Viagem para a perdição
3 Apenas perdidos
Fiquei me perguntando porque todo mundo estava aplaudindo, mas quando virei para trás, tinha sabido o motivo.
– Onde você estava Michel? – perguntou Iasmin com dificuldade, parecia que estava muito tempo debaixo d’água.
– Ma...mas como você escapou? – perguntei para ela – Quer saber, vamos sair desse rio que depois você me conta.
Saímos do rio e logo depois sentamos no chão para descansar. Olhei para cima e vi todos nos olhando, era triste aquilo, de toda a turma, só umas oito sobreviveram. Depois voltei o olhar para Iasmin e antes mesmo de pergunta-la ela já foi respondendo:
– Quando o ônibus caia eu me segurei num pau-de-madeira que estava na parede do banheiro, por isso não me machuquei muito – ela parou para respirar – depois esperei toda a água entrar no banheiro para depois sair dela, e nadar de volta – ela olhou pra mim e continuou – eu vi essa técnica na televisão, aprendi que não pode sair de um automóvel afundando, pois toda a pressão quando a água entra impede da gente sair e faz mal quan...
– Meu Deus e eu pensando que tinha morrido – disse interrompendo a fala dela.
Depois a segurei para levantar e subimos aquela ribanceira, ainda estávamos todos chocados, pois quase toda a nossa turma morreu afogada, da maneira mais trágica.
– Como você está em Iasmin? – perguntou Taiane enquanto abraçava ela.
– Tô nada bem – segura o choro mas não consegue – não pude salvar ninguém dentro daquele troço, ninguém!
– Também não tô nada bem, sei que não daria para salvar todos, mas mesmo assim fica um peso na consciência por não ter tentado, mas o destino quis assim. – disse Marcelo. Ele estava sério, mas dava pra perceber sua tristeza no tom que falava.
Parei para ver quantos tinham sobrevividos: Lucas, Iasmin, Taiane, Marcelo, Taine, Paloma e Talita. De todas aquelas pessoas que estavam na viagem, apenas nós tínhamos sobrevividos. O destino quis assim, pois se não fosse pela luta e suor que tivemos, estaríamos todos mortos.
Todos nós nos olhamos para o rio e depois no olhamos, Lucas foi o primeiro a dar iniciativa de puxar a conversa:
– Alguém tem um celular, preciso falar com alguém para nos buscar.
Paloma, que passava o braço nos olhos para enxugar as lágrimas respondeu: — Meu celular estava com a...Néia – começa a chorar novamente. Marcelo logo a conforta.
– Gente, vamos andando – disse Taine – algum carro tem que passar para nos ajudar.
Todos nós começamos a seguir Taine até que Talita lembra algo:
– Gente – ela fala num tom de aviso – aqui perto tem a roça de um amigo do meu pai. Ele mora aqui perto, acho que devíamos ir lá para pedir ajuda e pedir para resgatar os...corpos.
Todos se olham pensando se a melhor alternativa era essa. Depois de um momento Taiane ressalta:
– Acho melhor irmos pela pista...
– Mas se acharmos um carro, com certeza ele não vai poder levar todo mundo, além do que não tem nenhum movimento aqui. Vamos com Talita. – disse Lucas, num tom autoritário.
Assim todos nós seguimos Talita.
– Temos que passar aquela ponte e seguir aquele caminho – disse ela apontando para baixo da ribanceira. Começamos a descer para atravessar a ponte, que estava numa situação muito crítica, parecia que nenhuma pessoa passou por ali a séculos.
Quando estava atravessando a ponte eu olhei para o rio, quem olhava aquela calma correnteza, nem imaginava que debaixo dela tinha um ônibus cheio de pessoas dentro. Era um desastre.
Passamos por uma estrada apertada que tinha depois da ponte, a partir daí, estávamos andando num lugar com árvores altas, eram muitas, podíamos nos perder facilmente, por isso decidimos andar em fila.
– Meu Deus esse lugar é muito estranho – disse Marcelo, que estava no segundo da fila.
Eu era o último da fila e estava olhando para todos os cantos da floresta, até que ouço o grito de Talita, que logo depois ela sai correndo para o lado direito da floresta onde não tinha estrada. E obviamente todos também saíram gritando em direção a ela, sem mesmo saber o porquê.
– O que foi que houve Talita? – perguntei enquanto corria em direção a ela.
Ela não respondeu. Corremos por uns 40 segundos sem saber para onde íamos, tudo naquela floresta parecia igual.
Talita parou e sentou perto de uma árvore para descansar.
– Vocês não viram não? – Disse Talita enquanto respirava com força.
– O que garota? – perguntou Iasmin, que piscava com força seus olhos, tinha esquecido que seu óculos foi deixado no ônibus.
– Eu vi uma cobra, parecia um coral, ela estava se mexendo! – disse Talita com a maior cara de assustada.
Todos a olharam por alguns segundos com cara de: “poxa Talita, tanta correria porquê de uma cobrinha? ”. Marcelo olhou para a redondeza e depois olhou para Talita:
– Você agora tem que nos guiar para a estrada, você deixou a gente perdido da silva.
– Mas aqui deve ser de alguma roça não?! – disse Taine, sem saber direito do que falava.
– Mas é claro que não – Lucas falou – se fosse de roça esse lugar não seria tão selvagem e teria algum pé de cacau pelo menos...
– Ai eu tô com medo gente – falou baixinho Paloma, que logo começou a chorar.
Todos nós sentamos no meio daquelas folhas que caíram das árvores e começamos a pensar sobre a vida. Tínhamos passado por uma tragédia daquelas e depois tinha isso para resolver, sair daquele lugar. Eu não sabia dizer por eles, mas eu mesmo estava cansado, o acontecido me deixou totalmente estressado, não estava com forças para encarar o desafio de achar o caminho. De repente ouço a voz de Taiane, bem calma e baixinho:
– Gente.
Todos a olham, ela estava sentada e paralisada, não entendemos o porquê daquele comportamento, até uma aranha daquelas bem peludas sair de trás do seu pescoço e ir em direção ao seu braço.
– Tirem isso de mim...-disse ela na maior calma para não mover o seu corpo.
Eu não tive nenhuma coragem de tocar naquele bicho, fiquei paralisado junto com ela, e todos ficaram também, Lucas botou a mão na sua boca e ficou fazendo o som “iiiiii”, o som que ele sempre faz quando está num momento tenso, Paloma levantou-se e se afastou virando de costas, não queria nem ver aquele bicho horroroso.
Mas Iasmin, como sempre querendo ajudar, levantou-se e tentou procurar alguma vareta para poder tirar aquela aranha que agora estava parada no ombro de Taiane. Sem sucesso, ela decidiu tirar com as mãos mesmo.
Sei que quando uma aranha ou qualquer animal se sente ameaçado, ela ataca, eu poderia ter falado isso para Iasmin, mas na hora só conseguir falar: — Cuidado Iasmin...
Iasmin foi aproximando a mão da aranha e Taiane continuou paralisada e com os olhos fechados. Quando Iasmin bateu na aranha, ela grita junto com Taiane.
Na mesma hora que a aranha cai no chão Marcelo dá uma pisada com a maior força para esmaga-la, e fez isso com sucesso.
Eu me aproximei de Taiane para passar calma a ela, na hora pensei que ela tinha gritado por saber que a aranha poderia picá-la, mas foi esse o motivo realmente. Vi um furo em seu ombro e ela estava ficando fraca.
Naquele momento achei que só seriam apenas sete sobreviventes na jornada, perdíamos mais uma sobrevivente. Taiane fechou os olhos lentamente...
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