Vingador Vol. II
27 26. Rei dos Deuses.
Notas iniciais

Great Bear Lodge, Canadá, meses depois.
Sakura podia sentir seu bebê chutar, na verdade, ele parecia ser o tipo preguiçoso, pois só agora aos oito meses de gestação, estava se agitando mais. Ela se perguntava se era o jeito preguiçoso dela própria ou a calma taciturna do pai que ele ou ela estava demonstrando puxar.
Ela olhou para a profunda água escura do rio onde a pousada flutuante e famoso observatório da vida animal se mantinha.
Era bastante frio lá, e a vista era magnifica, estavam vivendo sob águas serenas e rodeados de montanhas e florestas, o ar era puríssimo e ela podia nadar, comer, fazer caminhadas nas margens e dormir á vontade.
Na verdade, por mais que o lugar parecesse meio inóspito, Sakura sempre encontrava algo divertido para fazer além de encomendar coisas para o enxoval de seu bebê.
Sentada no chão do deque, ela estava pensando no quanto adoraria nadar de novo, mas a temperatura ultimamente estava baixando e não seria muito saudável para ela e o bebê.
Mas poderia sair pra fazer trilha, embora fossem querer fazer um escarcéu por isso. Ninguém parecia entender o quanto ela estava bem com a gestação, tratavam-na como se estivesse doente demais e só ficar sentada a entediava horrores.
— Senhora, ele está na linha. – 87 disse a ela, oferecendo-a o telefone.
— Oh! Quem diria, obrigada. – Ela o pegou e levou ao ouvido, balançando as pernas dentro da água. — Alô?
— Como está, ovo?— Sakura revirou os olhos, ouvindo sua voz meio ofegante.
— Olá pra você também, estúpido!
— Que mau humor? Achei que já me amasse de novo.
— Você que é mimado! O que está fazendo agora?
— Hm, acabei de ter um papo com dois assassinos senegaleses, estão mortos mas passam bem.
— Bem?!
— Melhor do que se estivessem vivos... Enfim, a casa Senegalesa não foi muito receptiva a nossa proposta, creio que terei que ir até eles finalizar as negociações.
Sakura suspirou, pesarosa, mais sangue seria derramado.
— Entendo...
— Como está o ovo?
— Está bem, chutando bastante na verdade!
— Hm, parece sinal do fim da primeira hibernação...
— Engraçadinho. Eu... Queria que estivesse aqui...
— De quem foi a ideia mesmo?— Ele retrucou. — Além do mais, você que está fazendo segredo de onde está.
Sakura bufou, chateada que ele iria ficar esfregando isso sempre que pudesse. Inspirou e olhou para encantadora paisagem que dispunha.
— Aqui é muito lindo, e sossegado, ar é maravilhoso e, ah! Não vai acreditar, tinham baleias nadando perto daqui ontem, acredita?! Elas eram lindas, Sasuke!
— Baleias, hein? Tão perto?
— Muito perto! Elas saltaram e fizeram um barulhão! Mas acho que já retornaram para o mar, está bem sossegado hoje, chega a ser chato.
— Chato? Pra você? Desbloquearam esse nível?
— Está dizendo que sou monótona?
— Ao menos não na cama.
— Estou desligando!
— Bem, de qualquer forma tenho que desligar.
— Você está bem mesmo? – Ela interpelou, insegura, ele estava meio ofegante, afinal.
— Apenas costurando alguns retalhos, nada de mais.
Então ele havia se machucado mesmo...
— Entendo, tome o remédio e descanse!
— A culpa é sua, até. – E desligou.
Sakura quis muito enfiar uma agulha nas feridas dele agora.
Desligou e deixou o telefone ao lado, suspirando e encarando a vista, realmente gostaria que ele estivesse ali.
— Tudo ocorreu bem? – 87 disse, retornando. Sakura o deu o aparelho.
— Até onde é possível. Parece que as coisas não foram tão bem no Senegal.
— Já esperávamos essa postura. – 87 deu de ombros. — Mudando de assunto... Sobre aquela visita, ainda quer mesmo fazer, neste estado?
Sakura passou a palma pela barriga, pensativa e então o fitou com segurança.
— Sim, nós vamos.
— Se você insiste. Não pretende dizer nada disso ao Sasuke?
Sakura deu de ombros e se levantou, seus pés já estavam gelados.
— Não... Só quando nos encontrarmos. Não é como se precisasse da permissão dele.
— Certo.
— Agende o voo.
¤
Sasuke desligou o telefone, e largou ao lado, sentindo outra fisgada no ombro, fulminou Kakashi.
— Desculpe. Mas seria melhor ter continuado falando com ela, te distraiu bastante da dor.
— Humpf. Só me fez ficar mais sensível. Aquela lá está aprontando.
— Hm? Acha que ela se exporia?
Sasuke coçou o queixo, refletindo intrigado.
— Não... Mas na posição dela, nem precisaria. Além que o pouca telha retornou pra perto dela muito calado. Ela assoviou pro cão voltar, então vai usá-lo.
— Bem. – Kakashi suspirou, lavando as mãos ensanguentadas numa bacia. — Então nos resta esperar que seja prudente. Logo o bebê vai nascer, ansioso?
Sasuke nada respondeu, continuando cada vez mais compenetrado. Também estava cansado. Levantou-se da cadeira e foi ao sofá, deitando-se nele da melhor forma que seu ombro não incomodasse.
Pensar sobre o bebê era quase fazer contas numa matemática desconhecida.
Essa coisa de por eles no mundo, educá-los, protegê-los e ensiná-los a não serem babacas escrotos, como ele poderia acertar? Bem, ele nem sabia se isso o importaria tanto.
Legal, aquela criaturinha na barriga dela saiu de suas bolas, e tecnicamente já era um vencedor por ter ganho a corrida até óvulo. Ele precisava mesmo de Sasuke para educá-lo, amá-lo e tudo mais?
Sakura certamente achava que sim, porém Sasuke sentia como se tivesse uma bomba nas mãos, cada vez mais próxima de detonar, e quando isso acontecesse, ele teria um montinho de carne superdependente dele e daquela tonta pra sobreviver num mundo cheio de predadores.
Sakura daria todo o amor, historias de ninar e mimos do mundo. Mas Sasuke, ele tinha a oferecer o mesmo que ofereceu a ela, no fim, uma vida nadando num mar de sangue, identidades falsas, inimigos a cada esquina, cicatrizes e traumas.
Sasuke nunca admirara ou criticara os pais por terem tido coragem de criar seus filhos nesse mundo, pois presumia que era tão natural para eles, quanto foi para seus avós, quanto seria para uma leoa criar seus filhotes na selva.
Mas hoje, com a perspectiva de um a caminho, ele sentia que talvez só não tivesse herdado deles a confiança na cria e nos próprios ensinamentos, para acreditar que poderia criar um filho nesse meio, ou ao menos prepará-lo para ir de frente a ele quando fugir e se esconder não fosse mais possível.
Confiança em si mesmo, foi algo que nunca faltou, mas nos outros, Sakura, a quem só tinha o surpreendido com monstruosa persistência e resiliência ultimamente, ele custava a crer.
Acreditar então que poderia criar seu filho e não ter de enterra-lo um dia, ou buscar suas cinzas nas incineradoras dos lixeiros era muito para ele conceber.
Mas a criança estava vindo, e tinha cada vez menos tempo para ele ponderar o que podia e o que não podia ser capaz de fazer por essa criaturinha.
Pela primeira vez na vida, Sasuke estava considerando que talvez não conseguiria ser bem sucedido em algo.
¤
Filipinas.
Maxine West observou atentamente enquanto as crianças corriam em direção ao local embaixo de uma árvore, ajeitando-se sorridentes e arteiras para uma foto com a ajuda das outras professoras enquanto Tate (o melhor nome que conseguiram pensar para ele) ajeitava o tripé da câmera.
Tate era estranho, sem dúvidas, um verdadeiro cão sombrio e perdido, também velho e rabugento o que o tornava, incrivelmente, um chamariz para as crianças e todas as mulheres jovens em volta, mesmo com aquelas cicatrizes e ar arrogante.
Ele estava lá com eles a quatro meses, nunca recuperou sua memória, e nunca descobriram nada que o ligasse a algo. Ninguém deu queixa dele na delegacia ou em qualquer consulado, seu sotaque era quase confuso, ás vezes indo do britânico como o dela a algum europeu que desconhecia.
Na verdade Tate estava tão pouco feliz quanto eles, só podendo pagar a ajuda e abrigo que tinha fazendo coisas assim, simples, arrumar um telhado, concertar canos ou fazer uma cara irritada para as crianças e aquietá-las como agora.
Virou um faz-tudo e um colega de trabalho bastante irritante de lidar, aquele tipo que nunca rastejava de verdade, não ser que fosse uma serpente.
Isso era o que Max menos gostava nele, mas talvez por que tivesse simpatizado demais com seu rosto machucado quando estava em coma, e conhecer o cara real fosse decepcionante.
Porém negar a ajuda do cara seria ridículo, a ONG já não andava tão bem das pernas e muitos já tinham pulado do barco, mas ela não poderia deixar essas crianças. Esses órfãos seriam destinados ao tráfico humano, na pequena ilhota que viviam, Max havia lutado para transformar aquilo num refúgio de verdade.
E por mais que Tate parecesse mais propenso a trazer mais problemas, não poderia negar refúgio a alguém na situação dele, só talvez a incomodasse ele estar tão confortável com isso.
Sem saber do passado, ou mesmo o próprio nome, por que levou um tiro e foi espancado... Alguém nessa situação não deveria estar mais preocupado?
As crianças finalmente se juntaram e a fotografia foi tirada, logo o resto da equipe, apenas cinco pessoas quis se juntar.
Max se afastou da casa e seguiu até lá, sorridente.
— Hey, Tate, venha cara. – Disse Guss, um dos médicos voluntários, ele era alemão e tinha um péssimo costume de não notar ou ignorar quando as pessoas não estavam afim de papo. — Todo mundo aqui é feio também, não se preocupe.
— Estou bem aqui. – Tate retrucou friamente, aquele olhar castanho escuro morto, seu cabelo também castanho sempre escorria mais por cima de um dos olhos. Tirou a foto e sem cerimônias, começou a desmontar o tripé.
— Gostoso, mas um pé no saco...- Daphne comentou ao lado de Max que suspirou, meio irritada com a esquisitice do cara.
Se enturmar não mataria ninguém.
Logo eles trataram de servir o almoço das crianças, a comida vinha da pouca ajuda privada, o governo estava se lixando pra orfãos e alguns comerciantes de outras ilhas enviavam algumas cestas básicas.
Max administrava a maior parte do lugar, fazia as contas e se virava pra não deixar ninguém morrer de fome.
Era já quase noite quando ela saiu do escritório e resolveu esticar as pernas, as crianças brincavam lá fora enquanto os adultos tentavam controlar todos para mandar ao banho e Tate geralmente ajudava só com duas palavras e uma careta.
No entanto ele estava parado na praia, perto de onde as ondas morriam, uma estátua de aço.
— Tate...? – Chamou, aproximando-se, viu seus punhos cerrados o pescoço tenso e os olhos vidrados na direção de uma embarcação ancorada não muito distante. Ela até podia ver as pessoas caminhando pelo convés e pelo luxo da embarcação, devia ser algum turista rico velejando por aí.
— Tate, o que foi?
— Estão aqui.
— Hã?
— O que você vê? No barco, pode enxergar direito? – Ele praticamente rosnou, e ela estava meio afim de socar a cara dele, odiava machões. — O que você vê?
Max notou que ele realmente não enxergava tão longe, além que a luz do sol poente logo atrás do barco dificultava até a visão dela.
— Caras grandes... E engravatados... um barco inflável.
— Algum deles parece comigo?
— Hahaha, nem pensar! Tem um careca enorme com binóculos e... Está olhando pra cá.
Ela sentiu a espinha gelar, quando viu o cara baixar o binóculos e continuar os encarando fixamente e então seguir para o barco inflável. Sentiu apenas a areia afundar perto de si ao mesmo tempo em que o bote começava a se aproximar pulando sobre as ondas.
Tate marchou para a casa e ela o seguiu, completamente alarmada.
— Tate! Tate? O que está havendo? Conhece essa gente?! Tate?!
Ele a ignorou completamente indo até a cozinha mexeu nos armários e abrindo uma gaveta, pegou uma das facas e contornou a mesa.
Max interveio entrando na frente dele e o empurrando.
— Que diabo está fazendo?! Largue essa porra! Tem crianças aqui!
— Pessoal...? – Guss entrava na cozinha pelos fundos, Tate puxou Max pelo pescoço e prensou-a contra a parede, seu olhar foi tão frio e cortante quanto a faca que ele roçou no nariz dela.
— Entre na minha frente de novo e decepo esse seu nariz bonito.
— Mas que porra está havendo?! Filho da puta!
Ainda encarando ela, Tate girou a faca entre os dedos como se fosse um brinquedo e cravou-a na perna de Guss que puxava-o pelo ombro. O alemão de um metro e noventa recuou com um berro, estremecendo tudo, e caiu contra uma das cadeiras, desfazendo-a sob si.
Tate a soltou e seguiu para a porta novamente, Maxine estava chocada demais para ajudar Guss ou a si mesma, o mau presságio que sentiu assim que aquele homem chegou até eles estava se cumprindo.
Ela olhou para a porta aberta, caminhou até a gaveta e pegou uma faca pequena, de cozinha, Guss chamou-a e mandou-a fugir. Mas havia muito em jogo para ela simplesmente dar no pé.
As crianças e o resto do pessoal estavam jantando e vendo TV logo no alojamento ao lado.
Max correu para fora com as pernas fracas ao sair na porta, seu braço foi puxando violentamente, uma de suas pernas foi chutada e ela girou no ar como uma boneca, caindo no chão de areia e sendo imobilizada, a faca ficou no chão a frente de seus olhos e ainda ofegante ela lutou contra as mãos de ferro a continham.
Olhou para o cima notando uma mulher loira que parecia uma valquíria, usava terno feminino e tinha olhos claros assustadores de tão frios.
— Relaxa, 33, é só uma civil.
Max olhou para a frente, vendo então o homem careca de olhos cinzentos, ele também tinha olhar congelante só que mais á vontade.
— Não se preocupe, madame, só viemos para uma visita.
Tate estava sob os joelhos ao lado dele, a faca ainda suja com o sangue de Guss cravada na areia a sua frente, o careca e mais cinco caras tinham suas armas pressionadas na cabeça dele e seu olhar era o de um morto.
— Vamos entrar. – O estranho ordenou. E então Maxine foi puxada e levada para dentro, Tate foi seguido como um cão raivoso.
— Max! Max! O que está havendo?! – Guss ladrou do chão, cercado de panos de prato molhados de sangue.
— Que bagunça, você gosta de complicar tudo, hein? – O careca reclamou, estapeando a cabeça de Tate que se manteve sentado na cadeira e o direcionou apenas um olhar cínico.
— Odeio alemães, não resisti.
O careca achou graça, olhou para Guss de novo a quem Maxine tentava ajudar a levantar.
— Não posso discordar muito... Ajudem eles. – Deu a ordem e logo a loira puxou Max de volta com sua mão violenta e sentou-a numa cadeira também, outros caras ajudaram Guss a se sentar num canto e cortaram sua calça na altura do ferimento.
Maxine encarou Tate, com ódio e indignação.
— Faça alguma coisa. – Exigiu.
Ele a sorriu ironicamente.
— Parece que eu posso? — Desdenhou.
— Você... Nunca perdeu a memória, não é?
Ele deu de ombros, sem qualquer pesar e ela só não arrancou sua garganta com as unhas porque aquela loira a grudou na cadeira de novo.
— Ai, ai, que houve aqui...? – Uma vozinha com sotaque britânico soou e Max quase sentiu prazer em ver Tare congelar e ficar vermelho de ódio se a situação já não estivesse além da raiva que sentia dele. — Oh! Mas o que houve?
Max olhou para a entrada, vendo mais homens entrarem e ficarem pela sala, como seguranças e vindo até eles, uma jovem de cerca de vinte anos ou até menos, usava um vestido rosa pastel como seu cabelo curto em cachinhos adoráveis.
Seus olhos eram verdes e grandes porém suavemente repuxados também, a pele parecia reluzir, os lábios cheios de corados e tinha um nariz perfeito também. Ela parecia um boneca asiática viva, tendo inclusive uma “rachadura” em seu rosto de porcelana, uma cicatriz no canto da face, quase escondida sob o cabelo.
E estava grávida de ao menos oito meses.
Olhou para o sangue e panos no chão e Guss no canto que também a encarou de volta, quase mudo e esquecendo da dor.
— Meu deus! 87, não era pra ser mais discreto?
— Não foi nenhum de nós. – O careca se defendeu logo.
Tate se levantou vindo na direção dela mas levou um soco na garganta e caiu sobre os joelhos diante dela, fizeram menção de machucá-lo de novo e Maxine não queria ver nem mesmo ele morrer, gritou.
A garota ergueu a mão, cessando o ato de imediato e quando ele a encarou, esfregando a garganta com um olhar assassino sobre ela, que certamente ninguém merecia receber de outra pessoa, ainda mais uma grávida, ela apenas sorriu com ternura.
— Bom te ver novamente, Utakata-san!
— Sua maldita, o que você quer outra vez? Não bastou atirar em mim e me largar nesse fim de mundo?
O careca puxou uma cadeira para ela, que se sentou de frente para ele e sorriu como se estranhasse a reação dele.
— Utakata-san, não precisa exagerar, você sabia que eu viria, afinal.
— Espero que tenha gostado das férias. – 87 declarou, bastante divertido. — Não fosse pela Koyosegi, você estaria num lugar bem menos paradisíaco.
— É o que parece? Pra mim soa mais como um exílio.
— E qual o problema com um exílio? – Sakura riu. — Não soa melhor do que se aquela bala tivesse acertado seu coração? Eu não acredito que seja tão desapegado assim.
— Foda-se, o que quer?
— Vim saber como estava, como é aqui? Ouvi que era uma ONG, tem crianças aqui, certo? – Ela proferiu com empolgação. E então jogou seus olhos para Maxine. — São muitas? Eu posso vê-las?!
Maxine não queria respondê-la, por mais genuíno que o interesse dela parecesse, não era um cenário em que fosse amar apresentar seus adorados protegidos.
— Estão no galpão de trás. – Utakata disse, com tédio. — Vai matá-las?
Sakura fez uma expressão de horror.
— Como pode achar isso? Só queria conhecê-las, saber se deu-se bem com elas! Você não está sendo cruel como era comigo, está? Era sempre tão rígido!
Sakura fitou Maxine com curiosidade.
— Ele tem sido bom? Sei que pode não parecer, mas Utakata-san é um grande educador, ele é muito culto e meio rígido, mas tenho certeza que ajudará suas crianças muito! Eu gosto muito do Utakata-san que foi meu tutor e...
87 tossiu, e ela enrubesceu vendo que se empolgara demais.
— Oh, perdão.
— Quem diabos são vocês? – Max exigiu, atônita.
— Hahaha, pode parecer coisa de filme, mas... Quanto menos souber, realmente será melhor para você. Além que o foco aqui não é nossa vida passada ainda, certo? Utakata-san, então me diga, você está bem aqui?
Dirigiu os olhos para ele desta vez mais penetrantes e traiçoeiros que se poderia imaginar.
Ele deixou o ar escapar lentamente, de imediato mergulhou numa reflexão de forma que praticamente ignorava a existência deles ao redor.
Utakata meneou a cabeça levemente, os olhos tornando-se ligeiramente apáticos e profundamente exauridos.
Admitiu com enorme relutância, quase uma criança pirracenta.
— Estou. – Ciciou mas ela ouviu bem e resplandeceu de alegria, batendo palmas.
— Que bom! Fico feliz de ter conseguido mostrar-lhe minha visão.
— Não se anime tanto, férias forçadas é uma coisa, ficar aqui o tempo todo...
— Ah, mas isto é você quem decide.
— Isto eu duvido.
— Hahaha, Utakata-san. Tem toda razão! Nós teremos um trato...
33 puxou uma caderneta do bolso e jogou na mesa em frente a ele junto com uma caneta.
— Você me entrega Gulbrandsen, e estará livre de tudo isto, dele, a organização, e de mim.
— De você?
— Ah, bem, posso me comprometer a manter seu rastro apagado, não é como quisesse mantê-lo sob vigia mas...
— Você nunca será de confiança. – 87 disse. — Tente retomar contato com o sistema e vai ser morto de verdade desta vez. – Avisou com clareza. Sakura suspirou, não podendo negar.
Já estava garantindo uma enorme concessão a ele, afinal.
Tate, ou Utakata a quem certamente assumira ser agora, parecia outro homem, sua postura, a forma de olhar, até os trejeitos, ele cruzou uma das pernas, ajeitando os ombros e encarando a agenda pensativo e meio cínico.
Maxine alternou os olhos entre ele e Guss que também o observava com assombro.
— Posso ter documentos ou vou continuar tendo que ser um mendigo retardado? – Indagou.
— Documentos sim, até passaporte, embora apenas por praxe. Esse país agora é seu único terreno.
— E também uma casa! – Sakura disse, com animação. — Tem muitas ilhas por aqui, bem baratas na verdade, você sabe como é, novo nome, nova identidade, nova vida, Saiken.
Ele a fitou com breve surpresa e ela deu uma risadinha, sentindo-se muito esperta.
Utakata bufou como se lidasse com as crianças da ONG, e então segurou os olhos sobre a barriga dela.
— Não poderia imaginar você concebendo a possibilidade de fazer uma criança por inseminação. – Disse, afiado ela o fitou e deu de ombros.
— Foi sem querer...
— Bem, não estava sob minha supervisão de qualquer forma. – Ele deu de ombros e puxou a agenda para si e a caneta. — Você quer Guldbrandsen? Vou dar o que tenho, mas não garanto nada, ele pode ter eliminado mais qualquer ponta solta depois que me tornei um 14.
— Isso nós veremos. Dê tudo o que tem. – 87 retrucou, enquanto Sakura se animava e se levantava.
Utakata começou a escrever e escrever quase uma máquina, e nesse meio tempo já haviam terminado de costurar o corte de Guss com uma precisão que nem Max poderia dizer que tinha.
A cozinha foi arrumada, os panos sujos postos de molho e Utakata ainda escrevia.
Sakura investigou a casa com a empolgação de quem ia a uma exposição, olhando as fotos nas paredes, o mural de desenhos na sala.
— Cuide para que ninguém mais precise vir aqui. — A loira fortinha ordenou para Max que sentiu o gênio ferver mais uma vez.
— Olhe aqui, cadela viking, quem acha que é pra vir dando ordens?
A loira a encarou com desdém e puxou a automática do bolso.
— Quer mesmo que eu mostre?
— 33, por que não vai até o barco e pega algumas bebidas? – Sakura disse, a mulher deu as costas, guardando a arma e seguindo pra fora. — Desculpe por ela, acho que não gosta de ficar muito tempo longe da irmã.
— E tem duas dessa?
— Igualzinha, hahaha, 32 é mais tranquila! Eu poderia conhecer as crianças? Só um instantinho? – Pediu.
— Eu acho que... Elas estão indo pra cama agora...
— Oh, que pena. E você teria, hmm, algo pra comer...? – Indagou, bastante envergonhada, esfregando a barriga carinhosamente. — Este neném está me transformando numa monstra!
— Eu acho que... Posso encontrar alguma coisa...
— Obrigada! E perdão por todo esse susto, mas posso garantir que nada vai acontecer á vocês. – Sakura jogou os olhos para Utakata, com ar esperançoso. — Agora sei que vai ficar tudo bem.
Maxine sentiu imensa vontade de perguntar sobre quem era o pai desse bebê, mas sentiu também que não queria realmente saber.
Se afastou com a desculpa de encontrar algo para a alimentar a grávida. No fim, acabou se perdendo entre os alojamentos tentando convencer o resto do pessoal a ir dormir sem passar pela sede e ignorar os estranhos que circulavam por lá.
As crianças dormiam agora. E quando ela retornou com um prato requentado de Paksiyo Baboy Bisaya, carne de porco com bananas e molho de soja que as crianças amavam.
Ao entrar na cozinha, reparou que Guss não estava mais lá e tudo nela gelou, o que deve ter ficado aparente em seu rosto.
— Ele está num dos quartos, foi dormir. – 87 disse, aproximando-se e investigando o prato. — Isto é inofensivo, certo? – Cobrou, e ela não sabia se ficava encolhida de medo ou socava seu nariz por achar que seria capaz de atentar contra uma grávida.
— O que é isso? Cheira beeem! – Sakura interveio, catando a tigela e colher das mãos dela e se afastando. — Hmmm, parece ótimo!
O homem suspirou, desistindo.
Logo ela devorou a comida, e foi cochilar num dos quartos. A madrugada passou meio rápido até, Max ainda fez café pra si mesma, posto que nenhum deles demonstrava o mínimo cansaço e Utakata mantinha-se concentrado na agenda.
— Vocês são mafiosos? – Indagou, enquanto bebia numa xícara de alumínio.
— Eles vão cortar sua língua se continuar perguntando. – Utakata comentou.
— Tomarem que cortem a sua, mentirosinho descarado!
— Já estão cortando. – Ele declarou, finalizando com isso, tudo o que escrevera ali. Largou a caneta e a agenda e se espreguiçou um pouco.
87 se aproximou, recolhendo-os, folheou rapidamente e Utakata e o fitou desdenhador.
— Esta é a parte em que eu morro?
O homem devolveu um olhar sombrio e desafiante.
— Por que seria...? – Indagou.
Max baixou a xícara, encarando-os com assustada expectativa.
— Por que ela está longe demais para encher seu saco e você não concorda nem um pouco com a ideia de me deixar vivo.
87 pensou longamente e então puxou a glock, pressionando o cano contra a testa dele.
— Tem toda razão.
Max saltou da cadeira, embora seu corpo inteiro e voz tremessem demais, a valquíria a puxou de volta ao acento sem dificuldade.
Utakata o encarou selvaticamente mas não ousando se mover.
87 puxou a arma, com um breve sorriso de lado.
— Eu poderia fazer isso mesmo, facilitaria muito as coisas. Mas seria exatamente igual á você e seus superiores, aos poucos, de mentira em mentira, logo eu estaria no seu lugar com essa arma na testa. É assim que é.
Guardando-a de volta no terno.
Só então notaram Sakura parada na porta, os observando com uma expressão ininteligível, estudou-os longamente até pousar os olhos em Utakata e sorrir com extrema doçura e carinho.
— Agora você está livre e para ser apenas quem quiser.
E desta maneira, na manhã seguinte, vestindo um terno emprestado mas que cabia-lhe á perfeição, Utakata deus as costas àquele lugar levando somente uma bolsa cilíndrica com novos documentos, algum dinheiro e um par de óculos de grau novos que Sakura também lhe trouxe.
Se foi de carona num dos barcos que trazia provisões para a ONG, somente suas costas e todo o mistério que ainda espreitava, vistos de cada vez mais distante.
Max abraçou a si mesma, observando a embarcação enquanto as crianças perguntavam toda hora por que o Tate estava saindo.
Sakura brincou com as crianças na areia até que 87 dissesse que também era hora de partirem.
E então, quando eles também se foram, também tornaram-se apenas assombrações passageiras que dali em diante, era melhor não mencionar mais.
Afinal, nunca se sabia quando poderiam voltar a atraí-los, e Max estava ali para dar fim nos pesadelos daquelas crianças, e não afundar-se nos próprios que teria daqui em diante.
¤
Meses depois.
Sasuke atendeu o telefone assim que desceu do carro e esperava o avião ser preparado.
— O que foi?
— O trabalho parto de parto começou. – 87 declarou, como se na verdade anunciasse um filme qualquer na TV.
— Como é? Está me sacaneando?! Essa porra... Não era só semana que vem?!
— Sim, pelo que estava no plano de parto mas, está acontecendo antes, é normal...
— Normal? Normal!? Se é normal pra que caralhos um plano de parto afinal?!
— Eu sei lá, só estou repassando enquanto ela joga videogame.
Sasuke piscou a balançou a cabeça, ainda mais perdido.
— Jogando videogame...? Que infernos está acontecendo?!
Kakashi acenou para ele embarcar, as hélices já começavam a girar.
— Ah, é que as contrações ainda estão bem espaçadas e o médico disse que ela deveria relaxar nesse meio tempo...
— Jogando videogame?
— Está dando certo.
Ele desligou, incrédulo, Sasuke seguiu para o pequeno bimotor á beira do rio. Embarcou e uma curta viajem os levou até a pequena pensão flutuante.
Era realmente perto do mar, dava para entender por que baleias passavam por ali.
O bimotor fez uma descida rápida, deslizando na água sob seis flutuadores, encostou no deque já desligado, Sasuke atirou a mochila no chão de madeira e depois pousou nele. Olhando em volta e percebendo a atmosfera relaxada. 87 jogava cartas numa das mesas, com os outros.
— Belo dia para um nascimento, hein? – Kakashi cumprimentou.
— Tomara que seja hoje.
— Onde ela está?
— Lá dentro.
Sasuke entrou, o lugar era bastante confortável e bem mobilhado, ao chegar na sala que estava ás escuras, o barulho de música eletrônica era ensurdecedor, havia um cheiro forte de algo doce, as gêmeas, Karin e Ino estavam no sofá, apenas observando a parede oposta que se transformara numa sala de realidade virtual onde Sakura cortava cubos com sabres de luz, usando um óculos VR.
— Oh, o pai do ano chegou. – Ino comentou, sem real interesse. — Vai garota! Corte tudo!
— Posso tentar depois? – Karin disse, já mais do que empolgada.
Sakura gargalhava, vestindo uma calça de ioga larga verde água e uma bata branca, só não cortava tudo por que a barriga limitava seus movimentos. Mas ele poderia dizer que não mais deixaria objetos longos e cortantes perto dela.
— Que porra é essa? Não era pra ela estar parindo?
— Está ansioso?
— Eu não disse isso.
— Ui! – Sakura gemeu, levantou os óculos e se voltou para eles. — Essa foi forte... Oh, Sasuke! Você já chegou.
— Pelo visto, eu sim...
Sakura foi até ele sorridente e o abraçou.
— Que bom que já está aqui, temi que não chegasse a tempo.
— Parece que ainda tem muito tempo...? – Ele indagou, totalmente atônito.
— Ah, que fome que deu agora...- Ela se afastou, jogando os bastões para Karin e Ino assim como os óculos e elas brigaram por eles como garotinhas, enquanto 33 observava com tédio e 32 segurava um cronometro digital.
Sakura foi pra cozinha atrás de comida e 32 foi atrás.
— Que está cronometrando? – Kakashi indagou, assim que chegou e logo se interessou mais no jogo. — Oh, isso deve ser divertido, posso tentar?
— Entra na fila!
— Cronometrando o tempo entre as contrações. – 32 respondeu.
— De quanto em quanto está? – Sasuke disse, seguindo-a.
— De meia em meia hora, ao menos por enquanto.
— Hein?
— Ainda está muito errático, desde que ela acordou essa manhã.
— Não fode.
— Quem fodeu foi você.
Sasuke até tentou formular, mas não havia contra argumento pra isso.
Chegaram na cozinha e Sakura andava de um lado para outro catando utensílios de cozinha e ingredientes.
— O que está fazendo?
— Ah, me deu vontade de comer bolo.
— Bolo? Você deveria era estar berrando em cima de uma cama enquanto sua pélvis é aberta pra passar uma cabeça de bebê.
32 certamente não era qualificada para falar disso, mesmo sendo mulher, pois expressou o pensamento de Sasuke, que é homem, e filho da puta.
Sakura a fitou, pensativa, mas por fim deu de ombros.
— Ah, não estou com pressa pra essa parte, prefiro comer algo delicioso! – Declarou, segurando um maçarico de cozinha e o testando. Sasuke sentiu tudo gelar só de ver aquela pata segurando algo como aquilo e literalmente correu e saltou por cima de uma das bancadas, chegando até ela e puxando aquilo de sua mão.
— Mas que caralho!
— Ora, o que foi?!
— Sua... Tapada! Pra que porra precisa de um maçarico?! Está achando que isso é um isqueiro maior?! Quer derreter o ovo agora?!
Sakura revirou os olhos e voltou a quebrar ovos dentro da batedeira.
— Ah, é que eu também queria fazer merengue douradinho igual vi na TV...
— Peça pra alguém com cérebro e coordenação motora descentes fazer!
— Você faz pra mim?!
Sasuke inspirou, e olhou por cima do ombro.
— Meia hora, hein?
32 assentiu, encolhendo os ombros, Sasuke suspirou em derrota e fitou Sakura.
Ainda não sabia como fazer essa coisa de ser pai, mas talvez manter a mãe desse bebê viva até a hora do parto sem ter um ataque de nervos fosse um bom começo.
— Tá, eu faço.
Horas depois, Sakura degustava um delicioso bolo de varias camadas e recheios com cobertura de merengue, a cozinha estava um caos e Sasuke sentia que deveria haver açúcar ou merengue até no próprio rabo.
— Essa criança vai nascer diabética. – Avisou.
— Hahaha, nem pensar! Não com o papai que ela vai ter! – Sakura afirmou, alegremente, sujando o nariz dele com a cobertura.
Ele meneou a cabeça, revirando os olhos, cansado. Já estava anoitecendo, e ele só queria deitar numa cama e morrer por algumas horas.
— Ui! – Sakura exclamou de novo, era tudo o que soltava a cada contração, mas desta vez, fez mais careta e esfregou a barriga.
— Hah, o bebê está doidão no açúcar, parabéns, ainda mais se puxar suas tendências a vícios...
— Não tem graça quando a culpa é sua!
— Foder com as coisas e com você é minha especialidade.
— Ruuuude!
Sakura parou de reclamar quando ouviu um som estranho, não dava pra ter certeza por que ainda estavam jogando na sala.
— O que é esse som...?
32 parou de comer e olhou um ponto qualquer, concentrando-se nos ouvidos, Sasuke parou de boceja e pescar de sono e também se atentou.
Em seguida, saltou da bancada ao mesmo tempo que 32 e puxou Sakura pelo braço.
— São helicópteros. – Rosnou.
— E Barcos. – A loura disse.
— Alguém nos encontrou.
Sakura soltou a tigela com bolo no chão quando a fisgada que sentiu praticamente a fez cair sobre os joelhos e tomou o ar.
Talvez fosse o susto, mas agora sim estava apavorada.
— O que foi? – Ele disse, ela ficou calada, 32 já segurava uma arma nas mãos e os três observaram a calça clara de Sakura ficar molhada no fundo, escorrer e molhar o chão.
Ela deu um olhar apavorado a Sasuke e ele só soube retribuir.
— O que estão fazendo?! Ela tem que sair daqui agora! – 87 veio rugindo e se armando.
— A bolsa acabou de estourar! – 32 falou e ele arregalou os olhos, inspirou, resignado e recarregou a espingarda.
— Essa criança tem mesmo sangue de Uchiha, hein? Bela hora pra dar as caras.
— Ela precisa sair daqui. – Sasuke disse.
— Faz ideia de onde estamos? O posto de observação da vida natural mais próximo está a quilômetros e provavelmente já foi dominado. Temos que proteger o forte ou nada.
— E daí se ela conseguir dar a luz agora? Ainda vai tem um exército lá fora, você não tem efetivo pra uma contra-investida dessas, ela vai precisar sair daqui de todo jeito!
— Ele tem razão, e não sabemos o que eles têm pra usar aqui e certamente não vão se preocupar em mandar tudo pelos ares. – 32 declarou.
— Merda...
As luzes se apagaram completamente e Sakura se agarrou a Sasuke, aterrorizada.
— Que diabos...?
— Fui eu que mandei desligar a força. — 87 disse. — Vamos, se ela vai sair, tem que ser agora.
Eles seguiram para a porta da cozinha, saíram lá fora com Sakura soltando outro grito de dor, e chegaram a um barquinho a motor coberto por uma lona.
Sasuke ajudou-a a sentar no barco e Ino correu até lá com cobertas.
— Mas que linda hora, mas que linda hora! – Reclamava.
— Desculpe...- Sakura choramingou.
— Não é com você, é com esse babaca que tinha que ter gozado dentro exatamente nove meses atrás!
— Até eu estou surpreso com o sincronismo. – Sasuke amargou, desdenhoso.
— Tenho certeza que vai comemorar isso depois!
— Claro, quando estiver morto de bêbado e chapado.
— Você tinha parado! – Sakura reclamou.
— Eu disse chapado? Disse “bêbado enquanto troco fraldas”, agora cale a boca e se esconda aí. – Sasuke retrucou, cobrindo-a com a lona.
— Tem uma antiga cabana fora de uso a uns dois quilômetros pro norte, a notícia ruim é que provavelmente só serve de esconderijo, e a pior é que já pode haver alguém em terra.
— Vou arriscar. – Sasuke disse, recebendo a mochila de Kakashi e pegando os remos.
— Vá com eles. – 87 ordenou para 90, que entrou no barco com eles.
Sasuke começou a remar e o resto retornou para a casa.
Sakura estava orando sob as cobertas, Sasuke expirou quente para a noite gelada e estrelada.
— Vai ficar tudo bem.
— Estou orando por eles.
Ele nem sabia por que ficara surpreso, e achou graça da expressão surpreendida de 90.
Isto é como ela sempre foi.
¤
Beladona era o codenome do assassino da casa que tinha uma pequena e secreta aliança com a casa Nórdica. Talvez já não fosse tão secreta assim, quando se pensasse bem no tamanho desta operação.
Dois helicópteros escuros sobrevoavam o rio enquanto cinco lanchas levavam ela e outros colaboradores até o deque do hotel flutuante, ás escuras.
Desceu da lancha, segurando uma Well G-55 MP5K e esquadrinhando o local inóspito com os olhos sob a máscara.
Sinalizou para que se espalhassem e cobrissem o local e caminhou até a porta, não ousando duvidar que já soubessem que estavam ali.
Virou a maçaneta e empurrou-a, escancarando e apontando a arma, acionou a visão noturna da lente e analisou a saleta desabitada.
Entrou e parou, olhando ao redor. Deu mais um passo e sentiu algo esticar contra a canela, viu uma fina linha de metal brilhar esticada e de encontro á duas minas, se retornasse um passo ou se movesse, elas explodiriam tudo.
Bufou, baixando a arma e ouviu passos soarem pela casa em sua direção.
O homem da casa sem nome veio, realmente tranquilo e a encarou.
— Lugar confortável?
— Ao menos queria poder sentar.
— Não se preocupe, o show não vai demorar muito.
Beladona quase saiu do lugar quando o estrondo e a luz de uma das aeronaves sendo explodida no ar ecoou por todo o vale.
Virou-se mas 87 já nem estava lá, e o tiroteio lá fora começou. Xingou puxando a máscara, esticou a perna livre e conseguiu puxar a mesa de centro pra perto, cuidadosamente trocou-a pela perna e se afastou dali.
Saiu vendo a guerra tomar o lugar, e contornou o deque buscando alguma pista do único alvo que a interessava.
Ainda lembrava de quando tinha doze anos e foi apresentada á família Uchiha, sua mãe dissera que seu único foco deveria ser pertencer àquela família e isso só seria possível cativando o filho mais novo deles. O tempo passou, o mundo mudou, o sistema também e Sasuke poderia fazer qualquer coisa ou se tornar qualquer um, mesmo um pária.
Mas ela não, ela seria a mãe do próximo Uchiha, nem mesmo Izumi pôde entrar em seu caminho, uma pequena boneca japonesa tampouco poderia.
¤
Havia uma banheira suja de pó dentro da cabana, Sasuke ajudou Sakura a entrar nela e ela se agarrou a sua mão, apertando-a para externar a dor. O rosto vermelho, suado e assustado.
— Fique bem aqui. – Instruiu, deitando uma escopeta ao lado dela.
— Aonde você vai?
— Me certificar de que ninguém vai achar esse lugar. – Prometeu.
Sakura o deixou ir com relutância, Sasuke saiu do banheiro que não tinha mais porta e foi até a cozinha, espiando lá fora com um binóculos, tudo parecia ainda inóspito, retornou até a sala onde 90 se acomodara em frente a janela com uma AR 15 e uma magnum acoplada a um conershot dobrável com tela de alta resolução e lançador de granada.
— Alguma coisa?
— Não por terra.
Eles ouviram o zumbido de um helicóptero por perto e se entreolharam.
Sasuke rapidamente foi até a mochila e tirou peças de lá.
— Vou dar uma saída, não deixe nada entrar nessa casa.
— Eu sei.
Sasuke saiu, mergulhando na floresta gelada e úmida, a luz da lua estava uma porcaria e ele procurou uma boa posição, escondendo o rosto sob uma máscara preta.
Mais uma vez concluiu que estava fazendo a merda de ser pai toda errada. Sakura estava sofrendo dentro de uma banheira suja e ele tinha que garantir isso escondido no meio do mato.
¤
Sakura sentia e contava as contrações, percebendo o intervalo entre elas diminuir drasticamente, este bebê queria vir ao mundo agora e não havia nada que pudesse fazer se não ceder, mas o medo e a dor a deixavam em luta contínua para atrasar, até que desistiu e procurou apenas fazer isso da melhor maneira.
Arrancou a calça e calcinha de si o mais rápido possível, seus lábios sangravam de tanto mordê-los e os pés retorciam-se contra a superfície da banheira.
Ela ouviu tiros lá fora, e gritos, e chorou amedrontada, cobriu-se novamente e segurou a arma que Sasuke deixou, porém outra contração a fez soltá-la e voltar a se concentrar no parto.
O tiroteio praticamente a ensurdecia, ela queria gritar, observando o sangue descer pelo ralo lentamente, abocanhou a própria mão quando ouviu sons de uma luta em algum outro cômodo.
Sakura não podia mais ficar ali, mas seu bebê precisava do próprio tempo. Ela abraçou a escopeta com força e mordeu um pedaço de pano, sufocando um grito ao empurrar com toda força.
Alívio e ardência vieram de uma vez, e ela perdeu o ar, ficou zonza e seus olhos embaçaram, mas sabia que agora só dependia dela.
Largou a arma novamente, empurrou as cobertas e catou entre elas seu pequeno presente fora de hora, choramingando baixinho, Sakura mal podia ver seu rosto ou ficar feliz. Dependia dela.
Saiu da banheira com as pernas trêmulas e cambaleou deixando um rastro de sangue. Chegou ao corredor e viu 90 cair sobre uma antiga mesa, rolando no chão com outro homem enquanto um deles, que parecia ser mulher, observava e esperava.
Sakura girou na outra direção, retomando o ar, seguiu para os fundos, não achando outro esconderijo ou saída. De repente o sons da briga cessaram, e ela quis imediatamente ter certeza de que 90 estava bem. Mas seria imprudente e inútil.
E quando passos muito lentos e cuidadosos soaram na direção da cozinha, ela já sabia que não havia escolha, e ninguém além de si mesma para contar.
¤
Sasuke caiu da árvore como uma fruta podre, pensando bem, se seus pais estivessem vivos, concordariam, e se pudessem ver Sakura grávida, certamente a protegeriam melhor.
Ele rolou para o lado, fugindo de onde as lanternas apontavam, se escondeu atrás de outro tronco, a panturrilha ardendo, ele puxou uma granada do cinto, tirou o pino e atirou-a para trás, a explosão cuspiu terra pra todo lado e ele correu atirando para trás e indo na direção da casa.
Entrou, ofegante, e encontrou a sala ainda mais destruída.
Um rastro de sangue levou até o corredor, e encontrou 90 sangrando sob um corpo.
Sasuke se abaixou, tocando seu pescoço e ele despertou lutando.
— Calma! Calma! Calma. – Disse, acalmando-o, 90 baixou os braços, sangue vertia de um corte quase letal no pescoço. Sasuke puxou a faca e cortou a gravata dele, enrolando-a em torno do pescoço para estancar.
— Outro. – O garoto balbuciou. — Tem outro.
Sasuke se ergueu de uma vez, passou por sobre as pernas dele e alcançou o banheiro, se jogou perto da banheira e tateou o chão dela, sujo de sangue. Arrancou a máscara do rosto, quase hiperventilando.
Se ergueu, olhando ao redor, descrente que pudesse estar dando tudo tão errado assim.
Saiu de lá, procurando em outros cômodos até chegar a cozinha e encontrar mais sangue pelo chão.
Tateou as janelas mas não havia nada que sugerisse que alguém pudesse ter passado entre as tábuas.
Se apoiou na bancada inspirando profundamente e necessitando manter a racionalidade viva dentro de si. Estudou novamente o lugar, janelas fechadas, teto alto demais pra uma ratinha assustada e com dor alcançar.
Correu até a pequena despensa mas nada encontrou, e o rastro de sangue parava em frente somente a maldita janela e pia.
Sasuke olhou para baixo, respirando profundamente e notando as portinhas do armário da bancada.
Ia puxá-las quando uma perna veio em sua direção, ele recuou, mas segurou-a içou o corpo esbelto e atirou-o contra a estante de madeira na outra parede. Ela caiu levando as estantes podres consigo e ele tão somente foi em sua direção com uma faca.
— Péssima hora pra vir me encher o saco. – Rosnou, puxando-a pelo cabelo loiro e apontando a faca para sua jugular, momentaneamente parou ao reconhecer aquele rosto.
— Beladona?
Estela St. Gale, segunda herdeira da casa galesa, a quem ele não via desde que desertara pela primeira vez, o encarou com igual choque.
Algo que vindo dela, já era surpreendente.
Sasuke ainda lembrava da primeira vez que a viu, eram pré-adolescentes e a mãe dela obsessivamente empurrava-os a ideia de que seriam da mesma família um dia. Sasuke achou-a parecida com uma boneca, não por caráter de beleza, mesmo sendo sim, uma criança bonita, mas por ter olhos vidrados, e fazer tudo o que lhe mandavam, desde as roupas que vestia ás atitudes.
Para ele, ela era tediosa, para ela, ele era seu boneco Ken, ou deveria ter sido.
Estela reagiu, puxando o pulso dele o empurrou em sua direção e o fez cravar a faca no próprio quadril, Sasuke rugiu de dor e chutou o rosto dela com o joelho.
— Filha da puta! – Se afastou, puxando a faca de si enquanto ela esfregava o nariz empapado de sangue. Estela o fitou, ainda do chão.
— Continua lutando contra o certo. – Ela comentou, meio fanha por conta da dor.
— Meu certo continua o mesmo de sempre, diferente do seu, sua fantochezinha sem graça.
Ela o encarou com raiva e humilhação e rastejou, contornando o balcão, Sasuke a seguiu de perto, atento para enfiar a faca em seu olho de vidro.
— Não vai ficar assim, Sasuke. Peguei você exatamente onde não devia estar, quando a mesa souber...- Ela exultou sadicamente.
— Vão saber com quem você e a casa galesa também estão. – Sasuke retrucou, mais venenoso ainda, ela retorceu o rosto, odiosa e então fugiu na direção do corredor.
— Isto não vai ficar assim!
Sasuke atirou a faca, cravando-a em seu ombro, ela guinchou se apoiando na parede, tentou puxar a lâmina inutilmente.
— Isto é só um aviso, fique fora do meu caminho, ou você e a sua casa vão estar na minha mira de verdade.
Estela escapou guinchando como uma ratazana, e ele retornou, caindo contra a bancada, ofegante, o sangue vertendo da ferida nova já começava a fazer falta.
Sasuke se levantou, sentindo as portas da bancada balançarem, uma delas entreabriu e o cano da escopeta escapou.
Ele puxou-a de uma vez, escancarando a porta e encontrou seu ratinho encolhido no fundo do armário.
— Sakura, Sakura? Sakura. – Chamou, puxando-a para fora num emaranhado de panos sangrentos. — Ei, estou aqui, acorde, acorde. Sakura?
Ela apenas se remexeu, muito lívida, e abraçada a um embrulho que choramingava baixinho e rouco. Sasuke segurou-a no colo e se levantou, olhando o rostinho inchado e sujo de sangue da criança, cansado e assustado demais para reagir a ele como se esperava.
Seguiu para fora, passando pelo corredor, parou onde 90 estava, remexendo-se já mais branco que a morte.
— Consegue ir? – Indagou. O garoto, zonzo, mais morto que vivo, tentou empurrar o corpo de cima de si, se apoiar na parede e caminhar arrastando a AR-15 que mais servia de bengala do que arma agora.
Deixaram a cabana e vagaram pela floresta em plena escuridão. O bebê chorou por horas á fio, ouvi-lo era uma boa forma de saber que estavam vivos, mas Sakura não acordar para consolá-lo era assustador.
Já estava começando a amanhecer quando 90 desistiu e caiu contra um tronco. Sasuke o fitou e ele apenas ofereceu a arma.
A pegou e seguiu em frente, mais uns trinta metros até ouvir o som de um barco, seguiu até a beirada e viu uma lancha cruzando o extenso lago.
Quase inconsciente e seco de sangue, puxou a arma e mirou vacilante na direção do veículo.
Atirou numa boia amarrada a beirada dela e 87 se virou na direção deles. A lancha cortou a água em sua direção. Sasuke caiu sentado na beirada, largou a arma e tocou o rosto de Sakura.
— Vamos, acorde, já chega de folgar.
— Estão bem?! Estão bem? – Kakashi indagou.
— Oh, meu deus! Já nasceu! – Karin exclamou.
— Sasuke?! Sasuke? Acorde, filho?!
— Temos que levá-los daqui!
Sasuke não ouviu mais nada, talvez só o choro do bebê, que o fez mergulhar na escuridão em desespero.
Temendo não acordar mais, assim como Sakura, e seu filho também se tornar uma criança sem nome.
¤
Sakura despertou com um suspiro ainda cansado, abraçada a um travesseiro, abriu os olhos sentindo uma claridade forte no ambiente e também uma brisa agradável.
Olhou para frente, onde pôde ver um berço de hospital vazio e notou uma sombra perto de si, finalmente mais desperta, ouviu o melhor o que se passava.
Ouviu um chorinho rouco e manhoso e a voz de Sasuke.
— Vamos, por que essa cara feia? Ainda nem se viu no espelho... – Ele conversava baixo, e rindo suavemente.
Sakura se sentia cansada demais para se mover tanto, na verdade, só queria observar aquela cena. Ela se esforçara tanto, mas de repente tudo escureceu, e não teve noção de mais nada, sequer se havia feito o bastante.
Mas agora estava tudo bem, ela podia descansar mais um pouquinho.
— Veja só, a rata da sua mãe voltou a dormir, acho que ela é que queria que você saísse dela logo. – Sasuke provocou, mancando até a cama.
— Hm... O que houve com sua perna?
— Peguei a manquice do Kakashi.
— Espero que não seja contagioso... Ou permanente.
— Eu também.
Ele se curvou, beijando o cabelo dela, inspirou profundo.
— Achei que tinha perdido você.
Sakura ergueu a mão, afagando seu cabelo.
— Desculpe, eu não podia ficar lá...
— Eu sei, não importa mais.
— 90...?
— Não importa agora. – Sakura cerrou os lábios, com amargor. Temendo, já prevendo o que isso queria dizer.
Sasuke sabia que não havia jeito de desviá-la desses pensamentos, mas haviam outras prioridades.
Deitou o bebê ao lado dela e Sakura se energizou ao máximo para conhecê-lo devidamente.
— Ah, oooi! Olá, você é tão bonito.
— Seus olhos estão embaçados.
— Estão, mas é verdade. – Ela riu, esfregando os olhos, pegou a mãozinha dele, tão clarinha e rosada, parecia ter puxado o tom de pele dela, todo rechonchudo e carequinha. — Ele é lindo sim. – Ralhou.
— Só acertou no ele.
Ela o fitou, surpresa.
— Sim?!
— Uh-huh.
Voltou a encarar seu menininho e sorriu.
— Um menino! Olá, você é um menino lindo! Eu vou ser sua mamãe de agora em diante, cuide bem de mim, onegai.
— Como ele supostamente deveria fazer isso?
— Ah... Não sendo como você já está bom.
— Touché.
Sakura balançou o dedo suavemente com o bebê segurando, mas logo logo ele cansou de apresentações e voltou a chorar.
— Eu acho que ele está com fome...?
— Ele realmente não aceitou mamadeira. – Sasuke se levantou. — Vou encontrar uma enfermeira.
Antes de chegar na porta — o que não foi realmente muito rápido. A criança já tinha se calado, se virou notando Sakura acomodar a coisinha no colo enquanto esta já mamava sofregamente e se perguntou quando ela se tornara tão boa somente seguindo os próprios instintos, ou talvez ele é que não tivesse nenhum nesses assuntos.
¤
Ilha de Capri, Itália.
Sakura cantarolava animadamente enquanto embalava o bercinho, seria até de se dar pena, que o bebê não lhe desse a mínima, mas como a voz dela não era a mais afinada, Sasuke achou o gelo mais que merecido.
— Tão fooofo! Quero apertar suas bochechinhaaaas! – Ela miava, já pronta a fazer isso, Sasuke revirou os olhos e passou a página do jornal.
— Ele chorou da última vez que fez isso.
— Er...- Ela parou, e afastou as mãos, apertando os dedos muito tentada ainda. Mas é que eram tão fofinhas, nem muito pequenas, nem muito grandes, redondinhas, rosadas e macias.
Sasuke concluiu, com decepção, que a mãe do seu filho mais parecia uma tiazona grudenta do que mãe dele.
— Será que todos os bebês são assim? Mal-humorados?
— Tsc, ele ainda sequer controla a bexiga e você já quer um perfil psicológico?
— Mas, e se ele puxar você?! – Ela fitou o bebê com cara de choro. E se aquele lindo rostinho fofo se congelasse, com o tempo, numa carranca persistentemente aborrecida e azeda?
— Problema seria se não puxasse. – Sasuke bufou, embora não pudesse dizer que o miúdo era sua cara.
Na verdade, era muito parecido com Sakura, as bochechas, o tom de pele corado, e o pouquíssimo cabelo que tinha era muito claro, o fazendo temer que futuro essa criança teria na escola...
— Owwn, meu bebê não vai ser assim, certo? Certo? Não vai ser um pateta mau humorado.
— Pateta?
— Atleta.
— Atleta?
— Certo, pateta, faz mais sentido.
Sasuke a encarou por sobre o jornal, se perguntando se ela estava mesmo insinuando que ele estava fora de forma.
Sakura balançou o bebê mais um pouquinho, e suspirou.
— Sasuke, ainda não decidimos o nome.
— Que nome?
— O nome do bebê!
— Ah.
— O escrivão vai chegar logo! E eu nem sei o que vamos dizer sobre onde ele nasceu! Nosso bebê nasceu no Canadá, mas fomos pros Estados Unidos e agora estamos aqui e ele nem nasceu num hospital!
— É um bebê multinacional, foi feito na Escócia também... Ou foi na Tailândia?
Sakura atirou uma fralda nele, que ele esperava que fosse nova e limpa.
— Você só se preocupa com esse tipo de detalhes?!
— Tsc, onde ele nasceu é o de menos.
— E o nome?!
Sasuke deu de ombros e então, 87 bateu á porta, anunciando que o escrivão chegaria em quinze minutos e também, que Martino D’Amico estava na cidade.
Sakura não gostou e nem ficou tranquila com isso, talvez fosse o parto difícil e a confusão que ceifou a vida de 46, 77 e 21, deixando 90 em coma, ou a maternidade aflorada a deixando arisca com tudo em torno de seu bebê.
O escrivão chegou, não tendo qualquer problema quanto á redigir dois registros de nascimento.
Um em que Itachi era declarado o pai do bebê, e o outro em que Sasuke era, Sakura não entendia porque ele fizera questão de tal detalhe, afinal, não era como se filho deles não fosse ter pelo menos três registros falsos e passaportes e tudo mais, para encobrir suas pistas, mas, talvez ele se incomodasse de não poder assumir isso tão declaradamente no momento?
Sasuke passeou pelo quarto, segurando o bebê nos braços de frente para si como se segurasse algo de que muito se gabava.
— Certo, certo, e quanto ao nome? – O escrivão disse, ela deixou os ombros caírem, totalmente indecisa. Deveria dar um nome inglês? O nome do pai? Do sogro? Pensar em algo mais honorável em relação a família? Talvez algo fofo como o bebê era?
— Vai ser Indra. – Sasuke declarou, com muita pompa. O escrivão digitou em segundos e ela não sabia se arrancava a folha da mão dele, entrava em pânico ou matava Sasuke.
— O quê?! Como assim? E você nem me consultou?!
— Você lá tem competência pra nomes? Seu rato de laboratório e aquele cavalo possuído tem nomes ridículos.
— Eu sou a mãe do meu nenê! E o que tem o Plum e o sr. Bubles?! São nomes fofos pra bichinhos fofos. Nosso bebê é fofo mas eu não daria um nome assim...
— Diga um nome em dois segundos.
— To-Tommy...?!
Sasuke revirou os olhos e encarou o filho, sorriu arqueando a sobrancelha.
— Está vendo? Me pague daqui uns anos, garoto.
— Não dê dívidas ao bebê! Que diabos de nome é Indra?
— Uma sem cultura como ela não saberia, hein? – Sasuke ignorou-a, indo dar outra volta com o bebê e Sakura os seguiu, ralhando.
— Pare de inventar enigmas!
— Argh, vá dormir, o bebê está comigo.
— Você só o quer agora por que daqui a pouco ele vai tomar banho.
— Exatamente. Agora cai fora, apenas homens no quarto, vaza.
Sakura saiu para acompanhar o escrivão até a saída, mas muito zangada e enciumada. Agora absolutamente tinha certeza de que deveria ter tido uma menininha ou gêmeos.
Sasuke já estava monopolizando o nenê dela afinal. Mas seria mentira negar que não estava amando ver ele o tempo todo ao redor de Indra inventando desculpas para pegá-lo.
Já era noite quando Martino apareceu, chegou num pequeno veleiro que atracara no deque particular da mansão em que eles estavam.
Sakura se arrumou como podia e tentou sentir-se o mais natural possível, mas o medo que passou era muito recente ainda.
Indra tinha apenas cinco dias de nascido, e ela não estava exatamente tão normal ainda, tanto mentalmente quanto física, estava insegura.
Achara que depois que o bebê nascesse estaria mais tranquila com a segurança dele, mas uma vez fora de seu ventre, ela só sentia mais medo, como se longe dela ele ficasse ainda mais vulnerável do que quando estava sendo gerado.
Os pesadelos que vinha tendo mesmo com Sasuke ao lado, eram prova disso, e não saberia o que fazer quando ele tivesse que os deixar e partir em buscas de respostas exatas sobre a ligação entre a casa galesa e a nórdica.
Martino estava, como sempre, impecável e belíssimo, usava roupas de linho claras e o cabelo emaranhado pelo vento marítimo.
— Ah, Capri, faz tempo que não venho passear por aqui. – Comentou, com um suspiro saudoso e olhou para ela, analisando-a e por fim sorrindo com afeto provavelmente por causa da situação dela. — Sakura! Parece que a gravidez a deixou ainda mais maravilhosa.
— Obrigada, é muito bom revê-lo também, afinal, não nos víamos desde que eu mal sabia que estava grávida.
— Já parece muito tempo mesmo, ainda mais olhando-a assim, parece ainda mais voluptuosa, é como minha avó dizia, uma mulher só se torna mulher depois do primeiro filho.
— Hm, obrigada.
Ela sentiu uma pontadinha de vontade de dizer que uma mulher era mulher simplesmente por o ser, assim como um homem não precisava ter filhos para se considerar homem, mas achou que seria uma implicância exagerada. Além que duvidava que mudaria a visão dele disso tudo.
Seguiu com ele até o segundo andar, ele admirou as belas litografias de Mucha nas paredes.
— Você deu a luz a quanto tempo mesmo? Não está cansada?
— Oh, um pouco, o bebê acorda bastante á noite e o fuzo horário também me deixa confusa.
— Ah, então estava mesmo viajando tanto...?
— Uh, sim... Um pouco... acho que fiquei um pouco mais paranoica desde o ataque em Belfast...
— Eu soube, sinto que tenha passado por isso.
— Uh, sim.
— Esteve em Montenegro também? Soube que foi bem recebida lá...
Algo no tom dele fez a espinha dela gelar.
A viajem até Montenegro era algo que deveria ter ficado fora do radar da Folha, não só pela aliança firmada lá com Stevan, mas por que Sasuke havia cuidado de se livrar de todos aqueles motociclistas mortos posto que não conseguira identificar exatamente a quem serviam. Então Martino saber que ela esteve lá, não era exatamente um bom presságio.
— Foi divertido, até aprendi a jogar pôquer! O sr. Stevan foi muito atencioso, pena que não ficou muito por perto.
— Ah, não? Por quê? Ele aparece pouco mas é sempre um bom anfitrião. – Martino comentou, coçando o queixo.
Sakura deu de ombros, enchendo um copo de bebida e oferecendo a ele.
— Creio que fosse seu trabalho, além que uma menina grávida e encrencada não deveria ser o melhor passatempo para alguém como ele. Mas foi uma pessoa muito cordial ainda assim.
Martino aceitou o copo e deu de ombros com um sorriso charmoso.
— E ponha encrencada nisso. – Brincou.
Sakura sorriu de volta com o máximo de bom humor, que resultou mais em algo muito nervoso.
Ele tomou o último gole e pousou o copo na mesinha.
— Bem, vamos lá! Io quero ver a cara desse bambino! Me pergunto se puxou muito ao pai.
— Ah... hahaha, será? Eu espero que não... – Ela riu quase um ganido assustado e seguiu para quarto passando pelos seguranças.
Martino se deixou ser revistado de muita boa vontade, parecendo entender que a criança era valiosa demais pra se arriscar com qualquer um ou mesmo entendendo o lado materno.
De qualquer forma entrou, esfregando as mãos com ansiedade. Sakura estava ao lado do bercinho branco quase estufado de mantas cheias de babados. Ele fitou a criança, primeiramente surpreso pois achava que seria bem menor, considerando quão novinho era e quão pequenina era a mãe dele.
— Foi parto natural mesmo?
— Oh, não faz ideia do quanto...
Ele concordou, sabendo que jamais entenderia o que era parir enquanto Sakura só recordava que não havia nada mais natural que dar a luz numa cabana no meio da floresta e sozinha.
— É que ele é bem grandinho...
— Uh, sim, meio maior que a média... e pesado também, o médico disse que fiz um bom trabalho.
— Certamente... Mas, me desculpe, tenho que dizer.
— Sim?
— Esse menino é a sua cara.
— Jura?!
— Oh, sim, posso?
Sakura não ficou muito segura e fitou 87 que já estava lá, calado e observador.
— Não se preocupe tanto, no máximo ele vai me detestar por não ser a linda mãe dele...- Martino se curvou pegando o bebê com uma habilidade bastante notável até. O acomodou no braço.
Indra resmungou um pouco, afinal tinha acabado de pegar no sono após mamar.
— Veja só, veja só, um ragazzo muito elegante, não é? Deve ser muito maduro para chorar facilmente.
— Porque não o viu decidido a acordar de madrugada...
— Hahaha. Mas volto a dizer, ele é a sua cara, querida. Suspeito que sua raiz multiétnica vai perdurar nele.
— Oh? Espero que não se dê tão mal quanto eu me dei por isso... – Sakura não poderia deixar de recordar com tristeza de sua vida inicial e de como ser uma mistura afetou sua inserção na sociedade até o ponto de não querer mais estar dentro dela.
Certamente que faria de tudo para que Indra tivesse a infância mais normal de todas onde aprendesse que merecia respeito por ser quem era e a respeitar os outros.
— Certamente ele será notável.... O que me lembra, alguém notável precisa de um nome a altura, já escolheu?
— Sim, sim o escrivão veio esta tarde.
— Muito bem, e qual nome será gravado na história do renascimento da Kuran, bela deusa?
Sakura riu, mais tranquila quando ele a entregou o bebê cuidadosamente.
— Vai se chamar Indra. – Afirmou, esfregando a bochecha do filho com a ponta do indicador e um olhar banhado de ternura. — Indra Uchiha.
Martino gelou, como se levasse um soco no rosto.
Atrás dele, com o ombro encostado na porta, Sasuke sorriu de braços cruzados.
— É um bom nome pra começar, não acha?
Martino ficou vermelho em seguida e Sakura se afastou, fitando ambos com receio, posto que isso fugira completamente dos planos dela ou de 87, que se interpôs cuidadosamente entre ela e o italiano, que a fitou borbulhando de ira.
— Desgraçada. – Sakura recuou mais um passo, atemorizada.
— Não se doa tanto, Martino. – Sasuke disse, vindo até a poltrona ainda mancando um pouco e sentando. — Uma mãe protege sua cria de tudo e todos, é um mecanismo natural.
— E você...?!
— Tento ser mais... Calculista que isso e você já sabe... Porém, não deixa de ser um mecanismo de defesa também, afinal, um pai também protege a prole.
Indra = Em sânscrito, significa Rei dos deuses, segundo a WikiaNaruto.
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