Viajantes - O Príncipe de Âmbar
4 Capítulo III
Notas iniciais
A loja estava exatamente onde ele dissera que estaria.
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O menino parado na calçada trazia várias sacolas em seus braços, e olhava em volta distraída e despreocupadamente. Ele não poderia ter mais que doze ou treze anos e tinha uma fisionomia inocente e um tanto elétrica, como que com uma espécie de energia contida sob seus olhos bem abertos.
Parecia estar esperando alguém. Cerca de dez minutos haviam se passado quando ele viu a figura familiar correndo sem urgência em sua direção.
— Hey! Desculpe a demora — disse a garota de cabelos dourados, o peito subindo e descendo pelo coração acelerado, mas sem falta de ar pelo exercício leve. Ela trazia a mesma energia em seu olhar — uma das semelhanças mais claras entre eles, apesar de sua sutileza inerente. Ela também trazia sacolas, todas em seu braço esquerdo. — O que conseguiu?
O garoto deu um sorriso enigmático, como quem está satisfeito consigo mesmo.
— Bom, o de sempre. Algumas barras de chocolate para dividir com os outros, barrinhas de cereal, alguns livros com nome interessante, caderno, canetas… — disse, olhando rapidamente pelas sacolas. Então, ergueu os olhos para a garota e fez uma pausa dramática, enquanto retirava um pequeno volume de uma delas em um gesto teatral. — … isto aqui…
A garota imediatamente saltou para frente, arrancando o livreto de sua mão com a mão esquerda. Era um volume de mangá.
— JÁ SAIU O NOVO VOLUME!? — exclamou ela, radiante, examinando a capa com o olhar extasiado. Ela fez menção se abrí-lo, mas o garoto interrompeu, rindo.
— Não leia ainda! Assim não vai ter nenhum para ler depois, e vai ter que esperar mais um mês!
— Eu sei disso — respondeu a garota, sorridente. — Eu só queria dar uma olhada.
— E você, Kath? O que comprou? — perguntou ele, então.
— Não muita coisa — disse ela, guardando o mangá em uma das sacolas com dificuldade. — Um rolo de barbante, isqueiro e canivete suíço novos, um kit de agulhas de costura para remendar a camisa dos meninos e uma mini caixinha de ferramentas, além de algumas outras coisas. Ah! E mais bateria e filme, também.
— E dois pacotes de macarrão? — o garoto ergueu uma sobrancelha, com um sorriso torto.
— E dois pacotes de macarrão. — concordou ela, rindo.
— Bom, acho que podemos ir, então. — ele pensou um pouco. — Onde vamos deixar as coisas? Não quero voltar e descobrir que estou sem moedas de novo.
— Sem di-nhei-ro. — corrigiu ela. — Também tem notas aí.
— Certo. Que estou sem di-nhei-ro de novo — riu ele, imitando sua fala pausada.
— Bom, eu acho que a construção abandonada ainda é um bom esconderijo — disse ela, pensando. — Só fomos roubados lá uma vez. Dessa vez podemos colocar dentro das paredes. Talvez assim fique mais seguro.
— Bom, eu confio em você — afirmou ele. — Se você está dizendo que é seguro, eu acredito.
— Obrigada — disse ela, sorrindo, as bochechas corando levemente. — Então, vamos indo?
— Ah, espera! — ele lembrou-se de algo. — Como estão as bandagens?
A garota torceu a cabeça para olhar por sobre os ombros as faixas enroladas em seu braço livre.
— Hm, acho que ainda estão boas. Talvez seja hora de trocar as de cima, mas como estamos indo embora agora podemos ver isso quando chegarmos em casa, já que vamos tirar todas lá.
— Ainda temos tempo. Vamos ver isso agora.
— Tudo bem, mas onde tem algum banco por aqui?
— Tem um mais para trás, na rua pela qual eu vim. — disse ele, virando-se. — Vem comigo.
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— Mangás não são a coisa mais perfeita do mundo?
A garota suspirava, meio sonhadora, olhando para a sacola com o volume.
Ela estava sentada em um banco de concreto, preso ao chão da calçada. As sacolas agora descansavam ao seu lado, em um pequeno amontoado.
O menino, ajoelhado no chão ao seu lado, tinha soltado um pouco as faixas de tecido próximo ao ombro direito e limpava cuidadosamente o ferimento no alto do braço da garota.
— Nunca parei para prestar atenção. — disse ele. — Não são apenas livros contados em imagens?
— Sim e não. Algumas coisas são diferentes — respondeu ela. — As histórias nos mangás têm um ritmo diferente, e costumam prestar mais atenção às expressões dos personagens, enquanto os livros tendem a focar mais nos pensamentos... ai!
Uma pontada dolorida percorreu seu braço a partir do ombro ferido.
— Você devia tomar cuidado da próxima vez, Kath — o garoto disse, com um sorriso discreto. — Se fosse mais cuidadosa, eu não ia precisar te remendar toda vez que volta. Pelo menos, dessa vez não teve que costurar.
— Eu não tenho culpa — protestou ela. — Você fala como se fosse fácil!
— Bom, eu tenho menos marcas que você — disse ele, divertido.
— Eu viajo mais do que você — apontou ela.
— Ok, ok — ele se rendeu. — Pronto. Acabei.
Ele terminou de enrolar a bandagem e prendeu-a com um nó discreto.
A menina olhou para a bandagem recém-enrolada. Testou girar um pouco o ombro, mas uma pontada aguda a fez arquejar.
— Ei, vai com calma — disse o garoto. — Eu acabei de limpar isso, e só faz um dia que estamos cuidando dele. Se forçar demais, vai voltar a sangrar. — Carinhosamente, ele cobriu a mão da garota com a sua. — Não precisa ter pressa, tá? O mundo não vai acabar nos próximos quinze minutos.
A garota sorriu de leve. Ele sempre tomava conta dela.
— Está bem. Vou tomar cuidado.
— Obrigado.
Rapidamente o garoto procurou uma das sacolas e guardou o resto do rolo da faixa de tecido, um pequeno frasco cheio pela metade com um líquido transparente e uma pequena massa branca semelhante a uma bola de algodão, mas com uma superfície distintamente mais uniforme. Essa sacola era uma de duas que se distinguiam das outras, de um material diferente, mais denso, e com uma única alça.
Então, os dois colocaram-se de pé e puseram-se a pegar as outras e colocá-las nos braços. Quando já tinham todas em mãos, a garota olhou em volta uma última vez para verificar se não tinham esquecido nada.
— Vamos, então? — disse ela.
— Vamos.
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Os dois sabiam que jamais veriam o término da construção. A despeito disso, porém, era um ótimo esconderijo.
As paredes inacabadas davam uma visão privilegiada de grande parte dos esqueletos e do interior vazio do edifício de dois andares, dos tijolos e concreto às vigas de aço. A escada já estava terminada, assim como o chão nu, mas pouca coisa além disso.
Quando tornaram a sair da edificação, apenas uma das sacolas de alça única não estava com eles. Era a sacola onde guardavam o dinheiro quando iam ficar algum tempo longe. Como não precisavam dele quando estavam fora, não valia a pena carregá-lo por aí, de forma que um bom esconderijo era algo extremamente conveniente.
Assim que pisou na pedra da calçada, a garota inconscientemente olhou para trás por sobre os ombros. Faltava pouco agora.
Ao seu lado, o menino não estava surpreso com o gesto. Nos últimos anos, com tantas coisas mudando naquele lugar e tantas outras sendo descobertas fora dali, já não era mais tão difícil para ela como era antes, mas estar ali ainda trazia lembranças. Afinal, ela tinha tomado uma decisão muito difícil naquela noite, e agora era tarde para voltar atrás. Seis anos era muito tempo.
Instintivamente, ele deu um passo em sua direção e segurou sua mão.
— Já podemos ir — disse ele, o convite sutil implícito em sua afirmação.
A garota concordou com com um gesto de cabeça.
Os dois olharam em volta rapidamente.
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