Viajantes - O Príncipe de Âmbar
5 Capítulo IV
Notas iniciais
Na manhã de sábado, Dean acordou relativamente cedo. Por um momento, nem acreditou que eram apenas sete horas; costumava acordar acerca das dez, e isso com a ajuda do despertador.
Ele pensou em voltar para a cama, mas mudou de ideia. Não estava com muita vontade de levantar, mas por algum motivo tinha certeza de que não conseguiria dormir de novo. Criando coragem, ele se espreguiçou e ficou de pé.
O corredor do lado de fora do quarto estava bastante silencioso, a ponto de ele se perguntar se acabaria acordando os irmãos com seus passos, mesmo estando descanço sobre o carpete que forrava o chão do segundo andar.
O primeiro quarto ao lado do seu era o de Simon. Em seguida vinha o de Dan, e por fim a porta branca que dava para o banheiro, que ficava imediatamente em frente à escada. Dean se lembrava vagamente de ter caído dali uma vez, quando era pequeno, mas agora um corrimão branco simples separava o corredor e a escadaria rente a ele, então era especialmente difícil tropeçar em direção ao andar de baixo.
A mesma luminosidade sutil do amanhecer que agraciava seu quarto atravessava as janelas da sala, iluminando parte do cômodo graciosamente. Era como se um filtro de um claro tom de azul esbranquiçado suavizasse as cores de todo o lugar, exceto pelas pequenas áreas ao alcance do sol, cujo amarelo gentil as acentuava.
Era sábado, então não haveria escola. Dean resolveu preparar um café da manhã. Ainda estava com um pouco de preguiça para preparar coisas elaboradas, então optou por uma prática xícara de café com leite.
Tomou um longo gole, levando quase um terço da bebida de uma vez. Sem pressa, apoiou a xícara na mesa, bocejando.
Nesse momento, sua atenção foi captada por um pedaço de papel arrancado de um caderno em cima da bancada. Dean tomou mais um gole antes de ir ver do que se tratava. Conforme se aproximou, reconheceu a caligrafia do irmão.
"Um dos meus colegas do trabalho ficou doente e o chefe pediu para eu cobrir o turno dele por hoje. Volto depois do almoço e antes do lanche!
A mamãe e o papai chegam em quatro dias, então deixei o espelho do banheiro no conserto. Pode pegar ele no Al para mim? Hoje ele abre às nove.
Dan"
Dean passou os olhos pelo bilhete rapidamente. Seus pais iam conseguir voltar um pouco mais cedo, afinal. Talvez os professores que eles tinham ido substituir por causa de uma gripe forte uma semana atrás tivessem finalmente se recuperado. Uma crise num estado próximo havia deixado várias pessoas de cama com febres, tosses e dores de garganta intensas havia pouco mais de duas semanas, mas agora que a situação estava se normalizando os professores logo poderiam voltar a dar aulas.
Como a outra unidade era a algumas horas de distância e muito longe para ir e voltar todos os dias, os pais de Dean haviam alugado um quarto de hospedagem e estavam ficando por lá, embora tivessem passado em casa rapidamente no fim de semana anterior. Mas, pelo jeito, estariam de volta bem em breve.
Dean olhou o relógio da cozinha. Mal haviam se passado dez minutos. De casa até a loja eram outros dez. Se fosse na menor das pressas, talvez chegasse em cerca de vinte. Ainda era muito cedo.
Se ligasse a TV, poderia acordar Simon, então Dean resolveu mexer um pouco no laptop comunitário.
O aparelho ficava sempre na pasta debaixo da mesinha de centro, junto à extensão da tomada e algumas revistas e gibis. Recentemente havia alguns mangás também; Simon tinha acabado de descobrir Naruto, e Dan estava ajudando-o a colecionar, começando pelos primeiros. Para a sua sorte, as editoras tinham acabado de lançar uma nova edição, então ainda era bastante fácil encontrá-los nas bancas.
Ele poderia mexer lá mesmo, mas como a mesa era muito baixa — mal alcançava-lhe o meio da canela -, então ele preferia usar na mesa de jantar.
Depois de apertar o botão lateral e esperar ligar, Dean verificou a bateria. Ainda estava em cinquenta por cento, mas lhe perturbava quando a barra não estava acima de três quartos, então ele estendeu a longa extensão através do aposento. Pelo menos, agora não havia ninguém ali para tropeçar.
Ele tentou procurar algo para fazer por alguns minutos, mas logo percebeu que não adiantaria nada. A essa hora de uma manhã de sábado, não havia vivalma na rede. Ele já havia entrado na tarde para noite do dia anterior, então já estava em dia com tudo. Não havia mensagens novas, e-mails novos ou qualquer atividade nos canais de vídeos que acompanhava.
Por fim, Dean fechou o computador, entediado.
Ele olhou a hora novamente. Vinte minutos. Somando com os dez que já haviam se passado anteriormente e os vinte que conseguiria demorar se se arrastasse bem devagar, ainda tinha uma hora e dez minutos antes da loja abrir. Porém, como não tinha nada para fazer em especial, ele resolveu sair para uma caminhada.
O celular também estava com pouca bateria — cerca de quarenta por cento. Mas teria que aguentar pela próxima hora. Pegou seus fones de ouvido e já ia colocar o aparelho no bolso do casaco quando lembrou-se que não estava usando um. Ninguém seria louco de usá-lo agora, quando o outono ainda não chegara para abafar o calor forte do verão.
Ligeiramente irritado por não ter onde descansar o aparelho, Dean suspirou e continuou segurando-o na mão.
Simon conseguia fazer o próprio café da manhã sem dificuldades e entenderia a falta de sua presença a partir do conteúdo do bilhete, então Dean não se preocupou em deixar uma mensagem. Selecionou uma das últimas playlists que adicionada ao celular e saiu em direção ao discreto gramado da frente da casa, o qual designara como seu “jardim”.
Como moravam em um bairro tranquilo, não havia necessidade de trancar nada. Dean terminou de fechar a porta às suas costas e soltou mais um longo bocejo.
Naquele momento, ele ouviu um miado, que denunciou a presença de Tangerina nas proximidades. Procurando pelo felino, ele encontrou-o novamente deitado no carro, mas dessa vez em cima dele. O animal o encarava com seus enormes olhos verdes, quase como se cortasse a distância entre eles.
Quando Dean não fez nada, o gato continuou encarando-o.
— Desculpa, estou de saída — disse o garoto. — Na volta te trago um pouco de comida.
Nesse momento, ele deu o primeiro passo em direção à rua, quando foi surpreendido por uma presença inesperada.
— Ah! Oi, Júlia! — cumprimentou ele, pausando a música e tirando um dos fones do ouvido.
— Há! Você também, Dean? — brincou a garota, vindo em sua direção. — O que está fazendo aqui fora a essa hora?
— Meu irmão pediu para eu pegar o espelho no conserto — explicou ele.
— Achei que o Al só abria às nove — comentou ela.
— E abre. Eu resolvi dar uma caminhada antes — ele esclareceu. — E você? O que está fazendo?
— Minha mãe pediu para eu pegar os novos cartões de visita na gráfica — disse ela, enquanto os dois começavam a andar. — Minha prima arranjou umas ilustrações novas de cupcakes, e eles já estavam quase acabando, mesmo.
— Eu ainda acho graça dessa história de uma doceria ter cartões — comentou ele, sorrindo, enrolando os fones de ouvido em volta do celular. — Geralmente elas não usam panfletos?
— Nós achamos que é mais chique assim.
— Ah. Ok, então.
Os dois riram.
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Enquanto conversava com Júlia, os setenta minutos passaram como vento. Assim como os dez seguintes, e os outros depois deles. Quando enfim conseguiram ver o destino ao virar a esquina, já passava das nove e meia.
Finalmente chegando à frente da loja, os dois trocaram rápidas despedidas. A gráfica ficava mais alguns minutos em frente, então eles se separariam ali.
— Se precisar de ajuda, eu posso ajudar a carregar o espelho — ofereceu ela. — Esse é dos grandes?
— Não muito — respondeu ele. — É um pouco grande para um espelho de busto, mas não é como se fosse um daqueles enormes de pôr atrás da porta.
— Bom, se você está dizendo…
Com naturalidade, ela deu um passo em sua direção e ficou na ponta dos pés para beijar-lhe os lábios.
Após tornar a recuar, ela acenou rapidamente para ele.
— Até mais tarde! — despediu-se.
— Até! — respondeu ele, acenando de volta, um pouquinho corado.
Como uma das garotas mais bonitas da turma e sua amiga de infância, Dean ficara sinceramente surpreso quando Júlia o pedira em namoro poucos anos antes. Porém, agora, ele não conseguia se lembrar do que o deixava tão nervoso. Will apoiara os dois desde o primeiro instante, e quase parecia uma criança ou um cupido ao empurrá-los um para cima do outro nos corredores nas primeiras semanas. Dean também gostava de Júlia já havia algum tempo, então reciprocidade não era um problema. Mas ele nunca teria imaginado que ela gostava dele também. Meio que ele já tinha se conformado em apenas admirá-la para sempre, ou até que começasse a gostar de outra pessoa. Mas, então, aquilo acontecera, e de repente eles eram um par.
O garoto esperou até que a namorada estivesse bem longe, e então virou-se para a loja na frente da qual se postava.
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Al' Mirrors. O nome era um jogo de palavra com "Al", apelido de Albert, filho dos donos, e "all", de "todos" em inglês.
— Ah, oi, Dean! — cumprimentou Al de trás do balcão, esfregando distraidamente um pequeno espelho de mão com a ajuda de um pano de um azul cinzento envelhecido.
O rapaz era vários anos mais velho do que Dean, e um antigo colega de faculdade de Dan. Infelizmente, ambos haviam desistido do ramo da arquitetura. Al, para tocar os negócios da família, e Dan, para cuidar de casa. Não que ele admitisse; dizia que queria dar um tempo dos estudos, que não tinha certeza do que queria cursar.
Mas Dean sabia da verdade. E ele suspeitava que Simon também sabia. Dan só queria cuidar dos irmãos um pouco mais, antes que não tivesse mais tanto tempo para isso. Talvez ele voltasse em um ano, quando Dean estaria bem perto de se tornar legalmente adulto. Seus pais certamente conseguiriam arranjar um bom cursinho para que ele pudesse retornar aos estudos.
Al, por outro lado, não parecia querer voltar. O rapaz tinha uma fisionomia simpática e sorridente. Seus cabelos loiro-claros eram casualmente bagunçados. Seus olhos traziam as marcas da genética: por sorte ou empatia, ambos os pais de Al tinham heterocromia. O pai tinha um olho castanho e um vermelho — cor que já era rara por si só -, e a mãe, um púrpura e um cor-de-caramelo. Os dois haviam sofrido na escola por causa da doença, mas Al, apesar de também possuí-la, tinha sorte. Seu olho esquerdo castanho e seu olho direito azul mais atraíam que causavam repulsa nas pessoas. O azul ele puxara do avô paterno.
Dean se sentia muito à vontade com o garoto mais velho. Na época dos estudos, Al costumava ir revisar na casa de Dan, e sempre que esquecia um livro ou caderno lá era Dean quem o devolvia.
— Veio dar uma olhada? — perguntou Al.
— Na verdade, vim ver se o espelho ficou pronto — respondeu Dean.
— Ah! É claro — recordou-se ele. — Já vou pegar lá atrás. Era o espelho da sala, certo? — arriscou, já sumindo na porta atrás do caixa, que dava para o depósito.
— Do banheiro, na verdade — corrigiu Dean, rindo um pouco. Al era realmente distraído, o que tornava ainda mais surpreendente as notas impecáveis que conseguira no colégio.
Depois de alguns minutos, Dean ainda ouvia um ou outro barulho ocasional de algo caindo, mas, como Al não voltava, resolveu dar uma olhada na loja.
Al' Mirrors vendia praticamente todos os tipos de espelhos que você pudesse imaginar. Espelhos pequenos, grandes, médios, corpo-inteiro, de mão, de prego, de base, metais puros, quilates, aço inox, plástico, sem-moldura, emoldurado e vários outros. Era de se esperar que, depois de tanto tempo, Dean já tivesse decorado cada mínimo arranhão de cada espelho da loja, mas a movimentação no pequeno empreendimento familiar era maior do que se podia esperar de uma loja especializada em espelhos, e os artigos mais antigos estavam sempre sendo substituídos por novos. A variedade era tão grande que, às vezes, Dean brincava de classificá-los em dóricos, jônicos e coríntios.
Dean serpenteou pelos poucos corredores da modesta loja absorvendo todos os detalhes por mais alguns minutos, até que um espelho chamou sua atenção.
Era um espelho de corpo inteiro. Sua moldura era de um belo e pálido ouro, e o tema lembrava vagamente as colunas coríntias da Grécia Antiga, mas com uma quantidade infinitamente maior de detalhes.
Era todo trabalhado em esculturas de folhas e vegetação. As folhas eram tão precisas que era possível distinguir o caule, o limbo e até mesmo os vasos de seiva que passavam sob a superfície, e o trabalho, tão bem feito que era como se houvesse um verdadeiro jardim atrás do espelho, e as folhas que ele via eram aquelas que conseguiam se esgueirar através do espaço deixado pela moldura.
Havia folhas do topo à base. As da base pareciam vagamente samambaias, com folhas longas subindo do chão em diagonal, enquanto as do topo pareciam as folhas da copa de uma árvore, várias com um formato que lembrava um coração, e várias flores solitárias salpicavam o quadro geral de forma aparentemente aleatória, mas equilibrada, e davam um toque final à bela paisagem.
Dean sentiu-se estranhamente atraído e fascinado pelo curioso objeto. Aproximou-se com interesse, observando cuidadosamente.
Sem que percebesse, seus dedos ansiosos puseram-se a deslizar delicadamente pela superfície irregular, assimilando cada minúcia da obra.
Era uma coisa maravilhosa. O garoto demorou-se em uma das folhas coração. Ele observou as veias, as rugas, os recortes de sua borda que lhe caíam tão naturalmente.
De repente, algo aconteceu.
Uma pequena pontada ardeu brevemente em seu dedo, ao mesmo tempo em que um piado indignado quebrou o silêncio quase absoluto que reinava.
Quando olhou para o pedaço da moldura onde sentira a bicada, seu fôlego abandonou-o e seus olhos se arregalaram.
O que ele pensava ser apenas um amontoado de folhas era, na verdade, um pássaro.
O pequeno passarinho lembrava vagamente um pardal, mas suas penas eram de nada menos do que ouro puro. Não só eram de ouro, como também tinham a forma e a textura de folhas, se misturando ao ambiente de maneira impecável.
Perante o olhar perplexo de Dean, o pássaro balançou a cabeça para os lados, como que alongando-se depois de um longo período de sono. As irregularidades começaram a se dissipar, e a textura das folhas logo deu lugar gradualmente a uma superfície lisa e impecável. Parecia uma escultura em acrílico, com o porém de ser ouro e mover-se como uma criatura viva; nem sequer tinha qualquer tipo de articulação.
Dean estava paralisado, o dedo estendido pairando próximo à ave. Com um olhar de interesse, o pássaro deu dois pulinhos em direção a ele, usando o galho de baixo como apoio, e deu-lhe uma bicada amigável.
Dean, ainda atordoado, não conseguia deixar de admirar a beleza da ave.
Hesitante, ele esticou a mão para tocá-la.
Como se sentisse o nervosismo do garoto, a ave deu mais um pulinho para frente e esticou a cabeça, esfregando-a em sua mão.
Dean estava perplexo, mas maravilhado ao mesmo tempo. Uma vez ele fora à casa de Al entregar um dicionário que ele tinha esquecido, e assim que entrara pela porta a gata do rapaz andara até ele e se esfregara em suas pernas, pedindo carinho. O gesto do pássaro era inesperadamente semelhante. Sua superfície, agora lisa e desprovida das irregularidades que indicariam a presença de penas, era macia e gostosa de acariciar. Ele nunca sentira nada parecido.
Depois de alguns minutos, alguma coisa aconteceu. Enquanto observava e afagava a ave, ele começou a sentir sua superfície mudando. Uma tonalidade esverdeada começou a tomá-lo à partir do ponto em que Dean a tocara.
Primeiro, era só uma mancha discreta, sutil. Mas logo ela começou a se espalhar, e, junto com ela, uma nova textura.
Onde antes Dean sentia uma superfície lisa e macia, agora ele começava a sentir a superfície enrugada e irregular de uma folha, mas agora não era uma folha de ouro.
Era uma folha real.
Dean afastou a mão do pássaro. Desconcertado, ele apenas observou quanto o verde começou a espalhar-se para as folhas da moldura.
Em menos de um minuto, não havia mais uma moldura.
Ele esticou a mão para tocar uma das folhas-coração, mas não precisava de nenhuma prova para saber que era real. Diante de si, onde antes havia uma moldura dourada, agora havia um verdadeiro jardim secreto.
O pássaro anda saltitava entre as folhas, mas agora os galhos balançavam sob seu peso. A própria ave era feita de folhas, que faziam as vezes de penas. Mesmo sem brisa, a vegetação oscilava e tremulava, transbordando vida.
Dean sentiu-se como se desligasse do mundo à sua volta por alguns momentos. Seu cérebro era incapaz de processar o que estava acontecendo.
Mas logo foi chamado de volta pelo piar do pássaro, que o encarava com intensidade. Dean não entendeu o que ele queria dizer, mas, insistente, a ave voou brevemente até uma das folhas mais próximas do espelho, e virou a cabeça, como se dissesse para olhar.
Só então ele viu.
Se era possível surpreender-se mais do que já tinha, naquele Dean o fez naquele momento. Um breve grito de surpresa escapou de seus lábios quando ele saltou para trás, instintivamente.
Assustado, ele olhou para trás. Nada. Atrás dele, só havia a loja. A velha e familiar loja de espelhos.
Mas não era o que o espelho mostrava. Atrás da própria imagem, Dean podia ver o reflexo de uma bela floresta. Embora bem-delineada, a imagem parecia vagamente desfocada, de um jeito incompreensível.
— A-...Al! — chamou ele, inconscientemente tentando evitar que o pânico transparecesse em sua voz. Porém, não obteve resposta dos fundos da loja. Sem que pudesse evitar, seus olhos retornaram para a paisagem.
Era um lugar de aparência tranquila e viva. Alguns raios de sol transpassavam as copas das árvores, projetando no solo as sombras estampadas da folhagem. Komorebi— Dean não sabia de onde surgira essa palavra, mas de repente lá estava ela, clara em sua mente, natural como a própria luz.
As árvores eram altas, e seus troncos, vivos, firmes e fortes. As cores pareciam resplandecer de tão bonitas. Toda a natureza era grandiosa naquele lugar.
Novamente, Dean olhou por cima do ombro, mas só confirmou o que já sabia: ainda estava em Saint Laurel.
Quando tornou o olhar para o espelho, Dean foi tomado por uma sensação estranha.
Ele olhou o pássaro, que ainda o encarava. Ele continuava apontando o reflexo com a cabeça, de vez em quando saltitando e batendo rapidamente as asas, sem sair do lugar.
Finalmente, Dean compreendeu o que ela pedia. Um pouco incerto, ele deu um passo para o lado, ficando exatamente de frente para o vidro.
Então, estendeu a mão e o tocou.
Onde esperava tocar uma superfície sólida, não havia senão uma vaga sensação gelada, e nenhuma barreira ofereceu resistência quando sua mão atravessou o espelho.
Seu primeiro instinto foi o de puxar de volta a mão, com brusquidez. Seu coração batia tão forte em seu peito que dava a impressão de que logo o atravessaria.
Os olhos da ave o fitavam com um misto de intensidade, profundidade e expectativa.
Hesitante, ele voltou os olhos novamente para o reflexo. Então, algo chamou sua atenção. Ele percebeu que o ambiente não lhe era estranho. Na verdade, podia-se dizer que lhe era bastante familiar.
Dean tentou ponderar, mas não havia o que ponderar naquele momento. Ele procurou por algo em que pensar, mas também não surgia nada. Aquilo era tão estranho... Naquele momento, a razão o abandonara completamente. Apenas o instinto permanecia ao seu lado, e o que ele dizia era claro.
Com a cabeça completamente vazia, Dean não saberia dizer se o perguntassem o porquê de ele ter feito o que fez naquele momento.
Sem conseguir encontrar em sua mente qualquer argumento que o fizesse recuar, ele respirou profundamente, e então, em um único impulso de coragem, deu um passo para dentro do espelho.
Seu corpo foi engolido pela luz e o frio envolveu-o quando o chão sumiu sob seus pés.
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