Vida Boa
1 Família
Notas iniciais
Eu sempre fui uma pessoa muito pacata. Nunca quis chamar tanta atenção, muito menos me tornar o início da confusão. Não queria ter subido as escadas, eu estava morrendo de medo. Na realidade, não sei o porque de ter subido o morro aquela hora da madrugada. Ah sim, me lembrei. A luz. E a voz.
Eu estava voltando para casa a pé — coisa que sempre costumei fazer. Caleb morava há mais ou menos um kilômetro e meio da minha casa, e depois das noites de RPG (normalmente feitas as sextas-feiras), eu voltava a pé. Nunca tive medo, o trajeto sempre foi muito tranquilo. Bom, era tranquilo.
Naquela noite, eu estava sem o celular. Não havia notado que o tinha deixado na casa do Caleb, quando fui ao banheiro. Enquanto eu caminhava na encosta do monte que separava um lado da vizinhança do outro, ouvi uma voz baixinha, mas que parecia gritar. Ela vinha do topo do monte.
"Ei! Por favor, me ajuda!".
Meu corpo congelou. O frio e o vento cortante já não me encorajavam a olhar para cima, muito menos subir a ingreme escadaria mal feita que levava ao cume. Quando olhei, só pude ver uma pequena luz azulada, vindo em minha direção, e um vulto atrás do que parecia ser aquele que me pediu ajuda.
Voltei correndo para a casa do Caleb. Cheguei, abrindo a porta de supetão. Ele também parecia um pouco assustado. Me perguntou o que aconteceu.
__ Eu ouvi alguém pedindo ajuda, lá no topo do monte. Ele parece estar com problemas.
__ Tudo bem. Vou pegar a arma do meu avô e vamos subir juntos. Fique tranquila, La.
Tentei me acalmar. O que era aquele vulto preto, atrás do homem? Para que a luz azul? Porque alguém subiria o morro as dez horas da noite? Não tem nada lá em cima. Bom, nada que eu já tenha visto. Layla disse que, antigamente, um grupo de satanistas se reuniam ali para fazer sacrifícios de animais, e que ela mesma já havia visto vultos estranhos subindo a escadaria.
__ Pronto. Tem certeza que quer subir? Pode ficar aqui se quiser — ele terminou de encher o tambor do revólver com as balas.
__ Sim, eu vou junto com você.
Juntos, andamos até a encosta novamente. Caleb começou a subir as escadas, e eu o segui. A madeira era como sabão molhado — escorregadia e perigosa. Por vários momentos, quase perdi o equilíbrio, tendo que me segurar em sua mão para não rolar escada abaixo.
A cada passo que dava, ouvia meu coração bater mais forte. O silêncio da mata era inquietante, tudo estava quieto e amuado demais. A trilha era cheia de curvas fechadas, e eu sentia que alguém me observava por detrás da folhagem escura. Estavamos com uma lanterna forte acesa, mas nem ela era capaz de afastar completamente a escuridão.
Passamos bons minutos subindo os degraus, até finalmente alcançar o topo. Tudo parecia vazio. Tudo estava vazio.
Até eu olhar para a borda, onde supostamente o homem teria gritado por ajuda.
Soltei a lanterna, que iluminou ainda mais a imagem grotesca. Junto, veio um grito de horror. Desatei a chorar de desespero.
Uma cabeça. Decepada. Embebida no próprio sangue. Jogada na terra.
*
A manhã estava ótima. Por sorte, Sherlock acordou mais cedo que o usual. Beijou a testa da esposa, passou no quarto do filho para acordá-lo e rumou a cozinha. Sonolento, começou a fazer o café.
O 221B, ele notara, estava completamente arrumado. Molly não deixava nada ficar fora do lugar. Todas as xícaras no armário, as sobras no lixo, as almofadas espalhadas pelo sofá. A lição de casa e o material escolar do pequeno Daniel nunca ficavam fora do quarto. O garoto sabia que, se um só lápis não voltasse para o estojo, e depois para a bolsa, sua mãe surtaria.
Enquanto terminava de colocar o pó do café na cafeteira, o pequenino apareceu. Bem disposto — como sempre -, sentou-se a mesa. Daniel tinha os mesmos olhos verdes-azulados do pai, assim como o cabelo cacheado e castanho. A boca lembrava mais a mãe, mas ainda tinha um leve esboço de coração. Em relação a sua personalidade, fizera questão de ser uma amalgama do casal, tendo a mesma coragem dos Hooper e a determinação e inteligência dos Holmes.
__ Pai, pega o leite?
__ Pega você — o patriarca respondeu.
__ Mas está muito no alto! Você sempre deixa ele na ultima prateleira da geladeira.
__ Você quer o leite. Você cria um jeito de pegar o leite. Aprenda a fazer as coisas sozinho.
__ Sherlock! — Molly apareceu. Beijou a cabeça do filho, indo em direção a geladeira e abrindo a porta.
__ Molly, não. Ele tem que aprender a fazer as coisas por si próprio.
__ Sherlock, ele tem seis anos!
__ Eu tinha seis anos e já sabia o que fazer para pegar o leite da última prateleira da geladeira.
__ É, sabia mesmo. E quando foi tentar sua ideia genial de subir na cadeira e no pote de açúcar, você caiu, quebrou o pote e rachou a testa — ela respondeu. Daniel soltou uma risada abafada. O olhar repreensivo do pai o fez parar de rir em poucos instantes.
__ Nem sempre o prático e o teórico têm o mesmo resultado.
__ E eu não quero que isso aconteça com o meu menino. Pronto, Dan — entregou ao pequeno a caixa de leite. Daniel abriu um sorriso. Sherlock virou-se de volta para a cafeteira. O café já estava quase pronto.
Molly protegia demais o filho. Seu zelo com a criança começou desde o nascimento. Sherlock, mais do que ninguém, acreditava no "aprender fazendo": o melhor modo de aprender a fazer algo é fazendo. E errar faz parte do processo.
A campainha tocou.
__ Está esperando alguém? — a ruiva perguntou, colocando a cesta de pães na mesa, ao lado da manteiga e da lata de açúcar. O marido gesticulou um "não" com a cabeça. — Cliente?
__ Pelo tempo que apertou a campainha, suponho que seja Lestrade.
Depois de alguns segundos, Greg apareceu a porta.
__ Ora, bom dia! — abriu um sorriso ao ver a família reunida.
__ Bom dia, Lestrade! Quer comer alguma coisa? — Molly acenou para a mesa da cozinha.
__ Não, mas obrigado. Sherlock, caso novo.
__ Como é?
__ Decapitação. Encontraram ontem a noite, num monte aos arredores da cidade.
__ Alguma testemunha?
__ Uma. Larissa Anderson. Ela ouviu alguém pedindo por ajuda no topo do morro. Pediu parar um amigo subir com ela. Encontraram a cena fresca, pelo menos de 20 minutos depois do assassinato.
__ Hm. Me passe o local por mensagem, só vou me trocar e te encontro lá.
Notas finais
Beijinhos da ruiva,
Amelia.
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