Vestido

1 I - Intimidade


Notas iniciais
Aproveitem a leitura!

I — Intimidade

A tarde caía em Magnólia, colorindo o céu em vários tons de vermelho e laranja. Dois jovens magos da guilda mais problemática, porém, mais respeitada e admirada da cidade, andavam pela rua do canal em direção à um dos vários apartamentos que eram alugados por ali, sendo seguidos por um exceed azul.

Happy, o mencionado exceed azul, notou que uma aura negra envolvia sua companheira de time, que andava um pouco à frente dele e do amigo de cabelos cor-de-rosa. Os ombros da garota estavam caídos e ela andava desleixadamente, como se estivesse passando mal.

— Natsu, você não acha que a Lucy está estranha? Olha só pro jeito que ela anda. — Comentou com o amigo.

— Você acha, Happy? — Perguntou Natsu, colocando uma mão no queixo e analisando a maga estelar. — Ela não me parece mais estranha do que antes. — Concluiu franzindo o cenho.

O Dragon Slayer olhou bem para a amiga, sem perceber que ela ficava ainda mais sombria com os comentários que eles faziam. Lucy, que já estava no limite com toda aquela conversa fiada, respirou fundo tentando se acalmar e ignorar os dois para não começar uma briga.

— Não Natsu, olha bem pra ela. — Disse Happy diminuindo o passo para analisar, fazendo com que o amigo também diminuísse.

— Estou olhando. — Cerrou bem os olhos, tentando ver o que o gato tentava lhe mostrar.

— Não parece que ela está com dor de barriga?

Natsu encarou a loira por alguns segundos.

— Agora que você falou Happy, realmente, ela parece estar com muita dor de barriga! — Concluiu fazendo um gesto com as mãos.

— Pobre Lushy! — Comentou o exceed, sentindo pena da amiga.

Lucy parou de andar de repente. Natsu e Happy pararam também, olhando confusos para a garota. Ela se virou lentamente, lançando o olhar mais mortalmente assassino que conseguia para os dois.

— Natsu! — Happy exclamou e voou para trás do amigo.— A Lucy está olhando pra gente de um jeito estranho!

— Parem de falar coisas estúpidas! — Cruzou os braços e pareceu ainda mais ameaçadora. — Vocês sabem muito bem o motivo de eu estar com raiva! — E bufou indignada.

— Lushy… — Happy tentou dizer, mas foi interrompido pela maga estelar.

— Era uma missão fácil, simples. E ainda pagava um valor considerável! Como é que vocês conseguiram estragar tudo? — Perguntou, mas sem esperar uma resposta dos companheiros de time. — Por que eu ainda aceito quando me chamam para ir em uma missão? — Natsu abriu a boca para responder algo, mas a maga continuou falando. — Aliás, porque diabos vocês se metem quando eu pego uma missão?

— Ué, porque somos um time Lucy. — Respondeu Natsu, confuso.

— Essa não é a questão! — Cobriu o rosto com as duas mãos, desolada.— Eu só queria pagar o aluguel…

Nesse momento, um barco passava pelo canal.

— Onee-san, por que está chorando? — Exclamou um dos homens no barco.

— Não fique triste, Lucy-san! Aproveite o feriado! — Gritou o outro.

— Hai hai! — Lucy levantou uma das mãos e acenou para eles, sentindo que seu rosto iria pegar fogo de tanta vergonha. — Vocês dois não tem jeito! — Disse para os companheiros de time.

— Mas Lucy, nós queríamos te ajudar a conseguir o dinheiro. — Disse o Dragon Slayer com uma expressão tão fofa que quase convenceu a loira de que era inocente.

— Três casas. — Respirou fundo.— Você destruiu três casas, Natsu.

O mago colocou uma das mãos na nuca, embaraçado, e riu de leve, tentando amenizar a situação.

— Pense pelo lado bom Lucy.

— Que seria? — Ela estava se controlando para não explodir.

— Cumprimos a missão, e agora as pessoas daquela cidade não terão mais problemas com os coelhos demoníacos destruindo suas plantações. — Disse o Dragneel, fazendo um joinha com a mão, sendo seguido por Happy.

— Aye! — Exclamou o gatinho.

Lucy arremessou com tudo a pequena bolsa que carregava, acertando em cheio a cara do Dragon Slayer.

— Ai! Isso dói! — Reclamou, esfregando com a mão o local atingido.

— Baka! Você acabou com três casas e as plantações! — Repreendeu ainda mais o amigo.

— A missão era para dar um jeito nos coelhos, não para cuidar de uma horta! — Resmungou Natsu, cruzando os braços e fazendo um bico, inconformado com as reclamações da colega de time.

— Que tipo de desculpa é essa? Meus 100.000 jewels ficaram para cobrir os custos do que vocês destruíram! — Ela estava possessa.

— A Lucy enlouqueceu! — Exclamou Happy.

— Você também! Não fique concordando com ele, gato idiota!

— Que maldade, Lucy. Nós estamos sempre te ajudando a pagar o aluguel e você só sabe ser má com a gente. — Disse o exceed azul, lançando-lhe um olhar magoado. — Além disso, agora eu também não dinheiro para comprar o peixe que eu ia dar de presente para a Charle.

Lucy suspirou ao notar que os olhos do pequeno amigo se enchiam de lágrimas, fazendo seu coração amolecer e sua raiva abrandar.

— Happy...— Tentou se aproximar do gato, mas ele já voava para longe do jeito mais dramático que conseguia.

— Como pode ser tão má, Lushy? — Disse com a voz chorosa e saiu voando em direção à guilda.

Ela sabia que grande parte daquilo era apenas drama do exceed, para se safar de sua raiva, mas mesmo assim já não se sentia tão brava com ele como antes. Olhou para Natsu que estava com a maior cara de emburrado do mundo inteiro. Achou graça e concluiu que não conseguiria ficar com raiva dele por muito tempo. “Será que fui muito dura?” Pensou. Apesar de serem muito bagunceiros, sabia que no fim as intenções dos amigos eram sempre boas.

Sabia que que Natsu tinha um coração enorme, que sempre a protegia e a ajudava. Ou pelo menos pensava estar ajudando. Sorriu enquanto encarava a carranca do amigo, sabendo que ele sempre iria de bom grado aonde quer que ela fosse, mesmo que tivesse que passar horas enjoado em um transporte. Ele a seguiria sem pestanejar.

— O que foi? — Perguntou o mago, com um bico enorme.

— Não é nada. — Respondeu sorrindo.

Desfez o bico ao notar o sorriso da amiga. Percebeu que ela não estava mais tão brava e sentiu-se culpado.

— Desculpa Lucy, pensei que conseguiríamos o dinheiro do aluguel.

“A locatária vai me chutar”. Pensou chorosa.

— Está tudo bem. — Tentou soar despreocupada.

— Tem certeza? Sua cara está esquisita.

— Não acha que já me chamaram de esquisita o suficiente por hoje? — Disse voltando a ficar brava.

— Eu quis dizer esquecida, ha ha. — Tentou acalmar a maga, porém, a frase não fez sentido nem mesmo para ele.

Ela Suspirou.

— Está tudo bem Natsu.

— Mesmo?

— Sim.

— Mas o que vamos fazer com o aluguel? — Perguntou preocupado.

A garota sorriu ternamente. Sentiu seu coração aquecer pelas palavras do amigo. Não só por estar preocupado com ela e tentar ajudá-la, mas também por dividir suas preocupações. Por falar como se também fosse responsabilidade dele. Seu coração se agitava com esse lado do rapaz. É claro que o Dragon Slayer passava muito mais tempo em sua casa do que na própria, porém, ouvi-lo dizer tais coisas lhe transmitia um sentimento muito grande de cumplicidade. Fazia ela sentir que, mesmo que nada desse certo, nunca estaria sozinha para enfrentar os problemas enquanto Natsu Dragneel estivesse ao seu lado.

— Está tudo bem. Podemos pegar outra missão amanhã e conseguir o dinheiro. — Sorriu timidamente para ele, sentindo todo o carinho que sentia vindo à tona.

— Sim, Lucy! — Concordou animado.

E lá estava aquele sorriso, iluminando toda a face dele como se nada no mundo fosse capaz de desfazê-lo. Lucy sentia seu coração se agitar quando ele sorria assim, tão abertamente. Era tão bonito que às vezes, quando se dava conta de que o estava admirando, ficava um pouco envergonhada.

— Na-natsu? — Chamou, sentindo aquele turbilhão de sentimentos estranhos invadir seu peito. Algo que vinha acontecendo com frequência há algum tempo.

— Hum?

— Vo-vou cozinhar para gente hoje. Já-já que chegamos um pouco tarde da missão… — Sentiu suas bochechas esquentarem por se atrapalhar com as palavras. Desde quando gaguejava para falar com Natsu? “Desde quando eu fico nervosa perto dele?”

— Fiquei empolgado! — Disse puxando a amiga pelo braço e seguindo em direção à casa dela. — Vamos Rushi!

— Sim.— Respondeu sorrindo.

E assim, seguiram adiante pela rua do canal.

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Horas mais tarde naquele mesmo dia, a lua já brilhava plenamente no céu. O jantar foi feito calmamente, com um Natsu incrivelmente quieto e paciente apenas observando enquanto Lucy cozinhava. Eles comeram até ficarem satisfeitos e depois, de algum jeito, o garoto acabou sentado no tapete do quarto da loira, enquanto a mesma se enrolava em uma coberta devido ao clima frio que caíra sobre a cidade. A madrugada chegou sem que percebessem, apesar de a sonolência da maga estelar denunciar o horário.

— Mais uma vez! — Disse animada.

Uma característica que o jovem mago descobrira recentemente sobre Lucy era que ela ficava um pouco manhosa quando estava com sono. Então ele não conseguia evitar fazer suas vontades. Não quando ela exibia aquele brilho infantil no olhar, empolgada com uma coisa tão simples.

Ele se ajeitou, cruzando as pernas e se aproximando mais dela, que também estava sentada no tapete. Juntou as duas mãos em concha e usou sua magia para criar uma pequena chama.

— É tão quentinho... — Disse sorrindo. — Parece uma pequena fogueira.

Observar a expressão meiga da garota o deixava um pouco envergonhado. “Tão bonita”. Ele pensava. Não sabia o motivo, mas sentia-se feliz em conhecer um lado dela que ninguém mais conhecia.

— Se eu colocar fogo no apartamento sem querer, a locatária vai ficar uma fera. — Disse sorrindo e desfazendo sua magia.

Ela suspirou e resmungou.

— Tá bom, já entendi. — Fez bico.

Riu da expressão inconformada que ela fez.

— Olha só quem está sendo infantil agora. — Implicou.

— Você é a última pessoa que pode me acusar disso, Natsu.— Respondeu achando graça.

— Não sei o que quer dizer. — Ele realmente não havia entendido, e isso só fez com que ela o achasse mais fofo.

— Deixa pra lá.

Ele perguntaria de novo, mas ela estava tão feliz que preferiu esquecer o assunto. Então, por algum motivo, começou a lembrar de seu pai e dos momentos que eles passaram quando ele ainda estava aprendendo a usar magia de fogo. Talvez fosse porque Lucy o fizesse sentir como se fossem uma família às vezes. Sem pensar muito, começou a falar sobre aquilo com ela.

— Quando eu vi Igneel soltar uma chama pela primeira vez, fiquei muito impressionado, e não parava de pedir para que ele fizesse outra vez. — Lucy olhou para o amigo, prestando atenção nas palavras dele. — Só parei de perturbar pedindo para fazer fogo quando passei a perturbar para ele me ensinar a fazer fogo igual ele. — Sorriu largo.

— Imagino o quão irritante você deve ter sido. — Comentou rindo.

— He… — Sentiu um pouco de tristeza, devido à saudade do pai. — E quando eu aprendi, fiquei um pouco preguiçoso… Sempre pedia ele pra esquentar as coisas pra mim. — Sorriu.

— Não consigo imaginar isso.

— É verdade. E ele sempre me obrigava a usar minha própria magia. — Riu, lembrando-se de como era na infância.

Lucy o observava encantada com as palavras dele. Em seu coração, uma felicidade muito grande crescia só por descobrir coisas tão pessoais sobre Natsu. Então, acabou se aproximando mais e repousou a cabeça no ombro dele. Estava corada, mas ele não podia ver.

— Ei, Natsu.

— Hum?

— Como era ter um pai dragão?

Sem perceber, ele também se aconchegou na garota, antes de responder.

— Era incrível. Ele me ensinou tudo o que eu sei. Me ensinou a usar magia, me ensinou a ler e escrever, e me ensinou sobre o mundo. — Suspirou. — Sinto falta dele.

— Eu sei… Eu também sinto falta dos meus pais. Mesmo que meu pai tenha sido tão autoritário… Eu queria ter tido a chance de mudar as coisas entre nós. — Seus olhos marejaram, mas não se sentia tão triste como quando soube que ele havia morrido. As coisas eram diferentes agora, porque ela tinha uma família. A guilda era sua família e seu coração era preenchido por causa deles.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Lucy soltou uma risada baixa.

— O que foi? — Perguntou Natsu.

— Nada… Só pensei uma coisa estranha de repente.

Ele esperou que ela continuasse.

— Se você fosse um espírito celestial, acho que te deixaria bravo.

— Hum?

— É que quando minha mãe morreu e me deixou suas chaves, eu era muito pequena. Não sabia ainda o que significava ser um mago. Mas eu já amava muito os espíritos e os chamava de amigos. — Sorriu enquanto lembrava.— Eu sempre invocava Aquarius na banheira, ou quando eu queria brincar. Ela ficava muito irritada.

— Por isso ela é tão carrancuda.

— Sim. Mas mesmo que estivesse brava, ela nunca deixou de vir por mim. E isso me deixava muito feliz.

Ficaram em silêncio novamente.

— Lucy.

— Hum?

— Eu não ficaria bravo com você. Mesmo que me chamasse só para acender fogueiras.

— Eu sei. — Sentiu seu coração se aquecer com as palavras dele.

— Sempre estarei aqui pra você, afinal de contas somos parceiros.

— Sim!

“Teria sido mais divertido naquela época se eu já tivesse te conhecido, Natsu.” Pensou a garota enquanto se deixava esquentar pelo calor natural que emanava do corpo dele, um pouco mais forte do que as pessoas comuns. Mas isso não era nem de longe ruim, muito pelo contrário, ela adorava que fosse assim.

— Você está me usando de cobertor outra vez.— Disse, mas não fez menção nenhuma de afastá-la.

— Você se incomoda? — Perguntou um pouco sonolenta.

— Não.

— Você está tão sério. — Riu. — Ninguém acreditaria se nos visse conversando assim.

— Assim como?

— Sobre essas coisas... Só acho que se alguém te visse assim, ficaria muito surpreso.

— Por que? Você acha não posso conversar assim?

— Não é isso… É que normalmente você não é tão sério.

Ele refletiu um pouco.

— Não sei o que dizer sobre isso. — Colocou uma mão no queixo, pensativo. — Acho que você me faz falar coisas sérias, Lucy.

Lucy sentia que suas bochechas estavam tão quentes quanto o corpo do Dragon Slayer. Era realmente incrível saber que ele era carinhoso dessa forma, algo tão oposto ao que as pessoas provavelmente imaginavam sobre ele. Mas ela sabia. Sabia tanto quanto ignorava o fato de estar grudada nele, algo que havia se tornado natural, porém, a frequência com que isso acontecia estava cada vez maior. “É porque ele é meu amigo”, dizia para si mesma. Mesmo sabendo que no fundo não era somente por isso que apreciava tanto estar junto do mago de fogo.

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Em algum momento durante aquela conversa, enquanto sentia-se feliz e sonolenta, Lucy acabou caindo no sono. Natsu colocou a garota na cama e a aconchegou em seus braços, ficando um pouco constrangido mas sem entender o motivo. Aqueles momentos íntimos estavam se tornando cada vez mais frequentes entre eles, e de certa forma isso o deixava feliz. Decidiu dormir por ali mesmo, como sempre fazia. Acordaria cedo e procuraria por algum trabalho na guilda.

Seria difícil naquela época, pois era fim de ano e todos se preparavam para a festa que aconteceria na Fairy Tail. Provavelmente o quadro de trabalho estaria com poucas opções. Ou pior, estaria vazio. Todos queriam ganhar um dinheiro extra para comprar presentes e não ter que se preocupar na última semana do ano.

Mas ele daria um jeito, porque Lucy sempre era gentil demais com ele. Fazia muito tempo que não reclamava que ele ficasse em seu apartamento, ou da comida que ele furtava sorrateiramente de sua geladeira. Ela até deixava pratos preparados para ele e Happy de vez em quando. Ele faria algum trabalho e daria um jeito de cobrir o aluguel. Esse vai ser o meu presente! Concluiu animado.

Notas finais
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