Visceral
32 Às claras
Hiei ainda podia ouvir os gritos dela ecoando em sua mente — os sons horripilantes que Rina fez enquanto Kurama ajudava a remover a bala de sua perna, horas atrás. Hiei precisou segurá-la para mantê-la no lugar, e Rina apertou seu braço com tanta força que chegou a deixar a pele vermelha e marcada. Vê-la naquele estado, o desespero pela dor estampado em seu rosto, tinha sido a parte mais difícil. Se não confiasse tanto em Kurama, teria o mandado parar na hora. Ela desmaiara logo em seguida, o corpo entrando em colapso total.
Agora, Rina estava sentada no chão, dormindo. A cabeça pendia para o lado, o corpo apoiado em uma árvore que tinha invadido os restos de uma parede de pedra. As duas pernas estavam esticadas, os braços apoiados sobre o colo. Hiei a observava em silêncio. Ela tinha perdido tanto sangue que era um milagre ainda estar respirando.
A noite caía aos poucos. Os dois estavam sozinhos por pelo menos um raio de quinze quilômetros — Hiei tinha varrido o lugar com minúcia antes de se assentar com Rina no centro de uma antiga construção em ruínas. Apenas parte das quatro paredes ainda restava de pé, e, sob suas cabeças, era possível ver o céu que lentamente escurecia.
O comunicador que havia pegado de um dos agentes do Reikai estava em silêncio há horas. Mas ele tinha ouvido antes as ordens raivosas, as reclamações, os berros enlouquecidos de algum general inconformado. A satisfação tinha sido imensa.
Hiei tentou mexer os dedos da mão direita. Obedeciam, mas com dificuldade. Doloridos. Suas articulações estavam enrijecidas, as veias do braço apagadas. Da ponta dos dedos até o cotovelo, tudo era negro como carvão. Conseguira invocar o Dragão quando precisou; mas a ousadia cobrava seu preço.
Um ruído vindo da direção de Rina fez Hiei erguer os olhos para ela. Pensou que estaria acordando, mas as pálpebras continuavam fechadas, o corpo estremecendo em um espasmo leve. Mesmo desacordada, ainda parecia sentir dor. Hiei repuxou os lábios. Teria ido pessoalmente ao Reikai acertar as contas com Koenma, se não tivesse coisas mais importantes a fazer. E se Kurama não tivesse o dissuadido.
O kitsune apareceu enquanto Hiei ajudava Rina a sair da sala destruída pelo dragão. Naquela altura, não restava mais nenhum agente do Esquadrão Especial, mas, conhecendo Kurama, Hiei sabia que o tempo todo ele devia estar acompanhando o ataque. Que interviria se fosse necessário. Felizmente, não foi — e Hiei tinha preferido assim. Já tinha bastado todo o auxílio que ele tinha oferecido depois.
Rina se mexeu de novo, um pouco mais intencional dessa vez. Hiei a estudou em silêncio. Ela piscou os olhos devagar, como se a consciência estivesse demorando para voltar ao corpo. E mesmo quando os abriu, continuou na mesma posição, encarando o nada com uma expressão vazia. Depois de alguns segundos, mexeu o pescoço, fazendo uma careta e soltando um gemido involuntário.
— O que… — ela começou a dizer, mas a voz saiu rouca, fraca, e ela não conseguiu completar a pergunta.
— Você desmaiou.
Ela anuiu. Só então começou a prestar atenção no ambiente, mudando a posição do rosto milimetricamente para ver o que os cercava. Parou por um tempo, encarando as paredes e inspirando fundo com dificuldade — o nariz parecia quebrado, o rosto ainda marcado pelas pancadas que levara. A testa se franziu.
— Não é a fortaleza de Haru — Rina observou.
— Se o Mundo Espiritual mandar mais tropas, lá vai ser o primeiro lugar que vão procurar.
Rina balançou a cabeça devagar.
— Que lugar é esse?
— Um povoado abandonado. Tem dezenas por aqui.
Os dois ficaram calados novamente. Hiei geralmente preferia o silêncio, mas, por algum motivo, vê-la muda e séria daquele jeito o deixava inquieto. Como se alguma coisa estivesse fora do lugar.
O olhar dela então caiu sobre a própria perna. Ela inclinou o corpo para tocar o tecido amarrado ao redor da ferida, os dedos encostando com cuidado enquanto reprimia mais uma careta. O projétil tinha estraçalhado parte da tíbia de Rina.
— Não era uma bala comum — ele explicou enquanto ela ainda encarava a área protegida — As armas do Reikai carregam–
— Energia espiritual. Eu sei. Por isso ainda não cicatrizou.
— O que aconteceu lá dentro, antes do ataque?
— Como assim?
— Seus braços.
Rina olhou para eles. Parte estava coberta de sangue seco, alguns roxos da luta despontando; mas, fora isso, estavam limpos. Sem as crostas ou manchas negras que Hiei tinha visto antes.
— Aqueles machucados? Haru me ensinou a conter a doença.
Os olhos de Hiei se abriram um pouco mais. Ele partiu a boca e ela ficou assim por um segundo antes que ele voltasse a falar.
— Está curada?
Mas Rina balançou a cabeça devagar mais uma vez.
— Não, não é cura. Só um… tratamento, algo assim.
Hiei ficou em silêncio. Quando ela mexeu os braços em um certo ângulo, ele viu. Hematomas enormes, posicionados de maneira específica demais — na dobra interna dos cotovelos, em um dos pulsos. Ele chegou perto, estreitando o olhar.
— Que tipo de tratamento? — perguntou.
Rina encarou os próprios hematomas por um instante. Depois, suspirou e encostou a cabeça no tronco atrás dela.
— Importa o tipo? Ele funciona, isso que importa.
Ele não gostou da resposta. Estava claro que o processo havia sido brutal. Hiei reconheceu a localização das marcas de imediato: eram pontos de sangria. Mas não pressionou mais, ao menos não por enquanto.
— Um dia vou ter que fazer de novo e se você estiver por perto, vai poder ver como é — Rina acrescentou, provavelmente notando o olhar inconformado dele sobre ela.
— Por que não estaria? — Hiei questionou, mais agressivo do que o devido. Mas o comentário causou uma pequena combustão dentro dele, e as palavras acabaram explodindo como consequência.
Rina, no entanto, apenas piscou de um jeito confuso, parecendo perdida por um momento.
— Não sei; falei por falar.
Agora que ela tinha acordado, Hiei sentia o clima entre eles carregado, como se ela estivesse mais retraída do que o normal. Ele não sabia se ainda era somente o choque por tudo o que tinha acontecido ou se também era pela briga mal resolvida de dias atrás. O beijo tinha vindo como uma descarga elétrica necessária, mas quando se separaram, nenhum dos dois quis falar sobre isso. Assim como não falaram sobre as farpas trocadas, sobre as acusações, sobre nada, na verdade. Quando Hiei a encontrou no meio daquele inferno, tudo o que importava era sair dali em segurança.
Kurama os ajudou com essa parte — Rina mal conseguindo andar e ainda tão abalada que quase quis atacá-lo também ao vê-lo em sua forma youkai, em uma reação automática de defesa. Ele ajudou a carregá-la para fora, tratou a perna baleada. Quando Kurama viu o braço de Hiei — preto e completamente rígido, mas inteiro —, o sorriso que deu foi discreto. Partira deixando um cantil com água, um punhado de ervas com propriedades analgésicas e assegurando que ela ficaria bem.
— Rina é forte — ele comentou enquanto terminava o curativo improvisado, ela já desfalecida — Mas você já sabe disso. Não estaria tão interessado se não soubesse.
Hiei não respondeu. "Forte" não chegava nem perto. "Interessado" também não.
(…)
Hiei sugeriu que ela voltasse a dormir, mas Rina não conseguiu. Ele também não. Ela notou que a respiração dele era ritmada demais mesmo com os olhos fechados, que a mão esquerda repousava perto da espada de maneira intencional. Talvez fosse medo de um novo ataque. Ou talvez fosse medo de que Rina não estivesse mais ali quando ele acordasse. Como se ela pudesse ir a algum lugar naquele estado.
Tudo o que ela podia fazer era reprisar na cabeça o que tinha acontecido. Desde o encontro com Haru até o ataque do Reikai, a energia dela ganhando força e a deixando espantada — e, um tanto, exultante — com a facilidade com que era capaz de ferir e matar de maneira consciente.
"Eles têm medo de você", Haru tinha dito quando soube das pretensões do Mundo Espiritual. É claro que tinham; até Rina sempre teve medo de si mesma. Mas o medo de Rina sempre fora do que ela podia fazer quando perdia o controle. O dos outros — e ela entendia isso agora — era o oposto; era do que ela podia fazer quando estava totalmente em controle. E Rina descobriu que podia ser muito mais perigosa desse jeito.
Talvez fosse isso que a fazia uma Yuuma no fim das contas. Não apenas o sangue, a genética, a origem. Sequer a energia em si.
Mas sim, como usava sua energia. O controle.
— Eu quero voltar — ela falou de repente.
Hiei, que estava encostado na parede perpendicular, abriu os olhos. A relanceou. As íris escarlates brilharam sem nenhum sinal de sono — como ela já esperava.
— Pra onde?
— Pra fortaleza de Haru.
— Está destruída. E aqueles imbecis ainda podem aparecer de novo. Não é seguro.
— Não importa. Eu quero falar com ele.
Dessa vez, ele a encarou. Demoradamente. O rosto de Hiei se apertou em uma expressão desconfiada enquanto o silêncio se esticava entre os dois para além do necessário.
— Acha mesmo que ele ainda está vivo? — ele perguntou, a voz inflexível.
— Ele é um Yuuma. Somos… difíceis de matar.
Hiei soltou um grunhido indecifrável.
— E se estiver vivo? — ele desafiou — Vai voltar pra terminar o serviço? Ainda quer o sangue dele nas suas mãos?
Rina encarou Hiei de volta. Havia tanto que ela gostaria de contar. De perguntar, de confessar. Mas depois daquela briga, algumas coisas seu orgulho ainda não permitia — como o quanto havia chorado ao conversar com Haru, o quanto sentira sua falta. E como o que ele tinha dito ao encontrá-la ("não posso mais te deixar sozinha") ainda reverberava dentro da cabeça dela.
Antigamente, Rina odiava quando ele a tratava como uma criança que não pode ficar sem supervisão, e, antigamente, teria odiado aquela frase também. Mas agora, sempre que lembrava, o sentimento era outro. Porque agora ela não queria mesmo ficar sozinha.
Só não era forte o bastante para admitir.
— Não, já mudei de ideia… Eu só quero ver o que mais ele tem a dizer. Haru disse que podia me ensinar a história do clã e, não sei, acho que eu quero aprender.
— Não é isso que vai dizer quem você é.
— Eu já sei quem eu sou — Rina declarou, apertando os braços entre as mãos, sentindo os calos onde a Cristalização tinha acontecido.
Os lábios de Hiei se curvaram de leve, desenhando um pequeno sorriso no canto da boca. Não perguntou nem disse nada, talvez porque, para ele, sempre fora óbvio. Hiei a vira de verdade antes de todo mundo, a entendeu bem mais cedo do que ela mesma. Era como se esse tempo todo ele estivesse apenas esperando que ela chegasse à mesma conclusão.
— Podemos ir durante o dia, se o lugar não estiver tomado. E se sua perna estiver melhor.
— Tudo bem — ela concordou. Pensou um pouco e acrescentou — Acha que Gintaro conseguiu escapar? Ele foi baleado também.
— Ele sabe se virar. Se o tiro não pegou em nenhum ponto vital, e se é realmente tão esperto quanto gosta de parecer, saiu de lá quando teve a chance.
Rina ficou pensativa por um instante. As lembranças da luta estavam tão cristalinas quanto confusas na sua mente, mas ela se lembrava bem do mercenário caído, a mão segurando o ferimento no abdômen. Ela se ajeitou onde estava sentada.
— Qual é o problema? — Hiei questionou, olhando-a atentamente — Está se sentindo culpada por isso também?
— Não é culpa — E ela desviou o olhar — Gintaro sabia no que estava se metendo. Eu avisei, falei que podia ir embora. Ele ficou porque quis.
Hiei riu, um som curto, sem humor, recheado de sarcasmo.
— Ao menos as pancadas na cabeça te devolveram o bom senso…
— O que quer dizer com isso? — Rina perguntou. Havia entendido perfeitamente o comentário; apenas não tinha gostado.
— Você sabe o que eu quero dizer.
A pulsação de Rina acelerou — só um pouco, mas o bastante para ela sentir as mãos geladas. Hiei a olhava de rabo de olho, apenas um filete vermelho a encarando no escuro. Mas ainda assim, o jeito com que fazia isso era inquisitivo e desafiador. Intenso como ela já vira antes.
— Ainda é sobre eu ter querido ir embora sem você? — ela falou, a voz se alterando de leve.
Hiei não disse nada, e Rina sabia que devia deixar para lá, ignorar aquilo também, evitar uma nova briga. Mas não conseguiu.
Rina se ajeitou no chão de novo, deixando a coluna mais ereta, se desencostando da parede. E continuou, subindo o tom:
— Mas será possível? Isso de novo? Até quando eu vou te que– merda, Hiei! Você não entende, não sabe o pânico que me deu quando achei que você tinha–
Ela mesma se interrompeu, os dentes trincados pelo súbito acesso de raiva.
— Você nunca vai entender. Eu não sei por que continuo me justificando pra você.
— Tem certeza que é pra mim que está se justificando? — ele perguntou, cortante.
Rina fechou a cara ainda mais.
— O que você teria feito no meu lugar, por acaso? Hein? Me diz. Se eu quase tivesse morrido por sua causa, o que você faria?
Ela se inclinou ainda mais para frente, ignorando a pontada aguda na perna.
— Não teria feito a mesma coisa? Não ia querer se afastar–
— Não! — Hiei a cortou, a palavra soando seca e definitiva.
Ele travou por um segundo, como se tentando segurar por dentro o resto do que tinha a dizer. Mas quando não conseguiu, tudo saiu com ainda mais força.
— Eu teria ficado. Teria feito de tudo pra garantir que ninguém mais encostasse em você.
Hiei se levantou em um pulo, uma energia quente radiando dele. Rina recuou um pouco, por reflexo.
— Eu jamais teria virado as costas e ido embora — completou, apontando o dedo para ela de um jeito acusatório, quase agressivo — Jamais teria te deixado sozinha.
Durante os segundos seguintes, ninguém falou nada. Hiei bufou, se virou e foi até o lado oposto, para uma abertura quebrada entre as pedras, o corpo inteiro duro como se ainda estivesse tentando conter algo dentro de si.
Rina apenas o encarou, calada. Aquela afirmação, tão assertiva, veio arrebatadora como uma onda que Rina não estava esperando, a deixando sem saber como respirar por alguns segundos. E ela sentiu a pulsação acelerando ainda mais. Dessa vez, porém, não era por raiva.
— Então é isso? — ela enfim perguntou, a voz bem mais contida — Você acha que eu estava te abandonando?
Hiei continuou onde estava. Segurou o cabo da espada com uma força desnecessária, a mão esquerda tão rígida quanto a direita. Virou o rosto apenas o suficiente para Rina ver o contorno da sua silhueta contra a noite. E o vermelho de um dos olhos, que vibrava, intenso.
— O que eu acho não importa — retrucou, em uma voz que parecia estar sendo controlada na marra — E você devia descansar se pretende ter condições de fazer o caminho de volta amanhã.
— Eu não quero descansar. Eu não vou conseguir, e você também não. Porque você ainda tem medo que eu vá te deixar, não é?
Ela fez uma pausa, aguardando a resposta, sem tirar os olhos dele. Hiei não disse nada, mas contraiu a mandíbula, o olhar deliberadamente a evitando.
— Você ainda acha que eu quero ficar sozinha. Que se você dormir, eu não vou mais estar aqui quando você acordar.
— Pare de falar bobagens! — ele rosnou — Esse assunto não vai levar a lugar nenhum.
Novamente Rina ficou em silêncio, o fitando. Pensando em tudo o que ele dissera, tudo o que não dissera. No que sentira, durante a briga e depois dela. A barriga borbulhou com as lembranças.
Ela engoliu em seco, subitamente mais nervosa do que quando teve uma arma debaixo da mandíbula.
— Você tem razão — Ela baixou o rosto, sentindo a pele queimar — O que você disse aquele dia pra mim, sobre como eu me comporto. Eu realmente fico com medo e… fujo.
Ela parou. Soltou o ar pelo nariz.
— Escondi sobre a doença porque fiquei com medo da sua reação. Era mais fácil fingir que não era nada. Ou tentar resolver sozinha.
Outra pausa. Mais longa. O silêncio era absoluto.
— Decidi que a gente tinha que se separar porque também fiquei com medo do que podia acontecer com você. Porque era mais fácil fazer assim do que lidar com… com… eu não sei, com o que eu senti da primeira vez que você quase morreu na minha frente. Então sim, eu queria fugir. Não de você, mas…
A frase definhou, sem que Rina conseguisse completar. Hiei a olhou de relance. As mãos dela, que já estavam geladas, esfriaram ainda mais drasticamente.
— Até matar Haru era uma maneira de fugir, quando paro pra pensar. Fugir de quem eu era, talvez. Porque eu tinha medo do que ia encontrar, de acabar me reconhecendo nele. Eu só queria resolver isso e voltar pra casa fingindo que nada tinha acontecido. E fugir pra sempre da minha natureza youkai. Porque você tem razão, foi o que eu fiz quando meus pais–
Mais uma vez ela não conseguiu terminar. Levantou os olhos rapidamente para ele, que ainda a olhava de lado. Rina desviou o rosto novamente e riu, de um modo nervoso e sem jeito.
— Mas aí eu conheci você e tudo mudou, né?
— Ainda se arrepende? — ele perguntou. Tentou soar frio, mas a voz tremeu, bem de leve. Não parecia indiferença, nem raiva. Talvez fosse medo também.
Rina segurou a resposta por um tempo.
— Eu não sei — A admissão saiu baixa — Eu só falei aquilo porque estava com raiva.
Ela mordeu o lábio, sem querer continuar. Precisou insistir nas palavras, arrancá-las à força, a pulsação mais rápida do que nunca.
— Mas não é por isso que sempre explode também, quando as coisas ficam reais demais? Porque a raiva é a única maneira que você tem pra lidar com o medo? Aí você se fecha, depois me puxa pra perto, depois me afasta de novo, ergue barreiras… e eu nunca sei o que pensar.
Hiei bufou, em silêncio.
— Hiei, quando a gente discutiu e eu falei tudo aquilo… e fui embora depois… eu sei que foi só outra fuga. Porque ficar com você só ia continuar me despedaçando. E mais uma vez eu não queria ter que lidar com isso. Mas principalmente… não queria lidar com o que eu sinto por você. Queria fingir que não era nada.
Uma nova pausa. Sentiu a boca começando a secar, o frio das mãos se espalhando para o estômago.
— Você mentiu. Falou coisas que doeram — Ela finalmente levantou o rosto, encarando-o diretamente. Os olhares se encontraram — E isso só me quebrou tanto porque veio de você. Então ir embora era a saída mais fácil. Ou, pelo menos, eu achei que fosse. Não imaginei que fosse sentir tanto a sua falta. E eu me odiei por isso, por ter deixado que você me afetasse tanto assim. Eu queria ser mais forte e não ligar. Não ligar pro que você pensa, não ligar se você não está do meu lado. E eu tentei, mas eu não consigo. Eu simplesmente não consigo.
Ele não respondeu de imediato. Rina se sentiu ridícula. Por um momento, achou que ele fosse virar o rosto. Dizer que ela estava sendo dramática demais de novo. Que isso era patético, até mesmo para ela.
Ela se odiou um pouquinho mais por aquilo.
— Eu não teria mentido se–
— Eu sei — Rina interrompeu, apressada, sem se conter — Eu já entendi essa parte. Ainda não concordo, mas já entendi. E eu to disposta a ficar. Porque eu não aguento mais fugir. Só que eu também já me machuquei muito antes por ter ficado com a pessoa errada. E não sei se vou aguentar passar por isso de novo. Você entendeu?
Ele abriu a boca de novo, mas a fechou em seguida. O rosto dele mudou, as linhas rígidas se dissolvendo, o fogo do olhar abrandando. E, finalmente, Rina viu que a irritação já não estava mais lá, que dera lugar a algo inédito, um misto de surpresa e discernimento.
Depois, sem dizer nada, voltou a se aproximar e se sentou ao lado dela. Tão perto que seus ombros quase se tocaram.
— Entendido — Hiei respondeu, em um tom quieto. Bem menos rígido também — Eu também prefiro que fique.
E voltou a mergulhar no silêncio, dessa vez com um semblante pensativo. O nó no estômago de Rina se desfez aos poucos. Achou que se sentiria pequena depois de dizer tudo. Tola. Mas o que aconteceu foi justamente o contrário.
Era difícil aceitar — e verbalizar — que sentia algo por ele, mas ainda mais difícil seria continuar a fingir o oposto. Seria mentir que nada percorria o seu corpo quando ele a tocava, ou ignorar que a presença dele a fazia sentir-se segura, mesmo quando tudo ao redor parecia uma ameaça.
Difícil seria negar o fato de que ele ter vindo atrás dela era tudo o que Rina intimamente desejou desde que partiu com Gintaro.
Rina suspirou, mais calma. Finalmente permitiu que sua atenção caísse no braço dele, mais escuro que a noite. Um braço que até antes de se separarem não existia. Sua mente fervilhava com questões não-respondidas.
— Eu posso ver? — Rina arriscou, apontando para a mão direita dele.
Hiei olhou para Rina, depois para a própria mão, considerando o pedido. Por fim, estendeu o braço como se isso representasse uma mudança bem-vinda no assunto.
Ela o segurou com cuidado. Quando o tocou, a primeira coisa que percebeu foi quão enrijecido ele estava. Não tinha a mesma maciez que sentira no de Zennosuke, não tinha as veias roxas fosforescentes correndo por baixo. Daquele jeito, parecia mais uma prótese de madeira queimada: sólida, mas sem vida. Como se faltasse alguma coisa.
— Dói?
— Um pouco.
Ela meditou sobre aquilo durante alguns segundos. O braço estava completo, mas os dedos mal se mexiam. Como se Hiei nem tivesse comando total sobre eles ainda. Rina arriscou novamente:
— Você largou o treino com Zennosuke pela metade só pra vir atrás de mim?
— Eu já alcancei a técnica. Posso aprimorar sozinho, não preciso mais dele.
Rina assentiu, entendendo a confirmação que viera pelas entrelinhas. Burro. Não era só ela que tomava decisões mal-pensadas. Mas a pontinha de vaidade que sentira por causa daquilo não deixou que reclamasse.
— E como foi? Como conseguiu?
— Foi um ritual de horas — reclamou — Tive que inalar fumaça e–
Os olhos dele se estreitaram, mas, ao mesmo tempo, ficaram distantes. Como se as lembranças estivessem voltando, trazidas pela conversa. Rina aguardou, estranhamente sentindo antecipação pelo que ele teria a dizer.
— E…?
— Eu vi minha irmã — ele revelou, em uma voz abafada.
Rina arqueou as sobrancelhas no mesmo instante, como se tivesse ouvido a coisa mais inesperada do mundo. Olhou para ele sem palavras por vários segundos, mas Hiei continuava aéreo, olhar vazio, perdido em algum canto qualquer.
— Você viu quem? — perguntou, com um nítido espanto na voz.
— Yukina. Minha irmã gêmea.
— Eu não sabia que você tinha uma irmã!
— Ela também não sabe — Hiei falou. Pensou um pouco e completou — Eu acho.
— Como assim?
Hiei piscou os olhos devagar, lentamente os deixando ganhar foco. Levou a mão ao bolso e puxou de lá o cordão com o pingente de pérola que costumava usar. O observou na palma da mão.
— Fomos separados no nascimento. A encontrei anos depois, mas nunca contei a ela. Nunca disse quem eu era — ele confessou, encarando o pingente.
Ficaram em silêncio novamente. Um novo turbilhão de perguntas brotou na cabeça de Rina, mas ela sabia que se as fizesse todas agora, ele só iria se fechar de novo.
Uma pergunta, no entanto, foi impossível de evitar.
— Mas por que não?
Ele demorou tanto a responder que ela pensou que permaneceria assim, calado. Que o assunto se encerraria ali e que Rina teria que se contentar com aquelas migalhas de informação. Mas, para sua surpresa, ele continuou.
— Ela não merece alguém como eu como irmão — Hiei respondeu. A voz era firme, mas baixa — É pura demais. Eu… sou só um assassino.
— Do que você está falando? — Rina disse.
Hiei a olhou. Já não estava mais com o olhar distante. Pelo contrário, a íris vermelha parecia mais viva do que nunca. Não inflamada, não defensiva. Aberta.
— Como "só um assassino"? Tudo que você fez até hoje foi me manter viva. Foi me proteger sempre que eu precisei. Hiei, se não fosse você… — E Rina baixou o rosto por um momento. Quase podia sentir de novo o cano frio do metal pressionando a mandíbula — eu provavelmente nem estaria mais aqui.
Ele não respondeu. Só a encarou por mais alguns instantes, até também abaixar o rosto. E, pela primeira vez, Rina não viu o orgulho de sempre. Viu vergonha, arrependimento, tristeza. Viu raiva de si mesmo também, algo que Rina compreendia bem. E aquilo a devastou. Mas também explicou muita coisa.
E, sem pedir permissão, encostou a cabeça em seu peito. Hiei não se mexeu.
— Qualquer pessoa teria orgulho de ter você como irmão — Rina acrescentou.
E, mais uma vez naquela noite, deixaram o silêncio falar pelos dois. Por um bom tempo.
Até que Hiei fechou a mão que segurava o colar. No entanto, não o voltou a guardar no bolso; manteve-o ali no colo, preso entre os dedos cerrados, como se protegendo algo precioso demais.
— Devia voltar a usar — Rina sugeriu, seus dedos tocando os dele e fazendo-o abrir a palma de novo. A pérola brilhava refletindo o luar.
— E você devia dormir — ele respondeu.
Igualmente sem pedir permissão, passou o outro braço pelos ombros dela — o braço que mal o obedecia, mas que, nesse momento, foi o bastante para trazê-la para perto.
Rina se aninhou um pouco mais contra ele, deixando a respiração desacelerar.
— Não me diga o que fazer — ela murmurou.
Mas fechou os olhos mesmo assim.
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