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14 Andrômeda
Notas iniciais
Nathaniel
Uma chuva fina cai lá fora, batendo no teto do alojamento, escorrendo pela laje e produzindo sons agradáveis e calmantes. Depois de duas horas estudando e me agarrando com Pet, eu só preciso dormir um pouco, e até que isso vem se mostrando uma tarefa fácil com o suave tamborilar da chuva soando como aquelas musiquinhas que mamãe cantava para mim quando eu tinha 5 anos. Talvez um pouco melhor, considerando que com o cantarolar eu apenas fingia que havia dormido para roubar cookies no armário.
— Aquela garota, a Angelina… É mais uma das suas? — pergunta Pet, deitado na cama ao lado, fitando o teto.
Fecho meus olhos e mordo o lábio inferior.
— Era pra ser. Mas não, não é — abro meus olhos, fixando-os na luz incandescente do quarto. — Não sei o que ela é.
— Nunca quis, sei lá, parar de ser um vadio e ser alguém legal de uma pessoa só? — ele se deita de bruços, virando a cabeça em minha direção.
Não respondo imediatamente. Só continuo olhando a lâmpada com sua luz alaranjada de 100 watts, ouvindo a chuva escoar enquanto bato com o dedo indicador e médio no meu abdome. Alguns instantes se passaram até eu admitir:
— Uma vez.
— E…
— Ah, ela era maravilhosa — abro um sorriso e estendo a mão, tapando a lâmpada e mantenho isso por alguns segundos, sem causa ou razão. Volto a repousar a mão em meu abdome. — Não era como essas garotas. Era tímida, sem perder o charme. Gostava de colecionar sorrisos, ouvir John Mayer, ler sobre Hitler, tocar gaita e ouvir a chuva cruzando o céu até a terra. Como agora.
Com um pouco de receio, me deito de bruços também, me virando de modo que fico a olhar Peter.
— Encantador — Pet diz, sorrindo. Delicadamente, ele tira os fios loiros que caem na testa e nos olhos. — O que houve? Faz muito tempo?
— Bom… — pestanejo, tentando pela milésima vez descobrir realmente o que houve, e como sempre chegando a lugar nenhum, além do óbvio — acho que eu não era o tipo dela, o que é surpreendentemente, vamos combinar — passo a língua nos lábios, convencido —, porque no fim ela ficou com meu caro irmão.
— Jesse?
Levanto as sobrancelhas.
— E eu tenho outro irmão? — faço uma careta. — Claro que é o Jesse.
Peter não diz nada, só parece estar digerindo ou processando minhas palavras.
— Isso explica muita coisa… — sussurra e ri. — Cara, você é mesmo muito vingativo. Isso faz quanto tempo? Já não deu o troco o suficiente, não?
— Hm… eu tinha uns 16. Puta que pariu, velho! Fazem 5 anos — sorrio. — Tá, tudo bem, talvez já tenha sido o suficiente.
— Talvez? — ergue a sobrancelha.
Penso um pouco.
— É, talvez — teimo.
— Durou quanto tempo?
— O quê? Minha crise de querer ser de uma garota só? No caso, dela?
— Também, e também quanto tempo durou Jesse e ela.
— Hm… 1 ano. Jess e ela? Uma semana — engulo em seco, odiando o amargo em minha boca, o amargo em minhas palavras, em mim.
Pet bufa baixinho, um tanto incrédulo.
— Injusto, injusto pra caralho — sussurra.
Volto a deitar-me de costa, voltando a perder o olhar na lâmpada. Uma questão me vem de repente, puxando outras.
Por que eu fico encarando essa porcaria artificial quando eu posso muito bem subir em um lugar bem alto e olhar o pôr-do-sol? Por que as pessoas se prendem a coisas tão bobas e esquecem o que realmente é belo? Enquanto as pessoas vem e se vão, ora deixando rastros da visita, há outras coisas melhores lá fora tristemente esperando para serem admiradas. O pôr-do-sol sempre vem e volta, é intenso como o infinito; o mar é extenso, do tamanho do mundo, suas ondas são quebradiças, sempre vem e vão, rápidas e inconstantes, mas que inevitavelmente não conseguem abandonar as vias principais do retorno; a noite e as estrelas, escura e plácida; a neve pálida e fria. Contudo, em vez do que deveria ter realmente o valor merecido, todos preferem algo doloroso, algo que começa belo e termina triste e feio, o amor.
Porque no tão término temido, o amor é o mais inóspito.
— Quer saber o nome dela? — pergunto.
— Se estiver tudo bem para você me contar.
Reviro os olhos.
— Se estou perguntando, dã — desculpem, a grosseria não consegue me abandonar. Suspiro. — Andrômeda.
No geral, todos estão buscando algo que sabem que não vai durar, ou funcionar, quem sabe ambos. Cometi esse erro uma vez, e espero não quebrar a cara de novo com uma certa garota que peguei certo apreço por chamar de Anjo.
— # —
— Nathaniel, sai
— E como é que se diz?
— Nathaniel, sai, por favor, ou vai se foder.
Rio olhando o chão.
— Tá de TPM, é?
— Tô, tá com inveja?
Levanto as mãos, em sinal de rendimento.
— Não, longe de mim — dou uma risadinha. Angelina me olha com uma sobrancelha erguida e percebo que ela segura a alça da bolsa com mais força. Me obrigo a encara-la com seriedade. — Aconteceu alguma coisa?
Ela desvia o olhar e segundos depois volta me mirar com rispidez.
— Não. — Aham, acredito, inclusive essa desviada aí dos olhos provaram tudo.
Estamos num gigante corredor da universidade, logo na hora do rush. É oito horas da manhã, e em nosso entorno todos se dirigem para suas salas de aula. Falando nisso, eu deveria estar a caminho da minha, mas, qual é, eu não ligo tanto quando estou irritando a lindinha aí.
— Hm… que bom, então suponho que você irá aceitar meu convite de sair com a picape hoje — seus olhos estão agora olhando qualquer lugar, menos a mim. Que droga, gosto que olhem nos meus olhos quando falo. Agarro o braço dela, antes que perco a chance, e a pressiono na parede.
— Nathaniel! — exclama com exasperação. Angelina tenta inutilmente se desvencilhar, mas eu não malho 2 horas por dia, faço musculação, natação e sigo uma dieta rígida para vacilar tão ridiculamente assim. — Porra, me solta, caralho!
Fechada na parede, a mantenho presa segurando em seu braço e na parede, bem próxima ao seu pescoço.
— Quando você aceitar a sair comigo hoje, penso no caso de afastar nossos corpos um pouquinho — abro um sorriso provocativo, e meus lábios se entortam em um sorriso de um canto só quando seu rosto fica vermelho. — Meu Deus, seu rosto está meio… tomate ou é impressão minha, anjo?
E embora estou começando a achar que não é nenhum pouco possível e que estou imaginando, vejo que seu semblante consegue ficar mais vermelho ainda.
— Culpa da TPM — murmura, num fio de voz. — Agora me solta ou vou morder seu saco!
Uno as sobrancelhas, surpreso.
— Vai o quê?
— Morder. Seu. Saco — ameaça psicótica e pausadamente.
Aproximo mais meu rosto do dela, sentindo seu calor e o cheiro gostoso de shampoo de chocolate em seus cabelos, chego bem junto de sua orelha, delicio-me ouvindo sua pulsação acelerada e passo a língua nos lábios antes de sussurrar:
— Du-vi-do — sorrio. Aperto mais minhas mãos em seu braço, consequentemente forçando-a mais contra a parede.
Sei exatamente que agora ela está putona, se debatendo e tentando se soltar.
— Ah é?! Você é mesmo muito otário… — e antes que ela continue praticamente berrando ali nos corredores, antes que ela acabe mesmo mordendo meu saco e antes que eu perca a aula, abro a boca, estendo a língua e lambo o rosto dela, toda sua bochecha. Isso mesmo, lambo.
Hihi, não aguentei.
Afrouxo o aperto e dou uns passinhos para trás, um sorriso estendido de orelha a orelha.
— Arghh! O QUE VOCÊ FEZ, SEU NOJENTO?! Argh! Vai a merda, peste! — ela esfrega a manga da blusa compulsivamente na face, com uma careta de nojo. Quando desiste, se aproxima e soca meu ombro, e preciso adiantar que eu mal senti? — Merda, você lambou meu rosto! Que nojo!
Começo a rir muito, sem parar, tanto que perco o fôlego. Ao nosso redor, os estudantes passam nos olhando, provavelmente pensando “o que esses retardados tem?”, mas realmente não me importo.
— Isso mesmo, lambi seu rosto — passo a língua nos lábios e em seguida mordo. — Tá vendo como sou legal? Além de levar você para sair hoje a noite, ainda lambo seu rosto.
Ela revira os olhos e cruza os braços.
— Não vou…
— Shh — tento piscar um olho e não consigo. Droga. Broxante. — Passo no seu dormitório às oito.
E sem esperar o fora que viria, mando um sorriso para uma Angelina incrédula, e saio quicando em direção a minha sala de aula.
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