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15 Dente-de-leão
Notas iniciais
Jesse
Angelina sentou-se do outro lado da sala em todas as aulas. Nossos olhos se cruzaram uma, duas, três, quatro, cinco, seis e sete vezes durante a manhã toda. Nenhuma vez ela me procurou.
Quando a última aula se dá por encerrada, saio a toda da sala e paro em um canto que sei que não vou ser visto. Angelina sai logo em seguida, atrás de umas garotas que não me recordo o nome. Ela olha para os lados, um tanto receosa, e segue em direção ao dormitório, ou seja, ela irá passar ao meu lado e quando finalmente passa, dou um sorriso e puxo seu braço.
— Ahh! Jess! — exclama, bufando. Ela bate as mãos em meu peito, me empurrando levemente com uma revirada de olhos, transtornada. — Caramba, você me assustou!
Dou uma risadinha.
— Achou que alguém ia te sequestrar aqui? Dentro da faculdade?!
— Bem… não… Eu só não estava preparada psicologicamente para ser puxada pelo braço! — explica.
— Oh, sinto muito, senhora da preparação — dramatizo. — Então, vai mesmo me ignorar para sempre?
Angelina não responde imediatamente, engole em seco, cruza os braços e só parece pensar, numa boa desculpa para não me ver mais. Mas aí ela suspira e solta os braços.
— Desculpe, eu só não sabia como reagir — morde o lábio inferior. — É que você sabe, sua namorada está grávida, que por acaso é a minha colega de quarto. E eu não sei como reagir ao lembrar que… enfim… você sabe. Não pense que eu faço isso sempre, tá bom?
Prende a franja comprida atrás da orelha com desajeitamento, enquanto olha para os cantos, checando se não está sendo ouvida.
— Eu não pensei — murmuro. — É que… eu estava tão… cheio de tudo…
— Eu sei, estava com raiva e eu com medo — interrompe. — Te usei pra esquecer seu irmão, porque eu sabia que não conseguia tira-lo da cabeça, que não consigo tira-lo… e é isso.
Suspiro.
— É um ponto final?
— Não sei — responde.
— Pô, morena, foi mesmo bom cada minuto que passamos.Talvez a melhor da minha vida.
Ela pestaneja, aperta os lábios e me pegando totalmente desprevenido, me abraça forte. Ficamos assim durante bons segundos, ouvindo o pulsar do coração um do outro.
— É claro que não acabou — diz baixinho em meu ouvido.
Nathaniel
Tiro uma maçã do bolso, mordo, bato na porta e espero enquanto mastigo. Enfio a mão esquerda em meu casaco, só para checar se as chaves da picape estão ali. Hoje a noite vai ser no mínimo interessante, mas se a droga da porta for aberta, tipo, agora, ela poderia sei lá, começar já! Bato de novo, mais insistentemente e com força. Sério mesmo que vou levar um bolo? Sério mesmo que Angelina vai me dar um bolo?! Sacanagem, sério, puta sacanagem.
— O quê? — a porta é aberta de repente. Angelina me encara com pequenos olhos sonolentos.
Espera, que palhaçada é essa? A olho dos pés a cabeça. Meu Deus, nem em mil anos alguém conseguiria ficar em estado tão deplorável como esse. Ela usa pantufas com um flor brega bordada, calça de flanela de algodão azul e um moletom gigante azul água com uma estrela ridícula de lantejoula. Tenho cara mesmo de idiota? Certo, não responda.
— Tá de sacanagem, né? — digo, tendo um tique nervoso nos olhos. Pensa bem no que vai responder, moça!
— Hm… posso voltar a dormir? — murmura, deixando os ombros cair.
Invado o quarto, bufando.
— É claro que não! Tínhamos um compromisso, anjo! E você está dormindo?! Palhaçada isso.
Angelina entra, em passos lentos e cansados, sem nem se dignar a me olhar.
— Está me ouvindo?! — exclamo.
— Um blá-blá-blá… estou — se joga na cama e puxa a coberta até o pescoço. — Pode contar carneirinhos pra mim?
Haha, que engraçado. Passo a mão em meu topete, frustado. Não posso puxa-la da cama e carrega-la até a picape, seria escandaloso demais, além de que, a roupa maravilhosa (sintam a ironia) que ela está usando, é perfeita para o que o que ela está fazendo agora — dormir — e não para a vida social que planejei para nós. Então tenho uma ideia.
Abro o guarda-roupa de Angelina, olhando atentamente. Ela tem belos vestidos, alguns revoltadinhos demais, do tipo adolescente rebelde com transtornos de temperamento, mas não acho que esse seja o caso dela. Pego um vermelho e branco e o levanto na altura dos olhos, e depois pego um simples, florido, com zíper de fechar nas costas, larguinho nos lugares certos. Não é o tipo de vestido que se usaria em uma noite como essa, mas é que eu gostei dele. Não sei, vai combinar com ela, mas não com o momento em si… mas quem é que liga? Jogo o vestido por cima do ombro e pego umas sandálias na repartição de baixo do guarda-roupa. Vai ficar perfeito.
— Anjo, acorda! Acorda! — me aproximo e a chacoalho. Ela grunhi baixinho e se vira para o outro lado. O.k, essa é a hora que eu apelo. — Vou peidar na sua cara se você não acordar, tipo, agora!
Nada. Meu Deus, a coisa é séria de verdade! Viro-me de costa empino a bunda. Aproximo a mão da boca em concha e faço o barulho mais próximo de peido que eu consigo.
No instante seguinte ela já saltou para o chão com tudo, gritando, se arrastando para bem longe de mim.
— PORRA! Que nojo, Nathaniel! Arghhhhh! Tonto! — xinga. Seu cabelo está um verdadeiro ninho de passarinhos, olheiras se formam embaixo dos olhos e ela tem a respiração rápida de raiva. Seus olhos estão explosivos e fuziladores.
Jogo o vestido nela e faço um muxoxo.
— Bazinga! — sorrio. — Acorda, garota, eu não peido, solto gases aromáticas Rosa & Margarida. Agora vai logo se trocar.
Angelina se levanta, mexendo nos compridos fios castanho escuro.
— Não dá, Amy desceu pelo vazo e esqueceu a porta trancada, só pode — esclarece, se sentando na cama e abraçando os joelhos.
Caminho até o banheiro e bufo.
— Ô, Amelia, se manda daí, cacete! Tá tendo o filho já, é? — rio baixinho.— E aí? Já sabe se é menino ou menina?
Em resposta, escuto apenas um “vai se ferrar” baixinho, o que é bem estranho, tenho que admitir, afinal, ela sempre foi mais do “vai se foder, babacão”.
— Tá tudo bem aí, docinho? — pergunto, franzindo o cenho.
A resposta não vem imediatamente. Fico segurando a maçaneta da porta, preocupado, e até mesmo tento abri-la devagarinho, porém ela está trancada, muito bem trancada.
— Está — escuto ela falar algum tempinho depois.
Me obrigo a não me importar. Qual é. Ela vai ficar bem. É apenas mais uma crise de mau-humor, efeitos da gravidez. Me viro e abro um sorriso.
— Bem, você vai ter que se trocar comigo aqui mesmo.
— Nem pensar.
— Você não é a primeira moça que vejo pelada, não, relaxa.
— Não é essa a questão.
— Vamos, intimidade, lembra?
— Que intimidade o que, se liga.
Levanto as mãos, em sinal de rendimento.
— O.k. eu fico de costas. Pronto, problema resolvido.
Ela parece pensar.
— Vai me deixar em paz se eu me trocar e sair com você?
Estico meus lábios em um sorriso de um canto só. Depois de hoje, a palavra “paz” dela só vai se incluir se eu estiver na mesma frase.
— Certo — me viro, encarando a porta. Escuto as roupas de Angelina caindo no chão, e droga, como quero me virar e prensa-la na parede. Respiro fundo e me controlo. Um minuto se passa, até que escuto seus passos.
— Fecha pra mim? — murmura ela, em um fio de voz. Angelina está ali, agora de costas pra mim, segurando o topo do vestido e os cabelos por cima dos ombros. Desço meus olhos por seu dorso, sua pele morena e sedosa, passando por sua tatuagem, por uma pequena pint… espera, tatuagem? Pego o zíper e puxo-o. — O que significa?
— O quê? — me olha por cima do ombro.
— A tatuagem — termino de fechar o zíper e me demoro sentindo nossos calor se confundindo.
— Bem, é um dente-de-leão… liberdade, esperança, amor… sabe? Quando você acha um, você assopra e pede quem você deseja, amorosamente falando.
Então penso em algo. Eu quero Angelina. Em todos os sentidos, se é que você me entende. Abaixo o zíper do vestido dela e assopro a tatuagem, depois fecho o zíper novamente e sorrio. Ela retribui.
— # —
Entramos no pub sem enrolação.
É um ambiente com paredes decoradas em madeira escura, lustres vermelhos, relógios antigos, quadros peculiares, dardos, duas mesas de sinuca, maquinas de chope e uma safra completa e gigante de todo o tipo de bebida atrás do balcão onde mulheres bonitas e sensuais atendem. Punk Rock soa através de uma jukebox moderna encostada na coluna central do pub.
— Aqui? Sério? Você colocou esse vestido de dia de piquenique à tarde para me trazer em um pub à noite? — resmunga Angelina, caminhando até uma das mesas.
— Quem me dera ter colocado esse vestido em você, Anjo — sorrio. — Eu apenas escolhi, tá lembrada?
— Estou ridícula, Nathaniel — ela olha amargamente uma loura de cabelos compridos passar por ela, com um vestido preto e glamouroso.
— Não está. Está diferente — falo, o que é bem verdade. É como se ela fosse o sol no meio da noite, onde tudo o que há é a lua. — É sério, essas meninas aí estão todas iguais, qual é a graça em ser igual?
Viro a garrafa no meu pequeno copo de vidro e jogo na boca de uma vez, sentindo o gosto amargo da bebida descer e raspar minha garganta.
— Bem, você não é muito diferente dos outros garotos que eu conheço — ela morde o lábio inferior, soltando um sorriso maldoso.
Encaro isso como uma provocação. Se ela quer brincar, vai ter que aguentar.
— Te convido a me conhecer um pouquinho melhor e sentir a diferença.
Angelina desvia o olhar, de repente sem graça. Porra, a brincadeira já acabou?
Angelina
O convite me encara fixamente.
Como aceitar alguém que você tem quase certeza que te dará um fim cruel?
— Qual o problema, anjo? — pergunta Nathaniel, desencostando da mesa para me olhar mais de perto.
Não posso dizer que o problema é ele, posso? Estar ali… tudo… eu tentei evitar, mesmo, de todo o jeito, mas não está sendo fácil continuar evitando e me afastando se nem por um segundo Nathan colabora.
— Você — respondo e levanto os olhos para ele poder ver o quanto estou falando sério. Pego a garrafa, viro o conteúdo em meu copo, e dou um gole. Preciso de alguma maneira encontrar coragem para falar logo que quero ele bem longe de mim, por uma questão de segurança, e só vou conseguir isso através do álcool.
— O.k, o que eu fiz? — diz, erguendo uma sobrancelha.
Viro mais um gole.
— Você é um problemão, Humphrey! — me recosto desajeitadamente na cadeira. — Quero dizer, você é tudo isso que dizem: charmoso, gostoso, mas também um problema. Eu só estou com medo, porque só falta ter um papel colado na sua testa em que diz “perigo, maltrato corações”. E eu não quero ter o meu maltratado, tá? Ele já foi maltratado demais. — Prendo meus olhos nas orbes cinzentas azuladas do cara que me causa tantos calafrios. Agora preciso de coragem para dizer o que vem a seguir. — Então… então… se possível, e mesmo que impossível… me deixe em paz!
Nathaniel não diz nada durante uns 30 segundos. Ele só sorri, se recosta na cadeira de uma maneira desmanzelada, pega a garrafa e deixa o líquido cair no copo. Em vez de virar logo a bebida boca a dentro, ele só a beberica, e depois a repousa de novo na mesa. Sorri para mim e estrala os dedos antes de falar com uma enorme tranquilidade.
— Sabe quantas garotas já teve esse medo antes e o falou para mim? Só duas. Uma é você — se ajeita na cadeira. — A outra me trocou por Jess, que não estava mais com ele em uma semana, e nem comigo. Então, Anjo, temo que nós dois estamos numa situação de risco semelhante. A questão é: vamos ficar com vontade enquanto podemos matá-la agora juntos sem pensar no que pode acontecer amanhã?
— # —
Atiro o dardo no alvo. Erro, passando muito longe do centro. Minha cabeça gira um pouco, minha insanidade é louvável, embora eu não esteja tão bêbada assim. Nathaniel ri no meu ombro, e eu reviro os olhos. Quem ele pensa que é pra rir assim de mim? Então ele segura minha mão, guiando-a, coloca mais um dardo em meus dedos e calcula mentalmente a distância correta para atingir o alvo certeiramente.
— Relaxa a mão — sussurra em meu ouvido, com os olhos concentrados tanto quanto no ponto preto do alvo, tanto quanto em minha mão. Tento fazer da melhor maneira que posso o que ele pede. — Ótimo.
Nathaniel empurra minha mão, o dardo se solta e fito fascinada o próprio a poucos centímetros do centro.
— Uau! — exclamo e gargalhamos. — Você é mesmo bom! Uau!
Ele ri.
— É, pois é, eu sou — contrai a feições em um sorriso convencido, exibindo os dentes perfeitamente esculpidos.
Giro os olhos, mas sem estar desdenhosa realmente.
— Uma partida de sinuca agora? — convida, Nathan se encosta na parede sensualmente, quase que ensaiado. — É claro que te ensino, não se preocupe.
Sorrio.
— Oh, é claro — concordo gentilmente.
Nathan segura em minha cintura, me guiando até uma das mesas. Pega um taco de um suporte na parede.
— As regras são simples: 8 bolas, ganha quem encaçapar mais, as coloridas.
— Certo — assinto, esticando um sorriso de um lado só. Nathan pega o outro taco, passa giz e me entrega. Se posiciona atrás de mim, nossos corpos tão próximos, o calor se misturando, se confundindo e se roçando. O.k, chega de descrições bonitinhas: ele está me encoxando.
Mais uma vez servindo como guia, segura o taco junto comigo, nossos dedos se tocam, ele escolhe uma bola para mirar. Antes que Nathan continue fazendo papel de ridículo, ou no caso, para que eu deixe óbvio que ele está fazendo papel de ridículo, não deixo ele guiar porra de taco nenhum. Em um segundo tomo as rédeas, miro uma bola e bingo! Um acerto magnífico. Os estalos das bolas soam, se espalham pela mesa e a bola de cor verde é encaçapada, sumindo de vista.
Me viro, encostando minhas costas na mesa, sem deixar de sorrir provocativa e conquistadoramente. Nathan continua na mesma posição, inclinado, as mãos tocando relaxadamente o taco que perdeu o domínio, uma expressão atônita, incrédula, talvez as duas, desenhadas na cara. Ele leva 4 ou 5 segundos para se recuperar.
— 5 pontos — digo, abrindo ainda mais o sorriso.
Ele fica reto, perigosamente perto do meu rosto.
— Tá, onde aprendeu a jogar?
Ergo a sobrancelha.
— Surpreso? Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, Humphrey — digo, meneando a cabeça. — Meu pai é viciado. Você aprende esse tipo de coisa antes dos 10 com um viciado.
Nathaniel coça o ombro, uma mania que percebo na hora que ele tende a libertar quando está assim, sem jeito.
— Bem… espero descobrir cada uma dessas coisas — diz, afinal.
Sorrio e ergo o taco na altura do busto.
— Que tal… Uma aposta? — ergo a sobrancelha.
Nathan dá dois passinhos para trás, pegando seu taco.
— Se eu vencer, vou ter direito a fazer com você o que eu quero e que eu sei que você também quer — propõe.
— E se eu vencer, vou fazer com você o que eu quero e que eu sei que com certeza você quer mais ainda — completo.
Nathan rodopia o taco na mão, passa giz e vai para o outro lado da mesa.
— Por que eu tenho a impressão que tanto faz se eu vencer, tanto faz se você vencer, vamos terminar num único destino?
Me posiciono, pronta para mais uma tacada.
— E que destino seria esse? — sinto meu rosto esquentar levemente, imaginando a resposta.
— A intimidade, eu, você, no meu dormitório.
Arrepio dos pés a cabeça, sentindo um calor brotar em meu pescoço, subindo por todo o meu resto, mas ainda assim, não discordo. E não erro a tacada.
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