Visceral

9 Cicatriz


Notas iniciais
Oie... voltei! xD Se você lia essa história antes e voltou para continuar acompanhando, fica aqui as minhas sinceras desculpas pelo hiato prolongado e meu agradecimento por você estar de volta. Se chegou agora, seja bem-vindo(a) =)

Achou que fosse a febre — só podia ser — fazendo-a ver e ouvir coisas. Mas o demônio que se intitulava cirurgião continuava sentado do outro lado das barras, observando-a com uma atenção incomum e claramente esperando por algo. Rina olhou para Hiei. Ele evitava seu olhar. Estava por conta própria agora.

— Quer que eu te convença a me ajudar, é isso? Se o meu motivo para continuar viva for bom o bastante, vai salvar minha perna.

— Em termos simples, sim — Shigure respondeu.

Ela inspirou fundo. A dor voltou a ferroar a perna, fazendo-a se lembrar que não estava em condições de discutir. Como o próprio médico havia falado, estava com poucas opções se queria sobreviver. Ainda assim, ela ponderou por mais um pouco, pensando meticulosamente no que compartilhar.

— Se precisa saber… — murmurou, fechando os olhos por um segundo, contrariada — a única razão pela qual aceitei essa jornada por uma terra estranha, e que agora me obriga a pedir ajuda a um desconhecido, é simples. Quero encontrar a pessoa que diz ser responsável por minha origem.

Ela fez uma pausa.

— E matá-lo.

Hiei lançou um olhar oblíquo para Rina. Era a primeira vez que ouvia aquilo. Pelas sombras, ela podia ver as sobrancelhas franzidas e o olhar indócil do demônio. Dessa vez, foi ela que optou por ignorá-lo.

— Por que deseja fazer isso? — Shigure perguntou.

— Porque ser uma youkai sempre foi uma maldição pra mim — disse, a voz deliberadamente sem emoção, como se tivesse aprendido que sentir só tornava tudo pior — Só me trouxe problemas. Acho que ainda não deixei claro, mas não nasci no Makai, como vocês. Nasci e cresci entre humanos, que não faziam ideia da minha condição. Nem eu mesmo sabia. Passei a vida inteira sem saber o que eu era. Só sabia o que eu não era: normal. Carreguei o fardo de ser diferente sem entender por quê. Ninguém sabia lidar com isso. Nem eu.

— Entre humanos? Curioso… — Shigure falou, olhando fascinado para Rina.

O cirurgião olhou para Hiei, como que se buscando uma confirmação. Ele se limitou a menear a cabeça em concordância.

— Como isso aconteceu?

Ela deu de ombros. Yusuke tinha explicado, mas estava cansada demais para lembrar dos detalhes.

— Eu não sei. Ou não lembro. Não me importa. O que importa é o que isso fez comigo… E durante anos, eu não fazia ideia do que estava errado. Sentia coisas que ninguém ao meu redor parecia sentir. Minha energia… era como uma sombra que eu não podia afastar.

Fez uma pausa, como se buscando as palavras.

— Nunca conheci meus pais — continuou, a voz falhando — Cresci em orfanatos, pulando de um em um, com famílias provisórias e lares temporários. Ninguém queria alguém como eu por perto. Não estavam errados. Eu também não queria.

Ela desviou o olhar e aguardou, mas ninguém disse nada. Nem Shigure, nem Hiei.

— Assim que aprendi a controlar essa minha energia, a primeira coisa que fiz foi suprimir ao máximo. Ocultar. Pra mim, era uma vergonha. Um estorvo. Eu odiava o que sentia. O que era. E achava que, se ninguém percebesse, talvez eu também pudesse esquecer que ela existia.

Rina manteve os olhos fixos em lugar nenhum. O peito ardia. Todas as memórias sufocadas voltaram em cascata na mente. Tentou estancá-las, mas estava impotente demais. Uma lágrima escorreu sem aviso. Ela a enxugou com raiva.

— Me tornei boa em esconder, em reprimir, em tentar ser o que esperavam de mim. Em fingir que era como todo mundo, que não tinha algo profundamente errado comigo. Mas isso levou anos. E enquanto não conseguia… — balançou a cabeça, como se afastando memórias — qualquer coisa era motivo para todo tipo de abuso. As pessoas tinham medo, e quando elas têm medo, elas sentem raiva. Raiva do que é diferente, do que não entendem. E mesmo sendo uma criança, isso não me poupou de ouvir que era uma aberração, ou que…

A cela ficou em silêncio por mais um tempo. A respiração de Rina era fraca, e ela teve que fazer força para se manter acordada. Todo o ambiente parecia mais escuro e ela agora mal conseguia distinguir as figuras de Hiei e Shigure. Tentou manter segura a adaga, mas os dedos estavam fracos demais e ela ameaçava escorregar.

Fechou os olhos. E quase achou que não iria conseguir abri-los de novo.

— Por anos, eu procurei uma razão pra ser quem eu sou. Aprendi alguns truques ao longo do caminho — continuou — Um deles é desaparecer. Sumir. Literalmente. Quando se é pequena e indefesa, ser invisível é o mais próximo que se chega de estar segura. Hoje uso isso pra ter vantagem. Mas no começo… era só pra não ser vista.

Ela precisou interromper a fala novamente. A dor pulsava na perna.

— Quanto mais pessoas eu conhecia, mas eu percebia que meu lugar não era entre elas. E de tanto insistirem que minha natureza era maligna… eu acreditei. E finalmente passei a revidar. As pessoas não podem mais te machucar se elas estão mortas.

Outra pausa. Demorada, dessa vez. Rina tentou umedecer os lábios, mas toda a boca estava seca. A garganta arranhava.

— Enfim. Acho que você entendeu. O problema é que nunca consegui descobrir nada sobre mim. Esses anos todos. E quando tinha desistido de procurar… ele me encontrou — As últimas palavras saíram de sua boca com repulsa. Optou por manter os olhos fechados antes que ficassem embaçados demais — Quem diria, não é mesmo? Um parente youkai achou que era hora de mandar lembranças vinte e tantos anos depois.

E Rina ergueu debilmente a adaga de novo, como que para ilustrar suas intenções.

— Parente?

— Pergunte ao Hiei — ela tentou vociferar. A voz, no entanto, saiu quebrada, quase rouca — ele que foi pago pra me levar até ele. Mas Hiei não estava ciente das minhas intenções — Rina acrescentou — Tudo que sei é que seu nome é Haru e está esperando por mim. Então, se acha que eu não mereço, me deixe morrer aqui. Mas se me der essa chance, vou até o fim. E vou mandar o filho da puta responsável por isso direto pro inferno de onde ele nunca devia ter saído.

Silêncio novamente. Acima deles, somente o zunido da lâmpada fraca.

— Quem está procurando por ela, Hiei?

Hiei grunhiu em retorno, contrafeito.

— Não conheço, mas Kurama diz que ela pode ser descendente do clã Yuuma — explicou — um sobrevivente do clã quer Rina de volta. Estou levando ela até lá. Como ela mesmo falou, não sabia dessas intenções. E sinceramente, isso pouco me importa. Só quero terminar o trabalho.

Shigure estreitou os olhos. Sua testa se franziu.

— Tem certeza de que esse era o nome do clã?

Hiei deu de ombros.

— Foi o que Kurama e Yusuke falaram.

Shigure ficou calado por um momento. Um momento mais longo do que devia, na opinião de Hiei, considerando a urgência da situação. Quanto mais tempo ele precisava para tomar uma decisão? Mas Hiei se conteve, apesar de não conseguir esconder a dureza do olhar em cima do médico. Os segundos perduraram por horas.

— Peço que me aguardem — Shigure disse ao se levantar.

Subiu as escadas com passos pesados, deixando os dois na penumbra.

Hiei voltou-se para Rina. Ela parecia dormir, com a cabeça jogada para trás e os olhos fechados. A perna estava coberta por novas feridas rubras, em contraste com as antigas, já escuras e ressecadas. De tempos em tempos, um espasmo percorria seu corpo.

— Rina — ele chamou. Ela abriu os olhos debilmente e se virou para ele — Por que não falou a verdade para Shigure?

Ela ficou parada. O olhou demoradamente, quase como um desafio.

— Eu não menti. Pretendo matar o desgraçado.

— Não estou falando disso — Hiei disse, a voz baixa, mas firme — Sua história. Parecia um roteiro ensaiado.

Rina desviou o olhar.

— Talvez fosse — murmurou, a voz murcha — E daí?

— Desde quando você é de se fazer de vítima?

— Me deixe em paz, Hiei.

— Se vai mentir, ao menos faça direito.

Ela fechou os olhos por um momento. Ficou assim por alguns segundos.

— Eu não devia ter contado nada.

Ele não perguntou mais, Rina também não explicou. Mas o silêncio que ficou entre eles depois disso não era o mesmo de antes.

E assim Rina desmaiou sem que ele nem mesmo percebesse.

(…)

Rina não se lembrava exatamente de como havia ido parar ali. A primeira coisa que notou, antes de mais nada, foi que as dores haviam diminuído. Tentou se levantar por reflexo, mas o corpo não respondeu. Estava pesado demais. Queria sentir a perna e ver seu estado; nenhum dos membros, no entanto, a obedeciam. Soltou um gemido, insatisfeita.

— Como está se sentindo?

Ouviu a pergunta em uma voz grossa, de um lugar que ela não conseguia ver. Reconheceu aquela entonação, mas não de imediato.

— Não sinto nada — respondeu. A voz saiu rouca, esfarelada, como se não fosse dela.

— Ótimo.

Os outros sentidos voltaram aos poucos. Havia um cheiro que lembrava álcool etílico no ar, e um chiado que poderia ser eletrônico, se não fosse tão etéreo. Na boca, havia resquícios de um sabor alcalino. O ar era gelado.

— Onde eu estou? — ela perguntou, sem ter certeza se o dono da voz continuava ali. Não ouvia nada a não ser o chiado.

Ninguém respondeu. Ela esperou por um tempo, forçando inutilmente o pescoço a mudar de posição. Do jeito que estava, tudo que conseguia enxergar era um teto elevado e iluminado. Ficou assim por um tempo que não soube discernir. Como se a realidade estivesse do outro lado de um vidro grosso que ela mal conseguia enxergar.

— Vou precisar que fique acordada agora — a voz pediu, e Rina percebeu que havia fechado os olhos. Os abriu, piscando até tudo voltar ao foco. A luz forte do teto iluminava tudo.

Agora podia ver que a voz era do youkai alto com quem havia conversado antes. O cirurgião estava ao seu lado, o rosto voltado para a parte de baixo do corpo de Rina. O semblante era sério e compenetrado. Sabia que ele estava trabalhando sobre suas pernas, mas sequer sentia o toque do demônio.

— Você me sedou?

Shigure não respondeu de imediato. Trocou os instrumentos com cuidado.

— Você desmaiou. O sedativo foi apenas para te manter imóvel e impedir que piorasse. Estava tendo muitas contrações.

— Então vai conseguir me curar?

Shigure não respondeu. Manteve-se ocupado sobre o corpo de Rina, virando-se apenas para trocar de instrumentos ou aplicar unguentos.

Ela voltou a fitar o teto, imaginando quanto tempo havia passado. Lembrou-se de Hiei e da cela onde estavam antes. Não fazia ideia se ele ainda estava preso, mas achava que sim.

— Se continuar limitando sua energia desse jeito, não vai resistir — Shigure comentou, o tom clínico — Está muito baixa.

Rina piscou os olhos. Tentou encarar o demônio, mas ele em momento algum se voltou para ela.

— Como assim?

— Por que continua suprimindo seu youki? Não está mais entre humanos.

Ela ficou parada olhando para o teto, pensativa. Por que era melhor assim? Aquele era apenas o seu reflexo automático de sempre, praticado por anos. Sua autopreservação, que no Makai parecia mais afiada do que nunca.

Um pouco a contragosto, se permitiu relaxar, só um pouco, e conseguiu virar o pescoço alguns centímetros para o lado, na direção oposta a Shigure. Uma vibração percorreu seu corpo.

Shigure parou por um segundo. A mão firme congelou no ar. Não disse nada, mas Rina sentiu que ele havia notado. Ficou assim por alguns minutos, deixando o barulho dos instrumentos médicos a embalarem.

— Gostaria de falar com Hiei — ela disse depois de um tempo.

Shigure interrompeu os movimentos um instante. Voltou em seguida.

— Hiei está preso.

Ela suspirou. Ficou calada, pensativa. Pelo visto, não ia conseguir arrancar muita coisa de Shigure.

— Quanto tempo mais? — perguntou, depois de um tempo.

— A decisão é de Mukuro.

— Estava falando do procedimento.

Ele pensou por alguns segundos. Não desviou o olhar da perna de Rina nem por um momento sequer, como se tivesse nas mãos algo muito delicado. Na posição que estava, Rina não conseguia ver nada além da expressão séria do cirurgião.

— Estou acabando. Algumas feridas estavam muito abertas e precisei usar enxertos. Hiei disse que você consumiu alimentos contaminados, então fiz também uma lavagem estomacal. Você deve se sentir enjoada por mais um pouco.

Ele fez uma pausa de maneira casual. Trocou de instrumentos.

— Mas não sei o tempo que vai precisar para a recuperação completa. Principalmente sem a câmara de regeneração para acelerar o processo. Talvez tenha que ficar aqui mais uns dias. Em observação.

Rina gostaria de ter feito mais perguntas, mas sua cabeça estava leve demais para pensar em qualquer coisa ou trazer as palavras com a coerência necessária. Também não sabia se teria respostas, não naquele momento. Ou sequer se as entenderia.

Pensou em Hiei na cela sozinho. O manteriam preso ali mesmo depois que ela estivesse liberada? Por qual motivo? Ainda não tinha conseguido entender tudo, apenas sabia que estavam na fortaleza de alguém chamada Mukuro e que Hiei estava em maus lençóis.

Rina não gostava disso. Não gostava nem um pouco.

— O que planeja fazer depois que atingir seu objetivo? — Shigure voltou a falar.

— Não sei — ela respondeu, após alguns segundos — Não pensei nisso ainda.

— Pretende voltar a viver com os humanos?

— Não… acho que não.

— Não criou mesmo laços?

Rina não respondeu de imediato. Ainda se sentia zonza, provavelmente resultado do sedativo, do desmaio e do desgaste que o corpo vinha sofrendo. Lembrou do grupo de adolescentes que andava com ela. Seriam esses os tais laços?

A princípio, os acolheu como fachada. Eles a acobertavam quando precisava, e isso bastava.

Mas não era só isso.

Eles tinham mais ou menos a idade que ela tinha quando conheceu Dimitri. Foi inevitável não se enxergar neles às vezes.

Haveriam vínculos fortes o suficientes ali para justificar seu retorno?

— Não — por fim respondeu, a palavra saindo seca, sem ter chegado a nenhuma conclusão.

Talvez estivesse só cansada para pensar demais. Era melhor assim. Deixaria para decidir depois. Se estivesse viva até lá.

(…)

Hiei ouviu passos e dessa vez, torceu para que fossem de Shigure. Rina estava fora há um dia — mas, para Hiei, parecia bem mais. Não era a solidão que o incomodava, mas o espaço apertado. E a pior parte: saber que dependia de alguém para sair dali.

Odiava ter os movimentos limitados, e odiava mais ainda a sensação de impotência que aquela jaula o causava. Principalmente agora que sua liberdade havia diminuído consideravelmente: desde que Rina fora levada, Mukuro ordenou que Hiei fosse preso aos grilhões de ferro da parede ao fundo.

Ele havia dado trabalho aos pobres youkais encarregados da tarefa, mas lá estava ele, preso pelo tornozelo a uma corrente de meros 15 centímetros e sem acesso à sua espada, que fora confiscada logo em seguida.

Mukuro havia sido generosa, segundo suas próprias palavras, optando por o prender apenas por um dos membros do corpo. Em vez de decretar contenção total e usar as algemas nos dois braços e duas pernas, o acorrentou por um dos tornozelos e deixou o resto livre. Parecia bondade, mas ele sabia que era escárnio.

E tinha sido igualmente perversa ao deixar a katana encostada na parede, à plena vista — mas fora de alcance. Por mais que se esticasse — e Hiei tentou, inúmeras vezes — ela permanecia a poucos passos de distância. Ao mesmo tempo, a espada ficava completamente desprotegida e ao alcance de qualquer youkai que descesse aquelas escadas.

Ela sabia exatamente como torturar Hiei sem precisar de muito.

Por isso, quando viu a figura de Mukuro, em vez de Shigure, se revelando ao descer os degraus que levavam ao calabouço, Hiei crispou os lábios e sentiu o sangue ferver.

— Vai passar fome se continuar com essa pirraça — Mukuro comentou depois de olhar para a cela de Hiei. Jogado no chão estava um prato virado, a comida espalhada por toda parte.

— Vai se foder, Mukuro.

— Aquela menina, quem é?

— Já falei — ele resmungou entre os dentes — É parte de um trabalho que estou fazendo para Urameshi. Eu não tinha a menor intenção de voltar ou trazê-la aqui.

— No entanto, você trouxe, não é?

Hiei bufou, escondendo o rosto.

— Não quero que ela nos traga problemas — Mukuro falou.

— O que te faz achar que ela traria? Do jeito que está, mal consegue levantar.

— Ouvi rumores, Hiei.

— Que rumores?

— Você sabe como boatos correm rápido aqui no Makai.

— Que rumores? — ele repetiu, aumentando o tom de voz. Sua voz reverberou nas paredes de pedra, parecendo ainda mais forte.

Mukuro suspirou. Deu alguns passos, se aproximando da cela. Do lado de dentro, Hiei tinha o corpo inclinado para frente, por um segundo esquecendo a corrente que agora se distendia presa ao tornozelo. Tinha fúria no olhar.

— Boatos sobre um novo exército. Você sabe do que eu estou falando. A situação está em paz por enquanto, mas as coisas já podem ficar tensas o suficientes se Yomi decidir voltar a disputar sua influência comigo. Depois que Raizen morreu e o torneio foi instituído, voltamos a ter um certo equilíbrio. E eu realmente gostaria que tudo permanecesse assim. Não precisamos da ascensão de um novo poder no Makai para tirar as coisas dos eixos.

— Está sugerindo que Rina é ser esse novo poder? — Hiei zombou — Está falando bobagem. A solidão da sua masmorra deve estar afetando seu cérebro.

Mukuro ignorou a provocação.

— Rina ou quem quer que esteja atrás dela. Mas como falei, são rumores.

— Não devia dar atenção para boatos.

A youkai o encarou. Cruzou os braços na frente do peito, pensativa.

— É bom que esteja certo.

Ele nada respondeu. Permaneceram os dois em um silêncio incômodo. Hiei aos poucos relaxou a corrente e se sentou, virando o olhar para o outro lado. Mukuro permanceu de pé, séria e contemplativa.

— Com quem vai estar sua lealdade se isso acontecer? — ela perguntou de repente.

— O que diabos está me perguntando?

— Se os boatos estiverem certos, talvez haja uma guerra. Teria que escolher um lado.

Hiei se manteve calado, como se aquilo não o dissesse respeito. Não iria ter tal discussão com Mukuro.

Mas ela continuou:

— Podemos vir a ter um novo rei… — ela falou. Fez uma pausa — Ou uma nova rainha.

Hiei inspirou profundamente, o rosto ainda afastado do olhar de Mukuro.

— Aceitaria Rina como sua nova rainha e comandante, Hiei?

Os lábios de Hiei crisparam novamente. A pergunta o atingiu como um golpe que não havia antecipado, despertando possibilidades que ele não queria considerar.

— Não me faça perder tempo com essas perguntas idiotas.

E ele fechou os olhos, encostando o corpo na parede e se recusando a continuar a conversa. Era sua maneira de avisar que tinha atingido seu limite para aquele dia, uma atitude que Mukuro conhecia muito bem.

— E se jogar fora mais um prato de comida, vou garantir pessoalmente que será o último — ela avisou.

Hiei continuou sem se mexer, calado e fechado dentro de si. Esperou Mukuro se ausentar e só voltou a abrir os olhos quando não podia mais ouvir os passos da youkai, certificando-se que estava sozinho novamente.

Então, socou a parede. Quis soltar um palavrão.

Poucas vezes havia ficado tão perturbado com uma pergunta.