Vila Baunilha

155 A última peça


Que Vila Baunilha é um local pouco conhecido todo mundo já sabe. Que é um lugar com uma população minúscula todo mundo também já sabe. No entanto, apesar de tudo isso, vez ou outra a cidade recebe visitantes que não são apenas habitantes de cidades vizinhas que vão ali satisfazer uma demanda de mão de obra. Esse é o caso da nossa história de hoje.

—Vila Baunilha, heim? — disse um homem próximo à placa de entrada da cidade com aparência chinesa por volta de seus cinquenta anos, usando óculos, barba por fazer, sem muitos dentes na boca e usando um chapéu de palha — Será que dá pala fazer negócios aqui?

O homem chinês tinha acabado de saltar de uma carona e carregava uma mochila com uma caixa consideravelmente grande. Sua missão era vender alguma coisa. Estávamos falando de um caixeiro viajante das antigas.

Após entrar na cidade e ver que não a densidade demográfica não era das melhores, suas esperanças começaram a diminuir. Apesar disso, ele continuou andando até encontrar alguém e consegue. Luciano, nosso bom amigo, estava aproveitando sua folga naquele feriado para tirar algumas notas de seu violão.

—Ei, amigo. Bom dia — cumprimentou o chinesinho.

—Err...o senhor não é daqui, é? — perguntou Luciano.

—Não, não. Sou caixeilo viajante, né?

—Você fala engraçado — reparou Luciano.

—Sotaque chinês — explicou o vendedor.

—Mas como assim caixeiro viajante?

—Vendo válias coisas — falou ele — Estalia intelessado em algo como...coldas pala seu violão?

—Cordas?

—Por coincidência, tenho coldas de violão aqui — falou o chinesinho — Balatinho, né? Só dez leais.

—Bem que meu violão tá precisando de cordas novas… — comentou Luciano.

—Vai complar? — perguntou o caixeiro esperançoso.

—Mas vai ficar para a próxima — disse ele — Dez reais é muita grana. Não tenho esse dinheiro hoje, não. Mas valeu.

E Luciano seguiu andando e praticando sua tenebrosa música “chapadão de amor”.

“Cidade pequena, né? Não posso vender muito calo”, pensou o vendedor chinês. No mesmo instante, um novo cliente em potencial se aproximava, apesar do vendedor não colocar muita fé nele.

—Ei — disse Beni, nosso garoto com uma imaginação um pouco acima da média — O senhor é novo por aqui, não é?

—Ah, sim — falou ele — Sou caixeilo viajante.

—Um “caixeilo”? — repetiu Beni — O que é isso?

—Vendo válios plodutos, né?

—O senhor fala engraçado.

—Sotaque chinês — disse ele — Gostalia de complar alguma coisa?

—Bom, eu até recebi minha mesada hoje, mas…

—Então — o vendedor não parava de sorrir — Pode ter alguma coisa que te intelesse, né?

O caixeiro abriu sua enorme mala e apresentou alguns produtos. Muambas das mais diversas, mas Beni não parecia interessado em nada.

—Valeu, tio — disse Beni — Mas não tô a fim de nada.

“Dloga”, pensou o chinesinho. “Não posso sair dessa cidade de mãos abanando. Deve ter alguma coisa intelessante pala clianças aqui. Ah!”

O vendedor, pelo que parecia, teve uma ideia. Ele pegou uma pequena caixa da mala e mostrou ao jovem Beni um antigo jogo de quebra-cabeças.

—Que tal esse, heim? — disse ele — É um genuíno quebla-cabeças chinês.

—Ah, é aquele jogo que você tem várias peças e vai montando até formar a figura total, né? — disse Beni, esboçando um sorriso aparentemente de interesse.

—Quer levar? — perguntou o chinesinho.

—Não, valeu — disse ele, já se preparando para sair de cena — Isso parece chato.

“Esse moleque…”, pensou o vendedor, mas, rapidamente, teve outra ideia. Sem que Beni visse, tirou uma das peças do quebra-cabeças com um sorriso malandro e o chamou de volta.

—Não, espele — disse o vendedor, puxando Beni de volta antes que ele caísse fora — É que esse...não é um quebla-cabeças comum.

—Ah, não? — agora Beni ficou um pouco mais interessado.

—Tem uma lenda por tlás dele — falou o vendedor — Dizem que quem completar esse quebla-cabeça ganha podeles mágicos.

—Poderes mágicos? — perguntou Beni.

“Onde estou com a cabeça”, pensou o vendedor. “Clalo que ele não vai engolir essa…”

—Verdade? — insistiu Beni para a surpresa (e felicidade) do vendedor.

—Sim, sim — disse o caixeiro — Até hoje ninguém conseguiu montá-lo.

—Sério? Só tem umas cem peças. Como ninguém conseguiu montar até hoje?

—Ah, a lazão é muito simples. Tem uma peça faltando.

—Ora, então não adianta nada — falou Beni — Por que compraria um quebra-cabeças impossível de terminar?

—Você não deixou eu telminar de falar — continuou o chinesinho — Por que você acha que vim pala essa cidade?

—Para vender sua muamba?

—Não só isso — prosseguiu o vendedor — É polque o quebla-cabeças peltenceu ao meu tatatatalavô que uma vez visitou Vila Baunilha e deixou uma das peças aqui pala o quebla-cabeças não cair em mãos eladas.

—Espera...então a última peça está aqui na cidade? — perguntou Beni.

—Sim — disse ele — Foi há muito tempo, mas ele a deixou em algum lugar segulo da cidade. Infelizmente, não sei onde.

“É isso”, pensou Beni. “O destino trouxe esse quebra-cabeças para mim. Essa é a resposta que tenho buscado há tanto tempo. O fim está próximo e eu sou o escolhido para defender o planeta. Se há uma pessoa destinada a herdar os poderes do quebra-cabeças sou eu!”

—Eu compro! — disse Beni.

—Compla? — perguntou o vendedor

—Sim — disse ele — Se tem alguém capaz de achar o esconderijo da peça lendária e montar o quebra-cabeças, esse alguém sou eu! Eu compro! Quanto custa?

—Quanto você pode pagar?

—Bem, tenho duas notas de vinte reais aqui e…

—Feito. Faço por qualentinha — disse o vendedor, pegando a nota de vinte da mão de Beni e entregando o quebra-cabeças para ele — Isso paga meu almoço. Vendendo mais alguma coisinha à talde já posso ir pala a plóxima cidade, né?

—Mesmo? Nossa, obrigado.

—Eu que agladeço — disse o chinês, satisfeito por ter se livrado de um dos produtos mais difíceis de vender.

O vendedor saiu andando rapidamente, enquanto Beni olhava empolgado para seu novo brinquedo. Apesar de satisfeito com a venda, sua consciência de ter enganado a pobre criança pesou um pouco. Quando já estava longe, o chinês jogou a última peça no meio da entrada da floresta.

—Bem, a última peça está mesmo no telitólio da cidade, né? — disse o vendedor — Melhor meia mentila do que uma mentila inteila, já dizia Confúcio.

Claro que Confúcio nunca disse isso, mas, seja como for, Beni estava feliz e disposto a completar o quebra-cabeça.

—O que será que eu consigo quando completar o quebra-cabeça? — pensava ele — Será que tem um espírito que vai me fazer ganhar jogos de cartas? Não sei, só sei que vou completar esse negócio! Essa vai ser minha missão!

É, o caixeiro viajante não poderia ter encontrado um freguês melhor.

Notas finais
Olhando agora até que o caixeiro viajante tem carisma para ser um bom personagem recorrente, né? Kkkk. Pena que chegou muito tarde, ele só aparece nesse capítulo mesmo. Mas o arco está só começando, então espero que continue acompanhando. Até o próximo! :)