Vidas Cruzadas
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Tris
Hoje de madrugada recebemos a noticia de que a Shai tinha nascido, o Caleb me ligou desesperado para me contar e agora estamos arrumando as nossas coisas para ir visitá-los, vai ser bom, pois assim eles poderão ver o Theo.
Quando estou arrumando a bolsa do Theo a campainha toca.
— Quem será tão cedo? — Pergunto mais para mim mesma do que para o Tobias, que está me ajudando.
— Droga! Agente tinha convidado a minha mãe para passar o dia conosco, lembra? — Desde a volta da Evelyn temos nos esforçado para criar vínculos de família e ela tem passado bastante tempo conosco, principalmente com o Tobias e eu estou gostando, pois, ele já era feliz antes de ela voltar, mas agora ele parece mais completo.
— Vai lá abrir a porta que eu termino aqui. — Continuei arrumando as coisas do Theo e alguns minutos depois o Tobias surgiu na porta com Evelyn.
— Oi Tris. — Nos abraçamos e ela vai em direção ao Theo que está no berço. — E você coisinha linda da vovó? Vai viajar e deixar a vovó sozinha também? — Ela fala com a voz um pouco melancólica e eu me lembro que ela não tem mais ninguém a não ser a gente.
— Você não quer ir com a gente Evelyn? — Vejo Tobias me olhar assustado e Evelyn dá um leve sorriso.
— Acho melhor não, é uma reunião de família, eu só atrapalharia. — Ela continua olhando para o Theo e fazendo carinho nele.
— Por isso mesmo, você também é da família, vai ser bom, o que acha? — Ela esboça um sorriso maior ainda.
— Se você está insistindo, eu acho que vou aceitar, não conseguiria ficar muito tempo longe do Theo de qualquer forma. — Tobias continua me olhando com cara de espanto e eu apenas sorrio para ele.
— Certo, o nosso vôo sai as duas da tarde, nós podemos passar lá para te pegar e vamos todos para o aeroporto.
— Certo, então eu vou para casa arrumar a minha mala. — Ela parece muito animada, me entrega o Theo e abraça o Tobias, que a acompanha até a saída. Coloco o Theo novamente no berço e volto a arrumar a mala dele, que é a que mais precisa de atenção, pois é a mais importante, não posso esquecer de nada.
— Tris, você ficou louca? — Ouço o Tobias dizer entrando no quarto.
— Por quê? — Pergunto sem entender, pensei que ele ficaria feliz, a convidei justamente por causa dele, pensei que ele gostaria de vê-la se entrosando com a família.
— Seus pais odeiam a minha mãe, quando nos separamos eu contei tudo para eles, inclusive as coisas que a minha mãe fez, eles não vão ficar nada felizes quando a virem. — Droga, eu não sabia disso, mas agora eu não posso simplesmente desconvidar ela.
— Você não me contou isso. — Falo com ele um pouco irritada.
— Eu te disse que fui honesto com os seus pais. — Ele fala de forma séria.
— Eu lembro, mas você não me contou os detalhes e minha mãe nunca falou sobre isso. Mas de qualquer forma eu não posso desconvidar ela, seria maldade, ela ficou tão animada, você viu?
— Vi sim, ela mudou muito né? Nem parece mais a Evelyn com a qual eu cresci? — Ele esboça um sorriso terno.
— Todos nós mudamos, meu amor, todos nós! — Me aproximo dele e o abraço. — Pode deixar que eu falo com a minha mãe, acho que ela não vai se opor.
— Você não existe, sabia? Todo esse esforço por alguém que errou tanto com você. — Ele diz acariciando os meus cabelos. Eu te amo tanto. — Fico mais um tempo abraçada com ele e lembro que tenho que falar com a minha mãe.
— Agora deixa eu ir ligar para a dona Natalie. — Me solto dele e vou pegar o telefone.
— A mala do Theo já está pronta? Posso fechar? — Ele pergunta gritando do corredor.
— Não, eu ainda vou conferir se coloquei tudo. — Pego o telefone e vou para o quarto falar com a minha mãe.
— Oi mãe, como estão todos aí?
— Estão super animados, filha, você precisa ver a Shai, é tão linda, parece com você quando era pequena. — Minha mãe sempre inventando.
— Ela deve parecer com o Caleb, mãe. — Digo dando risada.
— Já está vindo, filha?
— Não, mãe, ainda estamos arrumando as malas, estou pensando em ficar um tempinho com vocês.
— Isso seria maravilhoso filha, vou adorar passar um tempo com a família toda reunida. — Ela fala bastante animada, já faz tempo que não passamos tempo juntos.
— Sobre isso, mãe, preciso te pedir um favor.
— Claro, filha, o que é?
— Recentemente a Evelyn reapareceu aqui em casa nos pedindo uma nova chance e nós demos e eu a chamei para passar esses dias com a gente.
— Filha, nem pensar, depois de tudo o que aquela mulher fez, depois de como ela criou o Tobias, não quero ela perto dos meus netos. — Minha mãe parece muito irritada.
— Mas mãe, ela se arrependeu, ela está mudada e se eu me lembro bem, a senhora me convenceu a perdoar o Tobias usando o discurso de que todos merecem uma segunda chance, lembra? — Ela fica calada por um tempo e apenas escuto a sua respiração.
— Sim, filha, mas é diferente, eu tinha certeza de que o Tobias te amava, eu não sei quais as intenções dessa mulher e uma pessoa que trata o filho como ela tratou, não sei se merece uma segunda chance.
— Eu te entendo, mas eu estou fazendo isso pelo Tobias, a senhora precisa ver como ele está, ele não admitia, mas sentia muita falta dela, agora ele está mais feliz do que nunca, por favor, mãe, faça isso por mim. — Fiz voz de dengo.
— Tá bom, filha, vou preparar mais um dos quartos de hospedes para ela e conversar com os outros sobre isso, mas não espere que eu vire amiga dela, ok? — Ela fala contrariada, mas eu conheço a minha mãe e não a há nada que ela não fizesse por mim.
— Só a senhora não tratá-la mal já me deixa contente. Mãe, eu vou desligar, porque ainda tenho que terminar de arrumar as malas.
— Tá bem, filha, te esperamos aqui. Beijo!
— Beijo mãe. — Volto par o quarto e termino de arrumar nossas malas e depois de arrumar o Theo e nos arrumarmos, chamamos um taxi e passamos na casa da Evelyn para pega-la.
Chegando em Seattle passamos primeiro na casa dos meus pais para deixar as malas e vamos direto para o hospital.
No hospital logo vamos para o quarto da Susan, lá está cheio de balões e todos das duas famílias estão presentes, eu e o Tobias entramos, preferimos não levar a Evelyn, pois, apesar de ter conversado com a minha mãe, ainda não sabia como seria a reação dos outros, então preferi não arriscar. Deixamos o Theo com ela.
Susan estava sentada a cama com a Shai nos braços, como foi parto normal não houve necessidade de incubadora, fico muito feliz pela Susan, não é nada bom ver seu filho dentro daquela máquina sem que você possa pega-lo. Entramos no quarto e cumprimentamos todos.
— Cadê o Theo? — É a primeira pergunta que o meu pai faz.
— Está lá em casa com a mãe do Tobias. — Quando digo isso vejo os olhos da minha mãe se estreitarem e meu pai não parece nada satisfeito.
— Não sei como você tem coragem de deixar o Theo com aquela bruxa. — Marlene diz, mas logo parece se arrepender. — Desculpa Tobias. — Ela fala um pouco envergonhada.
— Não tem problema, eu entendo que vocês fiquem com um pé atras com ela, eu mesmo fiquei.
— Mas a partir de agora todos vão tratá-la bem, ok? — Digo com um tom bem autoritário e todos assentem. — Muito bom. — Digo e todos riem. Vou na direção da Susan e olho para o rostinho da Shai, linda com os olhos esverdeados, muito parecidos com os da Susan e o cabelo loiro parecido com o do Caleb. — Ela se parece muito com o nosso lado da família. — Todos riem do meu comentário.
— Quer segurar ela um pouco? — Ela me estende a Shai e eu a seguro, ela é tão calminha quanto o Theo. Fico segurando ela e a entrego para o Tobias segurar, depois de muita discussão ficou decidido que nós seriamos os padrinhos dela.
— Quando vão ter alta? — Pergunto pegando a Shai de volta dos braços do Tobias e devolvendo ela para a Susan.
— Amanhã, eu a Shai estamos bem, então não há necessidade de ficarmos aqui. — A Susan parece radiante, sei como é isso, nada como ser mãe e estar com seu filho nos braços sabendo que ele está bem para deixar uma mãe feliz.
— Que bom, é horrível ter que ficar no hospital. — Ficamos mais um tempo conversando até que uma enfermeira entra e nos manda sair, pois, acabou o horário de visitas.
Quando chegamos em casa vemos Evelyn com o Theo nos braços, brincado com ele, sentada no sofá. Todos a cumprimentam sem problemas, felizmente, mas minha mãe vai logo tirar o Theo do colo dela, sem nem pedir, olho para ela com repreensão, mas ela nem liga, Evelyn fica um pouco sem graça, mas não faz nada.
Ficamos conversando até a hora do jantar, todos meio que ignoram a presença da Evelyn ali, apesar de eu tentar inseri-la na conversa, após um tempo a própria Evelyn desiste e vai para o quarto, dizendo que já vai dormir.
— O que há de errado com vocês? — Falo em um tom que eu acho que não será possível a Evelyn escutar e todos me olham confusos. — Eu não pedi para tratarem ela bem?
— Ah, filha, como você espera que a tratemos bem depois do que ela fez? — Meu pai pergunta com cara de indignado.
— Se tem alguém aqui que tem direito de pensar assim é o Tobias e se ele conseguiu relevar por que vocês não conseguem? — Estou bastante irritada com a atitude deles.
— Calma Tris. — Tobias coloca o braço em volta do meu ombro e sussurra no meu ouvido. Respiro fundo para me acalmar e me surpreendo com a minha reação, nunca imaginei que um dia estaria defendendo a Evelyn.
— A Tris, está certa, se o Tobias a perdoou, quem somos nós para não o fazer, afinal, ela nunca nos fez nada diretamente e o Tobias é parte da família e se isso é uma coisa importante para ele, então temos que nos esforçar um pouco. — Meu pai fala de forma autoritária e todos parecem concordar, menos a minha mãe que faz cara feia.
— Sim, vamos mudar de assunto, e o seu casamento, já começou a preparar as coisas, já está perto, hein, filha? — Na verdade não comecei a preparar nada, mas acabei de ter uma ideia.
— Mãe, eu estava pensando, nós poderíamos fazer o casamento aqui, ao invés de Los Angeles. O que acha? — Se eu ficar sozinha em Los Angeles para preparar tudo, acabarei não fazendo nada e essa pode ser uma forma de amenizar a situação com a Evelyn.
— Acho maravilhoso, podemos fazer a festa no mesmo lugar da do Caleb, amanhã mesmo eu vou falar com o padre e reservar o salão. — Ela parece muito animada com o assunto. Após algumas horas conversando sobre as coisas do casamento subimos para dormir com o Theo. Minha mãe mudou os móveis do meu quarto para poder colocar um berço para ele..
Ponho o Theo, que já está dormindo, no berço e troco de roupa para dormir, me deito ao lado do Tobias que já está deitado olhando para o teto.
— Em que está pensando? — Lhe pergunto acariciando seu rosto.
— Por que tudo isso? — Fico meio confusa com sua pergunta no início, mas logo compreendo a que ele se refere. — Quer dizer, eu sei que você está empenhada em ajudar a minha mãe, mas discutir com seus pais sobre isso, não acha um pouco demais?
— Lembra do que eu te disse na primeira vez em que conversamos e você me perguntou por que eu tinha te levado para casa mesmo sem te conhecer e ainda por cima bêbado?
— Lembro sim, você disse que gostaria de acreditar que se estivesse em uma situação parecida gostaria que alguém fizesse a mesma coisa por você. — Ele se vira para mim e me olha de forma terna, com adimiração.
— Tobias, eu sou mãe agora e eu sei que parece loucura, mas não há nada nesse mundo que eu não faria para garantir a felicidade do Theo, eu daria a minha vida e nem me importa se ele vai merecer isso ou não. Não estou dizendo que não quero que ele seja uma pessoa boa, isso é o que eu espero, mas mesmo que ele se tornasse a pior pessoa do mundo eu sei que nunca deixaria de ama-lo. E imaginar que eu possa, algum dia, ser a razão da infelicidade dele é algo que eu me mataria. A sua mãe sabe que ele foi a razão da sua infelicidade por muitos anos, eu imagino como isso deve a estar corroendo por dentro, só agora ela está entendendo o verdadeiro significado de ser mãe. E que tipo de pessoa eu seria se não a ajudasse nesse momento? — Ele dá um sorriso fraco e acaricia o meu rosto.
— Parece que a sua mãe não vê dessa forma, sabe, pra falar a verdade, eu esperava que ela reagisse melhor, ela sempre foi tão compreensiva e carinhosa. — Ele tem razão, mas só uma mãe para entender a outra.
— Eu entendo ela, o caso dela é diferente, ela está me protegendo, ela consegue ver o lado da Evelyn, mas me proteger é mais importante, eu sou a filha dela e qualquer um que ameace a minha felicidade para ela é inimigo. Mas eu conheço a dona Natalie, ela vai brigar um pouco no começo, mas ela vai acabar aceitando a sua mãe, escreva o que eu estou dizendo, elas ainda vão ser grandes amigas. — Até eu me surpreendi no começo, mas eu realmente estou gostando dessa nova Evelyn.
— Eu realmente espero que tudo isso dê certo, sabe, essa coisa toda da nova Evelyn. Eu sempre sonhei em ter uma mãe que sorrisse ao me ver, que me abraçasse com carinho, que me olhasse com orgulho. E agora eu tenho, não imaginei que ficaria tão contente em ter essas coisas, já tinha aceitado que não poderia receber isso dela, mas agora que eu tenho não quero perder, você me entende? — Olho para ele e vejo a criança que esperava todas essas coisas da mãe e nunca teve.
— Claro que entendo, amor e eu te prometo uma coisa, enquanto os sentimentos e as ações de sua mãe forem verdadeiros, eu nunca a deixarei sair do seu lado.
— Obrigada, meu anjo. — Tobias encosta a cabeça no meu ombro e eu acaricio os seus cabelos até ele pegar no sono. Quando percebo que ele dormiu me levanto e vou até o quarto da minha mãe. Bato na porta e ela me manda entrar, ela e meu pai já estão deitados e ela faz sinal para que eu me deite entre eles como eu costumava fazer quando era criança.
— O que foi, filha? — Olho para ela como quem diz: Você sabe o que houve. — Tá bem, eu sei o que aconteceu e me desculpe, mas eu não consegui me segurar, imaginar as coisas que ela te fez e fez com o Tobias me deixou com raiva, eu sou mãe e não entendo como alguém pode fazer o que ela fez. — Compreendo os sentimentos da minha mãe, também pensava assim.
— Eu sei, mãe e eu te entendo, mas se você desse uma chance para ela veria que ela é outra pessoa agora e a senhora sabe que eu sou muito boa em julgar o caráter das pessoas.
— Verdade, desde criança você sempre soube dizer se alguém era bom ou ruim. — Isso é verdade, raramente eu me engano em relação a personalidade de alguém.
— Mãe, eu sei que pode ser demais pedir isso para você, eu acho que se alguém fizesse algo com o Theo, provavelmente eu agiria da mesma forma que você, não, com certeza eu agiria como você. Agora sim eu entendo que nada que façam com a gente machuca tanto quanto ferir o nosso filho, mas eu te peço que por mim dê uma chance a ela, ela realmente está tentando ser melhor e o Tobias está tão feliz com isso que eu não posso tirar isso dele e a senhora sabe que a sua opinião é muito importante para ele, saber qua a senhora está ajudando a mãe dele o faria muito feliz. — Ela me olha com afeto e me abraça.
— Tudo bem, filha, por vocês eu vou fazer esse esforço, mas só por vocês, entendeu?
— Eu sei, mãe, não esperava nada diferente vindo da senhora, muito obrigada, eu te amo. — Lhe abraço novamente.
— E seu velho aqui, você não ama não? — Ouço meu pai reclamar, mas sei que ele está só brincando, solto a minha mãe e dou um abraço nele.
— Claro que eu te amo, pai. — Meu pai sempre foi fácil de lidar.
— Não vai me fazer o mesmo discurso que fez para a sua mãe, minha opinião, não importa? — Ele faz uma falsa cara de magoado e eu não consigo não sorrir com aquilo. — Claro que importa, mas eu sei que o senhor vai fazer o que a mamãe mandar de qualquer forma, querendo ou não.
— Nisso você tem razão. — Nós três sorrimos e eu abraço os dois, ficamos lá conversando até que eu cai no sono dormindo entre eles, exatamente como fazia quando era criança.
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