Notas iniciais
Boa Leitura!

Eu não sabia dizer o que Miranda sentia. Não parecia surpresa, mas ao mesmo tempo parecia. Era como se ela soubesse que eu estava gostando de alguém, só não imaginava que esse alguém fosse um garoto.

— De quem você está gostando?

— Di Angelo.

Ela ergueu as sobrancelhas e estreitou os olhos e do nada me olhou com um brilho louco no olhar.

— Agora tudo faz sentido! Hazel vivia me perguntando coisas sobre você, e eu até achava estranho, por causa do Zhang e tals. Mas agora faz sentido. Ele gosta de você, Will. Só não vê quem não quer.

Dei uma risada sem ânimo, e contei à ela sobre o que ouvira ele dizer há alguns dias. Com a mesma rapidez que veio, o ânimo dela sumiu.

— Então, se nem ela e nem ele gostam de você, qual é o motivo das perguntas? Porque, veja bem, só alguém próximo dela iria pedir para fazer essas perguntas. Quem é próximo dela? Annabeth, que tem Percy; Piper, que tem Jason; Reyna, que não sabemos quem tem e o mesmo vale para o Leo. Nisso sobra quem? O Nico!

— Caramba, fala mais devagar! – falei rindo. Mas também, parecia que ela tinha tomando uns dez litros de café — Mas não tem nada a ver isso daí.

— Tem sim! Você só não aceita porque tem medo de se machucar.

Aquilo era verdade, infelizmente. Eu queria que Nico gostasse de mim, e se isso fosse realmente verdade, queria saber isso diretamente dele, e não de outra pessoa. Mas, por não ter certeza de nada, eu não iria me permitir acreditar em algo não factual, ainda mais se isso envolvesse sofrer.

— Olha, vamos deixar esse assunto pra depois, beleza?

— Mas, Will...

— Passamos na livraria.

— Isso. É. In-jus-to.

Esse que é o bom de ter uma melhor amiga viciada em livros.

Fomos até a livraria. Grande erro. Nico estava lá.

— Quer fazer ciúmes nele? – provocou Miranda me dando uma ombrada de leve.

Demorei para responder; não sabia se queria ou não. Por fim, acabei aceitando e passei o braço por seus ombros.

— Qual livro você vai comprar?

— A Menina Submersa. — falou ela passeando pelos corredores. — É sobre uma garota louca. Talvez ajude...

Quando éramos pequenos, tínhamos o costume de dizer "estou aqui para o que precisar" só apertando a mão um do outro. Foi isso que eu fiz. Eu não iria dizer que sabia pelo o que ela estava passando, porque eu não sabia. Eu tinha um problema, mas ela tinha mesmo um problema. Era até egoísmo ficar me preocupando com a minha vida amorosa enquanto ela tinha que se preocupar em como levar um problema mental praticamente sozinha.

Quando voltamos para a minha casa, havia um carro estacionado em frente ao portão. Eu quase pulei de alegria.

— Pai!

Saí rapidamente do carro e o abracei fortemente. Embora não morasse com ele, eu tinha mais proximidade com meu pai do que com a minha própria mãe.

Passamos a noite inteira conversado. Faziam mais ou menos um ano e meio que não nos víamos, tinha bastante coisa para colocarmos em dia. Apolo contou que estava fazendo um trabalho humanitário em algumas comunidades carentes na África, onde o sistema de saúde era bem precário. Isso era uma das coisas que eu mais admirava em meu pai: a sua bondade. Ele não se importava em ter que "mudar" de continente, correr o risco de pegar malária ou qualquer outra doença, ele apenas queria ajudar os outros, e isso era lindo.

Depois de nos contar sobre como havia sido lá, ele mudou de assunto e perguntou como nós estávamos. Miranda e eu trocamos um olhar. Meu pai era médico, então poderia ajudá-la. E ele também era bi, então poderia me ajudar. Ela assentiu de leve, mas falou "Você primeiro".

— Vocês estão namorando? – meu pai perguntou nos lançando um olhar malicioso.

— Não, não. – falou ela rindo — Mas é mais ou menos sobre isso que queremos falar.

Apolo apenas assentiu curioso.

— Como você descobriu que também gostava de garotos? – perguntei e pude sentir meu rosto queimar. Mesmo que fosse meu pai, era estranho perguntar isso a ele.

— Não sei bem, algumas doses de vinho talvez. Foi um pouco depois que eu terminei com a sua mãe. Tinha uma festa depois do turno do hospital, foi na casa de Jacinto. Começamos a conversar, beber... E estamos juntos até hoje. Mas por que a pergunta, filho?

— Porque eu estou gostando de um também. Mas, por favor, não conte pra minha mãe!

— Eu vou deixar vocês dois a sós. – falou ela, indo em direção às escadas. Havia urgência em sua voz.

— Ei. – chamei — Tá tudo bem?

Ela apenas assentiu e continuou subindo.

— Tudo bem, sabe que não vou contar. Mas enfim, como você percebeu que gostava de garotos?

— Também. – corrigi — Quando eu o vi sem camisa no vestiário.

— Seu tarado. – brincou ele — Mas de quem estamos falando?

— Nico Di Angelo.

— Oi? – Apolo engasgou-se com o suco — Desculpe, mas é que vocês nunca foram muito próximos, e assim, dá pra associar que vocês se conhecem bem pouco. E ele nunca foi lá um deus grego...

— Mas isso foi há seis anos, agora ele tá bonitão, pai.

Nos encaramos por um tempo e então rimos. Era bom poder falar assim, tão abertamente com ele. Já se fosse com a minha mãe... Eu já estaria em coma ou "queimando no fogo do Inferno".

— Mas olha só, se a mãe descobrir, eu vou morrer. E, mesmo que eu duvide que tenho alguma chance com Nico, um dia vai ficar meio aparente, eu acho.

— Esqueceu que a sua guarda é compartilhada?

— É o quê?!

— Compartilhada. Você pode ficar tanto com a sua mãe como comigo. O juiz decidiu isso há uns quatro, cinco anos.

— Ela não tinha me contado...

Meu pai deu um suspiro longo. Mesmo já conhecendo minha mãe, ele sempre ficava desapontado com o preconceito dela. "Seu pai é bi, Willian, bi. Você não vai ficar perto desse tipo de gente, entendeu?". É, essa era a minha mãe.

— Eu falo com ela depois. – suspirou ele — Mas se você quiser, eu falo com ela sozinho... Sobre tudo.

— Não precisa, obrigado. Acho que tenho que enfrentar isso também.

Ficamos conversando até ouvir a porta da sala se abrir, indicando que minha mãe havia chegado. Ela mal havia entrado na casa quando reparou na presença de meu pai e disse meio enojada:

— O que você está fazendo aqui?

— Por que você não contou ao Will sobre a guarda compartilhada? – quis saber ele.

— Porque ele não precisa ficar perto de você e nem de pessoas como você. É nojento.

— Nojento é o seu preconceito. – rebati antes de pensar.

— Viu o que você fez com o meu filho?! Agora ele acha que isso aí é normal. Meu Deus do céu... – ela se virou para mim e continuou: — Você nem pense em se aproximar dele, entendeu? Se não irá queimar no fogo do Inferno, Will, eu estou te avisando.

Naquele momento eu percebi que não iria dar para viver com a minha mãe. Eu até a amava, mas ela não iria me amar mais depois que soubesse. Provavelmente me internaria em uma clínica psiquiátrica, me obrigaria a decorar a Bíblia inteira e outras coisas desse tipo.

— Já volto. – falei subindo rapidamente as escadas.

Lá de cima dava para ouvir os dois brigando. Em algum momento, um prato se estilhaçou contra a parede, e conhecendo minha mãe eu sabia que aquele não seria o último.

Entrei no quarto, onde Miranda estava deitada na minha cama lendo o livro.

— A minha guarda é compartilhada e minha mãe não me contou por que não quer que eu me misture com "esse tipo de gente". Mas chega. Vou embora. Quer vir junto?

— Caramba, Will. Eu te ajudo a arrumar as coisas. – disse ela se levantando da cama.

Peguei uma mochila vazia de dentro do armário e a entreguei. Sem que eu precisasse dizer nada, ela foi até a minha prateleira de CD's e começou a guardá-los na mochila. Comecei a colocar algumas roupas dentro de outra mochila.

— Conhecendo sua mãe bem, eu acho melhor colocarmos as bolsas lá fora pela janela e pegarmos na saída.

— Mas vai fazer barulho.

— Deixa comigo.

Ela abriu a porta da sacada e começou a descer com uma facilidade incrível. Vantagens de ter uma melhor amiga líder de torcida. Quando chegou lá embaixo, ela tirou a mochila dos ombros e fez sinal para que eu jogasse a outra. Depois, com um pouco de medo, joguei meu violão.

Depois de descer até a sala, encontrei meus pais ainda brigando. Apolo estava irritado num nível normal, já minha mãe parecia que estava prestes a explodir.

Troquei um olhar com meu pai dizendo que estava pronto. Depois de se desviar de mais um prato, ele falou:

— O Will que escolhe com quem vai querer ficar. Will?

— Você vai ficar comigo, não vai? – perguntou minha mãe em um tom meio ameaçador.

— Eu vou com o meu pai.

— William, você não pode fazer isso comigo. Isso que você chama de pai é uma criatura nojenta, que não merece o amor de Deus. Como você pode querer ficar perto de alguém assim?!

— Se ele vai ou não pro Inferno eu não sei, mas eu sei que não vai ser você quem vai decidir isso.

Notas finais
Gostou do capítulo? Então não deixe de comentar e favoritar, não seja um fantasminha! —CriaDeApolo