Vigilante Inc.

1 O Posto de Gasolina


O sinal da escola ecoou pelo corredor como um grito de liberdade, mas para Tales e Peter, era o disparo de largada. Peter cruzou o portão primeiro, a mochila balançando perigosamente em um ombro enquanto gesticulava sobre a última edição de sua HQ favorita.


​— Eu tô te falando, Tales, não faz sentido nenhum ele sobreviver àquilo. Nenhum.


​Tales caminhava ao lado, o sol da tarde fazendo seus cabelos loiros, quase brancos, brilharem. Ele observava o trânsito e o fluxo das pessoas com uma calma que não pertencia a um garoto de treze anos.


​— Faz sentido sim. Ele ainda não enfrentou o vilão principal. Seria cedo demais.


​— Ah, claro. O estrategista falando. — Peter riu. — Você sempre pensa três capítulos na frente.


​Tales deu um meio sorriso. Ele não pensava apenas nos capítulos; ele sentia o ritmo das coisas, como se o mundo fosse um mecanismo que ele estivesse prestes a entender.


Eles já atravessavam a rua quando uma voz conhecida veio atrás.


​— Ei! Não vão dizer tchau pra mim?

​Os dois pararam em sincronia. Emily vinha logo atrás, mãos na cintura e uma indignação fingida que não conseguia esconder o brilho divertido no olhar.


​— Foi mal, Emily! — Peter respondeu.


​— Até amanhã! — completou Tales.


​Ela revirou os olhos.


​— Vocês são impossíveis.


​E seguiu na direção oposta, balançando a cabeça. Peter a acompanhou com o olhar por um breve segundo.


​— Ela podia ter um pingo de cultura e gostar de quadrinhos, né?


​Tales assentiu, distraído. A cidade ao redor parecia mergulhada em uma normalidade absoluta: prédios médios, o coro distante de buzinas e vendedores ambulantes recolhendo suas barracas. Nada sugeria que o mundo escondesse algo além da rotina. No meio do caminho até a loja de quadrinhos, Peter chutou uma pedrinha, acompanhando-a quicar pela calçada.


​— Se você tivesse dinheiro infinito… tipo infinito mesmo… o que você faria?


​Tales ponderou por um momento.


​— Infinito infinito?


​— Infinito nível final boss.


​Alguns passos de silêncio se seguiram.


​— Eu compraria um posto de gasolina.


​Peter travou no meio da calçada.


​— Um… o quê?


​— Um posto de gasolina.


​— Por quê?!


​Tales deu de ombros, como se a resposta fosse óbvia.


​— Não sei. Parece legal. A gente podia ter um lugar só nosso. “Posto Hardt & Vance”.


​Peter o encarou em silêncio por dois segundos antes de romper em uma gargalhada genuína.


​— A gente vai ficar milionário… e comprar um posto de gasolina.


​— Você não odiou a ideia.


​Peter abriu um sorriso torto.


​— Não. Eu achei genial.


​E ali, numa calçada qualquer, dois garotos de treze anos e meio selaram um pacto sem qualquer lógica. Um dia, eles comprariam um posto de gasolina.


​Poucas ruas depois, o cheiro familiar de papel e tinta anunciou o destino. A loja era pequena, apertada e, para eles, perfeita. Peter foi direto para a prateleira principal, os olhos brilhando.


​— Finalmente!


​Tales pegou a mesma revista, mas, em vez de seguir para o caixa, devolveu-a à estante.


​— Vou pedir pra entregar em casa.


​Peter virou devagar, franzindo o cenho.


​— Pra quê?


​— Ah… sei lá.


​— Deixa de ser mané.


​Tales hesitou, sentindo o peso do olhar do amigo.


​— A garota dos correios que faz as entregas… ela é bonita.


​O silêncio durou meio segundo antes de Peter explodir em uma risada que ecoou por toda a loja.


​— EU SABIA!


​— Cala a boca!


​O dono da loja riu atrás do balcão, acostumado com a dupla.


​— Vocês dois são figuras.


​— A gente vai arrumar emprego e comprar um posto de gasolina — Peter declarou, cheio de convicção.


​O homem arqueou a sobrancelha, soltando um suspiro divertido.


​— Claro que vão.


​Na saída, Peter ainda provocava Tales sobre a nova paixão quando o sino da porta tocou novamente. E um homem de chapéu verde entrou.


Ele aparentava ter cerca de 27 anos, com cabelos loiros de tom médio que caíam em ondas desalinhadas sob o chapéu verde. Seus olhos verdes escuros tinham um brilho astuto. Estava com uma postura relaxada e economia de movimentos que contrastava com a energia caótica dos meninos que saíram a pouco. Sem pressa, ele se aproximou do balcão.


​— Tarde.


​— Perdeu duas figuras interessantes, Leon — comentou o dono. — Querem arrumar emprego pra comprar um posto.


​Leon ficou em silêncio por um instante, e então, sorriu. Mas não era o sorriso de quem achou graça; era o sorriso de quem reconheceu uma oportunidade.


​O céu ganhava tons alaranjados quando eles se despediram na esquina de sempre, cada um levando consigo o eco daquela ideia absurda.


​Na casa de Peter, o aroma do almoço ainda pairava no ar. Ele mal fechou a porta e já anunciou sua chegada.


​— Cheguei, mãe!


​— Bem-vindo, meu filho! — ela respondeu da cozinha.


​Peter largou a mochila no sofá, o peso das alças deixando um alívio momentâneo nos ombros.


​— Mãe… você acha que eu conseguiria arrumar um emprego?


​Ela apareceu na porta, a surpresa nítida no rosto.


​— Emprego? Você ainda é muito novo pra isso, Pete.


​— Eu e o Tales estávamos pensando… seria legal. A gente quer juntar dinheiro.


​Ela reconheceu aquele brilho instantaneamente. Era o mesmo que via nos olhos do pai dele. Um rastro de preocupação cruzou seu semblante; o medo de que aquele "trabalho" fosse o primeiro passo para longe da segurança da infância.


​— A gente conversa sobre isso, tá? — disse com cuidado.


​Peter assentiu, mas o brilho persistia. O assunto não morreria ali.


​Na casa dos Hardt, Lena já cumpria seu ritual na janela. Ao avistar Tales dobrando a esquina, ela saltou da cadeira e correu para a porta, espiando pelo olho mágico na ponta dos pés. Assim que a porta se abriu, ela se lançou sobre ele.


​— VOCÊ CHEGOUUU!


​Tales riu, erguendo a irmã no ar antes que ela pudesse confiscar sua mochila.


​— Oi, Lena. Eu também senti saudade.


​— Deixa eu ajudar com a mochila!


​— Nem pensar. É pesada demais pra você, mocinha.


​Após cumprimentar os pais, ele se refugiou no quarto. Entre uma fase de Dimension Dash e outra, seus pensamentos oscilavam entre postos de gasolina e a garota dos correios. A noite caiu mansa e, como sempre, o dever de irmão mais velho o chamou.


​— Vai contar historinha pra eu dormir? — Lena perguntou, já sob as cobertas.


​— Claro. Deita aí.


​Tales sentou-se à beira da cama, a voz baixando para um tom narrativo.


​— Era uma vez um garoto sonhador que saiu pelo mundo em busca de um tesouro… porque ele queria realizar o maior sonho da vida dele.


​— Qual era? — ela perguntou, o sono já pesando nas pálpebras.


​Tales sorriu, olhando para o teto.


​— Comprar uma ilha.


​Ela riu baixinho e, pouco depois, o silêncio da respiração pesada dominou o quarto. Tales apagou a luz, mas o próprio sono demoraria a vir.


​A cidade adormeceu sob um manto de luzes que se apagavam. O vento frio começou a chicotear as ruas vazias até que, subitamente, o alarme de um banco rasgou o silêncio.


​Um vulto ofegante contornou a lateral do prédio, apertando um volume contra o peito. Ele tropeçou, recuperou o equilíbrio, mas estacou ao sentir um frio na espinha. Uma sombra se projetou sobre ele. No alto da cornija, imóvel contra a lua, estava uma figura de casaco longo. O chapéu ocultava o rosto, mas a presença era esmagadora.


​O ladrão engoliu seco e disparou. Saltou obstáculos, atravessou becos escuros, mas o som de passos firmes e rítmicos continuava logo atrás, como uma batida de coração inevitável. Ao dobrar a última esquina, ele estancou. O homem do chapéu estava lá, parado, como se o espaço entre eles nunca tivesse existido.


​Em um piscar de olhos, o movimento aconteceu. Um golpe preciso na nuca enviou o ladrão ao chão. Poucas palavras foram trocadas, sussurros que se perderam no vento. Com um toque de dois dedos na testa do homem caído, a consciência dele se esvaiu.


​Minutos depois, a viatura estacionou. A policial desceu, o vapor do café subindo no ar gelado, e suspirou ao ver o meliante amarrado ao poste.


​— De novo…


​A cidade despertava para mais um dia comum, ignorando a vigília da noite.


​Na manhã seguinte, os cartazes brancos com letras garrafais decoravam os muros.

​“PROCURA-SE JOVEM APRENDIZ – Correios da Região”


​Peter foi o primeiro a notar, puxando Tales pelo braço.


​— Olha isso!


​Tales analisou o papel com a cautela de sempre.


​— Coincidência demais.


​— O universo quer nosso posto.


​— Ou é golpe.


​— Imagina se a menina trabalha lá.


​— Não começa.


​— Vai dar namoro no correio!


​Rindo, eles seguiram o chamado, sem notar que o caminho levava a algo muito mais vasto que um balcão de entregas.


​O prédio da V.I.G.I.L. era de uma simplicidade absoluta. Leon estava atrás do balcão, a mesma postura relaxada da loja de quadrinhos. Ele recebeu as fichas e os documentos sem pressa.


​Mas quando seus olhos pousaram no nome “Tales Hardt”, o tempo pareceu sofrer um solavanco. Foi apenas um segundo — uma pausa imperceptível para qualquer um, menos para ele. Ele ergueu o olhar, estudando o rosto do garoto, e então fechou a pasta com um estalo seco.


​— Muito bem. Vocês começam na semana que vem.


​A ficha demorou a cair.

​— A gente… passou? — Peter perguntou, a voz subindo um tom.


​— Sim.


​O olhar que Tales e Peter trocaram continha toda a eletricidade do mundo.


​— A GENTE CONSEGUIU!


​Leon permitiu-se um pequeno sorriso de canto.


​— Segunda-feira. Duas da tarde. Não se atrasem.


​Eles dispararam pela porta, correndo como se o asfalto fosse o início de um império. Atrás do vidro, Leon os observou até que sumissem na esquina. Carregado de pensamentos.


​Tales foi recebido pelo furacão chamado Lena. Ele a segurou no ar, rindo da empolgação pura da irmã.


​— Consegui, Lena. Eu consegui.


​Na cozinha, o clima era de uma alegria contida. O pai de Tales cruzou os braços, um sorriso orgulhoso lutando contra a seriedade.


​— Fico orgulhoso pela iniciativa, filho. Mas não se esqueça, trabalho é responsabilidade.


​— Eu sei.


​A mãe, porém, mantinha o olhar fixo nele, os olhos verdes nublados por uma preocupação que Tales não conseguia decifrar.


​— Só… tenha cuidado.


​Tales sorriu, tentando tranquilizá-la.


​— Tudo bem. Estarei com o Peter.


​Na casa de Peter, o silêncio da mãe dizia mais que as palavras. Ela ajeitou o cabelo do filho, sentindo o quanto ele estava crescendo rápido demais.


​— Você ainda é meu bebê.


​— Mãe!


​Ela suspirou, o medo antigo vibrando em seu peito como uma nota desafinada.


​— Só tome cuidado.


​Peter respondeu com a mesma confiança de sempre.


​— Tudo bem. Estarei com o Tales.


​Naquela noite, o sono veio rápido para os dois. Eles sonhavam com postos de gasolina e planos malucos, ignorando que, nas sombras da cidade, o mundo já havia dado o primeiro passo em direção a eles.