Vertigem Selvagem

8 Viagem para Joinville


Chegando sábado, acordei por volta das 3h para conferir se havia pego tudo. Tomei um banho frio para despertar. Estava um pouco ansioso.

Lembrei que não tinha pego o contato da Beatriz. Fiquei apreensivo. E se ela se atrasasse?

Vacilo meu. Eu não cometo esses erros.

Por volta das 4h30, chamei um táxi e parti para o aeroporto. Chegando lá, para minha surpresa, Beatriz já estava.

— Bom dia, senhor… — disse ela, bocejando.

— Credo, logo cedo já está assim?

— Não dormi direito. Estava com medo de perder a hora. Como não tenho seu telefone, decidi chegar mais cedo.

— Nosso voo sai às 7h. Você já tomou café?

— Não… não vou conseguir comer nada enquanto não chegarmos lá.

— Ansiosa?

— Nem tanto.

— Medo de voar?

— Talvez.

— Compreendo, mas logo estaremos lá — tranquilizei.

Chegando a hora do embarque, despachamos as malas: eu com uma mala simples e Beatriz com três.

— Vai sair de férias, Beatriz?

— Haha, palhaço… você não conhece as mulheres. São muitas coisas para se preocupar.

Abusada. Cheia de sarcasmo. E quando eu sou sarcástico, ela me chama de palhaço.

Notei que já estava ficando mais à vontade com a presença dela, mas ainda não conseguia controlar tudo o que sentia. Não sei se era a presença dela que me causava isso.

Já no avião, sentamos e nos acomodamos.

— Beatriz, me conta um pouco do seu trabalho.

— O trabalho no shopping é um pouco cansativo, mas eu não trabalho lá porque preciso, sabe?

— Na verdade, aquela loja é minha e do Miguel. Então preciso ficar de olho.

Agora tudo fazia sentido: a ausência dela na loja.

— Entendi.

— E o senhor?

— Mais do mesmo. Cuido da área de organização de eventos.

— Só?

— Sou assassino de aluguel nas horas vagas.

— Besta — disse ela, rindo.

— Gosto de relaxar nas horas vagas. Nada de importante.

— Minha vida deu uma agitada nos últimos meses.

— Mulheres?

— Nada de importante. Só algo passageiro.

— O senhor é um mistério.

Nesse momento, enquanto o avião levantava voo, notei a apreensão dela e tentei tranquilizá-la.

— Fique tranquila, essa é a pior parte.

Então ela se agarrou à minha blusa com a mão e ficou segurando.

— Já voei inúmeras vezes, mas a sensação é sempre nova.

— Como na viagem à Espanha?

— Sim.

— Entendi… e como foi a viagem?

— Foi interessante. Conheci ótimos lugares com o Miguel.

— Vocês parecem íntimos.

— Talvez.

— O senhor está curioso?

Com certeza queria saber mais sobre essa intimidade deles.

— Não me importo com a intimidade de vocês.

— Entendi — disse ela, sorrindo.

Beatriz parecia mais calma.

— Acho que vou tirar um cochilo. Não dormi bem… sabe que preciso dormir bem para manter essa minha beleza.

— Faz tempo que não dorme?

Ela arregalou os olhos e abriu a boca.

— Que abusado! Não estou te reconhecendo…

Na verdade, estava linda como sempre, mas não queria transparecer.

— É bom, né? Fazer piadinhas.

— Seu chato.

Beatriz começou a cochilar e, nisso, sua cabeça caiu sobre meu ombro. Fiquei na dúvida se deveria ajeitar ela ou deixá-la ali.

Ela parecia extremamente confortável… então decidi deixar.

Durante a viagem, enquanto Beatriz descansava, fiquei observando as nuvens pela janela e ouvindo sua respiração leve, que, de algum modo, me trazia conforto. Decidi ajeitar sua cabeça na poltrona e, sem conseguir evitar, observei seu rosto de perto. Nunca tive essa oportunidade antes; em muitos momentos, eu sequer conseguia sustentar seu olhar por medo de revelar algo. Cada detalhe do seu rosto me fazia querer tocá-lo… o nariz delicado, os lábios bem desenhados… Hesitei, afinal…

Ao ajeitá-la na poltrona, seu cabelo acabou se espalhando sobre o rosto. Com cuidado, afastei alguns fios para trás de sua orelha, me perdendo por um instante naquele momento… até que Beatriz se mexeu levemente, abrindo os olhos aos poucos.

— Já chegamos? — murmurou ela.

— Ah, você acordou?

— Tive um sonho estranho… o senhor estava… ah, deixa pra lá.

— Você estava roncando. Até babou na minha blusa.

— Mentiroso — disse Beatriz, seguida de um leve tapinha no meu braço.

Já estávamos quase chegando quando Beatriz despreguiçou-se. Ela estava linda daquele jeitinho todo bagunçado. Automaticamente, ajeitei seu cabelo novamente num movimento involuntário.

— Assim o senhor me deixa sem graça.

Apenas olhei profundamente para ela sem dizer uma só palavra. O silêncio permaneceu ali por um instante.

Ao desembarcar, pegamos nossas malas e partimos para a área onde pegaríamos um táxi. O dia estava ensolarado e, enquanto aguardávamos, o sol batia em Beatriz. Aquela luz natural fez a cena ficar perfeita. Não me contive: peguei meu celular e tirei uma foto sem que ela percebesse. Ela se despreguiçou e comentou:

— Como está gostoso o clima aqui. Faz um tempo que eu não tiro um momento pra mim relaxar.

Eu apenas observei… e abri um leve sorriso de canto.

Enquanto aguardávamos o táxi, Beatriz continuou observando as coisas ao redor, até que viu, no canto, uma senhora que vendia flores. Ela sorriu e saiu correndo em sua direção.

— Nossa, que flores lindas a senhora tem aqui.

A senhora sorriu, agradeceu e perguntou se ela gostava de algo em específico. Ela acenou com a cabeça e apontou para uma orquídea, muito comum por aqui na cidade. Eu estava de longe, porém atentamente observando tudo o que ela fazia… era reconfortante observá-la em silêncio.

— Beatriz, nosso táxi chegou…

Ela virou-se… aquela cena dela com os cabelos levemente bagunçados, com um sorriso extremamente cativante me olhando de longe, trouxe novamente aquela sensação de o tempo desacelerar…

Coloquei as malas no carro e entramos.

— Beatriz, você parece feliz em estar aqui.

— Faz um bom tempo que não viajo ou que não tiro um tempinho para relaxar.

— Sabe que estamos aqui a trabalho, né?

— Nossa, como o senhor é estraga-prazeres…

— Bom, podemos dar uma volta depois de resolvermos nossas coisas por aqui.

— O senhor está me convidando para sair?

Não respondi… apenas olhei para ela e desviei o olhar para a janela do táxi.

Ao chegar no hotel, pegamos nossas malas e fomos fazer o check-in.

Pegamos as chaves e partimos para o elevador.

— Eu sempre tive medo de ficar presa no elevador.

— Sério? Você não parece o tipo de mulher que sente medo de qualquer coisa.

— Engano seu, eu sou muito medrosa.

— E o senhor tem algum medo?

Enquanto abria a porta do elevador, pensei: bom, acredito que o meu medo nesse momento é que não tenhamos outros momentos assim.

— Todos temos.

Finalmente chegamos aos nossos quartos, então disse a ela:

— Beatriz, entre, tome um banho e descanse. Vou preparar algumas coisas. Se precisar de alguma coisa, é só chamar.

— Entendido… preciso mesmo dar uma relaxada.

Enquanto Beatriz descansava, aproveitei para organizar algumas coisas. Eu tinha a impressão de que esse tempo com ela seria bom para eu poder conhecê-la um pouco mais, então queria aproveitar o máximo de tempo possível que não fosse trabalho.

Fui até o local do evento, deixei algumas coisas pré-definidas, falei com alguns contatos e retornei para o hotel.

Quando estava chegando ao meu quarto, me deparei com Beatriz em minha porta.

— Ah, então o senhor está aí… estava achando que não queria me atender.

— Aproveitei que você estava descansando para adiantar algumas coisas.

— Bom, eu já fiz algumas ligações e deixei algumas coisas arrumadas no local do evento.

— Gostaria de conferir?

— Sim, seria ótimo.

— Certo, vou tomar um banho, me trocar e logo saímos. Te espero no saguão do hotel.

— Combinado — disse ela num tom mais animado.

Fui para o meu banho. Decidi me vestir mais casual: uma camisa simples no tom bordô, uma calça cáqui. Dei uma leve penteada no cabelo e usei um perfume mais fresco.

Desci para o saguão. Fiquei pensando quanto tempo Beatriz demoraria para descer… peguei uma revista e fiquei aguardando.

Estava sentado de frente para as escadas lendo, quando, de repente, com uma leve levantada de cabeça, pude observá-la descer lentamente…

Beatriz usava um vestido mais solto, decotado na medida certa, num tom creme com rosas vermelhas, cabelos soltos, brincos de bolinha, um colar delicado com um pingente e uma sandália simples branca, mas que ficava perfeitamente em seus pés. Se o dia estava bonito, com certeza ela o deixou ainda mais.

— Estou pronta!

— Até que você não demorou tanto.

— Me arrumo rápido quando quero.

— Não quis me deixar esperando?

— Talvez… quem sabe.

Minha vontade era dizer o quanto ela estava maravilhosa. Apesar de meus olhos expressarem isso, apenas fiz um comentário:

— Você está diferente.

— Diferente como?

— Não estou habituado a te ver assim.

— Ficou ruim?

— Não foi isso que eu quis dizer… podemos ir?

— Nosso táxi está aguardando.

— Sim, podemos.

Eu já me sentia mais confortável ao lado dela. Abri a porta do táxi pra ela; ela me olhou, sorriu e entrou no carro.

— O senhor está muito gentil comigo hoje.

— Eu sou gentil… além disso, estou me sentindo bem por estar aqui. Gosto deste lugar.

— Boas memórias?

— Sim, passei muitos anos aqui com meus pais.

— E onde seus pais moram atualmente?

— Eles faleceram muitos anos atrás.

— Ah, me desculpe… eu não sabia.

Fiquei por alguns instantes em silêncio… respirei fundo.

— Ah, tudo bem. Quase ninguém sabe. Sr. Jorge é uma das poucas pessoas que sabem do meu passado.

— Conhece o Sr. Jorge há quanto tempo?

— Desde a minha infância. Ele era um grande amigo do meu pai.

— Mas e você, como conheceu o Sr. Jorge?

— Aula de balé… ele levou a neta dele para fazer aulas. Nessa época, eu quem dava aulas. Acabamos nos conhecendo.

— Por que gosta de dançar balé?

— Me sinto livre.

— Notei… você parece outra mulher quando dança.

— Isso é bom ou ruim?

— Não decidi ainda — disse, sorrindo.

Foi uma conversa agradável. Apesar de ela ter tocado no assunto dos meus pais e de eu não gostar de falar sobre isso, me senti num lugar confortável. Por algum motivo, aquela mulher me deixou perigosamente confortável; de certa forma, fiquei apreensivo.

— Chegamos, Beatriz.

— Não é à toa que aqui é chamada a capital nacional da dança — disse Beatriz.

— Adorei. É um lugar muito aconchegante.

— Não conhecia este lugar?

— Não. Miguel me falou muito bem daqui, mas nunca tive oportunidade de vir.

Ela tinha que falar sobre esse cara.

— E você e Miguel se conheceram como?

— Vocês parecem íntimos.

— No balé… ele fez uma apresentação na minha cidade quando eu era mais nova. Minha professora nos apresentou e, desde então, ele sempre está por perto.

Me senti ameaçado. Ela parecia confortável ao falar dele.

— Entendi. Bom, vamos conhecer o local para apresentação?

— Sim, vamos.

Chegamos ao local do evento e o olhar de Beatriz transmitia uma vibração muito grande.

Ao chegar próximo ao palco, eu pude ver o quanto ela amava aquilo.

Ela subiu ao palco e começou a fazer movimentos de dança. Aquele vestido floral desenhava no ar movimentos perfeitos.

— Você já está ficando empolgada.

Ela sorriu.

— Difícil me segurar quando estou num palco. Já sinto a vibração.

Neste momento, ela tira um lacinho que estava em seu vestido e amarra o cabelo, fazendo um coque. Logo em seguida, ela diz:

— O senhor pode subir aqui um momentinho?

Fiquei pensativo. O que será que ela vai aprontar desta vez?

— O que vou fazer aí?

— Vem logo, eu preciso de ajuda aqui.

Não hesitei.

Subi ao palco e fiquei onde ela pediu que eu ficasse.

Então ela começou a dançar. Os movimentos precisos dela eram incríveis.

— Preciso que o senhor fique paradinho aí e, aconteça o que acontecer, não se mexa.

“O que essa maluca vai fazer?”, pensei.

Ela começou a dançar se aproximando de mim. Os seus movimentos sutis lançavam um vento tão delicado quanto eles. Aquilo foi passando por mim, misturando-se com seu perfume.

Ela girava ao meu redor, então começou a tocar levemente meus braços com os dedos… sentia o toque dela, mesmo por cima da camisa. Eu sentia meus músculos se contraírem.

Quando olhei para o rosto dela, seu semblante era outro, mais intenso. Cadê aquela mulher doce e meiga que estava ali minutos atrás? Ela deu espaço para outra mulher intensa e selvagem.

Aquele momento me deixou aflito. Ela me tocava sutilmente, porém os toques mexiam comigo.

Ela passava as pontas dos dedos pelo meu rosto e ia girando ao meu redor.

Por um leve descuido, eu me mexi. Ela se desequilibrou e ia caindo.

Fui ágil e a peguei pela cintura, como numa cena digna de um filme de romance.

Nossos olhos se perderam. Aquele olhar intenso me desmontou.

— Senhor…

— Senhor… pode me soltar já.

— Me desculpe…

— Se empolgou, foi?

— Impressão sua.

— Pelo que eu vi… não foi, não.

— Não faço ideia do que esteja falando.

Ela gargalhou… enfim, deu pra sentir o ambiente.

— Esses movimentos fazem parte da sua apresentação?

— Sim. Essa dança é diferente da primeira…

Entendi, então essa é a dança que ela fará com o Miguel.

— O que achou do local?

— Gostei bastante. Espaço amplo… vai ser divertido.

— Sim, realmente é um local amplo.

Depois de conhecermos o local, decidimos voltar para o hotel.