Vidas Atadas
1 Prólogo
Notas iniciais
Renesmee odiava estar nua em público. Não que ela estivesse realmente nua, mas, maldição, estar como no dia em que nasceu a fazia ser muito consciente de todos os defeitos que chegaram com a idade. O papel que cobria a mesa de exames estava enrugado sob suas suarentas coxas. A fria brisa do ar condicionado roçava a pele de seu traseiro exatamente onde estava a abertura da bata de papel que usava.
Isso não era tão mau como ter sua metade inferior completamente exposta, com os joelhos estendidos, os pés nos estribos de metal enquanto olhava um pôster grudado no teto.
Nessie temia os exames pélvicos, de mamas, as vacinas, limpezas bucais...
Tudo que parecesse com um procedimento médico. Até agora foi pinçada, sondada e tiraram amostras de todos os fluidos corporais imagináveis; sangue, urina, saliva, um cultivo de garganta, cera dos ouvidos, unhas dos pés... Bom, não os dois últimos, mas poderiam ter feito.
Esteve congelando os pés nessa sala estéril por mais de meia hora. O que deu muito tempo para perguntar: O que acontecia?
Durante o mês anterior esteve experimentando náuseas constantes. Não as suficientes para fazê-la vomitar, mas para fazer que enjoasse, geralmente piorando de noite. Não tinha vontade de comer, mas segundo seu médico, engordou dois quilos desde sua última visita.
Poderia atribuir suas mudanças físicas ao estresse. Possuir seu próprio negócio enchia com a paciência de qualquer um, ainda mais quando eram produtos naturais com propriedades aroma-terápicas “made in” Wyoming. Os atrasos na construção causaram ansiedade extra, mas por fim abriu sua pequena loja em Sundance.
Entretanto o estresse não provocava que sua pele estivesse sensível ao tato. A tensão poderia levar a borda do esgotamento, fazendo que dormisse ao redor de doze horas seguidas. Seu período falhou novamente dois ou três meses... Estava em conta? Sempre foi irregular. Mas isso não explicava o fluxo vaginal estranho. Além disso, estava de mau humor. Não podia regular sua temperatura corporal; ou tinha muito calor ou muito frio. Tudo era tão inquietantemente familiar. Reconheceu os sinais, embora não nela mesma. Câncer.
Nessie fechou os olhos. Por favor. Que não fosse câncer. Ela não podia ter câncer. O universo não podia ser tão cruel, maldição. Fazia oito anos, diagnosticaram um câncer de útero em sua mãe.
Ela pensou que era menopausa. Padeceu todos os sinais, sinais que Nessie estava experimentando ultimamente.
Um diagnóstico de câncer poderia dizimar sua irmã, Claire. Ironicamente seu pai foi vítima de um câncer de próstata fazia onze anos. Nessie recordou flash das sessões de quimioterapia e radioterapia. As intermináveis viagens ao hospital. Isso poderia fazer com que Claire voltasse a cair no turvo mundo das drogas, o álcool e sexo ao azar, se tinha que lutar com outro membro de sua família doente de câncer.
A porta fez um estalo metálico e o estômago de Nessie sacudiu. Seus olhos se arregalaram ao olhar a doutora. Uma surpreendente ruiva de baixa estatura.
–Já estão aqui os testes. — disse a doutora.
–E? Tenho câncer?
A doutora franziu o cenho e estudou seu prontuário.
–Por que foi pensar que... Oh, já vejo. Antecedentes familiares de câncer. Huh. Uma grande quantidade de câncer. Mas não. Não é câncer.
Nessie reprimiu o impulso de chorar de alívio.
–Então, o que está mal comigo? É um micróbio ou algo que peguei por aí? É contagioso? — por alguma razão o ato impulsivo que fez há uns meses se centrou em sua mente.
Contagioso.
Jacob Black. Esse rato bastardo.
–Tenho que dizer Nessie que não estou particularmente surpreendida.
A boca de Nessie abriu.
–Não surpreende que pegue uma DST? Tive relações sexuais desprotegidas uma vez, em todos os anos que sou sexualmente ativa, e não está surpreendida que o estúpido com quem me deitei me passou algo?
A doutora sorriu, riu na realidade.
–Oh, ele não te deu uma DST, deu um filho.
–O QUE? — Nessie gritou. -Eu... Eu... Oh meu Deus. Estou grávida?
–De três meses.
Nessie assentiu em silêncio. Aturdida.
Grávida. Bom Deus. Não viu Jacob desde que voou há Ziggy três meses e meio atrás. Da noite em que transaram em sua caminhonete no estacionamento.
Imediatamente depois da brincadeira percebeu que ele a enganou. O tirou de sua vida, não respondeu a suas chamadas e, finalmente, deixou de fazer.
Entretanto, recentemente encontrou a si mesma pensando no, sexy como o pecado, Jacob Black nos momentos mais inesperados, perguntando se não teria agido por impulso. Apesar de que ele não a corrigiu quando ela pensou que era seu irmão gêmeo, o tempo que compartilharam não pareceu um engano, uma brincadeira ou um pouco forçado, a não ser algo prometedor. Algo real.
Certo. Não havia nada mais real que uma criança.
Um bebê. Jesus.
–Qualquer consumo excessivo de álcool ou outra substância pela que deveria estar preocupada de que afete a esta gravidez?
–Não. Minha irmã é uma ex-alcoólica em recuperação e está vivendo comigo, assim não tive nenhuma gota de álcool em meses.
–Bem. — a doutora deslizou pela frente e segurou as mãos de Nessie. -Uma gravidez não desejada não é sempre uma agradável surpresa. Entende que como médica não haverá nenhum julgamento por minha parte pela decisão que tome. Tem trinta e quatro anos, é uma mulher saudável. A gravidez e o parto não será nenhum risco para sua saúde. Sendo assim, se esta gravidez não for algo que queira, teria que ter uma consulta em uma clínica de Billings ou Denver durante a próxima semana para abortar. Depois desse tempo estará entrando no segundo trimestre e os riscos para sua saúde se duplicarão.
–Então estou no terço do caminho?
A doutora assentiu.
Um bebê. Crescendo em seu interior. Que estranho. Que... Interessante.
E de repente Nessie queria esse bebê com ferocidade.
–Bom, doutora, estou vendo como uma agradável surpresa.
–Pensei que poderia dizer isso.
–Por quê?
–Porque somos da mesma idade e se tivesse a mesma surpresa, estaria na lua.
Nessie definitivamente se sentia como se a tivessem jogado a outra galáxia, criando uma nova vida dentro dela.
–Suponho que deveria me empapar até os ossos dos livros do Sr. Spock sobre gravidez e o parto.
–Doutor Spock, o perito em bebês. Não o personagem vulcano de Star Trek. — disse a doutora secamente. Colocou a mão em seu armário, tirando um frasco grande de plástico.
–Vitaminas pré-natais. Darei uma receita, mas isto deve bastar até a visita do mês que vem.
Depois recitou um sermão sobre tecidos inchados, sensação de formigamento em braços e pernas, quando entrar em... Nessie escutava tudo, mas através de uma neblina de incredulidade. A palavra grávida se repetia em sua mente.
Jacob tinha direito sobre o bebê. Teria que endurecer sua própria reação diante da dele... Se por acaso não fosse positiva. Tiveram relações sexuais uma só vez. Uma. Fortuita. Ocasião.
Quais eram as possibilidades reais de que ficasse grávida? Ele acreditaria inclusive de que o bebê era dele?
Só havia uma maneira de descobrir. Tirou seu Black Berry da bolsa e olhou em sua lista de contatos.
Maldição. Em um ataque de ira apagou seu número de telefone. O último que sabia dele era que se mudou da casa de seus pais. Inclusive se esse não fosse o caso, eles saberiam como poderia entrar em contato com ele.
Nessie olhou na lista telefônica local, tentando primeiro em Sundance antes de ampliá-lo ao resto de condados de Wyoming. Black. Um bom número deles apareciam na lista... Mas nada de Jacob.
Pensa Nessie. Quais eram os nomes dos pais dele? Não tinha nem idéia.
Decidiu pelo primeiro nome da lista.
Discou. O coração saltou na garganta, quase asfixiando quando atenderam ao telefone no segundo toque.
–Black.
–Olá, estou procurando Jacob Black.
Uma risada masculina.
–Procura em outro lugar.
–Perdão?
–Meu irmão se foi.
O homem que falava devia ser Embry, o gêmeo de Jacob.
–Foi? O que quer dizer com foi? — então Nessie recordou que um primo de Jacob morreu em um acidente no rancho e o sangue desapareceu de seu rosto. -Está... Morto?
Um bufo.
–Não, foi, simplesmente, mudou.
–Quando?
–Faz três meses.
Maldição. Não era isso uma coincidência? Era isso uma gargalhada irônica de fundo ou simplesmente um homem grosseiro no outro lado do telefone?
–Antes que pergunte aonde foi bem poderia estar vivendo em Timbuktu porque não temos maneira de contatar com ele. Tenta de novo no próximo verão. — desligou.
Nessie ficou olhando seu telefone assombrada. Como era possível que confundisse Jacob e Embry Black? Eram como a noite e o dia.
Não importava.
Tenta de novo o próximo verão.
Certo. Parecia que estava sozinha. De novo.
Nessie deu tapinhas sobre seu ventre.
–Somos só você e eu, moço.
Depois de passar cinco minutos olhando para o nada através da janela, pôs a rir até que as lágrimas derramaram por seu rosto.
–Um caso de identificação errônea entre gêmeos, relações sexuais desprotegida em uma caminhonete, e agora, um bebê secreto. Diabos, com o pai vaqueiro duro, que mudou a uma caravana e comprou uma escopeta, bem poderíamos viver do sustento dos camponeses!
A sensação de revoada em seu estômago se intensificou quando o bebê deu um bom chute.
Notas finais
Bjs
Fale com o autor