Vida em Erebor
22 Mais um para amar
Notas iniciais
Mais um para amar
Vida com o pequeno príncipe
Em meio de seu sono, Anna ouviu o choro de criança, imaginando estar sonhando (de novo) com seu filho quando ele nascesse. Parecia que ela já o tinha visto, tão forte e lindo...
Ela abriu os olhos porque de alguma forma sabia que o sonho era verdade. Seu filho chorava.
Sentou-se na cama e viu Darin num cestinho a seu lado. Ergueu-se e pegou o bebê:
— Está com fome, filhinho?
Hila entrou no quarto e espantou-se:
— Oh, senhora, devia descansar mais.
— Darin está com fome. Vou alimentá-lo e depois posso voltar a descansar.
— Eu poderia levá-lo à ama de leite. Mestre Óin recomendou muito repouso. Madame teve um parto difícil.
Darin se atracou sofregamente ao seio de Anna, que comentou:
— Nossa, filhinho, que fome! Acho que a mamãe dormiu demais e deixou você sem jantar. Desculpe, meu neném.
— Madame deve descansar. Posso cuidar do príncipe.
Anna pediu, sem tirar os olhos de seu menino:
— Depois verifique se ele está limpinho, por favor. Na verdade, eu deveria ter pensado nisso antes da mamada. Mas ele parecia ter tanta fome!
Hila sorriu:
— Ele é muito bonzinho.
Anna indagou:
— E meu marido? Desculpou-se com os convidados?
Hila informou, animada:
— Sua Majestade comunicou o nascimento de Sua Alteza. Foi uma grande celebração. O rei sob a montanha mandou cunhar uma moeda de prata a cada habitante de Erebor e convidado à coroação. Ele mandará cunhar outras após a cerimônia de nomeação, com o nome exterior. O nome secreto será, então, revelado à família.
Anna comentou:
— Puxa, quanta novidade. E aí posso sair do confinamento?
— Sim. Por enquanto, está de cama por ordens médicas. Mas o mago cinza pediu para vê-la assim que fosse possível.
— Gandalf é um grande amigo.
— E ajudou a curá-la! — disse Hila. — Mestre Óin não conseguiu tratar da senhora e os magos ajudaram.
— Os dois? Radagast também?
— Sim, o estranho. Para um mago, ele é um sujeito muito esquisito!
— Eu gosto dele. É doidinho, mas é inofensivo. — Anna indagou: — Eu posso receber visitas?
— Não, mas o mago disse que é muito importante vê-la. O rei deu autorização, mas Mestre Óin quer vê-la primeiro.
Anna trocou de seio, dizendo:
— Pode chamar Óin depois que terminarmos de cuidar de Darin. Thorin está ocupado?
Uma voz diferente veio da porta:
— Se ele estiver ocupado demais para sua mulher e seu primogênito, meu irmão não merece a coroa!
Anna riu-se:
— Veja, filhinho: a tia Dís chegou!
Darin não fez cerimônia e continuou mamando. Dís se sentou à cama, dizendo:
— Oh, é difícil acreditar que os meus bebês já foram desse tamanho um dia. Tenho saudades desse tempo.
Anna disse:
— Espero ver meu filho crescer forte e bonito como seus primos.
Dís indagou:
— Está com fome, cunhada? Pedi a Bombur que fizesse uma refeição especial. Favorece quem está amamentando.
— Estou mesmo com muita fome — comentou Anna. — Mas podem ser só os nervos.
— Que quer dizer?
— Confesso ainda estar muito insegura. O bebê veio de repente!
— Calma, logo você vai ver que não é tão difícil — garantiu Dís. — Mas estamos aqui para o que precisar.
Hila garantiu:
— Isso mesmo, senhora. Agora vamos verificar se Sua Alteza precisa ser trocado.
Anna passou o bebê quase adormecido a Hila, que foi trocá-lo. Depois que Anna tomou seu café reforçado e Darin dormia em seu cestinho, Gandalf veio visitá-la.
— Disse que precisava ver sua saúde, mas só vim me despedir.
Anna sorriu:
— Fui informada que você salvou minha vida. Obrigada.
Gandalf riu-se, dizendo:
— Deixe que continuem a pensar assim. Nada tive a ver com sua recuperação: foi apenas sua herança mágica.
Anna então ouviu uma explicação de tudo que se passara com ela (e Darin), semelhante à que Thorin tinha recebido. Mas Anna queria saber mais.
— Então deixei de ser troca-peles?
— Creio que não. Mas parece que seus poderes vão desabrochar, com ou sem treinamento.
— Isso vai afetar meu filho?
— Estou quase certo que seu filho partilha sua herança mágica, ao menos em parte. É possivel que ele também vá desenvolvendo seus poderes à medida que cresça. Isso ainda veremos.
Anna suspirou:
— Pensei que tivesse deixado tudo isso para trás.
— Não pode fugir de seu destino — lembrou Gandalf afetuosamente. — Por isso seu destino se faz presente. Você deveria ser mãe de uma criança de Imladris, tornada possível pela água da vida.
— O que está dizendo?
— Você e seu marido são de raças diferentes. Nada indicava que pudessem gerar um filho. Foi a água de Lórien que tornou possível a concepção dessa criança. Você tomou essa água em Imladris. Não duvido que a mágica daquele lugar tenha ajudado a trazer o pequeno Darin à vida. Lembre-se: você é uma criatura cuja magia é mais afinada à magia élfica do que qualquer outra. Por isso ela deve ter se manifestado no vale, incorporada nesta criança.
Anna encarou Darin, que dormia em seu bercinho. Ela sorriu:
— Ele é mesmo meu milagre...
— E outros ainda estão por vir — lembrou o Istari. — Faço questão de dar as boas notícias pessoalmente a Bilbo quando o vir.
— Sinto muita falta dele. É pena que ele esteja do outro lado do mundo. Diga isso a ele, por favor — pediu Anna.
— Da mesma forma que espero vê-la mais uma vez, tenho certeza que vocês vão se ver de novo. Agora preciso ir, ou Radagast vai começar a ficar impaciente.
Depois de muitas recomendações, o mago se foi. Anna ficou meditando mais uma vez sobre os rumos de sua vida, saudosa de sua mãe. Agora ela estava se tornando uma pessoa mágica, embora nem Gandalf soubesse dizer exatamente o que ela era capaz de fazer.
Era meio enervante, saber que tinha um grande destino a cumprir, mas não saber qual destino era essa. Ela só queria ser uma boa mãe e uma boa mulher para Thorin.
Ela pediu que Hila trouxesse seus sobrinhos, de maneira discreta. Foi um pedido que intrigou os dois.
— Minha tia? — indagou Kíli, assim que entrou no quarto, parecendo preocupado. — Sente-se bem?
— Estou ótima. Obrigada por terem vindo.
Fíli indagou:
— E nosso primo?
— Como podem ver, ele dorme a sono solto. Venham vê-lo.
Os dois se aproximaram do berço, com sorrisos.
— Ele é tão pequenino!
— Acho que ele parece com Thorin.
— Cada dia ele parece diferente!
Anna olhava, orgulhosa. Fíli indagou:
— Essa não é uma simples visita, é?
— Não. Sentem-se aqui. — Os dois obedeceram. — Tenho algo a falar, e já conversei com Thorin e Dís a esse respeito.
Kíli reparou:
— Parece sério.
— É para mim. Diz respeito a Darin. Thorin não gosta que eu toque nesse assunto, mas sou mãe e quero proteger meu filho.
— Proteger?
— Vocês sabem que humanos são mais frágeis do que khazâd, nem vivem tanto. Por isso, é razoável supor que eu não viva tanto quanto Thorin. E embora Thorin não seja velho, para sua raça, ele está entrado em anos, como se diz na minha terra. Talvez também não lhe reste tanto tempo com nosso filho.
— Anna... — quis interromper Fíli. — Não diga isso.
— Fíli, essa é uma verdade da vida. É dura, mas é uma verdade que precisa ser encarada. De onde venho, existe uma tradição de nomear duas pessoas como "pais postiços" de um bebê. Chamamos de padrinhos. Eu ficaria muito honrada se vocês dois aceitassem ser padrinhos de Darin.
Os dois encararam Anna, boquiabertos. Depois eles se encararam um ao outro. Após alguns segundos, Kíli repetiu:
— Padrinhos?
— Sim — confirmou Anna. — E embora eu esteja pedindo aos dois, sei que a responsabilidade recairia mais sobre você, Kíli. Afinal, se Darin precisar de vocês, isso vai significar que nem eu nem Thorin estaremos aqui. E se Thorin não estiver aqui, Fíli estará ocupado com o trono.
Os irmãos se encaravam, sem saber direito o que pensar. Anna entendeu que eles ainda precisavam de tempo para se recuperar do choque. Era provável que eles não tivessem ainda contemplado o fato que Anna era humana e tinha uma expectativa de vida menor do que a de um anão. Ou que eles tinham seguramente mais 150 anos de vida, e Thorin não.
Ela tentou aliviar o clima, dizendo:
— Bom, não precisam responder agora. Por que não pensam nisso um tempo?
Num impulso, Kíli abraçou Anna, dizendo:
— Nãoqueroperderminhatia...!
Assustada, Anna sorriu e garantiu:
— Oh, meu sobrinho, pode acreditar, eu pretendo estar por aqui por muito tempo.
Fíli completou:
— Nós cuidaremos de Darin. Sempre que precisar. Até quando você quiser passear com Thorin ou coisa assim.
Anna beijou a cabeça do louro e desejou:
— Mahal os abençoe sempre. Darin não poderia ter melhores primos. Mas agora, Kíli, explique-me uma coisa.
— Explicar o quê?
— Tauriel.
O rapaz arregalou os olhos, adquirindo um tom rosado nas bochechas que a barba rala não escondia. Tentou dizer:
— Não entendo o que está dizendo.
— Oh, Kíli, não adianta negar nem fazer olhinhos de cachorrinho perdido. Está evidente que sente algo por ela. — Então o olhar de Kíli mudou, e Anna garantiu: — Não comentei nada com Thorin, se é isso que o perturba. Mas quero saber como pretende agir.
— Que quer dizer?
— Quero dizer que estarei a seu lado para o que precisar. Tauriel é uma boa mulher, e acho que pode ser digna de você. Se quiser minha ajuda com Thorin ou com Tauriel, basta pedir. Se achar que esse amor não vale a pena, respeitarei os seus desejos. Mas só farei alguma coisa se me pedir.
Ele quis saber:
— Acha que Thorin proibiria?
— Não falei com isso sobre ele, mas posso perguntar, se quiser. Só que acho que sua prioridade deve ser seu próprio coração, Kíli. Esqueça Thorin, Fíli, eu ou sua mãe. Os outros não terão que viver com sua decisão. Gostaria de abrir mão desse amor?
O rapaz pensou um pouco e quis saber:
— Você teve que tomar essa decisão, tia?
— Sabe que sim. Quando seu tio me abandonou em Rivendell, eu pensei muito. Eu poderia ter voltado para minha terra. Mas percebi que não poderia viver sem Thorin. Meu coração não me perdoaria. Mesmo que ele me rejeitasse (eu não sabia se ele tinha a intenção de apenas me conquistar), eu ia me arrepender se mentisse para meu coração. Thorin é a única pessoa que amarei em minha vida, não existe outro. Mas isso sou eu, Kíli. Você deve tomar sua decisão. Eu o apoiarei.
Ele pensou, pensou, e depois quis saber:
— Poderia convencer Thorin?
— Isso eu não sei. Você sabe como Thorin é. Mas eu sei que posso lembrar a Thorin que condenar você por buscar um romance com outra raça é no mínimo hipócrita. Concorda?
Kíli abriu um sorriso largo, e Fíli o acompanhou. O mais novo abraçou Anna com carinho:
— Obrigado, minha tia.
— Acho que dei a vocês o suficiente para pensar um tempo. Mas eu gostaria de saber se querem ser padrinhos de Darin.
Como se ouvisse seu nome, o bebê começou a dar sinais que ia acordar. Foi o que bastou para os três se ocuparem exclusivamente com o pequeno príncipe.
Palavra em Khuzdul
khazâd = anões, povo anão
Fale com o autor