Notas iniciais
Heey! Here am I! Esses dias enviei esse capítulo para algumas pessoas para ter uma segunda opinião, porque estava em dúvida se dava ou não para entender, mas como as críticas foram bastante positivas, aqui estou eu! Espero que gostem! -^^-

Dean era péssimo para tomar decisões. Quanto maior se tornava seu leque de opções, mais perdido ele ficava. Isso ficava claro toda vez que alguém lhe dizia algo do tipo “pergunte qualquer coisa”. E dessa vez não foi diferente.

Katherine e Ty o observavam com a mesma calma de sempre, enquanto ele ficou parado pensando no que fazer. Finalmente, ele optou por sentar-se também, à frente deles. Por algum motivo, ele instintivamente começou a se ajoelhar, mas no meio do caminho mudou de ideia e cruzou as pernas.

Quando olhou para os rostos dos dois irmãos, a mente de Dean esvaziou-se completamente. Depois de alguns momentos de silêncio, ele desviou os olhos para o cenário ao seu redor — qualquer direção que não a dos olhos deles. Depois de mais alguns minutos, ele distraidamente começou a balançar para frente e para trás, como uma criança perdida.

— Ahn… que tal irmos em ordem cronológica? — sugeriu Kath, um leve indício de riso em sua voz.

A sugestão específica e direta trouxe ordem de volta à mente de Dean.

— Sim, claro — concordou ele, assentindo vigorosamente.

— O que você quis saber primeiro?

Dean pensou um pouco.

— Eu fiquei confuso quando o espelho mudou… — disse ele, se lembrando. Um brilho de compreensão surgiu em seus olhos. — Você disse que Viajantes podem viajar entre as dimensões, não é? Quantas dimensões existem? Como isso é possível?

— É difícil saber quantos são os domos exatamente, mas o nosso palpite é de que se trata de um número próximo do infinito. — respondeu ela. — Nós não podemos Viajar para todos eles, porém.

— A existência deles se dá por uma série de fatores. — continuou Ty. — Entre eles, a frequência e a probabilidade. Isso é possivelmente o mais difícil de explicar, mas, como regra geral, imagine que, embora domos quase idênticos costumem ser relativamente distantes, quanto mais parecidos dois domos são, maior a chance de serem próximos.

— Próximos? — Dean estranhou. — Como dimensões paralelas podem ter graus de proximidade?

Katherine riu.

— É, é meio confuso, mesmo. — admitiu ela. — Nós dizemos que dois domos são próximos quando o tempo da Viagem é curto e os efeitos para o corpo, leves. Quando o tempo que passamos no vácuo é longo e os efeitos colaterais são intensos, dizemos que são distantes. Uma viagem curta costuma durar em torno de doze centésimos de segundo, mas as mais longas podem durar horas ou até dias.

— Espera, efeitos para o corpo? — eccou Dean.

— É. — confirmou Ty. — Por mexer com a frequência do funcionamento do nosso organismo, por vezes a Viagem acaba deixando sequelas temporárias. Por exemplo, você mal chegou a ter uma hipotermia quando chegou aqui, mas passou três dias inteiros na cama. Isso provavelmente aconteceu pelo fato de essa ser sua primeira Viagem.

— Muito embora você tenha ficado pior do que a maioria — comentou Kath, um pouco mais séria. — Mesmo na primeira experiência, dificilmente alguém demora mais do que um dia para se recuperar, e geralmente só ficam um pouco tontos ou enjoados. Você realmente deu um susto na gente. — ela encarou-o nos olhos, com uma expressão acusadora.

— D-desculpa… — disse Dean, achando um pouco de graça de seu tom de voz.

Ele lembrou-se como tinha se sentido nos primeiros momentos após acordar e imaginou como seria passar o dia inteiro assim. Fazia muitos anos que ele não tinha uma doença que não fosse um resfriado leve ou alguma coisa parecida, então o pensamento o deixou levemente desconfortável.

— Ah, não se preocupe — disse Kath, percebendo sua linha de pensamento. — A primeira vez é sempre a pior. Os seres vivos têm uma capacidade de adaptação incrível. Sua segunda vez não vai ser tão ruim, eu prometo!

A explicação funcionou. Dean ficou muito mais confortável sabendo que não passaria por aquilo na Viagem de volta.

— Bem, parece que a primeira dúvida já foi esclarecida! — disse Ty. — O que mais você quer saber?

Seguindo a sugestão de Kath, Dean continuou repassando tudo o que fizera desde que chegara ali. Várias perguntas sobre aquele mundo e tudo nele brotaram em sua cabeça, mas elas eram tantas e tão vagas que ele acabou se decidindo por tentar ignorá-las. Além disso, ele sempre poderia perguntá-las depois. Já topara com Katherine em seu mundo uma vez: por que não toparia de novo?

A ideia de que poderia voltar ali sempre que quisesse ainda não tinha sido processada por Dean.

— Ah! Debaixo da árvore, você me disse que a Imperatriz era quem “realizava as travessias”. O que isso quer dizer?

— Pode-se dizer que a Imperatriz é a entidade responsável por modificar a frequência com que nosso corpo funciona. — respondeu Kath. — Shira está mais familiarizado com os conhecimentos do seu mundo e poderia explicar com termos mais compreensíveis para você, mas em termos gerais é essa capacidade dela que faz com que possamos Viajar. Ela percebe quando queremos ir de um domo a outro e efetua a travessia para nós. A extensão do poder dela é o que torna possível levarmos outras pessoas conosco: desde que nós possamos vê-las, ela sabe exatamente onde fazer as modificações.

— Mas como ela percebe isso? Digo, os nossos pensamentos? — perguntou Dean.

— É aí que entram os Protetores. — respondeu Ty. — Eles são a personificação de uma conexão subconsciente que une as nossas mentes à da Imperatriz desde o dia em que nascemos. Essa conexão é o que define um Viajante. É por isso que todos nós temos um Protetor: enquanto eles estiverem perto de nós, a Imperatriz saberá de tudo o que estiver acontecendo, incluindo nossos pensamentos. — explicou. — Ainda não sabemos exatamente se há uma razão por trás da escolha das pessoas que nascem conectadas à Imperatriz ou se é algo totalmente ao acaso. De qualquer forma, cada domo costuma manter uma média de dois Viajantes ou algo em torno disso. Além disso, pessoas que não nasceram Viajantes podem se tornar um, caso tenham vontade e a Imperatriz consinta. — acrescentou ele.

— Duas por domo? — Dean inclinou a cabeça, confuso. — Mas… se são infinitos domos, como a Imperatriz consegue manter uma conexão mental com tantas pessoas ao mesmo tempo? E sem enlouquecer, ainda por cima? Isso é mesmo possível?

— A Imperatriz não é exatamente um ser humano, então o que nós julgamos possível ou impossível é algo relativo quando nos referimos a ela. — respondeu Kath, sorrindo um pouco ao lembrar-se de algo. — Apesar disso, ela não consegue manter infinitas relações mentais. Embora o número de domos provavelmente seja algo próximo do infinito, o alcance dela não é tão ilimitado. Atualmente, ela consegue atuar em cerca de dois bilhões de domos. — contou a garota.

Apesar das restrições — se é que podiam ser chamadas assim -, Dean ficou atordoado pelo poder da tal Imperatriz. Dois bilhões de domos vezes duas pessoas por domo dava mais ou menos quatro bilhões de pessoas continuamente conectadas à sua mente, e ela ainda conseguia atuar em cada uma de maneira individual a ponto de trazer alguém junto pelo simples fato de poder enxergar a determinada pessoa indiretamente. O quão poderosa ela era?

— Por causa de nossas ligações com ela, é como se todos os Viajantes estivessem indiretamente conectados. — continuou Kath. — Talvez isso tenha alguma coisa a ver com os sonhos a que você se referia. Por acaso você viu alguma coisa enquanto dormia?

A cada explicação, Dean sentia como se mais uma peça se encaixasse em um enorme e complexo quebra-cabeça que havia surgido em sua mente desde o incidente na loja de Al.

— Sim — afirmou Dean. — Eu vi…

Então, ele hesitou. Será que soaria muito estranho dizer que ele tinha sonhado com eles? De qualquer forma, a frase morreu no ar.

— Bom, isso explica tudo! — sorriu Kath, contornado o estranho silêncio.

— Hm? Como assim? — perguntou Dean.

— Como a Kath disse, a Imperatriz atravessa os Viajantes de acordo com sua vontade — disse Ty. — Nós sabíamos que você tinha vindo para cá. Se essa fosse sua primeira vez, e provavelmente era, já que ela o tinha enviado até nós, isso significava que você tinha escolhido atravessar o portal. Mas quando acordou, você não fazia ideia do que estava acontecendo e entrou em pânico quando lembrou dos irmãos. Alguém que já soubesse da história inteira não ficaria tão nervoso, pois saberia que podia voltar quando quisesse. Mas se você não sabia, isso significava que seu Protetor havia pedido a Viagem em seu lugar.

— Por outro lado, nós estivemos em seu mundo muito recentemente, e eu inclusive me encontrei com você lá — continuou Kath. — O lugar estava perfeitamente pacífico, e você não parecia estar perturbado quando me mostrou as direções. É comum um Protetor pedir ajuda à Imperatriz em meio a uma guerra ou crise pessoal do Viajante como forma de tentar ajudá-lo, mas a sua situação não se enquadrava em nenhuma das duas possibilidades. Então, por que você estaria aqui?

Dean conseguiu acompanhar mais ou menos a linha de raciocínio dos dois irmãos, mas ele ainda não entendia aonde eles queriam chegar. Olhou para Kath com uma expressão perdida.

— Nem todos os Viajantes precisam estar precisando de alguma coisa para Viajar! — explicou ela. — Se ele percebeu que você estava tendo sonhos e que estava se interessando por eles, isso já seria motivo suficiente para ele sugerir uma travessia!

— Além disso, isso explicaria o motivo de você entrar no portal por conta própria — completou Ty. — Se uma pessoa totalmente nova tivesse visto algo assim no meio da rua ou em algum outro lugar, pensaria que estava completamente louca ou fingiria que não viu, mas se você já tinha sonhado com aquilo antes, a paisagem familiar poderia despertar sua curiosidade!

Dean soltou um longo “Aaaaah”, finalmente compreendendo.

“Faz sentido”, admitiu ele, em pensamento. Ele não podia dizer quanto ao que se passava na mente do tal Protetor, mas no que dizia respeito a ele, embora ele mesmo não soubesse explicar direito o porquê de ter atravessado o portal, talvez a explicação deles não passasse tão longe da verdade.

Aliás…

— Onde está meu Protetor? — perguntou. — Eu posso vê-lo?

Reagindo à sua pergunta, o pássaro azul e cinza à sua frente virou a cabeça e olhou para Kath, timidamente, como se perguntasse algo com os olhos. Katherine sorriu-lhe e gesticulou com a cabeça, incentivando-o.

Com uma única batida de asas, o pássaro flutuou alguns centímetros acima do chão. Com mais uma ele ganhou impulso, planou por trás de Kath na altura de seus ombros e tornou a pousar à frente de Dean.

Porém, algo aconteceu. Antes que seus pés finos e dedos longos de ave tocassem o chão, sua silhueta cintilou por um momento, como se um raio perdido de sol refletisse diretamente em suas penas, e seu corpo subitamente começou a mudar. Em uma velocidade quase impossível de enxergar, seus traços se alongaram, suas asas diminuíram até desaparecerem completamente e suas penas deram lugar a uma pelagem laranja-viva. Uma figura muito familiar pousou à sua frente.

— Tangerina!? — Dean surpreendeu-se.

Katherine, por sua vez, não parecia nem um pouco surpresa.

— Viu? Eu disse que era raro alguém não conhecer seu Protetor! — disse, sorrindo largamente.

Tangerina andou em direção a Dean. Quando o garoto não fez nada, o felino pôs-se a esfregar-se em sua perna, como se pedisse carinho.

Dean não resistiu. Tangerina gostava de carinho atrás das orelhas; seus dedos acariciaram o ponto com que já estava acostumado. Ele ouviu o gato começar a ronronar.

“Como um pequeno motor”, como dizia Júlia.

— Parece que vocês têm uma relação bem próxima — comentou Ty.

— Tangerina tem rodeado a minha casa desde que eu me lembro — explicou Dean.

— Imagino. É o que fazemos, afinal — respondeu Kath, sorrindo.

— Como assim, “o que fazemos”?

Como que em resposta à sua pergunta, Rue voou até o ombro de Kath. Mesmo que elas apenas tivessem se aproximado um pouco mais, isso parecia fazer toda a diferença do mundo: as bochechas de Kath ficaram ligeiramente mais coradas, e seus olhos, mais brilhantes; os olhos de Rue também brilhavam, e ela remexia suas asas como uma criança agitada. A garota também pôs-se a acariciar a ave, deslizando a mão sempre no mesmo sentido, percorrendo-a do bico à ponta da cauda. O gesto parecia conter um carinho que seria difícil de pôr em palavras.

— Durante a vida, as pessoas sempre vêm e vão, muitas vezes sem aviso. São tão inconstantes que até criar uma comunidade segura e familiar pode ser um risco. Mas os Protetores e os Viajantes nascem juntos, crescem juntos e continuam juntos até o dia de suas mortes. Eles te entendem, e você os entende. Nas horas boas e nas tristes, nas tediosas e nas de perigo. Como duas metades de uma mesma alma. — contou ela. — Eles são nossos portos seguros, e nossos melhores amigos. E, embora a situação seja diferente, nós também somos os deles.

O discurso surpreendeu Dean. Ele se pegou abaixando os olhos para Tangerina, quieto.

— Sabe — comentou Kath. — isso tudo pode até ser muito novo e estranho para você, mas Pinmur se sente da mesma forma que nós.

Dean ergueu os olhos, surpreso.

— Pinmur?

— Sim. É o nome dele — explicou ela.

— Ele tem um nome? — assim que falou, Dean se repreendeu. Era claro que ele tinha um nome! Por que não teria?

— Ah, mas ele disse que não se importa de ser chamado de Tangerina — afirmou Ty. — Disse que gosta do nome que você lhe deu.

— “Disse”? Vocês conseguem ouvir o que ele diz?

— Conseguimos. E um dia você vai conseguir também — disse Kath. — É só uma questão de tempo e adaptação. Mas vendo como você se interessa por tudo e como vocês são próximos, esse dia não deve demorar muito a chegar.

Dean processou as novas informações. Pensando bem, quando Rue chegara, Kath dissera algo… “Fiquei sabendo”, não era? Talvez amantes de animais conseguissem se comunicar, de certa forma, mas… algo como “Fiquei sabendo que era amado em casa” era demasiado específico para deduzir baseando-se em como um pássaro estava se comportando. Talvez ele devesse ter percebido antes...?

— Pinmur… — Dean saboreou o som da palavra. — É um nome muito bonito.

Depois de alguns momentos em silêncio, Dean lembrou-se de um detalhe muito importante.

— Então, os Protetores podem mudar de forma? — perguntou.

— Sim. Há alguns limites, como tamanho e outros aspectos físicos, mas em geral eles podem assumir a forma de quase qualquer animal. — respondeu Kath. Ela parou de acariciar Rue, mas o pássaro permaneceu em seu ombro, aconchegando-se contra o pescoço da garota. — Assim, eles podem tomar conta dos Viajantes com mais facilidade. Mas na maior parte do tempo eles ficam na forma de pássaros. Alguns deles são pequenos, fáceis de se misturar, conseguem ver tudo de cima e conseguem percorrer uma longa distância antes de se cansarem.

— Isso parece ser… cansativo. — comentou Dean, incerto.

— Não acho que eles concordem com você — riu Ty.

— Mas por que eles fariam tudo isso? — perguntou Dean. — Crescer conosco e se transformar em pássaros para tomar conta de nós… isso é tão…

— Não é um desperdício de vida, se é o que você quer dizer. — brincou Kath, com um sorriso torto. — Não é algo que eles fazem contra a vontade. E também não precisa de uma razão. É assim, e isso basta para nós. — ela inclinou a cabeça para o lado, apoiando-a em Rue. Elas eram como dois filhotes, encontrando conforto um no outro. — Você pode encarar isso como uma bênção, se quiser.

Dean ficou em silêncio.

Olhando para Kath e Rue, Ty e Ellie, ele sentiu algo. Sua relação era tão próxima… ele já vira muitas coisas, mas não achava que já tinha visto algo como aquilo. Nada de que se lembrasse.

Aos seus pés, Tangerina… Pinmur, também parecia estar confortável. Porém, ele também parecia se conter. Não se esfregava demais, evitava olhá-lo nos olhos. Dean imaginou que fosse culpa dele… era ele quem estava tendo dificuldade em absorver tantas informações de forma tão repentina. E era ele quem não tinha insistido mais em ficar com ele quando percebeu pela primeira vez o gato que não parava de rodear sua casa. Se tivesse ficado próximo a ele desde o início, talvez sua relação fosse tão forte quanto a dos irmãos e seus Protetores?

Mas, mesmo com a demora, agora ele estava finalmente estava descobrindo tudo. Não a verdade, é claro; ele não havia vivido uma mentira até agora. Seu mundo era real, e seus irmãos, e seus amigos, e seus pais. Mas… agora ele percebia que havia muito mais. Mais do que imaginava. Talvez as explicações que recebera não fossem tudo o que esperava — Kath e Ty não haviam omitido uma única letra, mas era tudo confuso demais. Mas, ainda assim, uma percepção muito forte estava se instalando em algum lugar de seu coração e alma. Uma percepção que vinha crescendo lentamente desde que chegara ali, discreta, mas persistente, tão firme e imperturbável quanto uma pedra bruta de diamante.

Aquilo era real. Tudo aquilo… era real.