Verásil XX

2 Companheiro de quarto


O dormitório era muito arrumado. Móveis muito bem trabalhados cercavam as camas, que eram adornadas com os mais finos lençóis de seda e travesseiros de penas. Um quarto normal na Academia para dois estudantes. Mas a colcha tinha um desenho diferente: duas serpentes ao redor de ninfeias. Rígel reconheceu o símbolo.

—Tsc... Aposto que mandaram fazer isso só pra se mostrarem.

Rígel simplesmente decidiu cair na cama. Depois de horas de viagem em um trem, seguido por andar de carruagem em uma tempestade e uma diretora que grita, já não tinha mais disposição para qualquer atividade. A cama era bem macia. Não demorou muito para se sentir sonolento. Seus olhos foram fechando até ele cair no sono. E sonhar.

O sonho de Rígel parecia ser muito doloroso. Ele se debatia e gritava “Mãe! Não!”. O suor escorria pelo seu rosto e se misturava às lágrimas. Mas num único instante, começou a sentir um calor na mão. Era um calor suave, morno, e entendeu que alguém o segurava. Acordou gritando:

—V-V-Você! Digo... Quem és tu?

Ao se lado, sentado em sua cama, estava um garoto. Ou ao menos foi o que Rígel reconheceu. A pessoa que via era bela demais para ser distinguida por sexo. Longos cabelos ruivos caiam em suas costas, lisos no começo e ondulados nas pontas. Vestia o uniforme da Academia junto a brincos de ouro. Seus olhos eram violetas, como se fossem encantados. Rígel ficou paralisado de tão surpreso.

—Hahahahahah... Você é mesmo muito fofo.

—Fofo? – Para enquanto cora – És meu colega de quarto?

—Sim. Mas não precisa ser tão formal.

—E-Então está bem... Tu, não, você é o garoto que estava me olhando durante a cerimônia?

—Sim, me chamo Serpes. Serpes Gorgomati.

—... Desculpe, não reconheço o nome da sua família...

—Tudo bem. Somos apenas comerciantes. Bom, na verdade grandes comerciantes, mas não costumamos chamar atenção. Não é surpresa que ninguém nos conheça.

—Entendo...

Rígel então percebe que ainda estão de mãos dadas e recua.

—Hum? Ah, sim. Você parecia estar sofrendo então eu quis te ajudar.

—Obrigado, mas não precisa se preocupar.

—Se você diz... Você é o novo herdeiro dos Núfar, certo?

—Acho que se pode dizer que sim... Sou Rígel Laguna.

—Huuuuum... Entendo. É um prazer conhecê-lo.

Rígel dormiu bem. Pela manhã, acordou e percebeu que seu colega de quarto já havia saído. Foi ao banheiro e em seguida abriu o armário.

—Quantos uniformes...

Pegou um se vestiu a tempo de ouvir alguém bater na porta.

—Senhor, trouxe o desjejum.

—Entre.

—Me chamo Elinore. Sou a encarregada deste andar. Por favor, sirva-se.

Elinore era uma bela mulher, aparentava ter 20 anos. Usava um vestido preto e avental branco. Na bandeja que carregava, havia frutas, pães, leite e biscoitos de vários tipos. Um desjejum completo.

—Sou Rígel Laguna. É um prazer. Sabe onde está o meu colega de quarto?

—O senhor Gorgomati disse que queria dar uma volta pelo campus e foi. A propósito senhor, sua aula de História Nacional começará em trinta minutos.

—Mas já?! Mal cheguei e já tenho que frequentar as aulas... De qualquer forma, obrigado.

—Não há de quê, senhor.

História Nacional, Negociação e Política. Após ter aulas de todas essas matérias, Rígel decidiu passear pelo campus, visto que ainda não tinha tido a oportunidade. Ele seguiu a via principal até uma fonte, onde decidiu sentar e apreciar o tempo.

O sol tentava aparecer nesta tarde de muitas nuvens. Ainda assim, o calor no rosto do jovem era o suficiente para que se lembrasse da fadiga de seu primeiro dia no segundo ano. A luz morna aquecia suas bochechas e o fez fechar os olhos e relaxar. Até que a sombra de alguém apareceu em sua frente.

—Está tão cansado assim logo no primeiro dia, Rígel?

—A viagem de ontem foi dura, e ter que entrar numa rotina tão depressa acaba comigo, Serpes.

—Entendo, então por que não vamos tomar um chá calmante no dormitório? Ao menos assim poderá deitar quando quiser.

—Ótima ideia.

—Você também está no segundo ano, certo? Que aulas teve hoje?

—Botânica, Geometria e Retórica.

—... Não são matérias um pouco difíceis?

—Nem tanto. Retórica faz parte do currículo daqui e já conhecia algumas coisas de Botânica. Já Geometria eu faço por que é desafiador. E você?

—Eu tive História Nacional, Negociação e Política. Dessas, eu só tenho interesse em Política, faço as outras como complemento. E amanhã ainda terei Economia e Geografia para ajudar.

—Então pretende tornar-se um político?

—Se for para ajudar o povo, sim.

O jovem ruivo deu um sorriso de leve, como se impressionado. Em seguida, tomou um gole de chá de camomila.

—Você vai se tornar um comerciante como a sua família?

-... Talvez. Não tenho muito interesse em trocas e negociações, mas não como se desse para escapar. Não é mesmo, Dom Rígel Núfar?

—Ainda não sou Dom, muito menos tenho o sobrenome Núfar. Mas não me pergunte o porquê, já que ainda não me disseram.

—Entendo...

Rígel olha em direção a sacada.

—Já está bem escuro, pena que ainda não choveu.

—Você gosta da chuva?

—Muito. Ela é a única coisa que me refresca nesse calor da capital.

—Hahaha... Pena que aqui não costuma chover muito.

—Pois é...

—Está ficando tarde. Vamos dormir?

—Vamos...

Rígel boceja e vai se arrumar para dormir. Enquanto isso, seu colega o observa atentamente, como se quisesse capturar cada detalhe.

—Você já conheceu alguém daqui?

—Ainda não.

—Que pena. Mas quando se derem conta de quem você é, virão aos montes te bajular. Ainda mais sendo tão bonito...

Rígel cora mais uma vez.

—O-Obrigado, eu acho. Não vai se arrumar?

—Hahah... Já estou pronto.

Era de se ficar surpreso com a velocidade que ele se trocou.

—Então vou apagar as luzes.

—Tudo bem. Mas antes, boa noite.

Rígel ficou contente com o desejo de “boa noite”, já que fazia um tempo que não ouvia alguém lhe dando. Mas antes que pudesse responder, ficou paralisado. Suas pernas travaram e seu rosto ficou escuro e vermelho. Escuro, pois o garoto ficou na frente da luz. Vermelho, pois esse mesmo garoto acabara de encostar seus lábios nos dele. No final de seu primeiro dia de aula, Rígel ganhou seu primeiro beijo de boa noite de seu colega de quarto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.