Viajantes - O Príncipe de Âmbar
13 Capítulo XII
Notas iniciais
Conforme suas perguntas eram respondidas e tudo começava a fazer sentido, Dean percebeu que falar se tornava cada vez mais fácil. Antes ele tinha que pensar muito até para se lembrar do que queria saber, mas agora as palavras deslizavam de seus lábios quase tão rápido quanto surgiam em sua mente.
— Como vocês descobriram sobre todas essas coisas? Sobre os domos, Viagens e tal? — perguntou ele.
— Eu descobri quando tinha cerca de oito anos — contou Kath. — Eu estava passando por um momento complicado da minha vida e Rue me ajudou. Acabei indo parar em um domo um tanto diferente da minha casa e fiquei algum tempo sem conseguir me comunicar direito, mas no fim das contas foi a melhor coisa que já me aconteceu. Até hoje tenho grandes amigos lá! — ela sorriu.
— E eu descobri com ela! — completou Ty, esfregando a cabeça da irmã carinhosamente, risonho. — Alguns anos depois desse incidente, ela acabou vindo para o meu domo e me apresentou a toda essa história que estamos te contando. Foi quando meus pais a adotaram e nos tornamos irmãos!
A última afirmação surpreendeu Dean.
— Vocês não são irmãos de sangue?
— Nope! — Ty sorriu. — Eu sei, nós temos a mesma cara, não é?
Ele puxou a irmã para perto e abraçou-a com força, surpreendendo-a e fazendo Rue saltar para o chão por causa do movimento brusco. Dean não conseguiu se concentrar o suficiente para comparar.
— Ty! — riu Kath.
Depois da brincadeira, Ty soltou-a, também rindo, e ela deu-lhe um de seus tapas rasantes na cabeça. Dean riu.
— Ah… parando para pensar agora, o que exatamente Viajantes fazem? — perguntou Dean olhando para o céu, pensativo. — Digo, com tantas possibilidades…
Você poderia ser o que quisesse, ele completou em pensamento.
— Sabe, essa é uma pergunta que não tem uma resposta certa. Varia muito — respondeu Ty, balançando para frente e para trás, agitado. — Muitos Viajantes nascem e morrem sem saber o que são. E mesmo entre os que sabem a variedade de opções é imensa. Eu, por exemplo, não costumo Viajar muito. Prefiro ficar aqui, então só saio quando tem alguma coisa importante acontecendo ou quando a Kath me pede.
— Eu, por outro lado, quase não paro quieta. — completou Kath com um sorriso, apontando para o próprio rosto. — Às vezes tiro uma ou duas semanas para descansar, ou um mês, se estiver bem mal, mas em geral estou sempre em movimento.
— O que você faz quando está fora? — perguntou Dean, curioso.
— Várias coisas! Mas, principalmente, salvo vidas — respondeu ela, orgulhosa. — Em acidentes, desastres naturais, batalhas e todo o tipo de conflitos. Ah, e impeço guerras, também, quando possível. É muito mais fácil diminuir o número de feridos se você acaba com as disputas antes de elas começarem...
Dean se perguntou se tinha ouvido errado.
— Você faz o quê?
— Minha irmãzinha é uma heroína! — afirmou Ty, debruçando-se para frente. Seu sorriso largo também trazia o orgulho estampado no rosto, como um irmão coruja.
— Você é meu irmão, Ty! Se falar assim, vai parecer que está exagerando — brincou Kath, puxando-o para trás, rindo e corando.
— Mas é verdade, oras! — respondeu ele, sorrindo ainda mais. Tornou a virar-se para Dean. — Ela é incrível! Só enquanto eu estava junto ela já salvou mais pessoas do que consigo contar! E isso porque eu quase nunca vou com ela nas missões!
— Ty!
Dean observou os dois, incerto. Não pareciam estar brincando quanto à resposta. Porém, quando ele tentava visualizar a cena, não conseguia.
Os olhos de Kath eram brilhantes e cheios de vida, diferente do que ele esperaria de alguém que “salva vidas” e “impede guerras”. Ao mesmo tempo, suas bochechas rosadas e rosto de criança não batiam com a imagem que fazia de uma heroína. Ela podia ter dezesseis anos, mas mal aparentava treze. Não importava o quanto tentasse, a informação era algo difícil de assimilar.
— Como você faz isso? — perguntou ele, tentando disfarçar a dúvida em sua voz. — Digo… para fazer essas coisas que você diz, você precisaria de força, resistência…
— Eu posso não parecer, mas sou bem forte. E bem resistente — afirmou ela, sem se incomodar com a desconfiança. — Além disso, tenho muita força de vontade e muita ajuda! — ela indicou Ty com um gesto de cabeça, alegre.
Dean ainda não estava inteiramente convencido.
— Mas ainda assim…
Ele não terminou a frase, mas seu significado pairou, implícito.
A expressão de Kath mostrou que ela não estava nem um pouco surpresa por ele duvidar. Como alguém que já ouviu aquilo muitas vezes, ela deu um sorriso torto, soltou um suspiro breve e conformado, pôs-se de pé e levou as mãos à barra da camisa.
Antes que Dean tivesse tempo de se perguntar o que ela ia fazer, a garota virou-se de costas para ele e ergueu a bata, expondo suas costas.
Dean arfou.
Toda a extensão de sua pele era coberta por cicatrizes. Algumas eram longas, como antigos cortes, várias delas circundadas por marcas de pontos. Outras pareciam queimaduras; diversos focos de graus variados, espalhados em vários pontos. Os espaços que essas deixavam vazias eram preenchidos por outros tipos de marcas, diferentes de tudo o que Dean já tinha visto. Havia até uma área em que suas veias haviam ficado marcadas em vermelho na superfície de sua pele, como se tivessem sido forçadas para fora de seu corpo até feri-lo.
De repente, ele lembrou-se do dia em que a vira pessoalmente pela primeira vez. As ataduras que cobriam seus braços de ponta a ponta. Ao virar os olhos, ele percebeu que não só às suas costas se restringiam as cicatrizes. Perto do cotovelo, as marcas eram discretas, mas o ombro não enfaixado trazia várias estigmas, e seus pulsos eram rodeados de insinuações roxas, além de trazerem sinais de antigos cortes curtos, mas de aparência profunda. As marcas antigas eram difíceis de notar-se a menos que se prestasse atenção, mas agora que olhava com cuidado elas ficavam claras como água. Dean se perguntou o que havia debaixo das ataduras do seu ombro direito.
Não era como se ele nunca tivesse visto uma cicatriz antes. Simon vivia se ralando feio brincando com os seus amigos da rua onde moravam. Dan guardava até hoje uma linha rosada que ganhara no braço ao acertar uma vidraça jogando bola, e mesmo Dean não fora uma criança totalmente tranquila.
Mas aquilo não era algo que se pudesse comparar com um mero machucado de jogo de bola.
Quanto mais olhava, mais estranho se sentia. Ele já assistira mais filmes e séries do que se podia contar, entre eles vários de ação e aventura, cheios de lutas acirradas e feridas mortais, então imaginar-se-ia que ele já estaria acostumado. Porém, quanto mais seus olhos captavam os detalhes das antigas marcas, mais em choque ele ficava. Ele sentiu o sangue fugir de seu rosto.
Isso é…
— Não, não é.
Kath tornou a baixar a bata e sentou-se novamente de frente para eles.
Dean fitou-a, confuso.
— Em outra situação, talvez isso fosse horrível. Mas… — Kath baixou os olhos para suas mãos, que se apoiavam em suas pernas. Uma das cicatrizes mais finas encompridava-se até pouco antes do meio de sua mão, já quase invisível ao lado dos discretos desenhos de veias que a percorriam. Sua voz era leve e despreocupada, e sua expressão era tranquila. — Cada uma dessas cicatrizes carrega uma história. Cada uma delas é uma ferida que ganhei no lugar de outra pessoa. Eu escolhi esse caminho quando saí de casa. Eu poderia ter sido qualquer coisa… qualquer pessoa que quisesse… e escolhi isso. Ninguém me obrigou, e eu não me arrependo de nada. — uma pausa. Um sorriso desenhou-se em seus lábios, enquanto ela lembrava de algo. — Eu tenho sorte… sou forte o suficiente para poder continuar fazendo isso. Para continuar vivendo a vida que escolhi para mim, pelo caminho que tracei. Enquanto eu puder salvar vidas e proteger pessoas, minha vida valerá a pena. — ela ergueu os olhos para Dean, e sorriu. — Isso não é horrível. É maravilhoso. Eu tenho muito orgulho das minhas cicatrizes.
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Depois da conversa, Dean teve a nítida impressão de que o ar tinha se tornado mais denso, a ponto de sufocar.
Porém, ele parecia ser o único que se sentia assim.
— Ei, já que conseguimos esclarecer as suas dúvidas principais, por que não aproveitamos que estamos aqui para nadar um pouco? — sugeriu Ty, alongando os braços acima da cabeça.
— É uma boa ideia! — concordou Kath, entusiasmada.
— Nadar? — estranhou Dean. — Mas aqui não era tipo um santuário?
Kath e Ty não entenderam a observação.
— Por que isso nos impediria? — perguntou Ty.
Dean explicou rapidamente como as pessoas de seu mundo às vezes agiam com distância em relação a coisas que consideravam muito importantes, como santuários ou objetos sagrados, e como mesmo quando não havia proibições expressas, grande parte das vezes as visitas eram estritamente regradas.
Ty não estava totalmente surpreso.
— Bom, não é como se sua sociedade fosse a única a agir assim ou algo do tipo, mas nós adotamos uma abordagem diferente. Qual é o sentido de tornar algo especial se as pessoas não puderem apreciar?
Dean aceitou o argumento. Lançando mais um olhar em direção à lagoa, ele teve que admitir que estava curioso para saber como seria nadar nele. Sua região não era famosa por suas praias exuberantes, e mesmo na lagoa perto de sua casa, considerada muito bonita, era difícil enxergar a mais do que um ou dois metros de distância.
Finalmente, Ty e Kath ficaram de pé, e Dean os seguiu. Ty tirou a camisa por cima e Dean, percebendo que nisso seus costumes se encontravam, imitou-o.
— Ué, você não vai também, Kath? — perguntou o irmão, vendo que ela não os acompanhava.
O gesto foi tão sutil que Dean quase não percebeu-a indicando-o com a cabeça. Compreendendo, Ty deu de ombros, como quem diz “bom, acho que não há o que se fazer a respeito.”
— Está tudo bem! Não ligo de nadar de roupa — afirmou ela, sorrindo.
Porém, Dean se sentiu um pouco incomodado. Embora não tivesse feito nada insistente a respeito, sentia-se como se estivesse impondo sua cultura sobre eles, como aquelas pessoas conservadoras das séries com histórias de época.
— S-sabe… — gaguejou. — se você quiser, eu não me incomodo tanto assim de você ficar sem camisa…
Suas palavras lhe renderam um belo tapa na cara de si mesmo. Que ótimo, agora ele tinha falado a coisa mais embaraçosa de todas. Sua capacidade de se meter em situações constrangedoras provavelmente não encontraria equivalente nem em três séculos de história.
Na verdade, ele não costumava se embaraçar — verdade seja dita, ele raramente falava qualquer coisa que se pudesse criticar, graças à educação que seus pais e irmão haviam lhe dado — mas naquele momento tinha uma forte sensação de que fazia-o o tempo todo, como costumam sentir-se as pessoas quando se metem em situações do tipo.
Mas, curiosamente, os dois irmãos não encararam seu comentário dessa forma.
— Não precisa se forçar, Dean — disse Kath, sorrindo ainda mais. — Agradeço a gentileza, mas não é incômodo nenhum. Mesmo.
Ela e Ty não se prenderam mais ao assunto.
— Ok, esperem aqui! — exclamou Kath, de repente, e correu para dentro da floresta.
Dean não entendeu o que ela estava fazendo até ouvir a exclamação alta do lado de cima da cascata.
Kath mergulhou de cabeça. A torre de bolhas que se formou quase chegava ao fundo da lagoa, o que era bastante coisa. Vários segundos se passaram até que a queda desacelerasse e ela se inclinasse para cima, tornando a subir.
Finalmente sua cabeça emergiu. Ela ria com gosto.
— A água está uma delícia hoje! O que vocês estão esperando?
Ela não precisou falar duas vezes. Ty começou a rir também, recuou dois passos dentro da mata fechada e saiu correndo até pular poucos centímetros antes da água, caindo de bomba. A água que ele espirrou alcançou até Kath, que teve que virar o rosto para não engolí-la.
Já Dean resolveu ir devagar, pelo degrau submerso. Ele contornou a borda de pedra e, cauteloso, tocou a superfície com a ponta do pé.
A água não era quente; estava mais para fresca. Aquele fresco beirando o gelado que era tão comum nas piscinas durante as manhãs. Ele era fraco para temperaturas baixas, então entrou lentamente, de forma a se acostumar com o frio. Primeiro os pés, depois os joelhos, e finalmente a cintura. Com os pés apoiados na parte mais rasa, a água chegava-lhe apenas acima dos joelhos, mas ao descer para a parte arenosa do chão a linha já chegava pouco abaixo do peito, de forma que a descida cuidadosa foi uma tarefa árdua.
Finalmente, ele tirou os pés do chão e começou a nadar.
Apesar da temperatura, com a qual ele logo se acostumou, a água era realmente agradável. Era como se ele estivesse rodeado por um ar mais denso, e não uma substância à parte. Porém, a sensação era diferente de quando estava calor. O toque não era opressivo ou sufocante, mas sim agradável, libertador. Uma sensação bem-vinda. Na verdade, ele se sentia assim quase sempre que entrava em uma praia, piscina ou lagoa, mas ali a sensação era ainda maior.
Enquanto nadava, ele podia ver Kath e Ty brincando abaixo de si. Não havia peixes ali, o que era triste, pois ele adoraria vê-los enquanto mergulhava. Mas ainda assim, a água era transparente o suficiente para ele ver tudo com clareza, das sardas de Ty às bochechas de Kath. Eles pareciam brincar de pega-pega, ela nadando atrás dele com afinco. Ambos se divertiam imensamente.
Depois de ir de um lado ao outro algumas vezes, Dean finalmente criou coragem para mergulhar.
Essa era sempre a prova final. Por um momento, ele sentiu um pouco de aflição e instintivamente tornou a emergir, mas a segunda vez foi bem melhor. Seus cabelos perdiam completamente o peso debaixo d’água, e ele podia sentí-los flutuando para longe de seu rosto. Todo o seu corpo ficava mais leve. Era uma sensação boa.
De repente, Kath emergiu ao seu lado, fazendo Dean tomou um susto. Ela deu risada.
— Ei, — disse ela. — sabia que aqui você pode abrir os olhos sem problemas? Devia experimentar!
E tornou a submergir.
Dean não estava muito acostumado a abrir os olhos debaixo d’água. Costumava usar óculos de mergulho nessas situações. Porém, a tentação era grande. Ele tomou fôlego, submergiu e, corajosamente, abriu-os.
Ele não se lembrava de já ter visto tão claramente debaixo d’água, mesmo com os óculos. Era como se realmente estivesse lá em cima, e não embaixo. As linhas eram mais claras do que ele imaginava ser possível, e mesmo as pequenas distorções eram maravilhosas e serviam apenas para lembrá-lo de onde estava. O suave tom de azul da água, o frescor e a densidade em cada centímetro de seu corpo, os cabelos leves e os pés muito acima de qualquer apoio. Olhando para baixo, ele ponderou que aquilo era o mais próximo que já tinha chegado de voar.
Olhando em volta, ele percebeu Katherine sentada no chão da lagoa, vários metros abaixo.
A garota ergueu os olhos para ele, e sorriu. Ali embaixo, seus olhos pareciam ainda mais brilhantes. Seus cabelos ainda mais dourados balançavam com a suavidade das correntes. Ela apoiava-se na areia do fundo como alguém se deita para tomar sol à beira da piscina; não mexia os braços nem fazia qualquer tipo de esforço, mas seu corpo não fazia menção de levitar.
Dean pensou em chegar mais perto. Porém, logo percebeu que a água lhe oferecia resistência. Quanto mais afundava, mais difícil era afundar.
A garota então apoiou os pés no chão, levantou-se e, em um impulso, nadou até onde ele estava.
Ela parecia flutuar à sua frente, os movimentos suaves e graciosos. Seus cabelos pairavam ao seu redor, ainda mais livres que os de Dean, seguindo em parte o movimento da água e em parte os de sua dona, embora com um certo atraso que era agradável de acompanhar com os olhos. Sua camisa de base folgada enchia-se de água, e em algumas partes mais lembrava o movimento de águas vivas, deixando sua barriga parcialmente à mostra. Dean ponderou que, se não a conhecesse, poderia pensar ter encontrado ao acaso um anjo ou uma ninfa.
Por alguns segundos, eles se encararam.
Então, sem aviso, a garota sorriu. Se estivesse acima d'água, provavelmente seria um riso, mas ali embaixo era apenas um sorriso, divertido e espontâneo...
... ao qual Dean não sabia como reagir. Ele apenas a encarava, sem perceber, fascinado por ela quase tanto quanto estivera por quase tudo o que vira ao longo do último dia.
Era engraçado perceber o quanto ela combinava com aquele mundo. Na maior parte do tempo, ela parecia uma simples garota, mesmo que com traços um pouco mais intrigantes do que a maioria, mas em outros momentos, como agora, era notável como ele não conseguia deixar de compará-la a uma criatura fantástica, totalmente única em sua totalidade. Até mesmo para ele era difícil especificar o que lhe chamava tanta atenção, mas os ares que a cercavam não eram em absoluto os que envolveriam uma garota comum. Ela era algo a parte...
O que é você?
Depois de alguns instantes, a garota olhou para cima e impulsionou-se para a superfície com um movimento de braços. Suas longas mechas douradas balançavam atrás, ao ritmo da corrente criada por ela mesma ao abrir caminho pelas águas. Dean, em movimentos muito menos bonitos, seguiu-a.
— O que foi? — perguntou a garota.
— Como você consegue sentar lá embaixo? — indagou Dean.
— Ah, você só tem que tirar todo o ar dos seus pulmões — respondeu ela. — É meio difícil, leva tempo e demanda prática, mas vale a pena. — ela sorriu. De repente, algo lhe veio à mente. — Ah! Lembrei de uma coisa que ia conversar com Ty. Volto em alguns instantes!
Dizendo isso, ela se retirou, nadando até onde Ty brincava, do outro lado da lagoa.
Dean achou a brincadeira da garota curiosa. Nunca tinha ouvido falar nisso ou visto alguém tentar fazê-lo. Curioso, resolveu experimentar.
Ele tentou se lembrar das aulas de natação. Para oxigenar bem o cérebro, respirou fundo, e de novo, e de novo, sem pressa.
Um... dois... três.
Então, expulsou dos pulmões todo o ar que conseguiu e submergiu.
Ele tentou forçar-se para baixo com os braços. Porém, logo que começou a se aproximar do fundo, mais uma vez sentiu resistência.
Logo seus pulmões em chamas forçaram-no a subir de volta. Primeira tentativa: fracasso total.
— Ei, Dean! — ouviu chamarem.
Ty acenava para ele de perto das pedras, ao lado de Kath.
Dean nadou até lá, e encontrou os dois irmãos com os cotovelos apoiados nas pedras achatadas, metade do corpo imerso e as pernas quase pendendo, balançando apenas sutilmente.
Dean encontrou seu lugar ao lado deles e apoiou-se para observar o que eles assistiam com tanto interesse.
Não poderia ter se surpreendido mais. Brincando por entre as rochas molhadas, havia pequenos passarinhos. Mas não eram passarinhos comuns.
À sua mente vieram as lembranças de quando atravessara o portal. Os pássaros primeiro dourados, e depois verdes, e todas as folhas que acompanhavam a mudança. Não havia dúvidas de que nunca se esqueceria daqueles momentos; como seu primeiro contato com o mundo fantástico que viera a presenciar, aquele momento realmente o surpreendera.
Os pássaros diante de si agora se assemelhavam muito aos de antes, mas com uma diferença: eles não eram feitos de folhas, e sim de vidro.
Ou, pelo menos, era o que Dean imaginava. Não tinha como saber o material com exatidão, mas a aparência era muito próxima. Sua superfície distorcia o que quer que se passasse atrás deles graças à sua forma, mas era inegável que eles eram completamente transparentes. Mesmo essa distorção era sutil. Assim como os pássaros de ouro, estes não possuíam juntas ou engrenagens, ou qualquer coisa que os fizesse se mover. Apenas se moviam, como seres vivos perfeitos. Cada parte de cada curva era suave, tornando a figura como um todo algo maravilhoso e de uma beleza sutil.
Esses pássaros eram algo mais agitados que os outros. Eles pulavam entre as pedras e balançavam-se ao banhar-se na beira d’água. Brincavam.
— Thaianís — disse Kath. — São da família das Aves Trimorfas. Pelo que sabemos até agora, há três espécies delas nesse domo.
— Antes de atravessar o portal, eu me lembro de ver pássaros parecidos — comentou Dean. — Só que eles eram de ouro…
— Devem ser os Thaibatís — respondeu Ty. — Eles geralmente ficam com suas penas originais, mas talvez tenham pensado que seria melhor se camuflar. Devem ter ido receber você.
— Original? Eles podem mudar? — perguntou Dean, curioso.
— Aham. Como diz o nome, cada um deles possui três formas distintas.
— Os Thaianís geralmente possuem uma aparência vítrea, como esses daqui, mas quando se estressam ou se sentem acuados, podem se tornar em um metal prateado bem resistente. — contou Kath. — Além disso, quando estão furiosos, sua temperatura corporal abaixa significativamente, a ponto de ser perigoso até tocar neles, sob risco de congelar alguma parte do seu corpo. É um mecanismo defensivo bastante eficiente, mas eles quase não o usam. Das três Aves Trimorfas, os Thaianís são os mais simpáticos e menos cautelosos. É muito fácil chegar perto deles ou vê-los por aí. Mas eles preferem ficar à beira d’água, se possível.
— Thaibatís são os mais tímidos, por assim dizer. — continuou Ty, sorrindo enquanto observava os Thaianís brincando. — Eles se camuflam muito bem nas árvores, e há uma teoria de que eles foram alguns dos raros elos que surgiram entre as plantas e os animais na história evolutiva, enquanto os outros dois descendem de outros domínios. Normalmente, as penas dos Thaibatís parecem folhas de tipos muito variados, mas quando fica na defensiva sua pele inteira se torna um metal dourado muito rígido. Se você forçá-lo demais, sua superfície começa a incandescer e a esquentar. Não preciso nem dizer o que acontece se você tocá-lo nessas horas! — riu ele.
— Os últimos, os Thaiatís, são extremamente ariscos. Além disso, são bastante rápidos, então é difícil acompanhá-los com os olhos. É difícil dizer exatamente do que eles são justamente por causa disso, mas sabemos que é alguma coisa muito branca e que reflete muito bem a luz, sobretudo a do sol. Inclusive, a forma mais fácil de vê-los é quando eles reluzem — continuou Kath. — De qualquer forma, quando se sentem ameaçados, eles imediatamente viram um metal bronze-acobreado, e, embora não saibamos de nenhuma mudança em sua temperatura, quando estão especialmente agressivos seus piados são ensurdecedores. Acredita-se também que suas batidas de asas formem correntes cortantes de ar, a ponto de partir árvores em duas com alguma facilidade. Em suma, mantenha uma distância segura — concluiu ela, rindo.
Dean absorvia cada detalhe de informação, transbordando um interesse curioso e admirado. Seus olhos estavam fixos nos pássaros de vidro à sua frente, quase hipnotizados pelos movimentos despreocupados das aves.
Naquele exato instante, era como se o tempo tivesse parado de correr. Havia alguma coisa antes e algo depois, claro, mas nada daquilo importava realmente. Por que importaria? Aqueles passarinhos estavam se divertindo tanto… nada que pudesse vir a fazer um dia poderia mudar aquele simples momento de felicidade.
Não pela primeira vez naquele longo dia, Dean repassou mentalmente tudo o que ocorrera em sua vida na última semana. O encontro no parque. O Mural. A ida à loja de espelhos. O portal. Seu quase afogamento. O consequente resgate. A colheita sob a árvore. A refeição. A guerra de comida. Aquela lagoa. Pinmur. Kath. Rue. Ty. Ellie.
Embora não fosse a primeira vez que repassava aqueles acontecimentos, era a primeira em que se dava conta de quanta coisa tinha acontecido em um espaço tão curto de tempo. Seus pretensos conhecimentos aprendidos na escola tinham mudado radicalmente no decorrer de pouco mais de uma hora, e sua compreensão, que antes lhe parecia tão clara e abrangente, tinha se expandido de uma maneira por si só incompreensível ao longo dos últimos quatro dias de sua vida.
Ligeiramente assustado, ele se deu conta que, se tivesse escolhido não atravessar o portal, nada daquilo teria acontecido. Uma única escolha poderia ter mudado sua vida tão drasticamente…
Ao perceber isso, ele sentiu uma onda de gratidão, tão intensa que ele era capaz de sentí-la espalhar-se de seu peito para todo o seu corpo. Sentiu-se grato à Imperatriz, por ter lhe dado aquela escolha ao mostrar-lhe o portal. A Kath e Ty, por serem tão pacientes com ele e por responderem a cada uma de suas perguntas, por mais bobas que pudessem soar, e saciarem sua curiosidade quase infinita. Ao povo da vila, que o recebera tão bem, e às crianças, que prontamente o introduziram em seu grupo e o fizeram sentir-se como parte dele, mesmo que momentaneamente. E sentiu-se extremamente grato a Pinmur, por ter lhe dado aquela chance.
Sentindo o que se passava por seu coração, seu Protetor, que brincava ali perto com Rue e Ellie, voou até ele e pousou em sua cabeça, delicadamente. Pela primeira vez, Dean sentiu o calor que o toque lhe transmitia — não o calor físico, literal, como o que aprendera nas aulas de física, mas um calor diferente, íntimo, como um fio de luz invisível unindo-os pelas almas.
Dean sempre soubera como era sortudo. Tinha uma família e amigos incríveis, uma casa boa e uma boa vizinhança. Mas a possibilidade de estar ali agora… isso só deixava tudo mais claro.
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