Vertigem Selvagem

9 Figura Materna


Beatriz, como não temos mais nada a tratar sobre trabalho, podemos voltar para o hotel.

— Gostaria de aproveitar a oportunidade de tempo livre para levar você a um lugar que eu gosto muito.

— Vou adorar… mas como é este lugar?

— Fique tranquila, nada muito chique.

Voltamos para o hotel. Notei que Beatriz ficou animada. Queria aproveitar esse momento para conhecer mais sobre ela.

— Nos encontramos no saguão novamente.

— Combinado.

Cheguei ao meu quarto, tomei um banho fresco, peguei uma bermuda e uma camisa básica de cor clara e me arrumei… pronto, estava ótimo para a ocasião. Desci para esperar Beatriz.

Beatriz apareceu com um look simples, mas perigoso naquele corpo dela. Cabelos presos, sandálias de tiras e aquele batom que parecia fazer questão de me provocar.

— Como não sabia onde me levaria, pensei em me vestir mais casual.

— Está ótimo… eu também optei por algo mais casual.

Chamamos um táxi para um lugar onde eu havia reservado uma mesa. Era um restaurante simples, mas com um ambiente bem agradável.

— Estou curiosa para saber onde o senhor está me levando.

— É um lugar que eu gosto muito de vir quando estou por aqui. Creio que você goste.

— Hum… interessante.

Ao chegarmos ao local, quando eu estava entrando...

— Meu bemmm... — uma voz gritou.

Logo em seguida, fui recebido por um abraço caloroso, como daqueles que não recebo há um bom tempo.

Era Dona Lúcia. Uma senhora de cerca de sessenta anos, baixa e um pouco rechonchuda, com os cabelos grisalhos presos em um coque simples. O rosto trazia as marcas do tempo, mas os olhos azuis continuavam cheios de vida e carinho. Usava um avental florido sobre o vestido e carregava aquele sorriso acolhedor que fazia qualquer pessoa se sentir em casa.

— Como é bom vê-lo novamente por aqui.

— Dona Lúcia, é muito bom ver a senhora também.

— Esta é a sua namorada, meu filho?

— Não, Dona Lúcia...

— Por que não, meu filho? Ela é tão linda.

— Eu sei, Dona Lúcia. Ela veio comigo visitar alguns lugares. Resolvi trazê-la aqui.

— Muito prazer, eu sou Beatriz.

— Ah, minha filha, venha cá. Esse menino nunca traz ninguém aqui... achei que você fosse namorada dele.

— Tudo bem, não tem problema... — disse Beatriz, sorrindo.

— Eu deixei sua mesa favorita reservada o dia todo.

— Ah, Dona Lúcia, não precisava de tanto.

— Eu sei o quanto aquela mesa significa para você... venha, vamos.

Nos sentamos na mesa que ficava próxima a uma grande janela, de onde era possível ver alguns lugares da cidade.

— O senhor ficou emocionado...

— Ah, esse lugar é minha segunda casa. Dona Lúcia cuidou muito de mim quando meus pais se foram. É extremamente proibido eu vir aqui e não visitá-la.

— Imagino... você demonstra um carinho muito grande por ela.

Após isso, Beatriz ficou em silêncio, apenas me observando.

— Sim... ela é como uma mãe para mim.

— Dona Lúcia, a senhora pode trazer o cardápio?

— Sim, meu filho. É para já.

Enquanto Dona Lúcia pegava os cardápios, pude notar que Beatriz observava os detalhes daquele restaurante. Era um lugar simples, não muito grande, mas tinha um ar extremamente familiar.

— Nossa, eu gostei daqui. Tem dias em que só precisamos de algo simples e uma boa companhia — disse ela, olhando pela janela.

— Confesso que não imaginei você em um lugar assim.

— Talvez, mas você está subestimando ele.

— Mas eu gostei de estar aqui neste momento.

Quando Dona Lúcia voltou com os cardápios, percebi que ela trazia junto um álbum de fotos. Entrei em desespero imediatamente.

— Não, Dona Lúcia... você vai mostrar minhas fotos de infância?

— Não tem nada de que se envergonhar.

— Beatriz, veja só essas fotos aqui do Leonardo.

— Ah, não, Dona Lúcia...

Passei a mão no rosto.

— Vou precisar beber um bom vinho hoje.

— Ah, meu filho, sinta-se em casa. Você sabe onde ficam as garrafas.

Naquele momento, eu já não estava mais ali como cliente. Dona Lúcia, por sua vez, mostrava as fotos para Beatriz, que claramente estava se divertindo.

— O senhor era uma gracinha quando era criança... veja só essa aqui, todo sujo de terra.

— Meu Deus...

Depois disso, fui buscar uma garrafa de vinho. Não sabia de que tipo de vinho Beatriz gostava, então peguei algo mais suave.

Quando voltei para a mesa, encontrei Dona Lúcia e Beatriz dando gargalhadas.

— Ei... ainda estão rindo de mim?

— Viu, Beatriz? Ele fica todo sem graça quando rimos dele. Tem pose de durão, mas por dentro é mais mole e doce que mamão.

Beatriz continuou sorrindo e apenas acenou com a cabeça.

— Bom, vou deixar vocês escolherem o que desejam.

Beatriz terminou de ver as fotos. Por incrível que pareça, não fiquei tão incomodado.

Ela parecia se divertir... e vê-la sorrindo valia qualquer sacrifício.

Beatriz pegou o cardápio e começou a folheá-lo.

— O que o senhor me recomenda?

— Olha, os pratos daqui são todos ótimos, mas tem algo que é irrecusável.

— Recomendo a lasanha. E, de sobremesa, tem um sorvete de chocolate especial que provavelmente você vai adorar.

— Está decidido. Vamos de lasanha.

— Dona Lúcia, nós vamos querer aquela lasanha maravilhosa que só a senhora sabe fazer.

— Pode deixar, meu filho. Vou caprichar para vocês.

Enquanto Dona Lúcia preparava nosso pedido, fui servir Beatriz.

— Você aceita uma taça de vinho?

— Sim, por favor.

— Não sei de que tipo de vinho você gosta, então peguei um bem suave daqui da região.

— Adoro vinhos suaves.

— Eu voltaria aqui mais vezes. Dona Lúcia é um amor... Agora entendi por que você quis vir aqui e por que ficou emocionado.

— Sim... Este lugar é reconfortante.

Ficamos conversando por alguns minutos, até que Dona Lúcia chegou.

— Meus amores, aqui está o pedido de vocês.

Antes de sair, ela olhou para mim e disse:

— Meu filho, espero que você olhe para essa lasanha da mesma forma que olha para a Beatriz.

Comecei a tossir.

— Como assim, Dona Lúcia?

— Ah, meu filho, eu te conheço. Não te vejo com esse olhar há anos.

— Não sei do que está falando, Dona Lúcia.

— O senhor está vermelho... — comentou Beatriz.

— É o vinho... É o vinho fazendo efeito.

Beatriz me observou por um instante.

— Notei uma diferença no senhor hoje.

— Diferença?

— Sim. O senhor está mais solto, mais sorridente. Confesso que adoraria saber o motivo.

Era óbvio o motivo, porém ela não precisava saber.

— Impressão sua.

— Nossa, que delícia está essa lasanha. Faz anos que não como uma tão saborosa.

— Eu disse. Dona Lúcia capricha.

— ¡Muchas gracias por la comida! — disse Beatriz para Dona Lúcia, que sorriu.

— Não sabia que você falava espanhol.

— Nada, só algumas coisinhas que aprendi na Espanha com o Miguel.

— Há quanto tempo vocês se conhecem?

— Pouco mais de dois anos.

— Quando foi a viagem de vocês?

— Ano passado.

— Vocês namoram?

Beatriz riu.

— Não Somos apenas colegas de trabalho.

— Tem certeza?

— Claro que tenho.

— Não sei... O jeito que ele fala de você parece diferente.

— Nunca notei nada a respeito.

— Talvez porque você nunca tenha parado para observar.

Beatriz tinha um pouco de molho no canto da boca.

Sem pensar muito, peguei um guardanapo, me inclinei levemente sobre a mesa e falei em tom baixo:

— Espere...

Limpei cuidadosamente o pequeno borrão de molho.

Ela permaneceu imóvel por um instante, apenas me olhando.

— Que gentil... — murmurou.

Só então percebi o que havia feito.

Afastei a mão devagar.

— Desculpe. Estava um pouquinho sujo. Agi por impulso.

Ela sorriu de canto.

— Tudo bem... Vamos torcer para o senhor estar sempre por perto nessas ocasiões.

Apenas sorri.

— Faz muito tempo que eu queria vir aqui, mas o trabalho estava atrapalhando. Dessa vez deu certo.

— Eu amei conhecer este lugar... a região, o ambiente, o teatro... a Dona Lúcia. Vou adorar voltar aqui outras vezes.

— Pode ter certeza de que Dona Lúcia vai adorar sua visita.

Depois de comermos, continuamos conversando e tomando vinho. Fazia muito tempo que eu não tinha um jantar acompanhado tão agradável quanto aquele.

— Bom, é hora da sobremesa — disse Beatriz.

— Eu já estava me esquecendo.

— Dona Lúcia, pode nos trazer aquele sorvete especial?

— Claro, Leo. Um momento.

— O sorvete da Dona Lúcia tem um toque especial. Ela mesma faz a massa e ainda coloca pedaços de chocolate Alpino.

— Nossa, chocolate Alpino é o meu favorito. Já adorei a ideia.

De longe, Dona Lúcia observava nossa conversa. Parecia feliz por estarmos ali. Senti muita saudade dela.

Pouco depois, ela voltou trazendo uma taça grande de sorvete com duas colheres.

— A máquina de lavar quebrou hoje, e as outras taças ainda não secaram. Vocês vão ter que dividir. É por conta da casa.

Beatriz olhou para mim.

— Não vejo problema algum.

— Por mim, tudo bem.

Eu entendi muito bem o que Dona Lúcia estava tramando. Afinal, quando fui pegar o vinho, vi quantas taças de sobremesa ela tinha guardadas.

Te devo uma, Dona Lúcia.

Começamos a comer o sorvete. Aquele ambiente, aquela vista para a cidade e aquela companhia...

Sem dúvida, foi o melhor sorvete que provei em anos.

Percebia que, a cada colherada, Beatriz parecia se divertir mais com a situação.

— Dona Lúcia, muito obrigada. Estava tudo uma delícia. Eu amei a lasanha, o vinho e o sorvete.

— Ah, que isso, minha filha. Volte quando quiser.

— Leonardo, por favor, faça o favor de trazê-la mais vezes.

— Pode deixar, Dona Lúcia.

Fiz o pagamento, embora Dona Lúcia não quisesse aceitar. Tínhamos um combinado: sempre que eu viesse ali, pagaria pela comida. Não seria justo passar tanto tempo sem aparecer e, quando finalmente viesse, sair sem pagar.

Nos despedimos e partimos.

Antes de chamarmos um táxi, sugeri que déssemos uma volta.

— Gostaria de dar uma caminhada antes de voltarmos?

— Eu adoraria... A noite está tão bonita.

— Realmente está... — respondi, olhando para ela.

Enquanto caminhávamos, pela primeira vez em anos me senti livre das minhas amarras.

— Sabe, Leo... quer dizer, senhor...

— Pode me chamar de Leo.

Ela sorriu.

— Fazia muito tempo que eu não me divertia tanto. A correria do trabalho e os ensaios acabam me sufocando às vezes.

— Digo o mesmo. Por mais que eu tenha vindo para cá a trabalho, foi muito bom tirar esse tempo para mim.

— Te devo um jantar — disse Beatriz.

— Olha que eu vou cobrar, hein?

Ela riu.

Chamamos um táxi e voltamos para o hotel. Beatriz parecia cansada, então disse que ela poderia descansar sem se preocupar com o horário.

Partiríamos apenas após o almoço.

Antes de irmos para os nossos quartos, Beatriz pegou meu celular e disse:

— Não tenho o seu número salvo. Pode salvar o meu?

— É verdade.

Ela ligou para o próprio telefone para que eu pudesse registrar o contato.

— Obrigada pela noite...

— Eu que agradeço.

Ela sorriu e entrou no quarto.

Depois que a porta se fechou, entrei no meu também. Por mim, teria ficado mais algumas horas conversando.

Tomei um banho para relaxar, vesti o roupão e me deitei na cama.

Peguei o celular para salvar o contato de Beatriz quando recebi uma notificação.

Era uma mensagem dela.

"Obrigada pela noite. Eu realmente me diverti muito durante o dia todo. Adoraria ter outras oportunidades assim."

Sorri sem perceber.

Respondi:

"Eu também me diverti muito. Boa noite, Beatriz."