Vidas Cruzadas
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Tobias
Hoje é meu aniversário, não queria fazer nada, mas a Tris insistiu em fazer um jantar para comemorar com os nossos amigos e no fim até gostei da ideia. É sempre bom passar um tempo com os nossos amigos, sempre tive apenas o Zeck como amigo, mas depois da Tris ganhei não só uma família maravilhosa como bons amigos também. Ela passou o dia inteiro arrumando as coisas para o natal e agora foi buscar o meu presente, segundo ela não pegou antes para não correr o risco de eu ver, pois é surpresa e vindo da Tris eu posso esperar qualquer coisa, ela é imprevisível.
Enquanto estou revelando algumas fotos no meu estúdio ouço a campainha tocar, não pode ser a Tris, ela acabou de sair, a não ser que ela tenha esquecido a chave.
Quando abro a porta tenho uma surpresa nada agradável. Vejo a Holly com uma caixa na mão parada na minha porta.
– O que você está fazendo aqui Holly? – Pergunto sem a mínima educação, não a quero aqui na minha casa, principalmente se corre o risco de a Tris vê-la.
– Calma, Toby, só vim lhe desejar feliz aniversário e te dar esse presente. – Ela diz fazendo cara de inocente e me estendendo o pacote.
– Agradeço a sua intenção, Holly, mas não precisava, eu não quero presentes vindos de você e é melhor você ir embora antes que a Tris te veja, aí eu não me responsabilizo pelo que ela fará com você. – Ela dá uma risada irônica, o que me deixa irritado.
– Não precisa se preocupar, não vim para causar mal estar, eu vi que sua princesinha saiu, eu fiquei o dia todo esperando para ver se você saia, mas felizmente foi ela quem saiu, como disse, só queria te entregar isso, por favor aceite. É uma forma de eu me desculpar pelas coisas que eu te disse na nossa última conversa, quero que saiba que tudo o que eu disse foi da boca pra fora, eu estava com raiva e você tinha razão, eu estava exagerando não tinha por que eu ter agido daquela forma. – Ainda bem que ela reconheceu, mas mesmo assim não posso aceitar seu presente, não quero ter que explicar nada para a Tris e tenho certeza que que ela vai ficar chateada se eu aceitar.
– Fico feliz em ouvir isso, Holly, mas mesmo assim acho melhor não aceitar o seu presente, agradeço a sua boa intenção, mas não, obrigada. – Quero me livrar logo dela, não quero que a Tris a veja aqui.
– Ok, já entendi você não vai aceitar o meu presente, nesse caso é melhor eu ir embora, mas eu fiquei muito tempo esperando lá fora será que eu posso ir ao banheiro? – Acho que isso não tem nada de mais.
– Pode sim, você já sabe onde fica. – Aponto as escadas e vou para a cozinha beber água enquanto a aguardo descer. – Apos poucos minutos ela está de volta.
– Muito obrigada, Tobias, a gente se vê. – Ela se aproxima para me cumprimentar, provavelmente com um abraço, mas eu me afasto, não quero lhe dar margem para tentar nada, ainda mais dentro da minha casa. Felizmente ela entende o recado e sai sem falar mais nada. Fecho a porta e volto para o estúdio.
Quando já estou com quase todas as fotos reveladas ouço a porta abrir, quando olho para trás vejo a Tris parada me olhando.
– Perdeu alguma coisa? – Pergunto em tom de brincadeira.
– Felizmente não. – Ela responde e caminha na minha direção me dando um abraço.
– Então, cadê o meu presente? – Pergunto, já que esse foi o motivo de ela ter saído sem mim.
– Escondido, só vou lhe dar no final da noite, depois do jantar. – Ela diz e me dá um selinho.
– Ah, assim não vale, vou ficar curioso até o fim da noite? – Pergunto fazendo manha, mas ela apenas sorri.
– Vai sim, agora deixa eu tomar um banho, pois, lá fora está um calor infernal. E o senhor vê se termina logo isso aí antes que os convidados cheguem, viu? – Ela tenta falar seria, mas não consegue e acaba rindo.
– Sim senhora, pode deixar. – Lhe dou mais um beijo e ela sai do estúdio para tomar banho.
Alguns minutos depois escuto gritos vindos no nosso quarto.
– TOBIAS, TOBIAS, SOCORRO, SOCORRO. – Corro o mais rápido que posso para lá e quando eu chego ao banheiro vejo a razão dos gritos, tem uma cobra dentro do box e a Tris está encolhida no canto chorando e gritando. Eu deveria ter desconfiado dessa visita da Holly hoje, ela havia ameaçado a Tris na nossa última conversa e mais uma vez eu fui burro e acreditei nela, isso não vai ficar assim só pode ter sido ela quem colocou essa cobra aqui, mas depois eu penso nisso, agora eu tenho que ajudar a Tris.
Pego uma toalha e com muito cuidado abro a porta do box, jogo a toalha em cima da cobra e pego a Tris no colo fechando a porta logo em seguida. Levo a Tris para o quarto, a enrolo em uma toalha e verifico se não tem nenhuma picada de cobra, felizmente não tem nenhuma, mas a coitada está tremendo e não consegue parar de chorar.
– Calma, Tris, vai ficar tudo bem, já passou, vou chamar o centro de controle de animais para eles virem pegar essa cobra. – Digo enquanto a embalo nos meus braços e acaricio a sua cabeça na esperança de que isso a acalme, mas não está dando resultado ela continua com o rosto afundado em meu pescoço e não para de chorar, percebo que a Tris não está apenas chorando, ela também está gemendo de dor, será que ela foi picada e eu não encontrei o local? De repente sinto um liquido quente molhar a minha calça, quando olho para baixo vejo que a Tris está se contorcendo e tem sangue escorrendo por suas pernas, entro em pânico.
– Tris, o que está havendo? Por favor, amor, fala comigo? – Agora sou eu quem está chorando.
– Tá doendo, Tobias, minha barriga, tá doendo muito. Acho que estou perdendo o Theo, me leva para o hospital, por favor, Tobias. – Ela finalmente consegue falar em meio ao choro e aos gemidos.
Com a Tris em meu colo, pego minhas chaves, meu celular e saio de casa. O caminho entre a nossa casa e o hospital nunca foi tão longo, parecia que não chegaria nunca. A Tris não parou de chorar nem um minuto. Quando parei na frente do hospital desci do carro correndo com a Tris em meus braços. Alguns enfermeiros vieram na minha direção e colocam a Tris em uma maca.
– O que houve com ela? – Por sorte a médica que está de plantão no momento é a obstetra que acompanha a Tris desde o inicio da gestação.
– Mia, graças a Deus que você está aqui. Ela levou um susto e começou a sentir dores, acho que ela está perdendo nosso filho. – Digo desesperado entre os soluços do meu choro.
– Calma Tobias, nós vamos cuidar dela. Levem a paciente para a sala três. – Ela diz enquanto aponta o lugar onde devem levar a Tris. – Assim que tivermos mais informações falaremos com o você, peço que espere aqui. – Ela sai acompanhando os enfermeiros e me deixa aqui novamente me sentindo um inútil por não ser capaz de fazer nada para ajudar.
Passado algum tempo, que eu não sei quanto, pois parece uma eternidade, sinto meu telefone vibrar no bolso, é o Zeck.
– Tobias, cadê vocês, estamos aqui fora, já sei, tá brincando no quarto com a Tris, né? Odeio cortar a sua diversão, mas vocês quem convidaram a gente, então é melhor descer e atender essa porta antes que eu desista e vá embora, ok? – Já tinha até esquecido desse bendito jantar.
– Nós não... estamos em casa, desculpa Zeck. – Falo com um nó na garganta me segurando para não chorar.
– O que houve, Tobias? Você está bem? – Zeck já percebeu que eu não estou bem.
– A Tris... – Tento continuar, mas já não consigo mais segurar o choro.
– Tobias, meu irmão, o que aconteceu com a Tris? Onde você está? – Respiro fundo algumas vezes para me acalmar.
– No hospital, Zeck, eu acho que a Tris está perdendo nosso filho. – Isso é tudo que eu consigo dizer antes de voltar a chorar novamente.
– Calma, Tobias, em que hospital você está?
– Aquele que fica perto lá de casa. – Volto a respirar fundo tentando me acalmar, mas dessa vez não tem efeito e continuo chorando.
– Aguenta firme, irmão, eu já estou chegando aí. – Desligo o celular e coloco a cabeça entre as mãos para continuar chorando, pois, no momento chorar é a única coisa que eu posso fazer.
Não sei quanto tempo se passa entre o momento em que eu desliguei o telefone e o Zeck chegou ao hospital acompanhado da Shauna, Chris e Lynn e até agora não tive noticias da Tris ainda.
Quando o Zeck me vê ele corre na minha direção e me dá um abraço.
– Calma, Tobias, senta aqui e me conta o que aconteceu. – Ele me guia até uma das cadeiras onde eu me sento e lhes conto tudo o que aconteceu.
– Mas eu mato aquela vadia, ela vai se arrepender de ter nascido. – Diz a Cris com muita raiva, raiva que eu também estou sentindo no momento, também quero que a Holly pague por isso, mas no momento eu só quero que a Tris fique bem, que ela e o Theo fiquem bem.
Meus amigos começam a conversar sobre a situação, mas eu estou longe demais para prestar atenção.
Após o que parece uma eternidade vejo a Mia vindo, levanto praticamente com um pulo e vou em sua direção.
– Mia, que bom que você voltou, já estava ficando louco sem noticias, como eles estão? – Pergunto sem conseguir conter a angustia em minha voz.
– Bom, Tobias, nós acabamos de examiná-la e eu não tenho boas noticias. A pressão dela subiu muito e nós não estamos conseguindo estabilizar, vamos ter que induzir um parto prematuro, caso contrario ela e o bebê podem morrer. – Suas palavras me atingem como tijolos, nunca, nem em meus piores pesadelos, eu imaginei que isso poderia acontecer. – Como é uma cirurgia de risco, e você é o contato dela para emergências, eu preciso do seu consentimento para fazer a cirurgia. – Ela me entrega uma prancheta com os documentos que eu preciso assinar.
– Claro, claro. – Pego os documentos e assino rapidamente os devolvendo para ela.
– Tobias, como o procedimento é de risco talvez nós não consigamos salvar os dois, nesse caso nós precisamos saber quem é nossa prioridade. – Fico em choque com suas palavras e desabo em meus joelhos, sinto o Zeck tocar em meu ombro, mas eu não tenho reação, não posso escolher um dos dois, eu os amo tanto, como vou escolher um deles, como posso escolher entre o meu filho e a mulher que eu amo? Isso é castigo demais para um homem, isso não pode estar acontecendo comigo. – Tobias, eu sei que é uma decisão difícil, mas nós temos que nos apressar, quanto mais tempo perdermos aqui maiores são as chances de um dos dois não sobreviver. – Com muita dor no coração eu faço a minha escolha.
– Salve a Tris, se precisar escolher entre salvar um deles, pode escolher a Tris. – As palavras saem da minha boca como se não fosse eu quem as estivesse pronunciando.
– Muito bem, eu vou começar a cirurgia, quando terminar eu volto para falar com você. – Assim ela se afasta levando consigo a responsabilidade de salvar a minha família.
Não consigo me mexer, falar e nem chorar mais, estou vagamente ciente de tudo o que está acontecendo a minha volta. Não sei como acabo novamente sentado na cadeira e, após não sei quanto tempo, me lembro que eu devo avisar a família da Tris sobre o que está acontecendo.
– Preciso ligar para os pais da Tris. – Digo de forma automática como se eu não estivesse realmente ali.
– Não precisa se preocupar com isso, eu já liguei para eles, logo eles estarão aqui. – Ouço a Chris dizer, mas não levanto a cabeça para olha-la.
Volto a por a cabeça entre as mãos me recusando a participar do que acontece a minha volta, não quero ser consolado, não quero ouvir nada que eles tem a dizer, sei que eles são meus amigos e também estão preocupados coma Tris, mas eu apenas quero a minha família em segurança ao meu lado.
Após o que me parece uma eternidade vejo a Mia surgindo através das portas duplas do centro cirúrgico, com isso eu saio do meu estado letárgico e vou em sua direção.
– Por favor, me diga, os dois sobreviveram? Eles estão bem? – Isso não é uma pergunta e sim uma suplica, não desejo ouvir outra resposta que não seja que os dois estão bem. – A Mia retira a sua toca e a mascara e suspira.
– Conseguimos salvar os dois. – Essas quatro palavras me fazem soltar o ar que eu nem sabia que estava prendendo e eu sinto a vida me habitar novamente. – Felizmente o Theo e a Tris são fortes, Ambos ainda vão ter que passar um tempinho aqui no hospital, o Theo vai precisar ficar um tempinho na incubadora , mas ele já está bem desenvolvido e não corre risco de morte e a Tris teve uma parada cardíaca e vai precisar ficar um tempo se recuperando, mas os dois estão fora de perigo. – Não consigo conter a minha felicidade e abraço a Mia, ela fica um pouco sem jeito, mas retribui o abraço.
– Obrigada Mia, você salvou a minha família.
– O que é isso, Tobias, eu só fiz o meu trabalho, agora deixa eu ir, que eu tenho outros pacientes para atender, se você quiser ver o Theo ele está na ala neonatal e a Tris em breve estará em um quarto e você poderá vê-la. – Ela diz e com isso se vira para continuar com seu trabalho.
Me viro para os meus amigos que também estampam belos sorrisos em seus rostos.
– Eles estão bem, minha família está bem. — Grito e corro para os meus amigos, comemoramos na sala de espera até sermos repreendidos por alguns enfermeiros e depois vamos até a ala neonatal para ver o meu menino.
Vemos o Theo através do vidro e ele parece estar em paz, como é uma ala neonatal, apenas eu posso entrar.
Uma das enfermeiras me entrega um traje hospitalar, que eu logo visto, e me encaminha até a incubadora onde o Theo está ela abre uma das partes, onde eu coloco minha mão e acaricio a cabecinha do meu menino, de repente, para a minha surpresa, o Theo estica a mãozinha e segura meu dedo, nesse momento lagrimas de felicidade rolam por meu rosto e eu tenho certeza que sou um homem realizado.
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