Video Games
7 Pequenas Suspeitas
Notas iniciais
Angelina
Minha cabeça dói. Não lembro de quase nada do que aconteceu na noite passada. Acho que fiz algo realmente cretino. Estou deitada no beliche de baixo, ainda com o vestido de festa, e repetindo, minha cabeça dói. Tem um vídeo game nos pés da cama. Por que diabos tem um vídeo game nos pés da minha cama?! Aliso minha testa, arquejando baixinho, então sento na cama e muito devagar me levanto.
— Tem aspirina na mesinha de cabeceira — os pés de Amy batem com força quando ela salta do beliche atrás de mim, me assustando. — Estou um horror, mas hoje é mais um começo.
Viro-me e a olho. Ela usa um top e calça legging, seus grandes cabelos presos em um rabo-de-cavalo; segura dois pesinhos lilás. Na verdade, Amy parece pronta para correr uma maratona. Ela começa a levantá-los, fazendo repetições. Dá um sorrisinho de canto, como se eu fosse sua mais nova amiga.
— O quê? — indaga. Ela passeia pelo quarto.. — Os quilos que ganhei ontem não saíram no vômito.
Faço uma careta.
— Vômito?
— Você vomitou pra caralho também — Amy ri.
Franzo o cenho e pego a aspirina, engolindo com a ajuda de um copo d’água ao lado. Meu Deus, esse é o primeiro dia, e eu já estou indo mal. Olho para minhas malas no canto do quarto, a gaiola do Hamster, meus saltos jogados em frente a cama e imagino como minha cara deve estar parecida com a menina de O Grito.
— Espero que os próximos dias não sejam tão ruins quanto esse — resmungo e entro no banheiro.
— # —
Quando saio do banheiro, 15 minutos depois, Amy está fazendo reflexões no chão, sem apresentar o mínimo sinal de canseira. Já eu, estou morrendo. Quando ela me vê, se levanta, desfaz o rabo-de-cavalo e entra no banheiro batendo a porta atrás de si.
Faço uma maquiagem rápida, coloco mais água na gaiola de Hamster, pego minha bolsa e quando estou prestes a sair do quarto, escuto uma batida na porta. Aliso minha têmpora, a desgraçada da dor insistindo em destruir meu segundo dia na faculdade. Imagino que seja Alyssa na porta, ou Jesse, atrás de Amy. Abro a porta, fazendo uma careta de dor.
— Oi, Angelina — Jess sorri, segurando as mãos na entrada. — Posso entrar?
Claro que pode. Entre. No meu quarto, na minha cama, na minha vida.
Senhor, acho que não estou mesmo legal e algo me diz que ressaca não inclui tara pelo namorado da colega de quarto.
— Claro — digo, dando passagem. Dou um sorriso forçado, em parte porque não estou bem, em parte porque seu sorriso me perturba de maneira inexplicável. Ele entra, analisando o quarto e enquanto isso, eu o analiso. Jesse usa uma camiseta cinza, com uma jaqueta jeans por cima. Usa uma calça jeans em uns tons mais escuros que a camiseta e tênis preto. Tem uma mochila escura nas costas. Devo confessar que ele sabe se vestir tão bem quanto sabe ser lindo só de respirar.
— Amy está no banheiro — digo.
— Ah — Jess suspira. — Tudo bem. A noite foi legal ontem, né? Você e Amy catingaram o quarto de Andrew.
— Se eu me lembrasse de algo.
Ele ri.
— Claro. Um leve resumo pra clarear sua mente: Desafio. Bebidas. Bebedeira. Xbox. Nathan. Xbox seu.
Reviro os olhos.
— Não ajudou muito. Mas agora sei que esse xbox não caiu do céu. — Dou um sorriso debochado.
Jess gargalha.
— O mundo seria mais legal se eles caíssem.
— Não tanto se batessem em nossas cabeças — brinco.
Ele ri, eu mordo meu lábio inferior e ajeito a bolsa no ombro.
— Ahn… tenho que ir, Jess, primeira aula hoje — digo. — Te vejo lá?
— Ah! Ah! Ah! Eu vou com você. Só me dê um minuto — Jesse caminha pelo quarto e abre a porta do banheiro, entrando e fechando-a atrás de si.
Muito bem, agora eu tenho a linda missão de esperar ele comer a namorada..Quem aí está com inveja de mim?! Mas não é o que acontece. Menos de um minuto depois Jesse sai do banheiro, esfregando as mãos na jaqueta onde algumas gotas de água espirraram. Ele parece confuso.
— Tudo bem? — indago.
— É, só Amy que parece cada vez mais biruta — diz. — Vamos.
— BIRUTA É SUA VÓ! — escuto um berro sair de dentro do banheiro.
Que porra aconteceu? Não que seja da minha conta, mas…
Caralho! Isso foi engraçado!
— Se eu fosse namorada de Amy, ficaria para amaciar a fera, Nunca se vira as costas para uma garota com raiva — não fique, não fique, não fique…
Ele faz um barulho de “tanto faz”com a boca. Aê.
— Não esquenta, morena. Essa aí é um caso perdido — sussurra de uma forma que faz meu coração acelerar. É como se ele estivesse nem aí para a própria namorada. Jesse segura minhas costas, tocando, me apressando para ir em frente.
Abro a porta e juntos caminhamos até nossa sala.
— # —
No meio da aula de Literatura Britânica, escuto Jess resmungar baixinho.
— Ah, puta que pariu, não tenho esse livro.
Na frente da sala, o professor comenta os livros necessários para o início do bimestre e o currículo até o término dele.
Rabisco alguma coisa no rodapé da folha de meu caderno, distraída.
— Pode comprar na biblioteca universitária — respondo.
— Se Nathan não tivesse apostado todo o meu dinheiro — diz, amargo.
— Pode passar no meu dormitório mais tarde — não desvio o olhar da folha, agora mais focada no desenho que faço do logotipo de minha banda predileta. — Tenho certeza que tenho ele.
Espera, de que livros estamos falando?
Jesse não diz nada, e eu volto a prestar atenção no professor lá na frente. Alguns segundinhos depois, Jess suspira.
— Briguei com Amy.
Olho-o, fingindo casualidade, o que não é exatamente meu forte.
— Sério? O que rolou? — arqueio a a sobrancelha. Detalhes são sempre bem-vindos. Eu odeio mesmo ser curiosa, mas acontece que, pois é, eu sou uma curiosa e é isso aí, foda-se.
— Ontem quando estava bêbada, levei-a para o meu dormitório, quando estávamos nós dois quase dormindo, tenho certeza que ela disse algo sobre Nathaniel. Só que… eu estava quase dormindo… e ela bêbada quase dormindo — ele cerra o maxilar.
Não sei o que dizer. Em parte porque nem eu mesma sei o que aconteceu comigo ontem e em parte porque eu só não sei mesmo o que dizer. E em parte porque se eu abrir a boca para dizer algo, sem querer, muito inocentemente vou acabar soltando um “chuta o rabo dela, Jess!”
— Bem… — franzo o cenho. — Talvez devesse conversar com ela. Ou mandar ela ir à merda. Ou perguntar para Nathan se ele sabe o motivo de o nome dele ser citado por bêbadas comprometidas.
Jess se recosta na cadeira, rindo.
— Passo no seu dormitório para pegar o livro — responde, simplesmente. — Mas mandar ir a merda não é uma má ideia.
Jesse
Tenho grandes motivos para não confiar em Nathan. Embora eu esteja quase certo que dessa vez foi apenas uma coincidência. Amy estava com raiva porque ele ganhou o vídeo game, só isso. Não posso continuar desconfiando. Se eu continuar, vai ser quase impossível não fazer besteira. E eu não quero fazer besteira.
Estou caminhando pelo corredor do alojamento feminino, quando vejo em uma direção oposta Nathan caminhar até o quarto de Amy e Angelina. Paro atrás de uma coluna na parede, sentindo meu coração pulsar rápido, espio e o vejo bater duas vezes na porta e esperar. Enquanto espera, tira uma maçã do bolso do moletom e a morde. Segundos depois Angelina abre a porta.
— Oi, anjo — diz, tacando a maçã pra cima e a pegando no ar.
Angelina fecha a cara.
— Que é? — indaga rispidamente.
Nathan ri.
— Já se esqueceu? Sério? Te dei o xbox ontem e depois você me chamou para vir jogar com você.
Ah, então é isso. É Angelina que ele procura. Suspiro aliviado e saio detrás da coluna, caminhando devagar.
Angelina franze o cenho.
— Por que você faria isso? Por eu faria isso? — pergunta, dando ênfase ao “eu”.
Nathan morde a maçã.
— Porque, anjo, aparentemente você bêbada tende a baixar a guarda e admitir logo que gosta da minha presença — responde. Quando finalmente chego a porta, Angelina fita Nathan nos olhos como se tivesse bosta embaixo do nariz e Nathan fita ela… sendo Nathan.
— Hm, oi — digo. — Vim pegar o livro.
Angelina sorri, parecendo aliviada em ter um motivo para se livrar de meu caro irmão mais velho.
— Certo. Entre, Jess — diz e olha a peça ainda na porta do quarto. — Nathaniel, você poderia…
— Entrar também, claro — interrompe, mordendo a maçã. — Sabia que Andrew demorou duas horas para desinfetar o quarto dele? Jess, boatos de que você levou uma hora pra desinfetar o seu depois que levou Amy pra lá… falando em Amy, onde está?
Entro no quarto, arqueando a sobrancelha. Angelina deve estar arrumando seu armário. Sua mala está aberta no chão e várias portas do armário estão também. Ei, aquela calcinha azul ali é bonitinha. Angelina percebe meu olhar, faz uma careta de deboche e fecha a mala com o pé, disfarçando.
— Uma hora e meia, na verdade — digo, gargalhando. Imediatamente me arrependo quando a megera barra minha namorada sai do banheiro.
— Que porra está acontecendo aqui? Nathan… o que você… Jesse! Amor… tudo bem? — ela se aproxima com as mãos prontas para segurar meu rosto e me beijar. E assim faz como se nada tivesse acontecido.
— Estou bem — digo. — Vim pegar um livro com Angelina.
— Aham — diz, com os olhos correndo de mim para Nathan. — E o que ele faz aqui?
Nathan abre aquele sorriso, aquele de quando sabe que não é querido mas não se importa.
— Vim vomitar no seu tapete para vingar por meu irmãozinho aqui — diz, passando a língua nos lábios.
— Cresce, Nathan — Amy revira os olhos.
Nathan dá de ombros e atira o miolo da maçã no cesto de lixo.
— Só vim jogar vídeo game, se Angelina lembrasse que me chamou — de repente parece mau-humorado.
— Eu não te chamei, caramba. Eu bebi um pouquinho, não cheguei a bater com a cabeça — fala Angelina e alisa as têmporas. — Pelo menos eu acho que não cheguei a esse ponto.
Nathan não parece mais tão animado. Cruza os braços e fita o canto do quarto com a chateação óbvia. Então, esse é meu irmão e ele odeia ser rejeitado. Odeia realmente. Me lembro de quando éramos menores, quem decidia a hora que íamos brincar era ele. Se eu não brincasse com ele na hora que quisesse, significava que ele armaria uma para mim, me fazendo ficar de castigo, pelos próximos… tipo, 6 séculos.
— Porra, anjo, às vezes você é uma vaca. Tô até perdendo a vontade de jogar. Custa acreditar em mim uma única vez?
Olho Angelina, olhando Nathan sem piscar. Ela morde o lábio inferior com força.
— Tudo bem, contanto que você nunca mais me chame de vaca, otário — cede.
Nathan ri, voltando ao seu estado de espírito habitual.
— Combinado.
— Certo. E o livro? — pergunto, impaciente.
Amy levanta a sobrancelha.
— Por que não compra na biblioteca universitária?
— Ótima pergunta — me viro pra fitar o ser. — Responda pra ela, Nathan.
Nathan se joga no beliche de baixo, pegando o xbox.
— Porque, doce Amyzinha, seu namorado só limpa a bunda na grana — ele sorri.
Amy gargalha e engasga.
— Sério isso?
Bufo.
— Não! Ele apostou tudo em babaquices.
Amy assente com a cabeça.
— Entendi — ela acaricia meu queixo. — Tem certeza que não gastou nada no toalete?
Antes que eu responda, Angelina já abriu o armário e tirou o livro.
— Toma aqui, Jess, leva isso logo — ela joga ele pra mim, que o agarro ainda no ar. — Espero que não se limpe também com folhas de livros.
— Engraçadinha — faço uma careta e troco o peso do corpo de um pé para outro. Então essa é a hora de dizer tchau, certo? — Vou indo lá.
Por que estranhamente não estou afim de chamar Amy para vir comigo?
— Mas já? — Amy revira os olhos, alisando meu queixo. — Ah, quer saber? Faz o que quiser, tô indo dormir.
Solto o ar com força. E ali está a Amy daquela manhã. Chata e ignorante.
— Preciso estudar — falo. — Desculpe, amor.
— Tá, se manda — diz, subindo as escadas da beliche.
Angelina troca um olhar solidário comigo, e então dá de ombros.
— Liga a TV, Nathan, vou providenciar batatas fritas — diz ela, me fitando. — Dizem que tem uma lanchonete aqui perto.
Espera. Ela tá me chamando indiretamente pra ir com ela? Entendi direito? Desculpem, é que sou lerdo. Vão acreditar também se eu dizer que também é culpada de Nathan? Ele me deu meu primeiro baseado eu não tinha nem 11 anos. Pois é.
Nathan assente com a cabeça, distraído com a televisão.
— Vai lá, anjo, vai lá. Vê se consegue trazer umas cervejas — diz. — Não demora, paixão.
Angelina sai do quarto, me encarando até estar de costas, atrás de mim. Eu a sigo e fecho a porta devagar.
— Poderia vir comigo, Jess? — pergunta ela.
Sorrio, já sabendo que direi sim.
— Eu disse que ia estudar pra Amy.
— Pode fazer isso depois de ir comigo lá — diz. — É que, sabe, você conhece aqui melhor que eu.
Balanço a cabeça, afirmativamente. Não tenho nada a perder. Aliás, só tenho a ganhar. Dizem que lá tem o melhor sanduíche da região. Além de que, preciso tirar Amy da cabeça, por hora.
— Não sei por quê, não consigo dizer não para você, morena.
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