Notas iniciais
Malditas provas do Militar! Se não fossem elas, esse cap tava postado na semana retrasada.

PVO DO APOLO

— Ah! Qual é? Não fica assim! Ela não te merecia, tenho certeza! Agora pare de chorar
e dance um pouco!

Eu não fazia ideia de quem era aquela garota. Senti minha cadeira ser puxada e então levantei o rosto, que antes estava escondido em minhas mãos. Foi nesse momento que eu a vi. Ela era a garota mais bonita que eu já havia visto. Ela tinha olhos cor de chocolate e cabelos castanhos e ondulados com magníficas mechas cor de âmbar. Os seus olhos estavam pintados de preto e as mãos cobertas por luvas de couro preto, que combinavam com sua jaquetinha e sua bota de cano baixo, ambas também de couro. Ela usava meia-calça arrastão, uma minissaia jeans e uma camiseta preta e prata. No seu pescoço havia uma corrente de prata com pingente de palheta de guitarra.

— Você toca guitarra? – eu perguntei me sentindo idiota por isso depois

— Toco sim... Ahn... Qual é o seu nome mesmo? – ela perguntou meio sem graça

— Ah! Desculpe! Meu nome é Arthur Peters.

— Prazer. Sou Laís Rock, guitarrista da banda que vai tocar hoje.

— Você tem...

Mas antes que eu pudesse terminar a frase, o dono da boate disse ao microfone:

— Integrantes da banda “Mortal System”, queiram, por favor, subir ao palco. O público os esperam impacientemente.

— É a minha deixa... – Laís disse rapidamente e me puxando pela mão completou -... E você vem comigo!

— O-o quê? – gaguejei incrédulo – Mas eu não faço parte da banda! Nem sei tocar nenhum instrumento!

— Não, seu bobo! Você vai para a área VIP. Precisa se animar um pouco e tenho certeza que um pouco de rock vai lhe ajudar!

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Do tipo carismática, que ajuda todo mundo e faz amizade facilmente?

Ela começou a rir e um cara gordo e tatuado a chamou para cima do palco. A julgar pelas baquetas em suas mãos e o olhar divertido dele, deduzi que ele era o baterista da banda.

Laís me deixou em uma cadeira, entre uma garota loira com uma mecha rosa no cabelo, uma asiática com as pontas do cabelo vermelhas e um motoqueiro mal encarado que usava uma roupa de couro muito lustrosa.

Alguns minutos se passaram e então o dono da boate subiu novamente ao palco.

— Vocês estão prontos para um pouco de Rock’n Roll? – ele gritou ao microfone e o público vibrou excitado – Então... Com vocês, “Mortal System”!

O cara gordo e tatuado com suas baquetas, um magrelo com um cabelo punk e um baixo na mão, um cara todo tatuado de calça jeans e camiseta e Laís com uma Fender 79 subiram ao palco com o som de aplausos e assovios animados da plateia.

O motoqueiro ao meu lado cruzou os braços e afundou na cadeira, enquanto as garotas acenavam para os rapazes no palco. Laís desprendeu a palheta da corrente do seu cordão e
tocou o primeiro acorde da música “Smoke on the water” da famosa banda Deep Purple (N/A.: caso queiram ouvir essa música, ela está no Guitar Hero II original) enquanto me lançava um sorriso alegre e brilhante. Quando o cara de calça jeans e camiseta pegou o microfone e começou a cantar, a galera foi ao delírio. O motoqueiro mal humorado revirou os olhos e ameaçou sair. Olhei para Laís e eu vi o seu sorriso brilhante desaparecer de seus lábios. Então foi que a ficha caiu. O motoqueiro devia ser o namorado dela. Aquele sorriso não havia sido para mim, havia sido para ele!


***

— Eu não quero mais você nessa banda está ouvindo? – ouvi a voz grossa de um homem gritar nos fundos da boate quando eu estava saindo

— Me larga Gabe! Eu já disse que não sairei da banda! É a minha vida! – a voz de Laís gritou de volta

Espreitando-me nas sombras, eu me escondi atrás de uma grande lata de lixo no beco sem saída que dava para os fundos da boate e onde os dois estavam.

— Mas você é minha esqueceu? Eu que mando aqui e eu é que digo o que você tem que fazer!

— Eu não sou um objeto que você possui! Eu sou uma pessoa! Uma mulher! Agora você poderia me dar licença? Tenho que pegar a minha parte da grana com a galera da banda.

O tal Gabe agarrou o braço dela com força e ela o encarou com um olhar fulminante.

— Larga o meu braço! – ela grunhiu e puxou o seu braço com toda a força das mãos enormes dele

— Se você não for minha, então não será de mais ninguém. – ele urrou

O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Gabe puxou uma arma e a apontou para Laís, que recuou até a parede, desesperada. Os olhos dela estavam arregalados e ela tremia de
medo. Antes que ele atirasse, eu saí de trás da lata de lixo e torci o braço dele de modo que fez a arma ficar apontada para o chão. Ele apertou o gatilho e a arma disparou na direção do chão. Laís nos olhava, aterrorizada. Gabe grunhiu e tentou apontar a arma para mim. Com um golpe básico de defesa pessoal, eu peguei a arma da mão dele e lhe dei uma coronhada forte o suficiente para que o apagasse por um bom tempo. Laís olhava para mim, assustada, o rosto manchado por lágrimas que não cessavam. Eu joguei a arma ao chão e corri para ela. Passei meus braços em volta da cintura dela e a puxei para um abraço.

— Está tudo bem. Fique calma. Você está a salvo. – eu disse afagando-lhe os cabelos, seu rosto encostado em meu peito e suas mãos puxando-me para ela – Ele te machucou?

Laís levantou o olhar. Seus olhos cor de chocolate estavam borrados pelas lágrimas e pela maquiagem.

— Não sei. – ela disse em um sussurro quase inaudível – Meu braço está ardendo, mas acho que não é nada demais comparada a coronhada que você deu nele agora.

— Defesa pessoal. – eu disse indiferente – Ouvi vocês discutindo. Não queria que ele te machucasse.

— Obrigada. Estou te devendo uma.

E então os dias foram passando. Logo se transformaram em meses e os meses em anos. Eu havia me apaixonado por ela e ela por mim. Amávamos um ao outro como Romeu amou Julieta ou como Penélope amou Ulisses. E então...


***

— Olhe como o céu está bonito hoje, meu amor. – Laís comentou

Eu estava sentado em um manto estendido no meio do gramado do Parque Nacional de Washington. Laís estava deitada, ao meu lado, observando as nuvens com aquele seu jeito
sonhador. Havia um lindo sorriso em seus lábios. Um objeto quadriculado em meu bolso me incomodava. Respirei fundo e falei:

— Laís, eu acho que não devemos mais namorar.

Ela se levantou de um salto e me olhou assustada. Aquele lindo sorriso que havia no seu rosto até momento atrás desaparecera e fora trocado por um olhar incrédulo.

— O-o quê? – ela gaguejou temerosa. Pude ver pelo seu tom de voz que ela estava prestes a chorar. – P-por que Apolo?

Fazia algum tempo que eu havia lhe confessado tudo. Desde meu nome até o meu próprio ser. No início achei que ela ficaria com medo, fugiria ou me chamaria de louco, mas ela apenas me olhou como se aquilo não fosse nada e disse: “Desde que você não me abandone para ficar com uma deusa mais bonita, tudo bem. Não há nada demais nisso.”.

— Nós não podemos mais namorar... – as palavras fizeram com que lágrimas escorressem pelos olhos dela -... Porque devíamos nos casar.

Laís começou a rir incontrolavelmente e me deu um tapa bem forte nas costas.

— Seu idiota! Eu estava chorando! Não faz mais isso! – ela disse rindo e limpando as lágrimas com as costas da mão

Tentando não rir, eu tirei o objeto quadrado do bolso de trás da minha calça jeans e me ajoelhei na frente dela.

— E então? Você quer casar comigo? – eu perguntei abrindo a caixinha para ela ver o belo anel prateado e com brilhantes que eu havia lhe comprado

— É claro que eu quero, seu idiota! E você ainda pergunta?

Eu levantei depressa, agarrei-a pela cintura e a rodei no ar. Ela riu divertidamente e quando eu a pus no chão, ela me deu o seu beijo mais perfeito e doce. Era como se eu ainda fosse um simples adolescente inocente recebendo o primeiro beijo de sua vida da
garota mais perfeita que existe.

No dia seguinte marcamos de nos encontrar em um Café famoso da cidade após o ensaio dela com sua banda. Já fazia duas horas que eu a esperava e nada. Eram mais de meia
noite e a dona do estabelecimento me expulsou de lá, pois eles iam fechar. Eu estava preocupado. Assim que saí do Café, eu peguei o celular e liguei para o mesmo número que já havia ligado 20 vezes. O número da Laís. Na segunda tentativa, um homem atendeu.

— Alô? – ele perguntou ao atender

— Olá. Eu quero falar com a Laís, ela está aí? – eu disse tentando ser o mais educado possível. E se aquele homem fosse o pai dela?

— Quem é o senhor?

— Meu nome é Arthur Peters. Sou o nam... Noivo dela.

— Olhe Senhor Peters, sua noiva está aqui no Hospital St Patrick de Seattle. Ela está em estado grave e temo que nada mais possa ser feito por ela.

— O-o que aconteceu com ela?

— Eu sou da polícia e encontrei-a semimorta em um beco. De início achamos que podia ter sido um assalto, mas nada lhe foi levado. Ela estava com cortes e escoriações pelo corpo e uma bala de calibre 32 alojada em seu peito.

Crash! Foi o barulho que o meu celular fez ao atingir o chão depois de uma queda de 1,70 metros.

E agora lá estava eu, trinta anos depois indo salvar a outra garota a quem eu amava. Eu não podia deixar que o meu amor morresse de novo. Eu não suportaria.


...

Depois de materializar no alto da colina do acidente, eu avistei uma pequena cabana de
madeira e ouvi o som de cascos próximo de onde eu estava. Segundos depois, vi a crina dourada do pégaso de Lana aparecer no alto da descida da colina onde eu estava. Estalei os dedos e uma capa dourada surgiu em mim, cobrindo o meu corpo e o meu rosto. Corri na direção do pégaso e vi Lana jogada no lombo dele como um saco de batatas. Ele parou na minha frente e quando tentei pegá-la, ele me empurrou com o focinho e relinchou.

— Calma garoto! Não vou machucá-la! – eu disse baixando o capuz da minha capa – Sou eu, Apolo! Por favor, deixe-me ajudá-la!

O pégaso me olhou torto e hesitante, deixou que eu pegasse Lana no colo. Apoiei a cabeça dela no meu ombro e a levei até a cabana de madeira, seguido de perto pelo pégaso dela.

A porta da cabana estava trancada e as janelas bloqueadas com tábuas de madeira velha. Estalei os dedos e a porta rangeu e abriu. O lugar cheirava a mofo e as tábuas do piso rangiam ruidosamente. O interior da cabana se resumia a uma grande sala com uma
lareira, um banheiro e uma cozinha bem pequena. Em frente à lareira havia uma cama de casal, uma poltrona e um velho tapete remendado. A cama estava sem nenhum tipo de lençol a cobrindo e a poltrona parecia muito confortável, mas usando a lógica, não se cura uma pessoa em uma poltrona. Então, eu apenas deixei Lana na poltrona e abri a bolsa que por acaso eu lembrei que tinha levado. Lá dentro tinha tudo o que eu poderia precisar. Desde ataduras a lençóis de cama. Arrumei a cama rapidamente e depois deitei Lana nela. Foi o momento em que realmente prestei atenção a aparência dela. Haviam folhas
emaranhadas nos cachos dourados dela, suas roupas estava retalhadas e manchadas de lama e sangue, a perna esquerda apontava para um ângulo diferente do normal e seu tornozelo estava inchado.

Passei horas cuidando dela, imobilizando sua perna, limpando e cicatrizando pequenos cortes que havia em sua testa e em seus braços. Quando terminei, acendi a lareira com um aceno e me joguei na poltrona quente e confortável. Não demorou muito para que eu pegasse no sono e cochilasse enrolado na minha capa dourada.

Acordei com algo macio, leve e grande acertando o meu rosto. Assustado, dei um pulo da poltrona e me pus de pé em apenas alguns segundos.

— Mas o quê...? – comecei, mas ao ver Lana deitada de costas e apoiada nos seus
cotovelos, me calei.

— Quem é você, “ser da capa dourada”? – ela perguntou com uma voz fraca, rouca e cheia de dor.

— Você está fraca. Precisa descansar e recuperar as suas forças. – eu disse em uma voz
grossa e diferente da voz que ela conhecia

— Eu até faço o que você está me pedindo, mas primeiro me diga quem é você e por que
cuidou de mim.

— Eu sou um amigo e cuidei de você porque eu não poderia simplesmente deixá-la jogada aos pés de uma árvore, no fim de uma colina, com um pégaso em cima de você.

Ela parou e analisou as palavras com cuidado antes de perguntar:

— Onde está o Bluesky?

— Está lá fora. – eu disse me aproximando dela cautelosamente – Agora durma. Você precisa recuperar suas forças antes de voltar para casa.

Ela tentou argumentar comigo, mas eu pus a minha mão na testa dela e ela adormeceu instantaneamente.

Quando ela acordou novamente, eu já não estava mais lá.

Notas finais
E aí? O que acharam?