Verão. A brisa fria indicava que a chuva estava chegando. As enormes e acinzentadas nuvens no horizonte ocidental confirmavam. Mas no leste, o sol ainda brilhava, mesmo que pouco. No chão, se encontravam barracas cercadas de pessoas, algumas felizes, outras nervosas, algumas bêbadas e outras preocupadas com o tempo. Mas todas celebrando a seu modo.

Era dia da celebração da Reconquista, marco na história que elevou o país ao estatuto de Império. Nas ruas da Capital Imperial de Veral, era só folia. Dançarinos e foliões enchiam as ruas de paradas. O Exército desfilava nos arredores do palácio, enquanto a Marinha demonstrava seu poderio nas margens do rio. O povo ia às ruas para comer as mais diversas especiarias, dançar e beber até cair — se divertir pela folga do trabalho e aproveitar os espetáculos.

Mas o céu escureceu em sinal de tempestade. Enquanto muitos riam na Avenida Imperatriz e outros admiravam uma elegante carruagem estacionada, chegava à estação de trem uma maria-fumaça. Os arredores da plataforma ficam cheios: pessoas esperando seus amigos e familiares que vieram celebrar. Quando as portas se abriram, uma leva de pessoas saiu correndo para fora dos vagões. Alguns procuraram pelos conhecidos. Outros pegaram suas malas e foram direto às ruas. Os menos apressados ainda pararam para comprar alguma coisa dos vendedores ambulantes, que lucravam muito nesta época, por sinal.

Logo após o início do desembarque a plataforma começou a esvaziar. Um jovem sai do trem e começa a caminhar pela plataforma. Tem cabelo castanho-claro. Em seus olhos, via-se algo belo: suas íris, na cor turquesa. Estava vestindo um casaco bege e calça preta. Carregava consigo uma pequena bagagem. Em sua direção, um senhor se aproximava. Suas feições indicavam uma personalidade séria e madura, mas quando mais se aproximava do jovem, mais sua boca se abria num sorriso, enquanto que seus olhos verde-água brilhavam em afeição.

—Bem vindo, Rígel Laguna.

—Laguna é desnecessário. Só Rígel já está muito bom–

O jovem é interrompido por um pingo de chuva que cai em sua boca. Logo após, ouve-se um trovão.

-Já está começando a chover, vamos logo para a carruagem.

Rígel se fez um pouco desapontado, mas foi. Ambos entram na carruagem quando a chuva começa a pesar.

A carruagem em que entram é um belo veículo preto, com o interior decorado em tons de azul e verde. Um cocheiro de experiência aparente guia os cavalos para que desviem das poças, ao passo que estes correm mais rápido para fugir da chuva.

No interior, duas figuras tentam manter suas respectivas dignidades ao tentar não cair com o movimento do carro.

-Ei! Mais devagar! Quer nos matar?

-Ele não conseguirá te ouvir com essa chuva.

Barulhos são ouvidos do lado de fora. O jovem abre um pouco a janela para averiguar a situação. Vê pessoas correndo para procurar abrigo, vê donos de barracas fechando tudo às pressas e vê a chuva, impiedosa, limpando o ar.

—Podia chover mais por aqui.

—Esta cidade está em uma zona quente e seca, logo não está acostumada com muita chuva. Se chovesse mais, tudo colapsaria.

—Imagino. Mas mesmo assim, gosto de água. E já que vou ficar preso aqui por um bom tempo, bem que poderia chover mais um pouco.

Silêncio.

—... Desculpe. Não é sua culpa.

—Meu filho, me pesa saber que vais ficar aqui e, pior, que te envolverás ainda mais com nossa família. Mas se não te trouxesse, não haveria mais meios de garantir tua segurança, principalmente agora que todos já sabem de tua existência.

—Eu sei, mas ainda sim... Queria ficar na casa do lago... Com minha mãe... – suspira – não que seja possível.

O pai olho seu filho com tristeza. Sente pena do fato dele já ter perdido a mãe, a pessoa que o criou e com quem passou a maior parte de sua vida.

—Queria te dar uma festa de boas vindas... Mas não vou ter tanto tempo assim... Deixar-te-ei na Academia por agora.

—A cerimônia de abertura do ano letivo já deve estar começando.

—De fato, mas não devemos demorar.

Dito isso, a carruagem parou. Tal como a chuva, que deixou o céu clarear um pouco. O cocheiro desceu e abriu a porta. Fora encharcado pela chuva e sujo pela lama a qual os garanhões passaram. Rígel se segurou para não rir enquanto descia.

-... Você está bem?

—Sim, jovem mestre.

—Felipe, peço-te desculpas. Quando chegarmos à mansão, terás dois dias de folga.

—Agradeço sua bondade, meu senhor.

—Rígel, tomes tua bagagem e vai.

—Sim...

O pai lhe olhou triste e se inclinou para dar um beijo no menino, que ficou envergonhado.

—...Ei!

—Boa sorte, filho.

—Obrigado por me buscar.

O pai sorriu e deu sinal para o cocheiro partir. O que deixou Rígel só na frente de um grande portão. Ele se virou e observou o lugar, um grande conjunto de construções, todas da mais fina arquitetura. Admirou os detalhes por alguns segundos até que, por fim, suspirou. Depois decidiu entrar na Academia Imperial de Verásil.

—És novo por aqui?

Assim que entrou, Rígel foi abordado por um garoto mais velho. Provavelmente do Terceiro Ano.

—Sim... Estou indo para a cerimônia de abertura.

Pensou “Acho que minha roupa deixa isso muito óbvio, mas só vou conseguir tempo para me trocar após a cerimônia”.

—Ah, sim. Por causa da chuva, irá acontecer no auditório. Deixa tua bagagem – ele examinou a única mala que Rígel trazia com o olhar – com os criados. Eles a levaram até seu quarto. Segue reto e chegarás lá.

—Agradeço a ajuda.

No caminho, ele se perguntou se todos aqui falavam tão formalmente. Seria difícil se acostumar. Rígel seguiu o caminho reto, passou por dois prédios e parou para contemplar o cenário. Os prédios em si não eram muito altos, tinham apenas dois ou três andares. Mas a arte presente neles tirava seu fôlego. As esculturas eram tão reais, que ele quase chegou a cumprimentar uma. Os detalhes das paredes eram muito bem feitos, todos lembravam formas orgânicas. Havia uma ou outra poça de água, mas o chão de paralelepípedo impedia acumulações.

De repente, escutou vozes vindas de mais adiante. Rígel então percebeu que a cerimônia de abertura ia começar e se adiantou.

Rígel foi orientado a entrar numa fila. Aparentemente, todos os alunos dos primeiros e segundos anos estavam alinhados, enquanto os alunos do terceiro ajudavam na organização. Após alguns minutos, a diretora apareceu e começou seu discurso.

—SEJAM BEM VINDOS, Ó JOVENS NA FLOR DA IDADE! AOS QUE JÁ ESTUDAVAM AQUI: É BOM REVÊ-LOS! AOS RECÉM-CHEGADOS: DESEJO-LHES UM ÓTIMO INÍCIO DE VIDA ESCOLAR! NOSSA ACADEMIA IMPERIAL PREPARA OS JOVENS QUE SERÃO O FUTURO DO PAÍS, MAS NÃO SE ESQUEÇAM DE QUE ENTRAR AQUI É APENAS O PRIMEIRO PASSO RUMO À VIDA DE NEGÓCIOS. DE QUALQUER FORMA, SE ESFORCEM AO MÁXIMO PARA CUMPRIR SEUS RESPECTIVOS OBJETIVOS. LEIAM! ESTUDEM! APRENDAM! TREINEM! LUTEM! VENÇAM! E SE TORNEM OS NOVOS PILARES QUE SUSTENTARÃO O IMPÉRIO!

—PELA GLÓRIA DE VERÁSIL!

Todos disseram ao mesmo tempo e, em seguida, aplaudiram. A acústica do lugar somada ao tom de voz da diretora fizeram de seu discurso alto e inspirador. Mais um pouco e seria como levantar a moral de um pelotão.

Rígel ficou impressionado. Virou-se e viu dezenas de pessoas declarando abertamente devoção ao país. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi um garoto de cabelos longos e ruivos. Ele estava sorrindo em sua direção. Um doce, porém travesso sorriso. Rígel acenou e foi correspondido, mas logo em seguida, o garoto desapareceu.

—AS AULAS COMEÇARAM PELA MANHÃ. ATRASOS NÃO SERÃO TOLERADOS. TODOS: DISPENSADOS!