Vingador Vol. II
1 Menina do vestido floral, Anel de esmeralda, Tempo
Notas iniciais

Londres, Inglaterra, oito da manhã.
Ela usava um vestido... fofo.
Diziam que combinava com ela.
Sakura remexeu a delicada colher dentro do pires de chá, com melancolia.
Fazer o que as pessoas diziam, parecia o correto no começo, mas aos poucos, ela sentia cada vez mais o peso da falta de seu passado. De saber quem ela realmente era.
Fazia mais de dois anos que ela viera para Inglaterra, dois anos desmemoriada, dois anos sem saber quem é.
Uma parte sua já havia perdido as esperanças, outra se pegava questionando tudo.
A pessoa que ela era realmente gostaria de vestir aquela roupa?
De arrumar o cabelo daquele jeito?
De ir para um café todo decorado com um tema feminino e delicado?
De estudar Literatura em uma grande universidade como a King's College London?
De viver dentro de uma mansão e portar o peso de um nome tão prestigiado?
Será que ela realmente gostaria da companhia homem á sua frente? O veria mesmo como um amigo e um guia?
Ela encarou Utakata discretamente, ele estava como sempre, terno cinza escuro perfeitamente alinhado, cabelos castanho escuros penteados e óculos ajustados sobre o nariz aristocrático.
Ele tinha tudo que era preciso para passar uma imagem de segurança, inteligência e seriedade, também era cordial e muito atencioso, o melhor tutor que alguém poderia querer.
Embora ela já estivesse na faculdade e indo bem, a família Uchiha era muito cuidadosa e exigente com tudo relacionado à educação.
Utakata a acompanhava nos estudos fora de sala, leva-a para todos os lugares importantes como a biblioteca ou centros acadêmicos de pesquisa, a fazia visitar museus e galerias, conhecer eventos eruditos e contemporâneos, a fazia ler sobre política e sociologia, música clássica e etiqueta também eram imprescindíveis, afinal, estavam na terra da boa educação.
Ele tomava seu chá com a postura perfeita de um cavalheiro britânico, seus olhos escuros voltaram-se para ela e Sakura sempre achava-o um pouco ameaçador, mas era tão rápido que nunca tinha certeza.
Ela tinha coisas demais na cabeça.
— Algum problema, Sakura?
Ela negou rapidamente, baixando a cabeça para encarar a fatia de bolo, a cobertura e decoração dele pareciam uma obra de arte, tudo ali era delicado e bonito, as cores suaves e femininas, os móveis mimosos como a cadeira de ferro arabescado e a mesa pequena e redonda.
Sakura afundou o garfo na massa fofa, viu a cobertura descer de dentro, e embora milhões de sirenes sobre seu peso se ascendessem, ela não conseguiu evitar a vontade louca de abocanhar. Suprimiu um gemido extasiado com o sabor e cuidou para que não caísse nada em seu impecável vestido lilás com uma estampa floral de minúsculas flores brancas, alças finas, uma fita roxa escura abaixo do busto, e saia balonê.
— Ansiosa com o próximo semestre? – Ele jogou, provavelmente achando que fosse esse, o motivo de sua desatenção.
— Hm, acho que sim...
— Você não precisa se preocupar, passou bem pelo segundo semestre, nada que dedicação e foco não possam resolver, vai passar por esse também.
Ela assentiu sem ânimo para alegrar-se com o sutil elogio. Ele abriu um jornal, e Sakura se perguntou se aquela pessoa nunca se irritava, ficava triste ou alegre.
Bom, também não saberia lidar com outro Utakata além deste, mesmo que ele fosse bastante exigente e cobrasse muito, ela já estava acostumada e aprendera a apreciar seu temperamento estoico.
Sakura ainda assim, sentia mais falta de calor. Talvez por ser filha única tivesse sido criada de forma muito mimada, mas ela sentia realmente vontade de estar em contato com alguém familiar.
De sentir-se realmente ligada à alguém, de ter lembranças agradáveis, queria saber o que era nostalgia.
A família Uchiha a acolheu como uma filha, mas não era do feitio deles, ser uma família cheia de afetos, eram completamente formais, estritamente refinados, talvez um pouco frios, mas ela não achava que podia julga-los como família em sua atual situação, alguém que nem lembrava, dos rostos dos pais.
O que importava era que eles a tratavam bem, cuidavam dela e...
Sakura relanceou a vista para a mão esquerda onde um anel solitário de ouro branco, diamantes, e uma chamativa pedra de esmeralda talhada em forma de coração, repousava em seu anelar.
E também, deram-lhe um noivo.
Um que ela nem conhecia o rosto, nem sabia quando conheceria.
Cuja a presença não era mais que palavras formais em tom de decreto.
Como um noivo fantasma.
Fale com o autor