante da cela. Contraiu o cenho, confuso. Chegou a abrir a boca, e Hiei não sabia se eles estavam ali por causa dele ou não, mas não fez questão de descobrir.

Lançou o soco interrompido direto no centro da grade, a pressão do golpe atingindo de uma vez só todos os demônios que se aglomeravam por trás, a maioria sem sequer entender o que havia acontecido.

Os nós dos dedos arderam, mas ele ignorou. Deixaria a dor para depois. Naquele momento o senso de urgência que tomou conta de Hiei era muito superior e ele repetiu o soco com tamanha rapidez que as barras da cela cederam antes que qualquer um dos demônios pudesse reagir.

A grade desabou, caindo sobre os youkais e ferindo alguns deles. Hiei passou por cima, ouvindo alguns resmungos mas decidido a não dar atenção. O que quer que estivesse acontecendo, não era problema dele. Andou até a escada sem sequer olhar para trás.

Já sem paciência, subiu os degraus em disparada, os pés mal tocando o chão. Só queria encontrar uma espada adequada e partir dali.

(…)

A fortaleza estava mais silenciosa e vazia do que Hiei esperava, dado os estrondos que havia escutado antes. Ao menos os corredores pelos quais passou estavam desertos — certamente os invasores haviam atraído todo o exército de Mukuro para os pontos de explosão, não sobrando ninguém para patrulhar o restante da fortificação.

Mas as consequências estavam em toda parte. Móveis quebrados, manchas e rachaduras nas paredes, o cheiro acre da pólvora ainda permeando o ar. Pilastras ameaçavam ruir. Algumas portas estavam arrombadas, arrancadas das dobradiças. O impacto também fez com que janelas se estilhaçassem, e agora cacos de vidro se espalhavam pelo chão.

Ele nunca tinha visto a fortaleza naquele estado.

No entanto, nada disso o interessava. Hiei conhecia os caminhos daquela fortificação como ninguém e ele os percorreu com pressa, tentando pensar qual seria a melhor rota. A entrada principal certamente estaria tomada, e, com base nos tremores que sentiu ainda na prisão, os lados oeste e leste também estariam ocupados. Os corredores internos também não tinham janelas para o exterior e somente as passarelas superiores se abriam para o pátio.

A ideia mais conveniente era a de alcançar o deck de observação no terraço, de onde poderia saltar para fora da estrutura. Para isso, porém, teria que cruzar todo o passadiço entre as alas norte e sul, um dos principais acessos da fortaleza. E esse, dificilmente estaria deserto.

Conformado, cerrou o punho e se dirigiu para lá, pronto para explodir em um soco quem ousasse se pôr em seu caminho.

(…)

Rina se aproximou da entrada da câmara que habitava, procurando apurar os ouvidos. Havia uma gritaria acontecendo em alguma parte da fortaleza, mas longe o bastante para chegar até ela apenas como ruídos pequenos.

Sentiu então o que há muito não sentia, uma espécie de clareza mental como se todo o corpo houvesse despertado de uma vez só. Estava há tanto tempo presa na rotina burocrática de Mukuro que seus instintos haviam também adormecido. Mas agora gritavam, inflamados pela ação. E a urgiam para agir.

Ela tocou na porta e notou que estava destrancada. Aquilo nunca havia acontecido — Rina já havia checado aquela possibilidade tantas vezes no passado que nem sequer cogitara que ela poderia ser real. No entanto, dessa vez ela era.

Um descuido dos seguranças ou uma ajuda de Shigure? Possivelmente a segunda opção, mas ela não passaria muito tempo pensando nisso. Qualquer que fosse a razão, pouco importava agora.

Abriu a porta aos poucos, a audição mais apurada do que nunca. Escapuliu depois de se certificar que os sons continuavam distantes. Pela primeira vez em meses, estava do lado de fora do seu quarto sem escolta.

Se permitiu ficar um ou dois segundos ainda parada ali do lado de fora, contemplando a sensação. Apertou a faca na mão com prazer. Um sorriso felino se abriu em seu rosto e uma parte dela chegou a torcer para que alguém viesse a seu encontro apenas para que ela pudesse usar a lâmina e aproveitar aquele ímpeto explosivo de adrenalina. Mas seu raciocínio afiado também havia retomado com força, e ela tratou de cair na real e sair de perto da câmara, fazendo o único caminho que ela sabia de cor naqueles corredores.

Se camuflou da melhor maneira possível, sem se importar se a técnica estava impecável ou não. Em seu favor, estava o caos que começava a se espalhar na fortaleza e a certeza de que, em meio à confusão, muitos não prestariam atenção ou teriam tempo de entender o que seria aquela sombra deslizando rente às paredes.

Sabia que Shigure havia aconselhado que focasse na sua fuga apenas, mas havia outra coisa que precisava fazer antes.

Então percorreu o trajeto que tinha na cabeça. Precisou desviar de alguns demônios caídos, evitando até mesmo os que pareciam desacordados. Viu alguns rostos conhecidos, de soldados de Mukuro, mas a atenção deles estava voltada para outro lugar. Ela sabia, no entanto, que logo descobririam sua fuga. Precisava ser rápida.

Seguiu em frente, com a sensação de que sua habilidade, por tanto tempo adormecida, estava agora extremamente refinada, como se quisesse compensar pelo tempo perdido.

E assim, em dois tempos, Rina alcançou o laboratório de Mukuro. Torceu para que estivesse vazio. Mas se não estivesse, não tinha problema.

Rina saberia improvisar.