Vida De Monstro - Livro Três - A Guerra
12 XII - Michael
Notas iniciais
XII – Michael
Ainda dava para sentir dores fortes no peito, culpa de um vampiro que arrancou quatro costelas direto do meu peito e de outro vampiro que depois de um soco fez com que outra costela perfurasse meu pulmão, por pouco não morri. Antes que a morte me alcançasse agarrei a garganta de um dos vampiros e arranquei a carótida dele com meus dentes engolindo muito sangue e senti algo dentro de mim se inflamar forte o suficiente para eu perder a consciência e acordar com Peter me erguendo do chão rodeado de corpos e sangue.
Naquela tarde perdemos sete da nossa tribo, e ela foi a que teve a menor quantia de baixas. Uma das tribos chegou a ter sua aldeia quase dizimada deixando apenas alguma cabanas em pé. Os vampiros estavam desesperados por destruição e como eles mesmos já colocaram, só iam parar quando a cabeça do culpado fosse entregue, um culpado que não existia.
O próprio grande líder fez uma “busca” em todos os membros dos Filhos de Coahoma, ele pareceu ver nossas próprias almas em busca de alguém que estivesse mentindo, e ninguém foi achado. De acordo com os vampiros o culpado só podia ser dessa tribo, mas de acordo com o grande líder isso era uma mentira. Um dos dois lados estava mentindo, ou pior, dizendo a verdade.
Tomei uma espécie de chá que Peter me ofereceu, era uma espécie de super-analgésico natural que era usado nas nossas enfermarias para ajudar os feridos a suportarem a dor. Naquele momento eu estava dentro da enfermaria e não era uma bela cena, dezenas de meus companheiros de tribo, e membros de outras tribos, deitados em macas agonizando de dor e sendo tratados a pressas para não morrerem de hemorragia ou coisa pior. O cheiro me deixava louco, uma mistura de sangue, ervas medicinais e outras coisas que não podia distinguir.
Antes de sair dali pelo cheiro tive que dar uma passada pela maca onde Carl estava deitado. Ele havia lutado contra um vampiro que dilacerou a garganta dele e só se salvou por muito pouco, estava em coma forçado e cheio de fios ligados a ele, soro, glicose e alguns tipos de líquidos curativos que tentavam mantê-lo vivo por tempo suficiente para ele receber um tratamento do grande líder que seria o único capaz de salvá-lo e outros cinco que estavam na mesma situação dele.
Mas graças a Carl e aos outros descobrimos algo interessante e assustador, quando o vampiro bebe o sangue de um lobisomem que já realizou sua primeira transformação e está transformado o vampiro enlouquece ao beber o sangue. Nos primeiros cinco minutos ele parece normal, mas então ele tem um surto de força, velocidade, agilidade, destreza e melhoramento dos seus já melhorados sentidos, mas tudo tem um preço. Após cinco minutos o vampiro entra em uma espécie de estado de loucura como se ele estivesse possuído por uma besta incontrolável, idêntico a quando me transformo de acordo com Peter.
Senti a luz batendo na minha cara, era quase meio dia na nossa tribo, aquele era o melhor posto possível para cuidar dos feridos já que a grande tribo era atacada frequentemente pelos vampiros, aquele era o símbolo máximo do nosso poder, destruir a grande tribo acabaria com nossa determinação e vontade de lutar:
-Se sentindo melhor? – perguntou Hector, meu líder e que estava cheio de bandagens no peito e na perna esquerda
-Um pouco – falei mexendo no meu ombro – Melhor do que todos que estão nas macas
-Verdade – o líder olhou para a enfermaria e dava para ver sua raiva – O grande líder acabou de me mandar uma mensagem exigindo sua presença em uma missão
-Tenho que ficar, proteger os meus irmãos
-Não foi um pedido de um amiguinho estúpido seu Michael, foi uma ordem do grande líder e nada nem ninguém está acima de uma ordem dele
-Sim líder, me desculpe – abaixei a cabeça
-Não abaixe a cabeça seu idiota, agora pegue e vá, toda as instruções estão contidas nesse papel
Peguei o pedaço de papel das mãos do líder e fui ajeitar minhas coisas com o máximo de velocidade possível e peguei uma comidinha para a viagem, carne seca e dura, frutas banhadas em mel e água.
Fiquei comendo algumas tâmaras e morangos enquanto caminhava para o ponto de encontro, de acordo com os meus cálculos chegaria lá no fim da tarde. Seria num ponto da floresta onde existe uma enorme pedra, é fácil de achar mesmo você sendo um inimigo que nunca foi ali.
Dava para escutar algo me seguindo e se eu não estivesse maluco que reconhecia aqueles passos perfeitamente. Andei sem mais me preocupar se era um inimigo ou não, e não era. Quando faltava meia hora para o anoitecer eu apressei mais o passo e bebi bastante água, não podia me atrasar.
Consegui avistar a pedra de longe, duas pessoas já estavam lá paradas e reconhecia uma delas:
-Finalmente os dois chegaram – disse o homem com cara de urubu, o líder Paul Water, já havia o visto antes no encontro dos lideres na grande tribo e andando um tempo com ele e com a pessoa que estava ao seu lado, um rapaz alto, de cabelos castanhos, pele branca, olhos castanhos claros e devia ter no máximo vinte anos, ele foi o escolhido da tribo de Paul para segui-lo na reunião de guerra
Atrás de mim algo uivou, era Rebecca que havia me seguido o percurso inteiro e só agora se mostrava de verdade:
-Agora vamos ir andando, pois temos trabalho a fazer – disse Paul andando e nos apresentando seu pupilo, Hugo Rock
Peguei o papel em mãos e reli antes que a noite caísse totalmente, devíamos nos juntar na pedra e seguir o líder que ali encontrássemos até chegar ao local que ele dissesse e fossemos interceptar um suposto grupo de lobisomens dos the killers que trabalhavam diretamente para Ferdinand Alimovich. Nosso objetivo era obter informações e só no ultimo caso não deixar sobreviventes.
Caminhávamos em plena escuridão apenas iluminados por uma lua minguante e algumas estrelas, de acordo com Paul o grupo inimigo se reuniria próximo da grande tribo essa noite ainda para ver a condição atual dela e onde estão seus novos pontos fortes e fracos para dessa forma informar o chefe e atacarem o mais rápido possível. O grupo era composto apenas da elite de Ferdinand e por isso eles precisavam de bons guerreiros, um líder e três membros da elite como eu, Hugo e Rebecca éramos.
Ainda não dava para sentir nenhum adversário e eu já havia bebido toda a água e comido boa parte das frutas, se demorasse mais não sei se ia conseguir lutar direito. Mas antes que eu pensassem qualquer coisa Paul ergue o punho direito fechado indicando que parássemos de andar.
Concentrei minhas forças na minha audição e escutei pessoas sussurrando muito baixo, estávamos ainda relativamente longe da grande tribo, mas pelo que dava pra entender da conversa eles já haviam ido para lá e estavam retornando. Eles haviam ido mais rápido do que previmos e agora tínhamos que vencê-los ou então podíamos correr graves erros.
Paul e Rebecca foram os primeiros a atacar, não podíamos mais perder tempo com nada, não devíamos matar todos, mas não significava que todos tinham que ficar vivos, só precisávamos de um para obter informações.
Pelo que vi haviam cinco lobisomens ali no grupo já que só vi cinco pessoas e todos se transformaram assim que nos perceberam. Rebecca gravou as garras na garganta de um deles enquanto Paul pegava dois pelos pescoços e os levava para longe dali. Eu e Hugo ficamos sozinhos com dois lobisomens nas nossas frentes, Hugo começou sua transformações, mas eu não perdi tanto tempo assim, senti aquela queimação na minha mão esquerda e acabei transformando apenas o meu braço esquerdo.
Transformação apenas um pedaço do corpo era difícil, cansativo e complicado para novatos, mas se dominasse era bem útil e eu era quase mestre nisso, pelo menos nos últimos tempos. Cravei um soco no peito do lobisomem fazendo-o ir para trás e antes que pudesse recuperar a respiração acertei um gancho direto no queixo dele fazendo o idiota cair no chão, antes que ele pudesse se recompor enfiei as garras no peito dele e arranquei seu coração ainda batendo do peito. Olhei para aquilo e senti vontade de comer o coração e beber gota por gota daquele liquido vermelho que parecia brilhar na lua, mas assim que Hugo apareceu do meu lado me contive e joguei o coração para longe:
-Pensei que fosse um novato – ele falou voltando ao estado humano e batendo no meu ombro
-De vez em quando eu tenho esses momentos de poder
Podíamos ter ficado ali parados só esperando os outros voltarem, mas então escutei um uivo de Rebecca, um uivo de dor. Corremos na direção dela e não posso dizer que não fiquei surpreso. Ao lado de Rebecca estavam duas criaturas metade animal, mas não eram metade lobo, mas sim metade tigre. Ambos os homens-tigre estavam transformados em seres animalescos e um deles tinha sangue nas mãos, o mesmo sangue que saia do ferimento de Rebecca.
Avancei na direção dele sentindo minha transformação vir por completo e em poucos segundos tinha pedaços de tigre em mãos. Comecei a sentir minha lucidez sumindo e quando percebi tinha mais pedaços de tigre em mãos, dessa vez do outro homem-tigre. Antes que eu enlouquecesse definitivamente escutei o uivo de Rebecca e lembrei da voz de Ella. Aquilo foi me tranqüilizando de tal jeito que só lembro de cair no chão e apagar.
Acordei com um balde de água gelada na cara e Hector me batendo no rosto, por sorte de leve. Levantei da cama onde estava deitado e peguei a toalha que o líder ofereceu:
-Soube do encontro com os meio-tigres
-Só conhecia aqueles caras de lendas que li quando viajei para Ásia uma vez, pensei que eles não pudessem vir pra cá
-E não podem, leis muitos antigas deixam bem claro que eles só devem viver na Ásia, na regia que abrangi índia, china, coréia, Japão, Mongólia e terras adjacentes, nada mais, mas eles vieram pra cá e isso é uma quebra a essa lei
-E logo em um período de guerra e ao lado dos the killers
-Então você também percebeu?
-Só um idiota não se tocaria agora do que está acontecendo, Ferdinand está forçando todos os inimigos dos lobisomens a avançarem contra eles, vampiros, meio-tigres
-Soube que dois doppelgangers foram achados no meio de uma luta perto da grande tribo, os dois estavam disfarçados de lobisomens
-Até eles então, pelo que soube é Ferdinand que lidera a parte de todos os metamorfos nos the killers então isso é culpa dele totalmente
-Sim, mas mesmo que resolvamos nosso novo problema ainda falta o mais antigo, os vampiros
Bebi um pouco d’água e comi um pedaço de pão, sentia dor de cabeça e dor no ombro, mas não ia reclamar:
-Ferdinand também é a resposta pra esse problema ai, só não sei como, mas ele é
-O grande líder, eu e os outros lideres concordamos, mas sem provas nada adianta, continuamos a ser os culpados até termos a prova que os ataque foram feitos por eles, o problema é que se o informante dos vampiros estiver certo então temos um paradoxo grave ai
-Nenhum de nos mentiu, de acordo com o grande líder, mas os vampiros dizem que alguém com nossa marca atacou, poderia ser um traidor, mas traidores perdem sua marca
-Exato, estamos perdidos se não acharmos uma solução, só vampiros já são demais pra gente e agora com esses novos problemas, não sei se vamos sobreviver
-Como um sábio homem um dia disse, a esperança é a ultima que morre – disse o grande líder Miakoda entrando no local onde estávamos que devia ser a tenda de Hector
-Por isso ainda estamos aqui em pé lutando grande líder – disse Hector fazendo uma reverencia e também fiz a reverencia, mas antes comi mais um pedaço de pão
-Verdade Hector, como todos já devem saber temos mais inimigos vindo e a causa são os the killers, principalmente a parte liderada por Ferdinand, temos que acabar com isso antes de tudo piorar a tal ponto que nem a esperança nos reste e só vejo uma forma disso acabar
-Acabando com Ferdinand – não consegui controlar a satisfação na minha voz, havia finalmente chegado a hora
-Sim Michael, você esta certo, mas não será você a fazê-lo
-Então presumo que sei eu – disse Hector com a mesma satisfação que disse
-Também não Hector, nenhum dos dois está pronto ainda para alguém no nível de Ferdinand e se ousarem discordar serão punidos
-Então quem será?
-Ninguém do interesse de ambos, agora se nos der licença Michael tenho que ter uma conversa a sós com Hector
-Sim grande líder
Dei as costas para a dupla e sai da tenda, pelo sol devia ser no máximo nove da manhã. Pessoas andavam mais calmamente do que ontem, mas não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Respirei fundo o ar da manhã que parecia ótimo e tomei uma decisão, iria explorar mais a floresta. Não peguei comida, apenas uma roupa nova e pronto, não sabia quando teria uma nova chance de fazer isso então era bom fazer enquanto tivesse tempo.
Caminhei por meio das árvores já conhecidas, mas no meio do caminho mudei a direção de propósito e comecei a me meter nas partes desconhecidas da floresta. Peter uma vez me contou que na direção que eu peguei se eu andasse bastante poderia achar uma suposta caverna escondida que havia por ali. A floresta era cheia de segredos, Peter me contou, mesmo os mais velhos não sabiam todos os seus segredos mesmo andando ali milhares de vezes.
Andava em meio as árvores e nada de ver essa tal caverna escondida, talvez pelo fato dela ser escondida ou talvez por Peter só estava brincando com a minha cara, algo que não duvidava.
Cada vez que nadava acabava fazendo muito barulho, por mais que me locomovesse com perfeição ainda fazia barulho, até Hector e os outros faziam, as únicas pessoas que eu conhecia que conseguiam andar sem fazer um único misero som, a caminhada perfeita, o lendário passo das sombras, eram John, Miakoda e Amy. E cá entre nos eu não entendia como ela era tão boa, mas acho que era a genialidade dela, aquela pirralha bebêzona era boa em qualquer coisa que ela quisesse aprender e mesmo se fazendo de idiota e fraca ela era muito diferente disso e espero que o demônio estúpido consiga por isso não cabeça dela de uma vez por todas.
Mas o que importava não era o barulho que eu fazia, mas sim um barulhinho que estava escutando enquanto andava, era água corrente, mas não havia rio nenhum por perto, pelo menos não acima da superfície. A cada passo que dava para leste maior o barulho de água se tornava, mas ainda não conseguia ver nada ali que fosse uma caverna.
A cada passo a idéia de eu estar tendo uma alucinação me parecia mais correta do que a existência de um rio subterrâneo por ali. Era impossível ter uma caverna por ali e eu ainda não tê-la percebido. Então desisti, já havia andado o bastante e não tinha mais lógica continuar atrás de um lugar que ninguém havia visto e que me tinha sido informado pelo Peter. Eu tinha que voltar e comer logo, nunca se sabe quando vai ser sua última refeição durante uma guerra e eu queria que a minha fosse o mais recente possível.
Já tinha andando mais de vinte passos na direção contraria do som da água corrente invisível, andava e andava cada vez mais rumo e tribo quando senti meus pés cedendo e quando notei estava caindo.
Toquei no chão mais rápido do que esperava, caí de bunda num chão feito de areia macia e musgo e acima da minha cabeça vinha luz, uma luz que entrava pelo buraco da minha queda e mostrava que eu tinha caído um pouco mais de dez metros de altura.
Olhei ao meu redor, areia e pedras cheias de musgo era tudo que eu podia enxergar e ao longe dava para ver algo reluzente, era um pequeno rio. Ao meu redor haviam vários pilares de calcário que um dia foram brancos, mas agora estavam esverdeados pelo musgo acumulado. Tudo ali lembrava ma espécie de caverna misturada com uma praia, pequenos caranguejos corriam entre as pedras e podia jurar que vi pequenos peixinhos prateados dentro do rio que não devia ter mais de cinqüenta centímetros de largura e quinze centímetros de profundidade. Mas mesmo assim era lindo e reluzente como se pedras brilhantes e preciosas residissem no seu fundo.
Segui o rumo contrario do rio, queria ver a sua nascente subterrânea e ver com meus próprios olhos onde esse local começava de verdade. A caminhada demorou, mas foi fácil e sem problemas, água não faltava e ela era limpa e potável, mas ainda assim meu estômago roncava. Já devia ser tarde para eu estar com fome, mas não podia ter certeza, não havia céu ali, apenas calcário no topo, a única luz daí vinha do rio luminescente.
Quando finalmente cheguei ao meu destino vi bem mais do que eu realmente esperava, havia na pedra um buraco a sete metros de altura que expelia água formando uma belíssima cachoeira reluzente e que descia rumo ao chão gerando o rio, mas não era apenas isso. Ali, embaixo da cachoeira reluzente estava a única coisa que não esperava encontrar ali embaixo naquela estranha caverna. Uma garota, havia uma garota ali, de longos cabelos negros que batiam na cintura dela e com olhos amarelos brilhantes. Eu já havia a visto antes, mas a pessoa que tinha visto tinha cabelo curto, olhos azuis, tinha óculos e dois piercings, era bastante diferente daquela que se banhava logo ali na minha frente, mas o rosto era idêntico:
-Ella? – perguntei me aproximando quase que hipnotizado daquela figura que se virou na minha direção e esbugalhou os olhos, eu a havia surpreendido e não podia culpá-la, ela estava nua, tomando banho calmamente numa caverna secreta e entoa era surpreendida por um pervertido maluco, eu não podia culpá-la, como também não podia me culpar – Ella?
A única coisa que a garota nua carregava era um cordão, um pequeno cordão com uma pedra branca. E então tudo se tornou negro.
Algo pulou em cima de mim, um vulto negro e animalesco. Aquilo já havia acontecido antes, quando visitei a grande tribo pela primeira vez, era Rebecca que me atacava. Ela estava em cima de mim me atacando e eu tentava reagir, mas era mais forte. Não era capaz de enfrentá-la até que senti algo me dando forças e joguei-a para longe.
Uma amedrontada loba negra me encarava com seus olhos amarelos e com uma pequena pedra branca no pescoço como se fosse um colar. Aquela coisa branca era uma pedra da lua. Eu não sabia como ela havia conseguido, mas ela havia, aquela garota era ela, era a forma humana dela. Tinha que ser:
-Rebecca – falei encarando aqueles olhos amedrontados, eu havia assustado ela seriamente
Ela rosnou na minha direção, ela estava indecisa, atacar ou não atacar? Era isso que seus olhos me mostravam. Andei alguns passos na sua direção e ela não recuou. Andei mais e mais e mais, mas ela não recuou. Cheguei tão perto dela que seu rosto lupino estava só a poucos centímetros de mim. Ela podia ter atacado e me matado, mas não fez:
-Rebecca – toquei seu rosto e vi o brilho dos seus olhos, eram tão lindos, eram quase humanos – Como você conseguiu isso?
Ela pareceu suspirar e então começou, ela estava se transformando. Queria virar o rosto e não encarar o corpo nu dela, mas pelo jeito que ela me olhava parecia que isso não faria diferença nenhuma, poderia até ser uma ofensa:
-Você me assustar – ela disse pausadamente cada palavra como se ainda tentasse aprendê-las
-Desculpe, eu não sabia que você estava aqui, eu nem sei onde estou – tentei tocá-la, mas ela afastou meu braço
-Esta ser a caverna de Coahoma – ela disse e senti meu corpo tremer
-Como assim a caverna de Coahoma?
-Ele fazer a caverna para os descendentes dele, ele a fazer para você
-Por que?
-Para isso – ela me tocou no pedaço de barbante que continha a pedra da lua – A pedra ser sua
-Como é?
-Grande líder me dizer para eu vir aqui, ele me falou onde entrar, onde achar a pedra, ele me pedir para te dar
Ela já ia tirar a pedra do pescoço e dessa forma me entregar e voltar a ser uma loba, mas dessa vez fui eu que afastei o braço dela:
-Ainda não – falei colocando minha mão no rosto dela por um curto segundo – Ainda quero falar mais com você
Ela só assentiu com a cabeça e quando vi nós dois estávamos sentando sobre a areia fina e gelada da caverna. Ela não tirou os olhos dos meus por um momento, e eu não reclamei:
-Por que você estava assim antes? – a pergunta era idiota, mas eu tinha que fazer
-Eu gostar – ela disse e pude ver o rosto dela ficando rosado – Não saber porque, mas eu gostar, ser estranho, mas ser bom
Minha mão esquerda se moveu sozinha e senti o toque entre a minha mão e o seu roto rosado. Ela era tão parecida com Ella, parecida demais. Só havia uma explicação para aquilo, eu sabia qual, mas ela simplesmente ficava sumindo da minha cabeça como se naquele momento não importasse.
Fui colocando lentamente meu corpo sobre o dela e nós dois fomos nos deitando sobre a areia. Dava para sentir o calor dela e ela também podia sentir o meu. Eu rosto ia ficando mais e mais vermelho, mas ela não reclamou em momento algum.
Minha mão esquerda agora estava descendo, e novamente Rebecca não reclamou. Elas duas eram tão parecidos, Ella e Rebecca eram praticamente a mesma pessoa e eu tinha que lembrar o porque, eu já sabia, mas o calor do corpo dela não me deixava lembrar, aquele momento não me fazia lembrar de nada. Apenas de continuar deixar minha mão e ir descendo, igual como meu rosto fazia enquanto ia descendo em direção ao rosto dela. Elas eram tão parecidas.
Beijei tão lentamente e com tanto prazer que aquilo nem pareceu ter fim. Parecia que tinham se passado horas enquanto nos beijávamos e eu realmente não sabia se era verdade ou não. Senti os braços dela rodeando as minhas costas e o calor de nossos corpos aumentar era fantástico:
-Eu amar você – ela disse com seu hálito quente tocando o meu rosto, como era bom – Desde que eu o ver, eu amar você
-Eu também te amo..... – escutei minha própria voz e a duvida no rosto de Rebecca, eu queria dizer o nome de Ella, mas agora já não era mais capaz de dizer o nome dela e mesmo ela sendo idêntica a Rebecca eu já não me lembrava do rosto dela – Eu te amo Rebecca
Senti nossos corpos se aproximando mais ainda como se fosse possível e beijei-a de novo. Não sabia quanto tempo estávamos ali, se já tinha começado mais uma luta, se mais algum havia morrida. Mas não importava mais. Não ali. Não agora.
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