Vida em Erebor
23 Dias de perfeição
Notas iniciais
Dias de perfeição
Um respiro na vida de Anna e Thorin
Não demorou para Anna se enquadrar numa rotina que não era exatamente enfadonha. Darin terminou sendo um bebê relativamente bonzinho. Na verdade, sem contar umas poucas cólicas, ele acordava sua mãe poucas vezes por noite, para mamar. Após convencer Thorin que não havia necessidade de empregar uma ama de leite para a madrugada, Anna precisou convencer Hila. A criada achava um absurdo que sua senhora acordasse à noite para amamentar. Anna repetia que era algo que fazia com gosto, pois ela se sentia muito próxima ao filho.
Assim que Óin a liberou do resguardo, Anna se preparou para a cerimônia de nomeação. Apenas os habitantes de Erebor podiam comparecer.
Ninguém queria perder a cerimônia de nomeação do filho do Rei Sob a Montanha. Anna usou um vestido verde de tecido leve e Thorin optou por trajes vermelhos quase vinho. Darin estava num camisolão creme, como mandava a tradição. O menino foi apresentado oficialmente com o nome exterior de Darin. Para seu clã, o povo de Durin, o filho de Thorin II foi apresentado com seu nome secreto: Mahalkhajima.
Presente de Mahal.
Como Hila dissera, uma moeda fora cunhada em homenagem ao dia. Dís, Kíli e Fíli foram nomeados padrinhos. Anna se sentia feliz ao extremo, e nada parecia capaz de estragar aquela felicidade.
Uma vez terminado o confinamento, a Consorte do Rei Sob a Montanha voltou a seus deveres. Ela ia à enfermaria, aprendia as artes da cura, visitava família, comparecia a audiências. Isso tudo sem negligenciar o cuidado ao filho e ao marido.
Erebor prosperava a olhos vistos. O Exército crescia a cada dia e unia esforços com os guerreiros de Esgaroth, Dale e Mirkwood para deixar a região livre de orcs e goblins. Eventualmente, uma patrulha trazia relatórios de atividades de orcs, mas as legiões da escuridão sofreram terríveis baixas desde a Batalha dos Cinco Exércitos e não conseguiram se recuperar. Gandalf trouxera notícias de que o covil em Dol Guldur tinha sido limpo e o inimigo, erradicado dali, refugiara-se em Mordor.
Como ainda faltavam décadas para o Um Anel se manifestar e tentar voltar a seu dono, as maiores preocupações de Anna estavam em criar seu filho e viver o dia a dia, para só depois aguardar o futuro. Sua vida era Darin e Thorin, e estas eram suas prioridades.
Já que o tempo permitia, Anna era frequentemente vista saindo da montanha pelas manhãs, com Darin e Hila, para tomar sol na floresta, especialmente ao lado do rio Corrente. Darin gostava de se sentir sem os trajes pesados e soltar os bracinhos no sol, deitado em sua cestinha perto do braço do rio. Anna também fazia esses "piqueniques" no terraço onde ficava seu jardim de ervas. Thorin preferia os passeios no terraço, por questões de segurança.
Não raro, o rei em pessoa acompanhava a consorte nesses passeios. Anna ficava admirada ao ver o carinho e a paciência de seu marido com o bebê, cujas mãozinhas agarravam o nariz e puxavam sua barba. Deitado de lado no cobertor onde ficava a cestinha de sair de Darin, Thorin parecia mais feliz e relaxado do que nunca. Então ele se dava conta que Anna o encarava e ele a beijava. Eram momentos que Anna mais prezava em sua memória como alguns dos mais felizes de toda a sua vida. Nessas horas, Anna podia ver como Thorin tinha sido importante na vida de Fíli e Kíli, órfãos, ambos sem ter ninguém em quem se espelhar a não ser o irmão de sua mãe.
Embora a relação com seu marido passasse por mudanças desde a chegada de Darin, não havia sinal que a paixão entre os dois houvesse diminuído. Se fosse sincera, na verdade Anna sentia estar cada vez mais apaixonada pelo Rei Sob a Montanha, e aguardava ansiosamente pelo fim do resguardo e a liberação de Óin.
No geral, a vida era boa.
Foi quando os pesadelos começaram.
A princípio, eram apenas sobressaltos noturnos. Anna acordava no meio da noite, assustada e ofegante, sem saber o motivo nem lembrar o sonho. Muitas vezes, Thorin nem percebia. Demorava até Anna conseguir retomar o sono depois.
Não demorou muito, porém, até Anna desenvolver pesadelos assustadores, que a faziam debater-se ou dizer coisas desconexas. Muitas vezes ela não se lembrava do sonho, mas as sensações ruins perduravam. Eventualmente, porém, os sonhos foram ficando nítidos: Thorin a expulsando de Erebor, Anna fugindo de Erebor, Thorin morrendo em batalha na frente de Anna... E cenas impossíveis como Anna traindo Thorin com um elfo, ou Thorin sendo assassinado durante um assalto numa rua da era moderna por uma gangue de jovens que certamente não pertencia à Terra Média. Tantos cenários de angústia, sofrimento e desolação. Às vezes Anna ficava tão perturbada e chorava tão desoladamente que nem Thorin conseguia consolá-la.
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— Como você ousa querer ser rainha de Erebor?
Anna estava diante do fantasma de Thrór, acovardada, tentando dizer:
— Não, eu...
Foi interrompida:
— Estrangeira! Bruxa! Você está conspurcando meu neto e meu reino!
— Mas eu amo Thorin!
A voz dura do rei sob a montanha acusou:
— Você o enfeitiçou!
— Não, por favor! Eu o amo!
Anna então localizou Thorin: pálido, fraco, sentado no trono, com sua coroa, amarrado e amordaçado. Anna sentiu um aperto no coração.
— Thorin!
Havia outros anões furiosos que a impediam de chegar mais perto de Thorin, muitos deles. Pior: também afastavam Anna dos demais membros da Companhia. Ela estava sozinha e isolada.
O fantasma de Thrór avolumou-se diante dela, agora brandindo um baruk gigante, gritando:
— FORA!
Num impulso, Anna agarrou Darin (que ela só então se deu conta de estar segurando) e correu para fora da montanha antes que fosse decapitada pela arma.
Assim que saiu da montanha, porém, ela se viu frente a frente com Smaug, mais magnífico do que nunca, os olhos reptilianos focados nela, a expressão de ganância e cobiça que ela conhecia. A voz do dragão reverberou, afogando seu coração de tanto pavor:
— Que gentileza sua trazer uma oferenda tão apetitosa, gravidinha...!
Foi quando o grito de Anna, de tão agudo, pareceu dissolver toda a realidade à sua volta, jogando-a num oceano disforme de terror e angústia, de onde Darin parecia derreter em seus braços, e seu grito era um eco dissonante capaz de preencher todo o ambiente...
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— Anna! Anna, acorde!
A voz de Thorin soava distante aos ouvidos de Anna, ainda presa na terrível realidade de seu pesadelo. Thorin então a sacudiu, chamando:
— Anna! Pelo amor de Mahal, Anna, me escute!
Com esforço, Anna conseguiu focar no rosto do marido. Aos poucos, ela finalmente se apercebeu de onde estava: em seu quarto, na sua cama, com seu marido, que a encarava com preocupação. Anna estava encharcada de suor, ofegante, pálida e trêmula, com o coração disparado e os olhos arregalados. Thorin ainda a chamava:
— Ghivasha, fale comigo! O que houve?
Ela sussurrou, rouca de tanto gritar:
— Thorin... Por favor... Me abrace...
Ele obedeceu, assustado por ver Anna agarrar-se a ele como se estivesse com medo que ele desaparecesse diante de seus olhos, soluçando convulsivamente. Thorin já vira Anna assustada antes, mas as últimas noites tinham sido as piores. Ela tremia em seus braços, sussurrando enquanto pedia repetidamente que ele a abraçasse. Thorin murmurava palavras de consolo em Khuzdul, como fazia quando Darin chorava por não conseguir dormir. Durante muito tempo Thorin a manteve em seus braços, tentando acalmá-la enquanto ela encharcava sua roupa de dormir. Finalmente, os soluços se tornaram mais espaçados. Thorin se aliviou, pensando que Anna poderia voltar a dormir.
Por sua vez, tinha sido puro cansaço que fizera Anna parar de chorar. Mas o terror ainda estava lá: os olhos claros de Thrór a fuzilando como lasers, a multidão de anões a isolando de Thorin e dos demais, a rejeição a atingindo fisicamente.
A proximidade de Thorin era um bálsamo para sua aflição. Ela sentira o cheiro de pinheiros e maçãs que sempre associava a seu amor, ao cheiro da segurança e do carinho de seu marido. Ele a tranquilizava, relaxava. Por isso, Anna pediu:
— Desculpe.
Anna sentiu Thorin se sobressaltar. Ele provavelmente pensara que ela tinha voltado a pegar no sono. A voz dele soou baixa:
— Não foi sua culpa, ghivashel. Foi só um pesadelo.
— Ainda sou uma pequena boba e medrosa. Desculpe ser um estorvo.
Thorin garantiu:
— Você certamente não é. Agora tente dormir.
— Vá dormir você — disse ela, sentando-se na cama com um suspiro. — Darin deve querer comer daqui a pouco. Não vai adiantar eu pegar no sono. Descanse, marido.
Thorin sentou-se ao lado dela, observando o rosto dela iluminado pela lareira no quarto. Seus dedos percorreram a face ainda úmida e ele disse:
— Esses seus sonhos me inquietam, meu tesouro.
Anna tentou minimizar:
— Não deviam, são sonhos tolos. Eu me assusto porque a maior parte deles nos separa, e isto é um dos meus maiores medos, kurdu, se não for o maior, porque eu não acho que possa sobreviver longe de você.
— Nem eu — disse ele. — Rivendell foi uma lição que aprendi bem. Quando suas funções diplomáticas a obrigarem a viajar para longe de Erebor, eu sofrerei com sua ausência.
— Assim que Óin me liberar, farei uma visita de agradecimento a Mirkwood. Aquela jovem, Tauriel, foi muito atenciosa numa hora de grande necessidade. Não acha?
— Tem razão.
— E Óin sempre me deixa comovida, ao permitir que elfos cuidem de minha saúde. Ele não gosta deles, mas permite.
— Você está bem agora, não está?
— Sim, claro. Como eu disse, são pesadelos bobos.
No quarto ao lado, um chorinho chamou a atenção dos dois.
— Seu filho me chama, meu rei. É melhor eu ir logo, ou ele vai acordar a família toda.
Anna beijou o nariz de Thorin e se levantou. Darin mexia os bracinhos, faminto e irritado. Anna aproximou-se do berço e pegou-o, dizendo:
— Calma, filhinho, mamãe está aqui. Vamos ver se primeiro você precisa ser trocado. Aposto que sim.
Com dificuldade (mãe de primeira viagem era uma desgraça), Anna limpou o filho, brincando com ele antes de recolher a roupinha suja enquanto falava com doçura com a criança, que parecia prestes a se impacientar.
Só então ela se sentou na poltrona e amamentou o neném com um sorriso, ao vê-lo alimentar-se com vontade. Anna sentia cada momento desses ser mágico, totalmente único. Ela cantava para ele, normalmente canções dos Beatles. Era o que fazia quando notou um movimento na porta. Thorin observava a cena, sorrindo.
— Há quanto tempo está aí?
— Pouco tempo. É uma cena que quero ver mais vezes. Nunca pensei em ver isso... Minha mulher amamentando meu filho.
Anna sorriu tristemente.
— Meu pobre amor... Você merece esta felicidade, Thorin. Depois de todo o seu sacrifício e suas perdas, você agora sabe o que realmente tem valor na vida. Não são gemas e ouro.
Thorin lembrou:
— Por isso você é minha ghivashel. Nada é mais valioso do que você e nosso filho.
— Você é ukurduh, meu coração, meu sopro de vida. Sem você, eu seria um fiapo de existência. Por isso, eu não poderia voltar para o lugar de onde vim. Este é meu lar, a seu lado. Em qualquer mundo, em qualquer lugar.
— Eu nunca me separarei de vocês, nem deixarei que nada nos separe.
Thorin sorriu e beijou os lábios de sua esposa, coração estourando de felicidade. Anna também sorria, os olhos brilhando. O momento era perfeito.
Mal sabiam eles que a promessa de Thorin não duraria seis meses, e um acontecimento terrível os separaria.
Palavras em Khuzdul
kurdu = coração
baruk = machado
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
ghivasha = tesouro
ukurduh = meu coração
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