Vingador Vol. II
8 7. Ameaça ao Medo adormecido. Noivo com rosto.
Notas iniciais

“Você me procura
Dentro da escuridão...
Abriu os olhos, com um arquejo assustado.
Sakura se sentou, grogue, olhou em volta, e deitou novamente, sentindo o corpo pesado, mas aliviada de estar apenas na macia e perfumada cama da casa em Bibury.
Olhou para o relógio, e embora já fosse um bom momento para se levantar, acabou enrolando mais um pouco.
Não havia nada de importante para fazer, realmente.
Levantou mais tarde, se arrumou, e vestiu um casaco quente, decidida a ir dar uma volta. Era vergonhoso, mas desde que chegara, só havia ido à igreja e postergando odo passeio que havia planejado em troca do prazer de umas horas a mais na cama quentinha. Seu pecado maior, deveria ser a preguiça.
Será?
Novamente, mandou esses pensamentos para longe, ela caminhou pelas pacificas vielas cheias de vegetação, o clima estava nebuloso ainda, alguns turistas tiravam fotos das casas antigas.
Sentou-se num banco perto do rio, e lá ficou, tinha conseguido falar com Louise por meio do telefone da casa, e se informara ao menos de como as aulas estavam indo e que Louise estava se descabelando de ira com a possibilidade de perder a chance de participar do desfile beneficente, por causa do que aprontaram.
Sakura se sentia mal por estar apenas ali, desfrutando da paz.
Embora, não estivesse se sentindo realmente em paz.
Toda noite sonhava, ou talvez fosse um pesadelo, ela não conseguia lembrar, tão logo seus olhos se abriam e o ar parecesse retornar aos pulmões.
Só haviam olhos vermelhos, reverberando no fundo da sua mente, uma sensação de angústia chegando ao ápice, terror e até mesmo mágoa inundando sua alma.
Sakura sabia que não iria querer saber o que sonhava, e isso era ainda mais perturbador.
Já não sabia quase nada sobre si mesma, agora até mesmo seus sonhos se tornaram enigmas?
Ela se levantou do banco, decidindo que continuava não fazendo nada produtivo, ao menos dormir era mais prazeroso.
Seguiu de volta para a casa, caminhando com uma lentidão depressiva, mas parou, ao notar um carro escuro, de cor chumbo parado em frente sua atual residência e não pode conter a alegria em imaginar se finalmente havia encerrado seu exílio, e que lhe vieram buscar, ou se, ao menos teria companhia.
Correu o restante do caminho, vendo os empregados tirarem duas malas de dentro do carro, adentrou a porta olhando em volta, e viu Grace, parada, no centro da sala com uma expressão séria, e polida.
Quase a chamou, mas calou-se e se encolheu ao perceber e reconhecer a silhueta nova no ambiente.
— Prepare-me um banho quente e comida – A voz fria de Izumi Uchiha, era geralmente tão glacial quanto a de Veena-sama, não fosse mais dotada de certa rudeza e impaciência, na maioria das vezes.
Ela tirou o casaco pesado que vestia, seu cabelo castanho escuro liso cortado mais curto de um lado a deixava altiva e sensual, impossível de não olhar duas vezes, e usava uma blusa de gola rolê preta, sem mangas que a deixou altiva e poderosa.
— Sim, senhora – Grace assentiu, tão polidamente quanto Dânica era, preparou-se para se retirar e localizou Sakura — Oh, milady, acaba de chegar, deseja algo?
Sakura só queria que ela não a tivesse entregado mesmo.
De todas as pessoas da família Uchiha, poderia afirmar com toda certeza, que Izumi não era sua pessoa favorita.
E ela, muito provavelmente, sentia o mesmo.
O porquê, não sabia.
Afinal, das noivas da família Uchiha, Izumi era quem detinha vantagem.
Ela conhecia muito bem o rosto de seu noivo.
Ela era destinada à Itachi Uchiha, afinal.
Izumi a fitou de lado, com seus gélidos e enfadados olhos castanho dourados, seu olhar se afiou ao reconhece-la e se voltou para frente, quase como se não a visse, mas com um suspiro aborrecido.
— Não faz mais faculdade também?
Izumi parecia ter a impressão de que Sakura era meio que uma inútil, parecia incomoda-la que não fizesse o trabalho da família, como ela própria fazia, e foi uma das que mais torceu o nariz para sua escolha de curso.
Sakura também poderia contar nos dedos, as vezes que a viu.
E que Deus a perdoasse, mas preferia não ter visto nenhuma.
— Meio que estou num recesso... Forçado – Admitiu, infelizmente não poderia contar vantagem de que estava indo muito bem na universidade, justo agora.
Izumi não se interessou de primeira, e então a fitou, de lado, com a sobrancelha perfeitamente desenhada erguida e um sorriso curto e maldoso.
— Oh? Então a “sapatinhos de cristal” andou deixando-os onde não devia?
Sakura seguiu para o sofá, e se sentou, assentindo com pesar.
— Algo assim...
— E te mandam pra cá – Izumi completou, aborrecida, enquanto mexia na bolsa — Se fosse eu, estava morta.
Sakura a achava, bem lá no fundo, uma dramática e exagerada.
Izumi nada mais disse, seguindo para as escadas, o som de suas botas ressoando a cada degrau.
— Tente não fazer besteiras aqui, não estou olhando ninguém. – Avisou, a voz irritada ecoando pelo corredor e a porta do quarto batendo em seguida.
Sakura puxou a almofada ao lado e afundou o rosto com ela, abafando um gemido alto de raiva.
— Ela é tão detestável! – Reclamou lá.
Era só o que podia fazer, afinal.
Não sabia o que Izumi viera fazer lá, mas parecia que finalmente Robin e Louise seriam “vingadas”.
A estadia em Bibury, definitivamente, se tornara um castigo.
֍
— Você vai mesmo fazer isso?
Sasuke bufou, pondo mais armas dentro da bolsa, abriu a caixa com munições dentro, e encheu a mão, colocando mais e mais.
— Não estou te pedindo pra vir comigo, aliás, é melhor que sua ajuda se encerre por aqui, antes que te rastreiem. Já fez mais que o bastante.
— Uuuhh estou mesmo ouvindo isso do Homem de mil armas?
Ele não pode deixar de rir um pouco, ouvindo esse velho nome de trabalho.
Eram bons tempos e nem sabia.
— Vai se foder, e sozinho, daqui em diante, não vai mais poder me culpar – Declarou, pegando a bolsa e passando a alça sobre o ombro, se afastou da mesa e seguiu até o idiota, estendendo-lhe a mão.
Ele o fitou desconfiado até, mas no fim sorriu, e apertou sua mão.
— Nos esbarramos por aí, cara.
— Torça pra que não.
— Ah, e obrigado por me dar aquela ajuda com você sabe o quê, juro que fico te devendo.
Sasuke adentrou o elevador de ferro, fechou a grade e o encarou através do metal cheio de aberturas.
— Não vai querer ficar me devendo, Sabaku.
֍
Izumi Uchiha bufou, aborrecida, ao ouvir batidas hesitantes na porta.
— Quem é?
Embora já soubesse.
— Sou eu...
Revirou os olhos, e se ergueu um pouco da poltrona, inclinando-se para puxar a tampa da maleta retangular, com armas, e fecha-la.
Enfiou a que estava limpando em baixo da almofada, e se recostou, pegando o celular.
— Entra.
Sakura abriu a porta, hesitantemente e pôs apenas metade do corpo, como se fosse capaz de fugir ou evitar um tiro direto em sua cabecinha rosada.
Era a coisa mais fácil.
Tão fácil, que irritava, profundamente.
— O que foi?
— Erm... Hum, eu estou indo dar uma volta, não quer ir? Ou posso trazer... algo?
Izumi bufou, suavemente, achando ridículo que ela achasse poder fazer algo por si, além de ser um obstáculo.
— Estou bem. Só vai bater perna por aí?
Sakura encolheu os ombros.
— Não tem muito a fazer, se não for um turista...
— Hm, que seja, estou vem.
— Okay. Até mais. Ah, e eu vou a igreja de noite...
— Dispenso.
Sakura assentiu, saindo logo, pela a batida um pouco mais forte do que o usual, Izumi se perguntou se havia irritado a coisinha.
Devia ter, ela parecia ser toda cercada daquela fé invisível, em algo invisível.
Era uma criatura de outro mundo, para Izumi.
Etzinho irritante.
Pegou a arma novamente, e abriu a maleta, desta vez, o brilho metálico das armas recém polidas lhe deram uma ideia diferente.
Fechou tudo e se levantou, pegando uma jaqueta, desceu as escadas e pegou as chaves de um dos carros, saiu e desligou o alarme já vendo a pentelha caminhar pela rua de pedra quase escorregando no chão liso, dentro de um casaco que quase a escondia.
Era uma vidinha medíocre e tão fácil de tirar.
Não precisava nem esforço.
Adentrou o carro e ligou o motor, seguiu pela rua até parar perto dela e destravar as portas.
— Entra aí, tenho uma ideia.
— Hã?
— Vai, entra. Vai ser interessante.
Sakura a fitou ainda como se fosse ela o alien ali, mas contornou o carro e entrou, sentando no banco de trás mesmo.
— Onde vamos? – Indagou, curiosa.
Tão fácil.
Izumi deu a volta com o veículo, um sorriso insinuando nos lábios.
— Você vai ver.
֍
— Eu fico feliz que gostaram tanto da estadia – Beca foi profissional e sincera. O casal de brasileiros se despediu com alegria contagiante, pareciam adorar até mesmo o inglês dela, deveriam gostar do sotaque.
Eles se afastaram e ela seguiu de volta ao balcão do saguão, onde as recepcionistas estavam.
— Algum problema? – Indagou, rigidamente ao perceber que a olhavam muito interessadas e curiosas. Prontas para começarem com fofoquinhas.
— Erm, estão solicitando a presença da senhora, num dos quartos.
— Quartos? O que aconteceu? Quem fez besteira?
Elas encolheram os ombros, indicando o número do quarto, e aturdida, Beca se perguntou se foi ela que fez besteira.
Pegou o elevador sem dar uma resposta decente às mulheres e sabia que isso seria mais combustível de fofoca.
Que diabos Aiden, Damon, seja lá quem for o esquisito, estava aprontando?
Entrou sem bater mesmo e cruzou os braços.
— O que você quer? Mandou me chamar na recepção? Está querendo me ferrar...?
Damon andava de um lado pro outro, largando roupas e tralhas nas malas abertas, havia uma em forma de caixa retangular, preta que ela nunca tinha visto, mas que estava fechada e mais uma bolsa que ele levava consigo, que parecia pesada.
— Finalmente, hein? – Reclamou — Pensei que teria que enviar uma carta pro seu chefe ou sei lá o quê, onde você esteve?
— Trabalhando?
— Só agora?
— Vai se ferrar! O que diabos está fazendo? – Ele passou por ela, entrando no banheiro, e voltando com o vasinho que ficava sobre o bidê e portava a escova de dentes e a pasta, simplesmente voltou até as malas e os jogou lá, bem com uma variedade estranha de cremes de cabelo.
Talvez tivesse mais do que ela.
— Seu metrossexual de uma figa! Não pode levar isso! – Beca irritou-se, pegando o vasinho de volta — É cleptomaníaco agora?
Damon ignorou, voltando ao armário e pegando mais roupas ainda nos cabides e jogando dentro. Ela xingou e foi lá, tirar todos os cabides.
Então, parou, encarando as malas, estupefata.
— Está indo embora.
— Sim, e não.
— Como é?
— Estou indo embora daqui, mas não do país, ainda.
— Como assim? O que você andou aprontando?
— Eis a questão, loira, eu estou sempre aprontando.
— Qual seu verdadeiro nome? Pra eu chamar a polícia! – Exigiu, nervosa.
— Quem diabos daria o nome pra você assim? – Ele chegou a achar graça.
— Porque está indo embora?
Ele suspirou, e foi até ela, puxando-a pelo braço, a fez se sentar numa das poltronas e sentou de frente pra ela, largou a pesada bolsa que levava sobre a mesa, e que produziu um som metálico, ela o encarou, espantada. E ele manteve um olhar sinistro, enquanto abria o zíper da bolsa.
— Veja você mesma.
Beca, se afastou, nervosa, mas por fim, era impetuosa ou burra demais, para dar para trás. Inspirou, e puxou a abertura da bolsa, o bastante para encarar o que havia dentro.
Ele observou sua reação, bastante entretido até.
Beca arquejou, nunca havia tocado ou visto uma de perto, quanto mais tantas. Mas sentiu o metal quanto tocou com a ponta dos dedos, o brilho das balas, os canos, os gatilhos.
Afastou as mãos e segurou-se nos braços da poltrona para não cair, e encarou o homem.
— Vo-você é um terrorista...?
— Pensando mais profundamente, eu diria que não gostar de matar inocentes foi o que criou toooodo esse problemão em que estou...- Ele disse, pensativo. Meneou a cabeça e fechou a bolsa — Um problema que não vai querer se meter, loira. Então, estou saindo, e você de agora em diante, nunca me conheceu, ou vai conhecer, certo?
— Está me ameaçando?
— Eu disse que não iria querer se meter comigo, benzinho, agora não posso mais brincar de Bond com você, certo?
— Você é um bastardo.
— Eu também já desejei isso, enfim. – Ele se ergueu, pegando a bolsa e jogando a alça longa sobre o ombro. — Eu estou indo, e já sabe, se nos cruzarmos, você nunca me viu, sim? E obrigado pelo serviço diferenciado até aqui.
Seguiu até as malas, fechando-as.
— Não vá até o estúdio também.
— Porquê?
— Não é mais seguro.
Ele saiu, e ela ficou parada, encarando a mesa, ainda vendo aquelas armas lá.
֍
Sakura tomava um novo susto a cada estouro de bala, que bom que não era cardíaca, ao menos ainda.
Por que não estava surpresa?
Izumi ser boazinha tinha de ter algo muito, muito errado.
— Eu não sei se quero ficar aqui...- Avisou, enervada, encarando as dezenas de cabines de tiro do clube em que foram parar.
Izumi seguiu em frente, até encontrar uma cabine vazia, entrou, colocando os óculos de proteção, abafadores de som e um boné.
— Mal chegamos, relaxa, vai ser divertido.
Sakura bufou silenciosamente, vendo-a carregar uma das armas que já estava lá. Fazia com tanta destreza que chegava a ser assustador.
Era como ver um filme de ação de perto.
Ela a apontou para o alvo, um cartaz com uma silhueta humana demarcada com linhas e números a pelo menos vinte e cinco metros de distância e disparou.
Sakura pôs as mãos nos ouvidos, com o barulho contínuo de um cartucho de sete balas sendo disparadas de uma vez.
Cartucho?
De sete balas?
Desde quando...?
Ela ficou lá, pensando de onde esta definição saíra.
Não lhe era novidade que a família apreciava clubes de tiro, Veena-sama colecionava armas antigas como se fossem bonecas, Izuna, Shisui e o resto sempre saíam para caçar ou participar de competições de tiro, até mesmo Itachi, vez ou outra, estava sentado numa mesa limpado uma coleção própria com tranquilidade. Ele dizia que as limpava porque não usava muito, graças ao trabalho, e assim evitaria que fossem se estragando tão rápido.
Na primeira vez, foi chocante, e um pouco enervante, pensar que haviam tantas na casa, mas depois, o fato não a incomodou mais. Talvez se sentisse até mais segura.
E ficava meio curiosa de vê-los manejando-as, Izuna nunca a deixou chegar perto das suas, o implicante. Shisui, a encarava curioso, talvez achasse ela a estranha por não se incomodar. E Itachi, a deixava assistir tranquilamente a forma como as guardava em sua maleta, perfeitamente organizadas e desmontadas.
Agora via Izumi, e a chata deveria estar só se exibindo. Era muito legal ver uma garota usando aquilo, mas não gostava de inflar o ego da chata.
Izumi encerrou, pegando uma arma maior e carregando-a, o cartaz perfurado sete vezes foi movido para perto, por meio de uma correia, no teto.
Sakura percebeu o ocupante da cabine ao lado sair junto com a pessoa que o acompanhava, conversando animadamente e se voltou para a frente.
— Vai lá – Izumi disse.
— Hã?
— Tenta lá, na outra.
— E-eu não...
— Vamos lá, não tem graça ficar só olhando, vamos ver se você acerta ao menos um.
Sakura saiu da cabina, e entrou na outra, nervosa, era como se todo mundo estivesse a olhando.
Tinha plena certeza que não fazia o perfil de garota que deveria apreciar esse hobbie.
Tirou o casaco e olhou as armas, insegura. Não haviam armas como as da Izumi, apenas uma desmontada, para seu desgosto, e uma espécie de espingarda.
— Isso pesa muito. – Avisou, ao pegar a coisa.
— Queria que fosse de plástico?
Ela bufou, mexendo atrapalhadamente no lugar onde suspeitava que se colocassem as balas. Mas parecia-lhe que estava errada.
Parou, encarando a arma, sua mente em branco por um momento, um som ligeiro de um estalo de algo sendo aberto, encaixado e engatilhado ecoou em seu ouvido.
Ela inspirou, assustada, e voltou a encarar a arma, e a caixa com cartuchos ao lado. Haviam balas espessas como pilhas de brinquedos grandes, eram metade vermelhas, metade metal dourado.
Sakura virou a arma de lado, puxou uma pequena alavanca e a arma “quebrou” em suas mãos, abrindo-se e mostrando duas aberturas circulares, ela pegou dois cartuchos e colocou em cada uma, que ocuparam cada espaço perfeitamente, então juntou a arma, ouvindo o estalo que a fez ter certeza de que estava certa.
A espingarda estava carregada.
Izumi a observava com os olhos estreitos e ela a fitou, dando de ombros, tampouco sabia como havia feito isto.
A mulher bufou, e revirou os olhos, então sorriu ladina e indicou o cartaz que já esperava.
— Vamos lá.
Sakura inspirou, nervosamente, não havia nada querendo apitar em sua mente, ou mesmo um instinto que dissesse como fazer aquilo certo.
Era muito grande, e pesada, nem sabia como segurar, apenas tentou lembrar de algum filme em que o personagem usasse uma arma minimamente parecida com esta e tentou imitar seu jeito.
O cano pendia para baixo um pouco e ela fez o possível para firmar na direção correta, e mirar.
Poderia apenas atirar e pedir desculpas pelo erro, mas se recusava a errar na frente da chata.
Ela já era chata o bastante.
— Vamos lá! – Izumi disse, até mesmo empolgada.
— É pesada demais – Reclamou mais uma vez, mirando, seu dedo tocou o gatilho gelado, incerta, suspirou, e ia atirar, definitivamente.
Mas seu corpo travou quando ouviu um estalo diferente.
— Não.
A espingarda foi arrancada de sua mão como se fosse um brinquedo, e ela se afastou, encarando Itachi espantada, bem como Izumi havia recuado.
— I-Itachi?!
Ele baixou a arma, descarregando-a numa destreza assustadora.
Ele estava assustador agora.
— Que diabos tem na cabeça? – Sakura recuou contra a parede, nervosa.
— E-eu...
— Não falei com você – Ele disse, largando a arma com grosseria sobre o balcão, segurando a munição, encarou Izumi, com ira borbulhando nos olhos escuros. — Está ficando demente? Deixa-la manejar uma arma desse calibre sem qualquer instrução?
— Eu só a deixei tentar, ora – Izumi rebateu, ela era um cão tão intimidante quanto ele, mas Sakura podia sentir que não estava tão segura de lidar com ele agora.
— Deixou-a tentar? Sakura, saia.
— Eh?
— Vá esperar lá fora.
Sakura assentiu, pegando o casaco e saindo. Embora não quisesse deixar Izumi levar a responsabilidade, afinal aceitara estar ali. Sentia que não seria ouvida agora nem se usasse um megafone.
Cruzou o corredor, sempre olhando para trás, viu Itachi sair da cabine, e entrar na Izumi. Foi como ver duas feras sendo postas numa jaula apertada.
֍
— Deixou-a tentar? O repuxo do tiro de uma arma dessas poderia quebrar o ombro dela, se não o pescoço. – Itachi rosnou, largando os cartuchos no balcão — Que pensa que estava fazendo?
Ela cruzou os braços, encarando-o aborrecida.
Por dentro, borbulhando de raiva.
— Estraga prazeres. – Desdenhou.
Ele inspirou, profundamente.
— Prazer? Você não tem direito algum de procurar prazer em cima de Sakura, e sabe disso.
— Humpf.
Itachi deu as costas e seguiu para fora.
— Vaisravana vai ficar sabendo.
Izumi encarou suas costas, revoltada e indignada.
— Você não...
— O Amaterasu também vai.
Ela deixou os braços caírem e o seguiu, quase tropeçando, chocada.
— Amaterasu está aqui?
— Todo mundo está.
— O quê? Porquê?
Eles não se reuniam desde o 14 de Izanami...
Isso significava...?
— O Falcão voltou.
֍
As primeiras gotas de chuva deslizavam pelo vidro, Sakura observou Itachi adentrar o carro no qual viera e Izumi logo atrás, mais que apressada.
Quando o veículo partiu, ela suspirou pesadamente e seguiu para o andar de cima, deitando-se na cama.
Itachi disse que ela iria retornar, e achou que fosse agora.
Ficar sozinha se tornou um pouco cruel, tinha certeza de que algo estava acontecendo em casa, e ninguém lhe contava o que era.
Tinha certeza que ouvira menção ao “Amaterasu” apelido de trabalho de Fugaku Uchiha, de todas as pessoas da família, a que ela menos via.
E que confessava não fazer tanta questão. Não era que ele fosse chato como Izumi, implicante como Izuna, ou distante como Mikoto, mas ele era... Ele era apenas algo além, sombrio, intimidante, se a família Uchiha era como a família real inglesa, ele era o rei, o patriarca, o deus.
Em geral, pelo o que extraíra dele, era de uma personalidade parecida com a de Itachi, mas recoberta de gelo como a de Veena, ele a tratava como uma menina, ela ia até ele e recebia seu cumprimento: o beijo que ela tinha que dar em sua grande mão, como um pedido de benção, e como se fosse um bônus, um suave afago no topo da cabeça.
Era um costume estranho, posto que não eram uma família cristã ou que parecesse seguir alguma religião. Ela sempre ia a igreja, e ninguém tinha implicância quanto a isso, apenas zombavam um pouco (claramente Izuna e Izumi).
Ela se recusava a acreditar que fossem pessoas sem fé, para ela, todo homem sem fé era um homem perdido.
Se não temessem o julgamento de Deus, ao de quem temeriam?
E o mundo estaria perdido, mais do que já era.
No entanto, ela procurava não se importar, nem todo mundo que ia a igreja realmente tinha fé, assim como muitos que não iam, não podiam ser julgado de não ter.
Cada um encontrava sua própria forma de servir e acreditar.
Das raras vezes em que vira o patriarca, ele sempre lhe perguntava polidamente se estava bem, com um cuidado de quem não parecia acostumado a fazer isso, quase que muito bem disfarçado sob o olhar de rapina.
Sakura não sentia qualquer coisa ruim vindo dele, por isso não entendia porque fazia questão de evita-lo, só fazia.
Talvez fosse só por não estar acostumada mais a uma figura paterna, ou por ele não ser seu pai idealizado. Mikoto também não era como uma adorável mãe, mas era mais fácil se sentir acolhida por ela.
Sakura sentia que ela tinha tanta ou mais dificuldade de se mostrar afetuosa, e isso a comovia.
Nunca a vira ela e Itachi trocarem uma conversa de tom fraternal, afinal. Mas podia ver bem no fundo dos olhos azuis que haviam essa pequena vontade.
Parecia-lhe algo tão simples de resolver que a frustrava.
Eram ligados por sangue, eram uma família, não havia o que dificultar!
Apenas se amem!
Gostaria de gritar.
Mas aquelas cabeças duras provavelmente só entrariam em consenso para manda-la para um manicômio.
Deitada na cama, ela gritou novamente, contra o travesseiro apertado no rosto.
— Estou curiosa!
Confessou, algo havia acontecido para a família praticamente inteira se reunir. E ela lá, presa em exílio, morta de vontade de estar por perto.
Era algo tão raro, e ainda faltavam pessoas...
Ainda faltava aquela pessoa...
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— Chegaram cedo – Shisui observou.
Itachi saiu do carro, esticando o pescoço, um pouco dolorido.
— E havia hora certa?
Shisui deu de ombros.
— Me diga você, foi você que entrou em contato...- Observou apenas Izumi deixar o carro, e arqueou o cenho. — Não trouxe...?
— E depois de tudo, deixar a isca tão fácil?
— Hn, tem razão.
Os três adentraram a casa, na sala, a visão de Fugaku Uchiha ocupando a poltrona mais robusta os encontrou, usava um terno escuro e uma camisa de gola rolê, preta, a perna cruzada apoiando um livro grosso, a mão com um anel de ouro, com uma pedra preta que recebera uma gravura com o Kanji que significava “Cabeça” folheava a edição a outra mão, passava em volta do quadril da esposa sentada no braço da poltrona, pernas cruzadas, olhos no relógio enquanto ele batucava os dedos calmamente no quadril dela.
Mikoto retirou os olhos do relógio da parede e encarou os três.
— Demoraram, e onde...
— Não deixe a isca tão fácil, mesmo com o peixe dentro da rede – Shisui disse, e ela suspirou — Você que ensinou.
— Hm, foi. Ah, Izumi, finalmente voltou – Percebeu.
— Senhora – Ela disse, se aproximando se curvando, diante o homem — Tio — cumprimentou — Estou de volta.
Fugaku estendeu a mão com o anel para ela, recebendo um curto beijo sobre a pedra.
— Seja bem-vinda, nora.
Quando ele a chamava de Nora, sempre era um sentimento de triunfo e frustração, mesclados.
Se ergueu e seguiu para o sofá.
— Contatei Obito, e Madara deve chegar pela noite de amanhã – Itachi disse.
— Então é verdade? – Ela indagou, de repente.
— Estava embaixo dos nossos narizes fazia um tempo – Mikoto admitiu, não se importando realmente. — Usou nome falso, evitou as fotos, teve a pachorra de fazer uma exposição de arte no Tate.
— Tate, porque não me surpreende? – Shisui disse — Utakata tem um bom faro.
— Um bom faro não é o bastante se for muito lento, posso apostar meu dedo que ele entrou em contato com a gazela naquela ocasião.
— Ela não demonstrou nada de mais...
Mikoto o fitou, suspirando.
— Ela não se lembra.
— E ele sabe disso.
— Provavelmente sempre soube, deve ter descoberto ainda em Tokyo. Ela se adaptou bem demais para quem passou pelo o que passou. Sasuke não é tolo.
— É traiçoeiro – Fugaku pronunciou pela primeira vez. — Mas ainda é impulsivo.
— Aposto que está irado – Shisui chutou, encarando Itachi que era quem o havia encontrado primeiro, afinal.
Itachi inspirou, desabotoando o terno e se recostando no sofá.
— Está irado agora, é o que posso dizer.
— Ele está fora de si, não faz o mínimo sentido um alemão ser mandado para pegar a gazela – Mikoto contrapôs.
— Não seja sentimental, Veena – Fugaku ecoou, num tom enfadado e o fitou, irada.
— Não estou sendo sentimental! Que lógica tem a alta cúpula mandar alguém contra nós?
— Ela não é uma de nós. – Izumi disse.
— Ela é, regras são regras. – Mikoto decretou, gelidamente, a mais nova se revoltou de vez.
— Sasuke não obedece às regras! Porque nós deveríamos? Ele matou Izanami! O pai do Izuna!
— A atitude de Izanami ainda está sob análise, ele está morto, Sasuke o matou, ele estava lá, e vai dizer o que diabos deu em Izanami para tentar mata-lo em zona neutra. – Fugaku disse, incisivo.
— E se o Falcão o atacou? – Izuna se pronunciou, pela primeira vez.
— Sasuke não estava em posição ofensiva, nunca esteve – Mikoto suspirou.
— Ele estava caçando— Izumi declarou.
— Coletando informação, mantivemos a Gazela aqui, mas criamos toda uma trajetória falsa, ele ficou quase dois anos atrás de um rastro falso, só percebeu depois de Bali, quando conseguiu pegar o material de Ginseng.
— Isso se não tiver pego ainda depois, com Angeline, em Madrid. – Shisui lembrou.
— Ele não achou Angeline. – Izumi afirmou, quase num rosnado.
— Isso é o que Angeline diz, e quando se trata de Sasuke, ela não é uma informante confiável. Sempre foi muito... Inclinada pra ele. – Fugaku disse, Mikoto revirou os olhos.
— Talvez a cadela espanhola tenha o encontrado e o posto no rastro certo, vamos descobrir isso hora ou outra, e se tiver traído a FOLHA, ela vai ter o que merece.
— Ele vai encobri-la – Itachi disse — Ele sabe que sempre pode precisar de algo que geralmente se descarta.
— Vamos ver – Ela interpôs.
— Independentemente de quem atacou quem, Izanami não poderia lutar, uma área neutra é uma área neutra. Se Sasuke o pegou desprevenido, não acho que vá ter problemas em confirmar e se vangloriar.
— Ele e Izanami sempre se detestaram – Mikoto recordou. — Os dois eram como cães raivosos, o Falcão está em status de Extraviado, mas eu tenho certeza que com uma insígnia, ele poderia entrar na área neutra e desfrutar da segurança dela. Ele sabe que com seu status atual, mesmo quem não estava atrás dele, iria vir pra cima. Então não arriscaria usar a área sem algo que lhe assegurasse.
— Regras são regras. Se tiver uma insígnia, a área neutra lhe é direito, sendo um extraviado ou não. – Fugaku declarou. — Mas fora dela, vai ser caçado como um cão.
— Izanami ou o atacou nela, ou foi atacado.
— Vamos tirar isso a limpo logo.
O som de um motor a toda potência foi captado por todos, juntamente de música pesada, uma barulheira infernal que perturbava facilmente o bairro bucólico.
Itachi olhou de soslaio para a janela e podia ver através das cortinas a faixa de poeira que levantava logo atrás de um veículo preto fosco que praticamente serpenteava pela rua.
Vivendo fácil, vivendo livre
Um bilhete para a temporada, numa viagem só de ida
Sem pedir nada, me deixe em paz
Pegando tudo em meu caminho
Suspirou, já se sentindo cansado.
— Vai ser mais cedo, ao que parece. – Comentou.
֍
Não preciso de razão, não preciso de rima
Não tem nada que eu prefira fazer
Descendo, hora da festa
Meus amigos vão estar lá também
Batucava os dedos no volante de couro, balançando a cabeça ao ritmo da batida, ajeitou os óculos escuros sobre o rosto e acelerou mais um pouquinho até finalmente chegar perto dos portões escuros.
Estou na estrada para o inferno
Na estrada para o inferno
Estrada para o Inferno
Estou na estrada para o inferno
Parou diante do portão, o motor rosnando.
— Ele vai fazer isso – Mikoto declarou, com um suspiro, e estava certa.
O carro atravessou os portões os pondo abaixo e seguiu sem pausa cruzando o jardim, passando por cima dos canteiros.
Sem sinais de "pare", sem limites de velocidade
Ninguém vai me fazer reduzir a velocidade
Como uma roda, vou rodar
Ninguém vai me sacanear
Ei Satã, paguei minhas dívidas
Tocando em uma banda de rock
Ei mamãe, olhe para mim
Estou no meu caminho para a terra prometida
— Ele está tentando passar uma mensagem? – Fugaku indagou, pensativo.
— Ele sempre está fazendo isso, querido.
— Ele não vai parar – Shisui disse, voltando a entrar.
— Não, não vai.
Todos eles entraram, o carro saltou por cima de outro canteiro, quase capotando, e seguiu, acelerando mais ainda.
Estou na estrada para o inferno
Estrada para o Inferno
Na estrada para o inferno
Estou na estrada para o inferno
Não me pare!
O veículo subiu os degraus da entrada, a violência do choque dos pneus e a velocidade exagerada fizeram-no praticamente voar e penetrar na casa, literalmente.
Capotou, um giro vertiginoso quando atravessou o corredor da entrada, e foi parar na sala, esmagou uma estante e parte do sofá, finalmente parado, meio virado. O som alto encheu a sala, o pó dos escombros tomou tudo.
Ele abanou o rosto, e soltou o cinto, acabando por escorregar para o lado do acompanhante que estava praticamente no chão, escapou pela janela e se levantou, batendo o pó do terno, encarou o veículo, uma das rodas cromadas ainda girava.
— Não se fazem mais carros como antigamente.
Mesmo este sendo um modelo tão velho.
Estou na estrada para o inferno
Estou na estrada para o inferno
Estou na estrada para o inferno
Na estrada para o inferno
Estrada do inferno
Estou na estrada para o inferno
Na estrada para o inferno
Estou na estrada para o inferno
Girou sobre o calcanhar defendendo-se do punho que veio em sua nuca, o pó dificultava a visão mas reconhecia aquele rosto.
— Ainda vivo, Ebisu?
— Vivo e ativo – Shisui disse — Bem vindo, Sasuke – Chutou seu flanco, o fazendo recuar, Sasuke se afastou, sentindo um pouco golpe, e sacando um canivete.
— Sempre receptivo – Ironizou, indo para ele, mas sendo recuando outra vez de outro golpe de faca, de uma silhueta feminina. Segurou seu pulso e torceu, ela girou sobre o próprio eixo plantando o punho em seu ombro, a força foi nostálgica. — Izumi?
Ela rosnou e ele teve certeza, empurrando-a até a parede, e prensando-a nela, com as mãos e a enorme faca de caça para cima.
Izumi nunca foi muito dada a delicadeza e sutilidade. Se pudesse, andaria com um canhão em cada bolso.
Bloqueou seus golpes de perna, e a encarou.
— Achei que você gostasse mais de mim... – Comentou, ela acertou uma cabeçada em sua testa, e ele recuou um pouco, tonto — Esqueci é assim que geralmente demonstra afeto...
Um tiro acertou a parede ao lado de suas cabeças e ele a puxou bruscamente a usando de escudo, e travando seus pulsos com uma das mãos, usou a outra para tirar uma arma do bolso e atirar por baixo do braço dela, de volta a quem ainda se ocultava sob a nuvem de pó.
Izumi acertou o joelho na lateral de sua barriga, e ele a empurrou para trás, jogando-a o mais longe possível, e atingindo o rosto de Shisui.
— Hah, aposto que não esperou por essa – Shisui recuou o encarando de lado, e ele fez uma careta ao ver que estava armado, atirou nele primeiro, o derrubando, ele caiu atingindo a luminária da parede, próxima a Sasuke. Se ergueu, tomando uma respirada alta e Sasuke meneou a cabeça. — Usando forro tático, primo? Achei que fosse mais conservador, desde quando apela pra tecnologia?
— E você parece bem atualizado...? – Observou. Sasuke apontou para sua cabeça, mas foi jogado para trás, pela força de um tiro de escopeta.
Izuna saltou para perto, e caiu praticamente sobre ele, jogando sobre um monte de escombros e descarregou a escopeta em seu peito.
E eu vou descer até o final
Estou na estrada para o inferno
(Highway To Hell — AC/DC)
Izumi arrancou o maldito rádio, do painel, e o silêncio encheu o lugar.
— Izuna... – Itachi disse, se aproximando.
— O bastardo matou meu pai! – Rosnou, um chute o fez perder a arma e recuar, Sasuke se levantou, tossindo quando recuperou o ar que veio com gosto de poeira.
Bateu as balas afundadas no forro do terno e da própria camisa e inspirou mais uma vez.
— Como eu amo a tecnologia. – Declarou, se aprumando.
— Onde conseguiu isso? Ainda é considerado experimental – Shisui disse.
— Você tá usando – Ele acusou.
— Eu não sou um extraviado, e sou da elite, já você...
— Que cruel, eu tenho as minhas fontes, sim? Então, as boas vindas acabaram ou vou ter que atirar nas pernas de vocês? Lá não tem forro a prova de bala – Declarou, com um sorriso maldoso, e a arma em riste.
Os quatro apontaram pra ele.
— Você também não – Izumi ameaçou.
— Tem como saber? – Ele jogou.
— Crianças, chega – Ordenou Mikoto, caminhando até eles. Abaixaram as armas e Sasuke manteve a própria ao lado do corpo, ainda arquejava um pouco, o forro da roupa realmente era bom, pra segurar até um tiro de grosso calibre.
Mas ainda era o mesmo ou pior que usar um colete a prova de balas, a dor do impacto ainda era desgraçada.
Suspirou encarando a mulher e seus olhos gelados, ela se aproximou, tocando seu rosto e o colhendo nas mãos.
— Barbado? — Constatou.
— Pensei em plástica mas não tive muito tempo para deitar numa mesa de cirurgia – Desdenhou.
— Não tem porque desfazer-se deste rosto. – Ela declarou, morosamente.
— É mais fácil que se desfazer dos registros no banco de dados da Interpol, FBI e CIA. – Fugaku contrapôs.
Sasuke arqueou o cenho, reconhecendo a figura, engoliu um pouco o ar, a garganta ficou um pouco mais seca.
— Ih... Oi...? Ah – Encarou o carro, e apontou — Foi sem querer, hein? Acho que tem algum problema nos freios...
Mikoto bateu levemente em seu rosto, e sorriu.
— Continua tão dissimulado. – Constatou, quase emocionada.
— Continua uma grande filha da puta. – Ele elogiou — Oi, mamãe?
Mikoto abraçou seu pescoço.
— Ela vai mimar ele – Itachi concluiu, suspirando e se afastando.
— Não seja assim, Itachi – Mikoto resmungou, apertando a bochecha do mais novo, Sasuke fez uma careta, havia um corte ali.
Eis a sua mãe, sempre mordendo e assoprando.
Mas parecia que deveria tomar cuidado era com a besta maior.
Foda, até o velho estava lá.
Claro que já esperava algo do tipo depois que matara o alemão. Mas não achou que ficaria fodido assim.
Bom, ele não teve culpa afinal.
Sabia bem o que estava em jogo,
Se afastou da mulher, e seguiu até ele, embora fosse de respeito guardar a arma, ele focaria na própria segurança.
Já havia quebrado regras maiores que essas, e sem guardar sua amiguinha, pegou a mão do velho e encarou a pedra escura, a gravura trazia muitas lembranças.
— Estou de volta – Disse.
— Tente me convencer e falhe miseravelmente.
Seu velho o conhecia bem.
Sasuke se afastou, apenas, e Mikoto inspirou dolorosamente ao ver sua recusa implícita.
— Parei de tentar acertar no seu acerto, faz tempo, pai. – Declarou — Sabe que não gosto de perturbar, mas você começou, provocou e puxou até conseguir. Bem, agora estou aqui. Acha que pode lidar com as consequências que virão?
֍
— Nhonhonnhon, seu fofinhooo, coma tudo, sim? – Sakura disse, oferecendo uma rodelinha de cenoura para Plum, a coisa mais fofa e gorducha do mundo enrolado numa matinha de lã.
O dia ainda estava friozinho, tomado por uma neblina suave, a grama molhada, ela afagou sua cabecinha com a ponta do indicador, o mantendo no colo enquanto ele roía a rodela com os olhos escuros brilhantes.
Sakura suspirou, recostando-se no sofá da varanda que dava para o pequeno quintal nos fundos da casa.
Olhou também para o livro sobre a mesinha a sua frente, ao lado do chá, A Tempestade, de Shakespeare. Já havia lido ao máximo, mas não conseguido se focar realmente. Provavelmente teria que reler se quisesse algo para apresentar na aula, isso se conseguisse ir no dia da apresentação.
Sua cabeça insistia e ficar dando voltas em torno da curiosidade.
Plum não parecia interessado em aprontar enquanto não terminasse sua cenoura, ela colocou-o mais de lado no colo, e pegou o livro novamente.
Abriu-o onde parou, e tentou focar numa única frase que pudesse lhe recuperar o interesse em ler.
“O inferno está vazio, e todos os demônios estão aqui”.
֍
— Deixando claro que não estou ameaçando ninguém. – Sasuke completou, com dissimulada inocência, enquanto passava os dedos sobre a bainha das katanas penduradas na parede do escritório de Fugaku.
Era o maior da casa, com espaço e conforto para longas reuniões. Shisui estava num canto ao lado da mesa aparador com bebidas, Izuna fulminava Sasuke a cada passo, sentado num sofá, Izumi no outro, Itachi também.
Obito Uchiha, o Izanagi havia chego pouco tempo depois, estava sentado numa das poltronas, degustando um vinho. Madara, o Susanoo. Ainda levaria um dia de avião para chegar, e não se importou de começarem sem ele, posto que Sasuke e meio que os obrigou, dada a forma um tanto empolgada com que chegara.
— Suas intenções ficaram meio óbvias e não foi depois de destruir a sala com o carro – Fugaku disse.
— Já esclareci que perdi o controle – Ele rebateu, sem fazer questão de parecer convincente, puxou uma das katanas da bainha, e analisou a lâmina.
Fazia tempo que não usava uma, aliás, ensaiou um golpe ou outro, agrando-se bastante da performance da arma.
— Ela não está aqui – Não fora uma pergunta.
— Não ficou óbvio? – Veena ironizou — Sua “chegada” definitivamente a poria em um estado bastante...
— Excitado?
— Apavorado, me parece mais próprio da Gazela em questão.
Sasuke revirou os olhos.
— Gazela... Tá mais pra rato, um ratinho medroso – Resmungou, cortando o ar perto da cortina.
Opa, a cortina também.
Baixou a espada, olhando o cabo.
— Esse cabo tá muito escorregadio...
Mikoto revirou os olhos, aborrecida.
— Mas é o meu rato – Ele prosseguiu — Quero meu rato de volta, okay? Okay. Passo pra buscar mais tarde. – Declarou, recolocando a espada no lugar.
— É tão adorável que ache que as coisas sejam fáceis assim, querido. Chega a parecer ingênuo, gostava do tempo em que era ingênuo. — Ela suspirou, saudosa.
— E houve esse tempo? – Fugaku indagou, genuinamente duvidando.
Ela bufou, chateada, e inspirou profundamente.
— Não se faça de tolo, Sasuke. Sabe que isso é inviável, a moça está adaptada, e absorvida, ela está encaixada, entre nós. Não existe forma de você simplesmente chegar, levar ela, sem criar um nó naquela cabecinha já cheia de traumas.
— Traumas que ela esqueceu.
— E esqueceu de você.
— Acha que eu faço questão? – Ele a cortou, afundando as mãos nos bolsos do terno, ela o encarou, bastante surpresa.
— Se não...?
— Ela não precisa lembrar de mim, se ela se lembrar de Tokyo, a esta altura, pode ficar louca. – Desdenhou, irritado. — E não estou falando de louca do tipo que sai correndo chorando por aí, com uma gazela perdida. Ela vai ficar louca do tipo que vai se matar, ela é uma fodida suicida, e quando ela souber a merda do circo que você armou pra ela, vai ficar tão depressiva que vai se matar. – Rosnou — Ela não é seu brinquedo, ela não é um brinquedo, ela não serve pra brincar seu maldito jogo, Veena. Se você jogar com ela, você a quebra, simples e acabou. E o que você faz? Adota ela como se fosse sua o quê? Filha? Sobrinha?
— Nora. – Itachi disse. Sasuke se voltou para ele, o encarando incrédulo.
— Nora? Nora? – Olhou para Izumi, e ficou ainda mais perdido e zangado depois de ver que ela tinha um solitário de rubi no dedo, um rubi enorme. — Que porra é essa? Desde quando aceitamos poligamia nesse caralho?
— Esse cara realmente...- Shisui bufou.
Veena riu, e Fugaku meneou a cabeça suspirando.
— Qual a piada?
— Ninguém disse que ela era noiva de Itachi – Ela declarou, com um sorriso perverso.
Sasuke, estreitou o olhar, procurando as respostas naqueles olhos de serpente.
— Porque você tem que ser tão... Foda? – Cuspiu, ela sorriu ainda mais presunçosa.
Ele realmente saiu do ventre dessa mulher.
— Pôs um anel no dedo dela... Em meu nome?!
— O solitário que foi da minha mãe – Mikoto disse, vibrante — Já que o solitário da sua avó paterna está agora no dedo de Izumi, como noiva do primogênito.
— Descarada! E com diabos...? Usou um substituto? De quem diabos ela acha que é noiva?!
— Você entrou em contato com ela – Itachi disse.
— É, porra, entrei! Aquela filha da... Ela aceitou o anel, sem nem saber quem é o noivo?! Eu vou arrancar aquela cabecinha dela e vou...- Ele apertou os dedos no ar, estalando-os.
Mikoto observou tudo cheia de nostalgia, ele sempre era tão puro em suas reações, principalmente as de raiva. Cutucou o marido com o cotovelo.
— Ele ainda fica todo vermelho – Comentou, empolgada.
Fugaku revirou os olhos, enfadado.
— É uma garota generosa – Começou, Sasuke bufou, repuxando a gravata esgarçando-a, o observou de lado — Acha que sofreu um acidente, e que somos uma família próxima a dela, a trouxemos e cuidamos, por quase um ano, ela começou a faculdade, vivendo perfeitamente bem sob nossas regras, mesmo que um pouco rígidas aqui e ali.
— Sei, um pouco. Horários apertados, etiqueta, vestidinhos comportados...
— Está reclamando? – Veena duvidou.
— Eu não disse isso, aliás, tem que rever mais umas coisas.
— Ah?
— Aquelas duas pentelhas que estão sempre com ela. Não gostei, péssima influência.
— São duas herdeiras de muito renome – Ela contrapôs, ofendida.
— Carregaram ela pra um barraco com música e muita fumaça suspeita. – Ele chutou.
— Oportunidade que você aproveitou bem. – Mikoto mandou de volta, irada.
— Menos do que gostaria e a culpa é sua – Ele riu, furioso — A pentelha me chutou! Me chutou porque é noiva, e caralho. Ela me chutou porque é minha noiva?! Que porra é essa?!
— Ninguém mandou aparecer fingido ser outra pessoa, apresentou-se com outro nome? Como ela vai entender agora? Isto é culpa sua. Já tinha vindo até aqui, porque tantos disfarces? Estas portas sempre estiveram abertas pra você.
— Mas preferiu achar que realmente conseguiria escapar com ela embaixo do nosso nariz — Fugaku achou graça. Parecia-lhe a melhor piada.
Todo mundo realmente achou, Sasuke revirou os olhos.
Ele era egocêntrico, e geralmente sua taxa era o bastante para tomar um ambiente, mas todo mundo ali também era e juntos, conseguiam superar até ele.
— Humpf. Eu teria conseguido, ela está na minha, só precisava de mais uma amaciada.
— Bom para o rapaz belo, ousado e desconhecido, mas não para o noivo dela – Mikoto riu-se, ele lhe mandou um olhar mortal — E aqui nesta casa, você é Sasuke Uchiha, nada vai mudar isso.
— Não adianta vir com jogos. Um telefonema sobre sua vinda, vai ser o bastante para ela ficar em ponto de ebulição.
— No sentido de Excitada?
— No sentido de enfarto.
— Tsc.
— Com aquela mentalidade de princesa da Disney acha que ela pode ficar algo perto de “excitada”? – Izumi desdenhou — Aquela garota ainda deve achar que os filhos vão vir depois que mandar uma carta pra cegonha.
— Ela não está tão diferente do que era em Tokyo – Sasuke disse, com um sorriso ladino.
Ah, Tokyo, quarto frio, cama quente, muito quente.
Saudades.
— Ela está como realmente deveria ter sido sempre. – Comentou, se aproximando da cortina cortada ao meio — Em estado puro. É até irônico, considerando onde está morando, aqui, nesse lugar.
— Que cruel, cuidamos bem dela, ela adora todo mundo, ou quase todo mundo...
Ele não pareceu surpreso.
— Deve ser a sina dela.
Sempre atraída para o errado, buscando algo de certo, até mesmo bom, em meio a escuridão dele.
֍
— Milady? O carro já está esperando! – Grace avisou, do outro lado da porta.
— Já vou! Já vou! – Sakura correu até a bolsa sobre a cama, passando a alça longa de corrente e couro sobre o ombro, então seguiu até o espelho e ajeitou a boina azul marinho mais uma vez sobre a cabeça, penteou os cabelos entre os dedos, tentando acalma-los, havia acordado atrasada demais para molhar esta juba, que resolvera amanhecer em fúria, logo hoje.
Sakura ouviu o carro buzinar. Geralmente não a apressavam para nada, mas tinha certeza que se o estava fazendo agora era por instrução vindo de Veena-sama, ou quem sabe de Itachi, era assustador e empolgante ao mesmo tempo. De todo jeito, ainda estava feliz em voltar para casa.
Correu para a porta, saindo, e antes de chegar na escada, voltou, com um grito de susto, entrou no quarto, foi até a cômoda e pegou a pequena gaiola circular metade azul, metade branca onde Plum estava deitado, observando tudo com os olhinhos acesos.
— Desculpe, me desculpeeee! – Pediu, segurando a alça e descendo os degraus cuidando para não balançar muito a gaiolinha.
Grace a esperava na porta com um sorriso bem-humorado.
— Foi por pouco.
— Foi sim!
— Teríamos cuidado bem dele – Ela assegurou, observando-a calorosamente — Oh, e estão combinando!
Sakura se fitou, as roupas e a gaiola e encolheu os ombros, enrubescendo para o fato não planejado, seu vestido e boina eram azuis, a meia calça branca, os sapatos pretos como a bolsa, as cores casando com o azul e branco da gaiola de Plum.
— Obrigada por ter cuidado de mim esses dias. – Agradeceu.
— Foi uma honra, e esperaremos sua volta ansiosamente.
— Eu também! Até mais.
— Até, milady.
Sakura correu para o carro, a porta já esperando aberta, a mala já no carro, pôs a gaiola de lado, no banco. E passou o cinto da melhor maneira possível, depois em si mesma, e mais uma vez ajeitando a boina, deu o sinal para o motorista partir.
Pelas próximas duas horas, ela se dedicou a terminar suas anotações para a aula e o livro de Shakespeare.
Quando o carro parou num posto de gasolina, o motorista desceu e recomendou que fizesse o mesmo, pois eram normas para se abastecer.
Sakura se levantou e pegou Plum com a gaiola, saiu e enquanto o motorista acertava-se com o frentista, andou pelo local um tanto afastado no meio da estrada. Viu uma máquina de lanches ao lado da entrada da loja de conveniência, como lhe parecia muito velha, lembrou que Robin dizia que nem sempre trocavam os produtos da máquina quando passados da validade. Sendo assim, entrou na loja e passeou pelas estantes, um rapaz de talvez sua idade, ou mais jovem, lia uma revista com fones nos ouvidos, e talvez nem tivesse reparado na sineta da porta quando ela entrou.
Sakura não fazia tanta questão de ser notada, achou uma geladeira de porta transparente, e pegou uma garrafa de água com gás, uma barra de chocolates e parou encarando uma pequena bandeja de uvas roxas, pegou-a também, e mais uma latinha de refrigerante.
Não era uma bebida que tinha costume de tomar em casa, ou na faculdade, pois sua dieta era bem controlada na mansão, e fora dela, Robin e Louise viam como um crime.
Ela de fato tinha algumas pré-disposições um tanto perigosas, havia descoberto através de um exame bem inovador que tinha riscos de ter diabetes e hipertensão, o primeiro era mais arriscado de ter ainda jovem. Seus primeiros exames de quando chegou em Londres, apontaram que tinha muito açúcar no sangue.
Se perguntou se era este tipo dado a guloseimas demais, pois sabia que havia morado sozinha por muito tempo, e como não tinha nada contra cozinhar, não entedia muito bem porque seria tão adepta de coisas prontas, gordurosas e açucaradas.
Passou pela sessão de pacotes de pipocas e batatas, tinha mais uma ou meia hora de viajem, e tentou ser confiante de que comeria tudo ante de chegar e ser flagrada.
Já não estava com sua ficha limpa ultimamente. Pensou, rindo-se internamente, mordiscou os lábios e catou um pacote de marshmallows em forma de dentadura com presas de vampiro, correu até o caixa e largou tudo, o rapaz baixou a revista, lhe mandando primeiro um olhar irritado por sua chegada brusca, então se ajeitou no banco, engolindo em seco, encarando-a nervosamente.
— Po-pois não?
Sakura sorriu e empurrou as compras, ele soltou o ar e sorriu um pouco encabulado, começando a passa-las no detector de código de barras.
Olhou em volta até ver o veículo, através da vidraça, o frentista abastecia o carro e lia uma revista, e o motorista, Frank, caminhava pelo local, uma mão no bolso, a outra com o celular no ouvido, olhou diretamente para ela, e ela acenou, ele assentiu, dando as costas, e Sakura viu um motoqueiro chegar.
Numa daquelas motos que corriam muito, preta, bem como suas roupas e capacete fechado, visor escuro.
Ele vinha da direção em que eles, parou na outra bomba e abasteceu ele mesmo com o outro frentista apenas observando.
— Sã-são dezessete e cinquenta – O rapaz disse, limpando a garganta.
— Obrigada – Ela disse, abrindo a bolsinha.
— É um hamster? – Ele indagou, espiando através dos furinhos por onde o ar passava para Plum, Sakura assentiu, sorrindo e contando o dinheiro na carteira.
— É sim, um menino.
— É gordinho, nunca vi uma dessas – Ele disse, curioso, analisando a anatomia da caixa.
— Ele tem quase três aninhos, comprei a gaiola numa petshop muito legal em Londres.
— Você é natural daqui?
— Não, sou japonesa, metade, moro aqui há dois anos, estava de castigo em Bibury.
— Meus pais não me castigam assim – Ele disse, franzindo o cenho sardento, não pareceu desdenhar ou reclamar realmente, mas ela ainda ficou envergonhada.
— Você mora aqui? – Indagou.
— Isso aqui é do meu pai, moramos a dois quilômetros, numa casa grande de madeira.
— Que fica entre dois pinheiros?!
— É!
— Eu vi, sempre vejo quando passamos por aqui.
— Minha avó que plantou eles, história de família.
— Que legal! – Ela sorriu, até com um pouco de inveja, seus pais a deixaram tão cedo, gostaria de saber se havia algo assim perpetuando-os, ou se talvez só havia ela mesmo.
Ouviram o som da sineta, o homem da moto era bem alto, e não tirara o capacete, sua calça era jeans, os coturnos escuros, e usava uma jaqueta de couro, ele passeou entre as estantes.
Sakura olhou mais uma vez a quantia na carteira e suspirou, aborrecida.
— Só tenho dez dólares, acho que gastei com aqueles queijos, e com a oferta... Hum, aceita cartão?
— Sim, sim – Ele disse, pegando a máquina de lado.
A deixou em paz, digitando a senha para atender o motoqueiro, ele voltou com um pacote de doze latinhas de cerveja, um pacote de nachos daqueles cujo sabor ardia muito.
— Vinte e dois e oitenta – O garoto disse, o ar entediado, ensacolando suas coisas.
O homem em vez de tirar a carteira, tirou o capacete, e Sakura esqueceu por um momento sua senha, a curiosidade a vencendo a fez manter um olhar de lado nele.
Ele revelou então, um rosto masculino belíssimo, esculpido para ter aquele ar de badboy que faria Robin pedi-lo em casamento e Louise pedir uma passagem para o outro lado do planeta.
Um piercing brilhava no canto de seu lábio, o cabelo escuro era longo mais em cima e encurtado nas laterais de forma que montava um desenho tribal, seus olhos eram azuis e pareciam malícia recoberta de gelo, e na sobrancelha direita havia outro piercing.
Sakura notou que tanto ela quanto o rapaz do caixa o encararam, e ele alternou o olhar entre os dois. Cuidou de sua parte, bem como o garoto de pôr suas coisas numa sacola também, arrancando um riso rouco do estranho.
— Aqui – Ela disse, devolvendo a máquina e fingindo ignorar que o estranho agora a analisava.
O caixa lhe deu a nota fiscal da compra e ofereceu o saco com as compras.
— Obrigada.
—Volte sempre. – Ela sorriu e voltou-se para pegar a gaiola de Plum, o encontrando a gaiola aberta e ele fora dela.
Voltou-se em choque para o homem, que segurava seu pequeno entre as enormes mãos em luvas de couro e o encarava de perto com aqueles olhos azuis gelados como se visse a coisa mais interessante do mundo, mas ainda assim, não foi algo que fez a situação menos horrível para ela.
— O que está fazendo? – Indagou, talvez muito alto, ele a fitou até surpreso e sorriu, com uma carreira de dentes brancos e alinhados.
— Sabe quando você encontra uma coisa comum e banal para a maioria das pessoas pela primeira vez na vida? – A voz dele guardava um carregado sotaque francês.
Tanto ela como o rapaz do caixa o encararam sem entender nada.
— É assim pra mim – O homem afirmou, acariciando a cabeça do hamster — Eu nunca tinha pegado numa coisa assim, é tão pequeno, tão frágil, quer dizer algo assim é a verdadeira definição de vida. Pequena, crua, primitiva, delicada— Comentou, encarando-a profundamente, numa apreciação que a fez sentir assediada, e ameaçada. A sensação foi péssima, amarga, assustadora e Sakura não duvidou que seus olhos estivessem cheios de lágrimas agora, mesmo que sua mente tivesse certeza que era uma reação um pouco exagerada, algo dentro dela berrava para se afastar, se esconder — Oh, por favor, milady – Ele disse, parecendo notar sua situação, e embora não realmente arrependido, se mostrou mais condescendente e devolveu Plum para a gaiolinha, fechando-a, e oferecendo-a a ela com reverência. — Aqui, não quis assusta-la, sou muito impulsivo quando estou curioso, oui?
Seu corpo gritava para se afastar de qualquer contato, mas nunca que deixaria seu pequeno correr tanto perigo quanto a si mesma, engoliu o ar e pegou a gaiola o mais rápido que pode.
— Nã-não tem problema – Disse, de má vontade, e evitando o encarar, ele sorriu agradecido e achando graça de seu jeito.
Ouviram o som de uma moto, Sakura olhou para trás vendo outro motoqueiro, de estatura menor, numa moto também cara e rápida, o motor era mais silencioso, mas a cor dela chamava muita atenção, um verde bem forte talvez até fluorescente, e suas roupas eram um macacão estilizado, de um verde mais calmo, e um sobretudo fechado e longo que esvoaçava logo atrás de sua figura quase deitada no tanque dado o modelo da moto.
— Vinte e dois e oitenta— O jovem caixa disse, incisivo e ela agradeceu com um breve olhar que a estivesse tentando ajudar, encarou rapidamente o homem, o vendo com o olhar preso na moto que se aproximou devagar da loja. Ele enfiou o braço dentro da jaqueta, para tirar a carteira, seus olhos azuis glaciais presos no motoqueiro lá fora numa expressão perigosa a fizeram olhar também, abraçando a gaiola e as compras.
Localizou Frank vindo na direção da loja provavelmente para avisa-la que já era hora de ir, mas ele parou encarando o motoqueiro parar em frente a vidraça, bem como Sakura só pode encarar a ele e o ver puxar uma arma de dentro do sobretudo e apontar em sua direção.
— Filho da puta! – O motoqueiro gritou atrás dela, e literalmente puxou outra arma um tipo de revolver de um tom prateado quase branco de dentro da jaqueta.
Os ouvidos dela foram entupidos pelos sons de tiros, e sentiu que alguém a puxava pelo quadril e jogava no chão, ao mesmo tempo em que viu o primeiro estranho chutar o peito do garoto o fazer cair para trás no banco. O corpo de Sakura se chocou contra o chão em seguida, se sentiu um pouco esmagada por outro maior e pânico a tomou de vez.
Gritou, empurrando e empurrado o mais longe possível, inutilmente. Os tiros e gritos pelo ambiente, quando cessaram, ela viu o chão cheio de restos de comida e embalagens através de sua vista embaçada.
— Calma, calma – Ouviu e olhou para cima, vendo seu captor se erguer apressado, ele a fitou, enquanto tirava do bolso um cartucho de arma e substituía pela que estava encaixada antes, não se importando deixar cair — Fique aqui, mon petit rose, oui? – Praticamente ronronou antes de sair da loja a passadas largas, Sakura se sentou, não sentindo muito as pernas para arriscar se erguer, puxou a gaiola de Plum, no chão, verificando logo se estava bem, ele estava se revolvendo inquieto na gaiola, obviamente assustado.
Sakura gritou e se encolheu novamente ouvindo tiros lá fora bem com um motor de moto acelerando para longe. Pôs a mão contra o peito, sentindo uma pressão descomunal aperta-lo todo, e buscou respirar.
Tudo ficou sufocante ao passo em que se sentia em campo aberta, completamente indefesa.
Olhou para a porta e viu Frank entrar, estava sem seus habituais óculos escuros, uma mão suja de sangue e segurando a arma, ela não se assustou de vê-lo armado, pois também já lhe era sabido que os seguranças e motoristas da casa tinham este requisito.
— Milady? – Ele se aproximou, abaixando-se ajudando-a a levantar — Tudo bem? Foi atingida? – Ela negou, olhando para o estrago, a janela de vidro destruída pelos tiros, e o homem, o motoqueiro negro retornando ainda armado e encarando os dois, ela gritou de novo, em reflexo e se encolheu contra o segurança.
— Ela está bem – Ele disse, apressado — Ele foi para Londres, vou atrás, siga em frente e passe no posto médico mais a frente, se for preciso.
— O que está acontecendo?! Um assalto?! – O rapaz do caixa se levantou, tão assombrado quanto ela.
— Sim um assalto, provavelmente – Frank disse. — Vamos embora, senhorita.
— Mas e a polícia?! – O rapaz disse, pegando o telefone ao lado.
— Eu sou policial, tudo bem? – O motoqueiro disse, tirando um distintivo da jaqueta — Fique calmo, chame os responsáveis, vou atrás do filho da mãe, okay?
— S-sim!
— Estou indo! Nos vemos depois, mon Petit! – Ele disse, acenando e saindo, já pondo o capacete, Sakura o observou ainda se escondendo contra o segurança.
Este policial mais que suspeito saiu na moto extremamente rápido.
Ela foi conduzida até o carro e se sentou, Frank se abaixou a sua frente, lhe oferecendo uma garrafa de água, e com a outra mão, chegou a pulsação dela em seu pulso livre.
— Iremos seguir direto para casa, concorda? – Disse — Foi um assalto a loja, ou talvez desentendimentos com o dono, de qualquer forma tem testemunhas o suficiente para que não precise se preocupar com isso.
Sakura tomou um longo gole, vendo a fachada destruída, os frentistas ligando bem como o rapaz do caixa ainda transtornado ligando para o pai e olhando o estrago.
Meneou a cabeça e respirou fundo.
— Não, eu quero ajudar no que for preciso – Esclareceu, Frank apenas assentiu, se levantando. — Oh, você está ferido, foi atingido?!
Ele negou, tocando o pulso, por onde havia sangue seco, seu terno era bem preto.
— Me cortei com vidro lá fora, quando me joguei no chão, devemos seguir viajem, seus sogros ficarão extremamente preocupados.
— Temos mesmo que contar...?
Ele lhe deu um olhar de “Acha mesmo que não?”, Sakura suspirou e assentiu, sentando-se e ajeitando a gaiola de Plum novamente, pondo o cinto, antes de fechar a porta, Frank notou a aproximação do rapaz, trazendo uma sacola.
— Aqui, se ainda quiser – Ele disse, visivelmente nervoso com tudo, mas com um sorriso sem graça. Sakura quase quis abraçar o estranho, comovida com sua ternura e cuidado.
— Obrigada, quero sim – Disse, aceitando a sacola com entusiasmo, pegou a barra de chocolate que estava por cima e sorriu mostrando — Vai me ajudar muito nesta volta.
Ele assentiu, com as mãos nos bolsos.
— Que bom, a propósito, me chamo Dave.
— Sakura, até mais Dave e espero que fique tudo bem aqui.
— Obrigada, Sakura, nome legal.
Ela sorriu, acenando e Frank fechou a porta, seguindo para o carro, aos poucos, Dave ficou para trás.
Mas o susto não a deixaria tão cedo, atacou a barra de chocolate em minutos, molhando a garganta travada com o refrigerante, em seguida foram as batatinhas, depois as presas de vampiro, e Dave ainda pareceu adicionar um daqueles chaveiros de carrinho de plástico, era rosa, e cheio de balas pequenas de todas as cores.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela devorou logo também, os dentes de vampiro foram quase todos e só não os exterminou porque sentiu enjoo de tantos doces, mas deu as uvas que havia comprado para Plum, provou umas e viu que eram azedinhas, perfeitas para evitar o enjoo da viajem.
Foi difícil evitar comer todas em vez de poupa-las para o pobre hamster ainda tão assustado quanto ela.
A viajem pareceu durar muito mais, céus.
Ela podia saltitar de alegria ou de choro ao encarar os portões da propriedade.
No entanto, notou algo novamente enervante, haviam carros em frente à casa, e o mais estranho, uma lona ou um tecido branco cobrindo praticamente toda a fachada onde ficava a entrada da mansão, e um monte de escombros em frente, dentro de uma lixeira.
— O que foi isso?
— Uma pequena reforma, pelo o que sei – Frank deu de ombros.
Não lhe pareceu nada pequeno...
Ele manobrou o carro em direção as fundos da mansão, contornando-a, Sakura viu uma tenda branca em meio ao jardim e algumas mesas com comidas, pessoas transitando elegantemente pelo gramado com taças.
— Oh, meu deus.
— Avisei do que houve, mas infelizmente este pequeno evento já estava marcado, mas Veena-sama já planeja o encerrar mais cedo, afinal a senhorita precisa de repouso. – Ele afirmou.
— Que-que evento é? Eu não fiquei sabendo.
— Chegaram alguns parentes, milady, é uma pequena recepção apenas.
— O-okay, o meu deus, quem será? O Sr. Fugaku chegou?
— Também.
— Oh, meu deus! – Sakura tocou o rosto, sentindo-o gelado, logo imaginou-se pálida como um cadáver. — Oh, meu deus! – Disse, revirando a bolsa atrás de um espelho enquanto Frank fazia menção de sair do carro. — Nã-não saia! Vão saber que eu cheguei eu estou horrível! Não estou pronta, só dá para entrar pelos fundos todos vão me ver!
— A milady está impecável. – Ele assegurou.
— Não estou! Eu nem lavei o cabelo hoje, esses saltos me fazem mancar um pouco, esqueci de por ao menos brincos! – Choramingou, catando a maleta no porta-malas e buscando a caixinha com a poucas joias que apreciava levar. — Veena-sama vai me despachar pra fora do pais, sempre diz que uma dama deve estar pronta para tudo, então me entupo de queijo roquefort antes de vir, aparece aquele cara assustador, pessoas com armas e me entupo de doces! Você é tão estúpida, Sakura! – Exclamou consigo mesma.
— A senhorita está apenas nervosa – Ele insistiu, saindo do carro, ela choramingou mais, passando algum blush nas bochechas, e procurando um batom, o tocou nos lábios ao menos o bastante para dar cor a eles, largou tudo e catou um par de brincos, os colocou quase torturando as próprias orelhas.
— Ela está no carro, um pouco nervosa – Ouviu Frank dizer.
— Não estou nervosa, podemos voltar amanhã?!
— Ele não está falando com você – A voz de Mikoto chegou através da janela aberta, Sakura estava na outra ponta do banco e se desse teria fugido pela outra janela, engoliu em seco, e se aproximou, pondo o rosto para fora, enfrentando a claridade e os olhos azuis de Veena. — E não, você não pode voltar amanhã – Ela completou, com um sorriso.
Sakura gaguejou sem dizer nada até desistir, apenas desviou os olhos, o motorista abriu a porta e ela se arrastou para fora, encolhida em si mesma, ainda mais diante a grandiosidade da beleza da sogra.
Veena usava um vestido de cor limão, e um tecido de ar extremamente refinado e delicado, o colo aberto, os ombros caídos arrematados em um detalhe que parecia transformá-la no cerne de um botão de flor. Seu cabelo estava preso num coque elegante, arrematado por uma tiara de brilhantes e ouro branco que formavam rosas, ela deu a taça na mão de uma empregada que os acompanhava e se aproximou de Sakura, segurando seu queixo e o erguendo.
— Oh, pobrezinha, está pálida. Deve ter sido um susto enorme.
— E-estou bem. – Ela afirmou, segurando a alça da bolsa. Mikoto apertou suavemente suas bochechas, verificou o batom em seus lábios, e depois os brincos, para ver se estavam bem ajustados, então a gola branca do vestido, as mangas e saia.
— Está tudo bem agora, está em casa e segura, sim? Não é culpa sua, deveríamos tê-la trazido junto com Itachi e Izumi.
— Não tem problema, eu causei isso também...
— Hum, sim, causou, mas já passou. – Ela olhou a empregada, pegando a taça de volta. — Traga um chá para ela, e encontre Izumi, quero minhas noras por perto, já me basta o trabalho de unir os filhos.
— Sim, senhora. – Ela disse, se afastando.
— Obrigada, Frank, vá descansar, fez um excelente trabalho.
— Senhora – Ele se despediu, Sakura ficou feliz pelo reconhecimento, sabendo que a sogra era sempre bem rígida com os empregados e difícil de agradar além.
Seguiu ao lado dela, que entrelaçou o braço ao seu.
Notou aliás, que ela estava bem leve, como uma verdadeira flor finalmente se abrindo um pouco mais, estava trajada como a personificação mais elegante de um jardim e Sakura só ficou encarando-a.
— Vamos encontrar um lugar para você sentar logo. – Ela disse, então fitou-a, piscando os cílios longos em indagação — Algum problema? Algo no meu rosto?
Sakura negou, admirada.
— A senhora está linda – Mikoto piscou, bastante surpresa. E Sakura se perguntou se ser alguém que absolutamente tinha consciência de que era impecavelmente bela, fazia as pessoas esquecerem de dizer isto pessoalmente. A mulher balançou a cabeça como que avaliando e sorriu com uma diferenciada satisfação, absorvida em alguma outra coisa. — Obrigada, obviamente já esperado, não?
Sakura riu, as duas cumprimentaram alguns convidados, e mais longe, perto da piscina, ela viu Robin e Louise, conversando com algumas jovens, Robin a viu primeiro acenou chamando-a, e ela sentiu o ímpeto de ir.
— Ainda não – Mikoto afirmou, já lembrando-a um pouco mais do porquê, ela corou, envergonhada e seguiu com ela noutra direção, mas acenou para as garotas que as viria logo, as duas acenaram quase que desesperadas, e ela ficou se perguntando o porquê, mas imaginou que fosse, obviamente por estar junto de quem estava.
— Chamou-me? – Izumi disse, aproximando-se, usava um elegante e sensual vestido vermelho de tecido também adequado para um evento ao ar livre, os brincos de rubi combinando com sua aliança. Ela fitou Sakura, suspirando em seguida com desagrado. Depois, com um sorriso maldoso. — E não é que sobreviveu?
Mikoto seguiu em frente lhe lançando um olhar de lado, enviesado.
— Izumi, contenha seu humor negro, não é hora para isto. – Avisou, Izumi a seguiu do outro lado.
— Sim, senhora. – Sakura evitou olha-la, porque ficar vendo sua cara aborrecida era a última coisa que precisava para este dia. Mas, não evitou sorrir um pouquinho apreciando não ser a única a levar sermão de vez em quando.
— Onde estão estes machos irritantes? – Mikoto disse, impaciente, elas adentraram o pequeno labirinto de paredes de vegetação. Não era exatamente um em que se podia perder-se, pois todas as rotas que haviam, desembocavam no centro onde ficava uma fonte e um banco de pedra.
— Ah, aí estão – Ela disse. — Sakura, preste atenção, sei que passou por muitas coisas nestas últimas horas, mas temos uma notícia para você, sim?
Sakura encarou o grupo de homens, conversando perto, os ternos alinhados, as mãos nos bolsos. Reconheceu Izuna mais afastado, falando apenas com um homem alto de cabelo longo e escuro, de costas, e no grupo, reconheceu Itachi, Shisui, e Obito, um tio que via pouco bem como via pouco ao sogro, figura altiva que tomou toda sua atenção de primeira.
No entanto, de costas para si e de frente para eles, havia outra figura, ainda falante, as mãos nos bolsos, a postura mais relaxada.
— Sakura – Mikoto chamou, dando um leve tapinha em sua mão, ela a fitou, curiosa de mais entre ela e os parentes que pouco via, a figura que não reconhecia. — Espero que não fique zangada, foi uma surpresa para nós também, sim?
— O quê?
Os olhos de Mikoto brilharam de satisfação e calor quando ela disse.
— Seu noivo! – Exclamou, empolgada — Sasuke finalmente está aqui! Não é maravilhoso?
Sakura não respondeu, e ela olhou para frente muito entusiasmada com a visão para esperar uma resposta.
Então Sakura apenas fez o mesmo, vendo a atenção dos homens também voltada para si e se alternando para o estranho.
Ele se virou, as mãos nos bolsos, os olhos penetrantes, lábios finos entre a barba aparada e escura como os cabelos, um sorriso ladino e cheio de si, os olhos penetrantes como garras capturando-a.
Mais uma vez.
Afinal, o seu noivo desconhecido, já havia estado mais perto do que poderia ter imaginado.
Seu noivo sem rosto, era justamente a face que assombrara suas lembranças ultimamente, a fazendo passar mais tempo que o de costume no confessionário, graças a sua investida pouco sutil e ousada, charmosa, e arrogante.
Seu noivo tinha rosto.
Era o homem que lhe ofereceu um afogamento.
E ela quase aceitou.
Na verdade, sentia que havia lhe dado o que queria, estava se afogando agora, ele nem pode falar nada, pois tudo escureceu para ela.
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