Vigilante Inc.
2 Entregas, Corridas e Dimension Dash
O fim de semana nunca passou tão devagar.
Normalmente, Tales e Peter reclamavam que sábado e domingo evaporavam como fumaça, mas desta vez cada hora parecia esticada por um século de ansiedade. O plano do posto de gasolina, antes apenas uma ideia solta, agora ganhava peso. Eles o repetiram no sábado, voltaram ao assunto no domingo e o revisaram na manhã de segunda mais vezes do que qualquer um deles admitiria.
Quando o sinal das 13h30 finalmente soou, o corredor explodiu no barulho habitual de cadeiras arrastando e mochilas sendo fechadas às pressas. Tales e Peter já estavam de pé antes do eco terminar.
— Ei! — A voz de Emily cortou o burburinho logo na saída da sala. Ela estava encostada na parede do corredor, a mochila no ombro e uma expressão que misturava curiosidade com suspeita. — Vocês dois estão estranhos desde cedo. O que tá acontecendo?
— Nada — responderam os dois ao mesmo tempo. O que, evidentemente, foi a confirmação de que havia algo.
Emily estreitou os olhos, alternando o olhar entre um e outro.
— Vocês combinaram de falar igual? Tô perguntando sério.
— A gente vai começar a trabalhar hoje — Tales disse, optando pela versão mais curta da verdade.
— Trabalhar? — Emily piscou. — Vocês têm treze anos.
— Quatorze em breve — Peter corrigiu, como se aquilo mudasse alguma coisa.
— Jovem aprendiz — completou Tales. — Nos Correios. É oficial, tem ficha e tudo.
Emily ficou em silêncio por um segundo, processando.
— Nos Correios. — Ela repetiu, plana. — Vocês vão entregar carta de vó.
— E juntar dinheiro pro posto de gasolina — Peter acrescentou, com a convicção de quem anuncia um plano de dominação mundial.
Emily abriu a boca, fechou, abriu de novo.
— Tá bom — disse ela, por fim, num tom que claramente significava não tá bom, mas não vou perder meu tempo. — Me contem como foi amanhã.
Ela se afastou balançando a cabeça, e Peter a acompanhou com o olhar por um segundo antes de dar uma cotovelada em Tales.
— Ela vai entender quando a gente tiver o posto.
— Com certeza — Tales respondeu, já em movimento em direção à saída.
No corredor que dava para o pátio, eles quase passaram reto pelo senhor Bauman — o tio da limpeza, como todo mundo o chamava, um homem de cabelos grisalhos e olhos claros que sempre carregava o rodo com uma dignidade inexplicável. Ele estava varrendo perto da porta de saída quando os dois apareceram em velocidade de escaping.
— Ei, ei! — Ele ergueu uma mão, sorrindo. — Pra onde vocês vão tão voados?
— Primeiro dia de trabalho, seu Bauman — Peter anunciou, passando por ele sem parar.
O homem deu uma risada baixa e satisfeita, mas havia algo no olhar dele — uma atenção que não combinava bem com a vassoura na mão — quando pousou os olhos em Tales por um segundo a mais.
— Trabalho bom — disse ele. — Só tomem cuidado com o que acharem pelo caminho, tá? Nem tudo que parece perdido tá esperando ser encontrado.
Tales parou por meio segundo, franzindo a testa para aquela frase estranha, mas Peter já o puxava pela manga.
— Vem logo!
E eles saíram porta afora, sem notar o sorriso que o senhor Bauman deixou morrer devagar enquanto os observava ir embora.
Leon estava encostado no batente da porta principal com a pose de quem nunca teve pressa na vida.
— Sejam bem-vindos, moleques! — Ele abriu os braços, um sorriso de canto surgindo sob a aba do chapéu. — Preparados pra ficarem ricos?
— Sempre! — Peter disparou.
— Ótimo. A propósito, ainda não me apresentei formalmente. Meu nome é Leon.
— Nah, Tio do Chapéu combina bem mais com você — Peter rebateu, arrancando um riso curto de Leon, que aceitou o apelido com um aceno de cabeça.
— Sinta-se à vontade. Bom, sem papo furado. Tour rápido e depois vocês já vão suar.
Eles atravessaram os setores em uma caminhada acelerada. A triagem era um caos organizado de esteiras e códigos de barras; a logística fervilhava com mapas digitais e telas de monitoramento. Enquanto Tales observava cada corredor com uma atenção estratégica, memorizando rotas de entrada e saída, Peter buscava qualquer fagulha de algo extraordinário naquele mar de papelão e fita adesiva.
Foi no corredor que ligava a triagem ao setor administrativo que Leon parou, discretamente, e fez um sinal para eles esperarem. Uma porta de vidro jateado se abriu e Mia atravessou o corredor com uma pasta embaixo do braço e o olhar fixo em um relatório que já estava lendo em movimento.
Ela era mais jovem do que Tales esperava para alguém que exalava aquele tipo de autoridade. O terno escuro, os cabelos negros presos com precisão e os óculos de armação fina compunham uma imagem de competência absoluta. Ela não precisava andar rápido para parecer ocupada. Cada passo era calculado.
Leon a chamou com uma naturalidade que sugeria que eles faziam isso todo dia.
— Mia. Os novos aprendizes.
Ela parou. Fechou a pasta. Olhou para os dois com uma atenção que durou exatamente o tempo necessário para formar uma opinião e não um segundo a mais.
— Tales Hardt e Peter Vance — disse ela. Não como pergunta.
— Isso — confirmou Leon.
Os olhos dela, que Tales só então percebeu serem de um âmbar incomum, pousaram primeiro em Peter, depois em Tales, com uma pausa quase imperceptível.
— Bem-vindos — disse Mia. A palavra era protocolar, mas o tom não era frio; era simplesmente econômico. Ela já estava abrindo a pasta de novo quando acrescentou, sem olhar: — Leon, o relatório das rotas do setor norte precisa ser revisado antes das dezesseis horas.
— Já tô nisso — Leon respondeu, com aquele sorriso de quem claramente não estava nisso ainda.
Mia seguiu pelo corredor sem mais uma palavra, e a porta de vidro se fechou atrás dela com um clique suave. Peter olhou para Leon.
— Ela é a chefe?
— A chefe geral, sim — Leon confirmou, voltando a caminhar.
— Ela parece brava — Peter murmurou.
— Ela parece ocupada — Tales corrigiu, ainda olhando para a porta fechada. — É diferente.
Leon deu um sorriso de canto que não explicou nada.
— Vamos. Ainda tem muito prédio pra ver.
De repente, Peter travou no meio do corredor, estreitando os olhos em direção à área de carregamento das motos.
— Ei… olha o mano esquisitão do terceiro ano!
Perto das motos, um garoto de coque alto e expressão severa organizava caixas com uma precisão quase mecânica, totalmente alheio ao mundo ao redor.
— Mason — murmurou Tales, reconhecendo-o. — Ele estuda na nossa escola.
— Que mundinho pequeno, hein? — Leon comentou sem nem desviar o foco da rota. — Ele é um dos funcionários mais eficientes daqui.
Peter olhou para o veterano com uma mistura de curiosidade e respeito involuntário.
— Ele sempre tem essa cara de quem vai processar alguém?
— Só quando está trabalhando — Leon respondeu. — Ou acordado.
Leon os conduziu para fora da Unidade de Distribuição e parou diante de uma pilha considerável de encomendas. Bateu palmas uma única vez. O som ecoou no asfalto.
— Acabou o passeio turístico. Seguinte: nada de mamata. Quero tudo isso entregue hoje. Vocês têm duas horas.
— Duas horas?! — Peter arregalou os olhos para a montanha de pacotes.
— Já foram trinta segundos — Leon respondeu, sério por dois segundos antes de relaxar num sorriso desafiador. — E não voltem com nada na mochila.
O primeiro dia começou com o peso da realidade nos ombros e o fogo da competição nos pés.
Peter liderava o caminho, e era impossível não notar como ele parecia pertencer ao movimento. O vento açoitava seu cabelo preto enquanto ele saltava calçadas, os olhos azul-acinzentados focados no próximo número de casa, na próxima esquina. Era agilidade pura — as pernas magras mas resistentes impulsionando-o ladeira acima enquanto reclamava do peso, embora o sorriso dissesse o contrário.
Tales corria com uma economia de movimentos invejável, os olhos claros sempre mapeando o caminho mais curto.
— Isso aqui é trabalho ou olimpíada escolar? — Peter gritou, ajeitando a alça que teimava em escorregar enquanto desviava de um pedestre.
— Para de drama! Quem entregar mais escolhe o sorvete depois! — Tales respondeu, já saindo em disparada e saltando um pequeno muro para cortar caminho.
Eles se tornaram borrões pelas ruas do bairro. Subiram ladeiras íngremes sob o sol das quinze horas, desceram ruas residenciais em velocidade máxima, tocaram campainhas e colheram assinaturas com uma pressa frenética. Entre um pacote e outro, o cansaço era camuflado por risadas e provocações. Era um jogo, e eles estavam determinados a vencer.
Quando finalmente retornaram à V.I.G.I.L., três horas e meia depois, a adrenalina começou a baixar, substituída por um suor frio e o arfar pesado.
— Fazia tempo… que a gente não corria assim — Tales conseguiu dizer, apoiando as mãos nos joelhos, o cabelo loiro grudado na testa.
— Eu acho que minhas pernas… ficaram lá no bairro três — Peter respondeu, jogando-se dramaticamente contra uma parede, o peito subindo e descendo.
Leon estava lá, cronômetro na mão. Não mencionou o atraso. Apenas observou os dois, vendo a exaustão mas, acima de tudo, a faísca de satisfação nos rostos deles.
— Intervalo. Quinze minutos.
Enquanto Peter já se arrastava em direção à sala de descanso, Tales demorou um segundo a mais no galpão. Seus olhos azuis varreram o espaço com uma discrição que ele mesmo fingia não notar — as esteiras, o corredor lateral, a área de triagem. Ele diga a si mesmo que estava memorizando o layout do lugar. Era mentira. Ele procurava um corte chanel castanho e um brilho azul que ele já vira algumas vezes.
Nada. Só papelão, uniforme e o chiado das esteiras.
Ele soltou o ar pelo nariz e seguiu Peter.
A sala de descanso era pequena e cheirava a café velho e borracha de solado. Dois sofás encostados na parede, uma mesa baixa com algumas revistas amassadas, uma televisão que ninguém ligava. Peter já havia se jogado no sofá da esquerda com a dramaticidade de alguém que acabou de sobreviver a uma guerra.
— Meus pés viraram tijolo — ele anunciou para o teto.
Tales estava prestes a concordar quando parou na entrada.
No sofá da direita, com as pernas cruzadas e o console portátil inclinado sob a luz da janela, estava uma garota. O cabelo castanho-cobreado, cortado num chanel impecável, moldava o rosto dela enquanto os dedos se moviam sobre os botões com uma agilidade que Tales reconheceu antes mesmo de ver a tela.
Dimension Dash. A trilha sonora em chiptune vazava pelos fones que descansavam soltos no pescoço dela.
Tales não se moveu.
Peter, que havia erguido a cabeça do encosto do sofá para dizer alguma coisa para o amigo, seguiu o olhar dele e entendeu tudo num segundo. Ele olhou para a garota, olhou para Tales, olhou para a garota de novo.
Levantou-se do sofá sem fazer barulho — um feito notável para Peter — e caminhou até o sofá dela com a naturalidade de quem entra no próprio quarto.
— Fala! — disse ele, deixando cair a mochila no chão e sentando-se na mesinha baixa em frente a ela. — Você trabalha aqui?
A garota levantou os olhos do console sem sobressalto. Olhou para Peter com uma calma que não era timidez nem arrogância — era apenas o olhar de alguém que raramente se surpreendia com coisa alguma. Um leve sorriso surgiu.
— Trabalho, sim. Sou a Skye.
— Peter. — Ele estendeu a mão com uma desenvoltura que faria qualquer adulto invejá-lo. — A gente começou hoje. Nas entregas.
— Eu sei — ela disse, apertando a mão dele. — Eu faço entregas também.
Tales entrou. Deu dois passos. Seus olhos pousaram no console na mão de Skye e, por um segundo, a timidez foi completamente atropelada por outra coisa.
— Você está jogando Dimension Dash.
Não foi uma pergunta. Foi o tom de quem acaba de encontrar uma espécie que julgava extinta.
Skye inclinou levemente a cabeça, as ondas nas pontas do cabelo chanel dançando com o movimento. O sorriso cresceu um grau.
— Estou, sim.
— Você está em que parte? — Tales adiantou-se dois passos sem perceber, os olhos fixos na tela.
— Dimensão vinte e três. Templo de Cristal.
Tales piscou. — Essa parte é absurda. O padrão do chefe não faz sentido na primeira vez.
— Faz sentido sim — ela respondeu, sem hesitar. — Você só precisa parar de olhar para os projéteis e começar a olhar para ele.
O quarto ficou levemente mais silencioso. Peter observava a cena com um sorriso de canto que fez questão de esconder atrás da mochila.
Tales abriu a boca para responder, e foi então que Skye ergueu o olhar do console e o encontrou de frente pela primeira vez. Havia uma atenção genuína naqueles olhos azuis — a curiosidade de quem acabou de notar algo interessante.
— Você é o Tales, né?
Ele pausou. O calor subiu pelas orelhas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa a respeito.
— Como você sabe?
— Entrego suas encomendas de quadrinhos. — Ela inclinou a cabeça. — Seu nome está sempre nas caixas.
Tales sabia quem ela era. Claro que sabia. Havia meses que ela passava pela sua rua nos patins, o cabelo chanel ao vento e a mochila de entregas nas costas, e ele ficava alguns segundos a mais na janela sem conseguir explicar direito por quê. Ele só não sabia o nome dela. Agora sabia, e isso de alguma forma tornava tudo mais real e mais difícil ao mesmo tempo.
— Você tem bom gosto — ela completou, com uma simplicidade que não parecia calculada.
— Eu… obrigado — disse ele, e desviou o olhar para o console dela antes que o rosto ficasse mais vermelho do que já estava.
Peter, que havia acompanhado a troca em silêncio com a expressão de quem assiste a um documentário fascinante, resolveu intervir antes que Tales entrasse em colapso térmico.
— Então você faz entregas de patins? — perguntou ele, genuinamente curioso. — Isso não é lento demais?
— Depende do bairro — Skye respondeu, voltando os olhos para Peter com a mesma facilidade de antes. — Rua plana e calçada boa, eu chego antes que qualquer moto no trânsito do fim de tarde. Os patins passam por onde carro não passa.
— Isso é genial — Peter declarou, com a convicção de quem acabou de ouvir a solução para um problema que nem sabia que tinha.
— É prático — ela corrigiu, modesta, mas com um leve brilho de orgulho.
Houve uma pausa. Skye olhou para o console na mão, como se considerasse retomar o jogo, mas não retomou. Peter aproveitou o espaço.
— Vocês jogam Dimension Dash também? — ela perguntou, para os dois, mas os olhos pousaram em Tales por um segundo a mais.
Tales sentiu o olhar dela pousar nele e olhou para o lado, para a televisão desligada, como se ela estivesse ligada e passando algo muito interessante.
— Jogamos — Peter respondeu, sem perder o fio. — Eu e o Tales desde que lançou. Eu sou melhor em combate, ele é melhor em plataforma. A gente discute sobre isso desde sempre.
— Plataforma exige leitura de padrão — Tales disse, por reflexo, o modo analítico ligando antes que a timidez pudesse barrar a passagem. — Combate no Dimension Dash é sessenta por cento reação e quarenta por cento sorte.
— É sessenta por cento habilidade e quarenta por cento você não saber jogar — Peter retrucou.
Skye riu. Foi uma risada curta e genuína, o tipo que escapa antes que a pessoa decida se quer ou não deixar escapar.
— Eu nunca vi uma garota que gostasse de Dimension Dash — Tales soltou, e percebeu na mesma fração de segundo que tinha dito em voz alta. Tentou consertar antes que a frase terminasse de pósar. — Quer dizer… que jogasse assim, com esse nível…
Peter virou o rosto para a parede imediatamente, numa tentiva de esconder o quase riso, mas ele disfarçou franzindo o rosto como se fosse só uma careta qualquer.
— Devo ser uma peça rara então — Skye respondeu, com um humor seco que não precisava de entonação para funcionar.
O comentário desarmou o escudo técnico de Tales. O calor voltou direto para as bochechas, trazendo o garoto tímido de volta num instante. Ele desviou o olhar para a mesa por um segundo, esperando o rosto esfriar antes de retomar o fio.
— Qual é o seu estilo de build? — perguntou ele.
— Montei uma combatente técnica — ela respondeu, gesticulando de leve com uma das mãos. — Foco total em curta e média distância, com uma árvore de habilidades híbrida.
Tales ergueu os olhos, genuinamente interessado.
— Esse estilo é bizarramente difícil de gerenciar em dungeon solo. As habilidades exigem um timing milimétrico de combo e a barra de recursos esvazia muito rápido se você errar a ordem dos botões.
— Exatamente — Skye disse, e havia algo no tom dela que era quase um espelho do que Tales havia dito um segundo antes. — A maioria das pessoas desiste e vai para a força bruta pura porque acha complexo demais administrar os tempos de recarga. Mas se você souber usar o avanço rápido para cancelar a animação dos golpes, dá para dominar o campo inteiro.
Tales ficou quieto por um segundo. Aquilo não era conhecimento casual — era a lógica de alguém que havia pensado de verdade sobre a estrutura do jogo.
— E você? — ela perguntou, os olhos fixos nele agora. — Qual classe escolheu para o seu avatar?
— Mago — ele respondeu. — Mas puxei os pontos de atributo para magias de área e zoneamento.
Ela piscou, e algo no rosto dela mudou de forma sutil — não surpresa, mas reconhecimento. Como se uma peça tivesse encaixado num lugar que ela ainda estava montando.
— Um mago tático é difícil de rodar bem em um jogo de ação rápida — disse ela. — A maioria desiste nas dimensões mais avançadas porque o tempo de conjuração dos feitiços te deixa totalmente exposto se os monstros cercarem. Você não pode ficar parado nunca.
— Exatamente. — O calor nas orelhas havia sumido completamente, substituído por algo diferente, mais parecido com o brilho que Tales tinha quando resolvia um problema que ninguém mais via solução. — O erro da maioria é usar o mago só para tentar dar dano bruto de longe e esquecer a esquiva. Ele funciona melhor controlando o espaço. Se você mapear os pontos de surgimento dos monstros e os obstáculos da sala antes de começar o combate—
— Você já tem a rota de fuga e o tempo de feitiço planejados antes de começar a correr — Skye completou, baixo, quase para ela mesma.
Tales parou no meio da frase.
Ela estava olhando para ele com aquela atenção de antes, mas agora havia algo mais — uma expressão que ele não conseguiu nomear e que o deixou com a estranha sensação de ter sido lido com mais precisão do que estava preparado. Não era desconforto. Era algo mais estranho que isso. Era a sensação de que ela havia chegado a uma conclusão sobre ele que ele mesmo não havia chegado ainda.
Peter, sabiamente, ficou em silêncio.
Foi Skye quem quebrou o momento, olhando para o relógio no pulso com um movimento natural que não parecia escapatória, apenas rotina.
— Meu intervalo acabou — ela disse, guardando o console no bolso lateral da mochila. Levantou-se, ajustou as alças, e parou por um segundo antes de sair. Olhou para os dois, Peter primeiro, Tales depois, com aquela calma de quem está guardando mais do que mostra. — A gente se vê por aí.
Ela saiu com a leveza de quem não carrega peso nenhum, os passos sumindo no corredor.
O silêncio que ficou durou três segundos.
— "Você já tem a rota de fuga e o tempo de feitiço planejados antes de começar a correr" — Peter imitou, em voz baixa e solene, como se estivesse citando filosofia antiga.
— Cala a boca, Peter.
— Ela te leu como um livro aberto, Tales. Um livro aberto em fonte grande, com ilustrações.
— Eu disse cala a boca.
Peter abriu um sorriso enorme e se jogou de volta no sofá, pondo as mãos atrás da cabeça com a satisfação de quem acabou de assistir a algo histórico.
— Primeiro dia e você já encontrou sua kryptonita. Que fase incrível da sua vida.
Tales ficou olhando para la porta por um segundo a mais antes de se sentar. Ele não respondeu. Mas também não negou.
Eles cruzaram o portão da V.I.G.I.L. arrastando os pés como se estivessem carregando o dobro do próprio peso. O sol já havia sumido quase por completo, deixando no céu um rastro roxo e azul-escuro que combinava perfeitamente com o cansaço que começava a cobrar a conta.
— Cara, se cada dia for assim, a gente não chega nos quatorze anos vivo — Peter resmungou, deixando os braços largados ao lado do corpo. — Minhas costas estão pedindo demissão.
Tales soltou um riso fraco, ajeitando a mochila que parecia pesar uma tonelada a mais do que na hora em que saiu da escola.
— Mas foi legal. Pelo menos a gente entregou tudo. Quer dizer, com um pouquinho de atraso, mas entregou.
— É. E cada pacote entregue é um tijolo a mais no nosso posto — Peter abriu um sorriso cansado, os olhos brilhando de leve ao lembrar do plano. — “Posto Hardt & Vance”. Tem que valer a pena.
Eles caminharam em silêncio por metade de uma quadra, o ritmo lento sendo ditado pelas pernas trôpegas. Foi quando Peter diminuiu ainda mais o passo, olhando de soslaio para o amigo com uma expressão excessivamente inocente.
— Então… cancelamento de animação e zoneamento de área, é?
Tales sentiu o pescoço esquentar instantaneamente.
— Não começa, Peter.
— Eu não disse nada! Só achei fascinante como o seu modo “estatístico-analítico” foi ativado por comando de voz. “Se você mapear os pontos de surgimento dos monstros antes de começar o combate…” — Peter imitou a voz de Tales, afinando o tom de um jeito caricato. — Mano, você parecia um tutorial vivo do jogo.
Tales cobriu o rosto com uma das mãos, soltando um suspiro exasperado, mas logo a abaixou. Ele olhou para o asfalto e, embora a vergonha ainda estivesse estampada nas orelhas vermelhas, ele não ia mentir para o cara que o conhecia desde o jardim de infância.
— Tá, beleza, ela é… — Tales parou, os olhos vagando pelas luzes dos postes enquanto tentava encontrar um termo que fizesse justiça e não soasse exagerado. — Ela é… incrivelmente… sei lá. Diferente. Genial.
— O nome disso é paixão, parceiro — Peter decretou na mesma hora, apontando o dedo para ele com um sorriso triunfante.
— Não é paixão! — Tales rebateu imediatamente, a voz subindo meio tom antes de ele se controlar e olhar para os lados, checando se não havia ninguém na rua. — É admiração técnica. É completamente diferente.
— Uhum. Admiração técnica de corte chanel. Tá bom, mestre dos magos — Peter riu, dando uma cotovelada de leve no ombro dele. O sorriso mudou de provocativo para genuinamente cúmplice. — Mas falando sério, uma garota debatendo a lógica de gerenciamento de recursos do Dimension Dash? O universo está tramando a favor do posto. Agora você tem duas motivações para não desistir nas subidas daquele bairro três.
— Cala a boca — Tales riu, empurrando-o de volta.
Eles chegaram à esquina de sempre, onde os caminhos se dividiam. O cansaço finalmente venceu o resto da energia que tinham para conversar. Com um aceno de mão meio desajeitado e a promessa silenciosa de que sobreviveriam ao dia seguinte, cada um seguiu para sua casa.
O segundo dia foi diferente do primeiro de uma forma específica: eles pararam de reagir e começaram a pensar. As rotas que na segunda tinham sido instinto viraram cálculo. Tales identificou que três endereços do setor norte podiam ser agrupados num único trajeto em L, cortando quase vinte minutos. Peter descobriu que o porteiro do edifício na rua das Acácias assinava mais rápido se você chegasse pelo acesso lateral, onde ele ficava durante o horário de almoço.
Pequenas coisas. Mas a pilha de encomendas foi entregue em três horas e dez minutos — mais de vinte minutos antes que no dia anterior.
Leon olhou o cronômetro quando eles chegaram de volta, suados mas menos destruídos que na segunda.
— Melhoraram — disse ele, com a economia de palavras de quem considera isso suficiente.
— A gente otimizou as rotas — Tales explicou.
— Eu sei. Eu vi. — Leon guardou o cronômetro. — Intervalo.
Foi no caminho de volta ao galpão, passando pelo corredor que ligava o pátio externo à área de triagem, que Peter parou abruptamente e segurou o braço de Tales.
— Olha ali.
Tales seguiu o olhar do amigo.
No canto onde as prateleiras de metal faziam uma curva, Skye estava encostada numa delas com os patins ainda calçados, conversando com Mason. Não era o Mason que eles conheciam do corredor da escola — aquele muro de pedra com uniforme e expressão de quem devia impostos ao universo. Este estava levemente inclinado para frente, os braços apoiados na prateleira acima da cabeça dela, e havia algo na postura dele que era quase relaxado. Ele disse alguma coisa em voz baixa. Skye respondeu sem olhar para cima, ajustando o cadarço de um dos patins, e então soltou uma risada pequena e seca.
Mason não riu. Mas o canto da boca dele subiu meio milímetro, o que nele provavelmente equivalia a uma gargalhada.
Peter e Tales ficaram parados no corredor por alguns segundos, sem falar.
— Huh — Peter disse, por fim.
— Huh — Tales concordou.
Havia uma familiaridade naquele canto do galpão que fez Tales se sentir subitamente muito consciente de que era apenas o seu segundo dia ali. Aquilo era o resultado de tempo — de turnos compartilhados, de rotas decoradas e de um entendimento que existia muito antes de ele e Peter sequer saberem o que significava a sigla V.I.G.I.L. O Mason pertencia àquele lugar; Tales ainda estava apenas de passagem.
Tales olhou para a própria mão por um segundo, ajeitando a alça da mochila sem motivo aparente.
— Eles devem trabalhar juntos faz tempo — ele disse, tentando soar puramente observador.
— Com certeza — Peter concordou. Então olhou para o amigo de lado. — Tá, fala.
— Não tenho nada pra falar.
— Tales.
— Eu só tô olhando.
— Você tá olhando com aquela cara que você faz quando o jogo carrega uma dimensão três níveis acima do seu personagem e você percebe que o seu equipamento é básico.
Tales desviou o olhar para o teto, como se o forro do galpão tivesse se tornado subitamente fascinante.
— São quase como irmãos, aposto — Peter continuou, com uma paciência que ele reservava para pouquíssimas ocasiões. — O cara tem cara de ser o dobro da idade dela. E além do mais, você tem uma vantagem enorme sobre o Mason.
— Qual?
— Você consegue ter uma conversa sem fazer a pessoa sentir que está prestando depoimento para a tia chefe lá.
Tales ficou em silêncio por um segundo. Então, contra a própria vontade, o canto da boca subiu.
— Que maldade, cara.
— Foi honestidade. — Peter deu um tapinha no ombro do amigo e começou a andar. — Vamos, antes que eles nos vejam parados aqui feito dois postes.
Na quarta-feira, Peter chegou à V.I.G.I.L. com o que ele chamava de "Operação Sincronia de Descanso".
Não era um plano elaborado — Peter raramente elaborava —, era mais uma daquelas ideias movidas a pura audácia e timing dramático. Ele esperou Leon virar as costas após distribuir as mochilas e marchou até Tales com uma expressão de agente secreto de filme de baixo orçamento.
— O alvo se move às dezesseis horas — sussurrou Peter, gesticulando de forma exagerada com as sobrancelhas.
Tales parou com a mão na fivela da mochila, encarando o amigo.
— Do que você está falando, Peter?
— Da Skye, meu caro Romeu. Eu perguntei para ela ontem enquanto você estava no banheiro. Ela faz intervalo às dezesseis em ponto. A estratégia é simples: a gente esmaga o recorde de entregas, corre como se não houvesse amanhã e brota no refeitório exatamente nesse horário.
Tales olhou para os lados, ligeiramente atordoado pela energia do amigo logo no começo do turno.
— Você planejou tudo isso sozinho?
— Alguém nessa dupla precisa tomar a linha de frente! A gente expande o grupo, recruta a melhor patinadora da cidade e, de quebra, você não precisa mais ficar encarando ela de longe feito um fantasma. Meu plano é perfeito.
Tales soltou um suspiro, mas o canto da boca entregou o riso. Ele ajeitou o peso nos ombros e começou a caminhar em direção à saída do galpão.
— Você realmente não está me dando a menor brecha para hesitar, né?
— Hesitação é para quem não quer ser dono de um posto de gasolina! — Peter exclamou, correndo para alcançá-lo e passando o braço pelo pescoço de Tales com um empurrão entusiasmado. — Agora bora que o relógio já saiu correndo!
Às 15h53, os dois cruzaram o portão de volta, entregaram as pranchetas assinadas e foram direto para o refeitório. O espaço cheirava a salgados fritos e café passado. Skye estava sentada na mesa do canto, com uma caixinha de suco e um caderno pequeno aberto.
— Sobrevivemos! — Peter anunciou, desabando na cadeira de plástico com o habitual barulho estridente. — O Tio do Chapéu está impossível hoje.
Skye levantou os olhos do caderno, soltando um riso espontâneo.
— Tio do Chapéu seria o Leon? Ele realmente nunca tira aquilo.
— Ele mesmo! — Peter assentiu. — E ele ainda se diverte com isso. Parecemos soldados em treinamento, não é normal!
O caderno foi fechado num movimento sutil, deslizando para baixo da prancheta dela.
— Vocês ainda não viram nada — ela disse, com uma calmaria quase intocável.
Peter arregalou os olhos.
— Como assim? Skye, eu subi a ladeira da Súplica com cinco caixas de enciclopédia hoje. Se a cobrança piorar, minhas pernas vão embora sozinhas.
— A ladeira da Súplica é um erro — ela comentou, voltando a girar o lápis entre os dedos. — Dá para evitar se você cortar por trás do Parque das Sombras. O terreno é plano.
— Eu comentei isso com o Peter olhando o mapa de cortiça ontem — Tales interveio, ajeitando a gola do uniforme. — As ruas paralelas pareciam dar a volta. Minhas panturrilhas agradeceram o desvio.
Skye parou de girar o lápis. Ela olhou para Tales, sustentando o olhar por um segundo longo demais. Havia uma expressão perfeitamente ilegível naqueles olhos azuis, o tipo de silêncio que não entregava se ela estava impressionada, curiosa ou apenas calculando os passos dele.
— Você achou o desvio só olhando aquele mapa velho? — perguntou ela, a voz num tom perfeitamente plano.
— Eu só não queria subir a ladeira de novo — Tales respondeu, sentindo as orelhas esquentarem de leve.
— Quase tudo — Peter intrometeu-se, estalando os dedos. — O cérebro desse cara funciona à base de planilhas, Skye. Se você deixar, ele calcula a trajetória parabólica de uma coxinha antes de morder.
Skye olhou para Peter, o canto da boca subindo de leve, quebrando o gelo com facilidade.
— O que não seria uma má ideia, considerando o estado dos salgados do balcão.
Ela terminou o suco com um gole rápido, guardou o caderno na mochila e levantou-se, equilibrando-se com os patins já firmes no chão de paviflex. Olhou para os dois por um instante, deixando pairar o mesmo mistério de antes, mas com um tom ligeiramente mais suave.
— Mas não se preocupem com o Leon. Vocês dão conta do tranco.
O expediente terminou com o sol já baixo, tingindo o galpão de um laranja cansado que entrava pelas frestas das janelas altas. Tales e Peter saíram pelo portão lateral com as mochilas vazias e os passos mais lentos que na chegada, mas havia uma leveza diferente naquele cansaço — menos peso, mais satisfação.
Leon os viu sair do pátio e esperou o portão fechar antes de voltar para dentro.
O corredor administrativo estava silencioso a essa hora. A maior parte dos funcionários já tinha ido embora, e o barulho das esteiras havia cessado. Leon subiu os degraus de metal com passos que não faziam barulho nenhum — um hábito antigo que ele nem notava mais — e parou diante da porta entornada do escritório de Mia.
Ele a empurrou com o pé.
— Se você quebrar minha porta mais uma vez — Mia disse, sem levantar os olhos dos relatórios digitais espalhados sobre a mesa — eu desconto do seu salário.
— Eu entro com estilo. — Leon encostou-se na parede lateral, cruzando os braços. — É diferente de quebrar.
William estava sentado na cadeira do canto, uma xícara de chá esfriando na mesa ao lado. Ele não disse nada, mas os olhos se moveram de Mia para Leon com a atenção quieta de quem acompanha um jogo que conhece bem.
Mia retirou os óculos devagar e os pousou sobre a pasta fechada. Quando olhou para Leon, havia uma clareza nos olhos dourados que dispensava preâmbulo.
— Você os observou hoje.
— Observo todo dia.
— Você sabe o que estou perguntando.
Leon deixou o silêncio durar um segundo antes de responder.
— Estão se adaptando rápido. Mais rápido do que o esperado. As rotas do segundo dia foram reorganizadas por iniciativa própria, sem instrução. O Tales mapeou o setor sul em L antes de eu sugerir qualquer coisa. — Ele fez uma pausa. — E o Peter encontrou o acesso lateral do porteiro das Acácias por observação direta, não por tentativa e erro.
Mia ficou quieta, processando.
— Isso ainda é logística — disse ela.
— É. Mas o modo como pensam não é. — Leon ajustou a aba do chapéu, um gesto que nele significava que estava sendo sério. — São bons garotos, Mia.
— Você os contratou por causa disso — ela afirmou. Não era uma pergunta.
Leon inclinou a cabeça, mantendo a fachada de inocência por exatamente um segundo.
— São bons garotos — repetiu ele.
— Você sabe que não estou falando de ética de trabalho, Leon.
Pela primeira vez, o sorriso sumiu do rosto do homem do chapéu verde. Mia levantou-se e caminhou até a janela, observando a rua lá embaixo, já mergulhada na luz amarelada dos postes.
— Eles têm treze anos.
— Skye tinha dez quando você deu o voto de confiança a ela — Leon disparou, um golpe preciso.
Mia respirou fundo, os ombros tensos.
— Não compare as situações.
— Eu não estou comparando. Estou dizendo que vejo potencial. — Ele descruzou os braços, a voz ficando subitamente mais séria. — Um Hardt. E o filho "dele". Você sabe tão bem quanto eu que se os deixarmos de fora, sem orientação, pode ser muito pior se entrarem nesse mundo por outros meios.
O silêncio voltou, agora carregado com o peso de gerações e segredos não ditos. Mia fechou os olhos por um instante.
— Tá querendo abrir uma creche igual ao Caleb? — ela disse, por fim. A voz era séria, mas havia qualquer coisa no tom que não era.
Leon abriu um sorriso lento. — Lógico! Os jovens são o futuro da sociedade, não são?
Mia não respondeu a isso. Ela raramente respondia às coisas de Leon que não mereciam resposta. Mas o peso dos ombros dela diminuiu meio grau, o que era o equivalente a uma gargalhada vindo de outra pessoa.
Do canto, William ajustou a xícara de chá que havia parado de fingir que ia beber. Ele olhou para Mia, depois para Leon, e então para a janela onde, se você se esticasse um pouco, ainda dava para ver a esquina por onde Tales e Peter tinham dobrado minutos atrás.
O canto da boca dele subiu, discreto como sempre.
— Nós também estamos nessa desde muito cedo — disse ele. — Não estamos?
Ninguém respondeu. Mas ninguém precisou.
O silêncio que se seguiu foi de outro tipo — não o silêncio de impasse, mas o de uma decisão que já estava sendo tomada antes mesmo de ser dita em voz alta. Mia voltou para a mesa devagar, os dedos tocando a borda da pasta fechada.
— Você está assumindo isso como mentor? — perguntou ela, finalmente virando-se para Leon.
Leon não hesitou.
— Estou.
Mia o encarou por alguns segundos. Não era desconfiança — era o peso de quem transfere uma responsabilidade que sabe que não pode ser devolvida depois.
— Então não falhe.
— Eu não falho — ele declarou, com uma confiança que não era arrogância, mas algo mais antigo e mais firme que isso.
Ela não respondeu. Recolocou os óculos com um movimento preciso e voltou os olhos para os relatórios, o que era, vindo de Mia, o equivalente a encerrar o assunto.
Leon se desencostou da parede e caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.
— Vou conversar com eles amanhã — disse ele, sem olhar para trás.
Quando ele saiu e o corredor ficou em silêncio, ela voltou a olhar para as telas de monitoramento que mostravam o galpão vazio, as esteiras paradas, o pátio deserto.
E, por um momento, ficou assim — olhando para o nada com uma expressão que não era frieza nem cálculo, mas o peso específico de quem carrega responsabilidade por pessoas que ainda não sabem que precisam ser protegidas.
William terminou o chá frio sem comentar nada.
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