Vertigem Selvagem
5 O ingresso
Na outra manhã, enquanto eu entrava na cafeteria, Beatriz passou por mim apressada. Murmurou um “bom dia” seco, sem sequer diminuir o passo, e desapareceu rua afora.
Por mais que não tivéssemos contato nem nada do tipo, ela estava sempre sorridente. Pensei que algo tivesse ocorrido, então fui perguntar ao Sr. Jorge.
— Bom dia, Sr. Jorge. O que houve com a Beatriz? Ela passou em disparada pela porta; quase não a reconheci.
— Então, meu filho… surgiram alguns imprevistos. Ela precisou sair correndo.
Apenas assenti com a cabeça.
— O senhor pode me servir um café… por favor?
— Sim, claro. Um momento… aqui está.
Enquanto tomava meu café, notei um ingresso sobre o balcão e questionei:
— Sr. Jorge, este ingresso é do senhor?
— Sim. Eu ganhei para uma apresentação, porém não poderei comparecer… Inclusive, como não tenho com quem compartilhar, quero presenteá-lo.
— Ah, Sr. Jorge, eu nem gosto dessas coisas de apresentação. Já não basta o meu trabalho de organizar; faço o possível para fugir desse ambiente.
— Hum… deveria ir. Vai ser na próxima sexta, às 20h. Vai te ajudar a relaxar um pouco.
Peguei aquele ingresso, olhei o endereço e vi que não era tão longe do meu trabalho. Pensei: talvez eu devesse ir, quem sabe? Coloquei o ingresso no bolso da camisa.
Me despedi do Sr Jorge e parti para o trabalho.
Enquanto aguardava o onibus, fiquei pensando o que havia acontecido com a Beatriz…
Fiquei Preocupado.
Ja no escritorio,
organizei algumas coisas, tirei o ingresso do bolso e coloquei sobre a mesa, quando ouço meu telefone tocar…era minha secretaria
— Bom dia, senhor. O evento de sexta-feira foi adiado.
Pensei: graças a Deus, vou poder ir para casa mais cedo descansar.
Foi um dia completamente atípico. Faltou algo que eu não sabia explicar. Fiquei pensando no que de fato havia ocorrido com Beatriz; era um semblante completamente diferente do que eu já tinha visto antes.
Olhei aquele ingresso sobre a mesa. Será que eu deveria presentear Beatriz com ele?
Seria estranho?
Mal nos conhecemos.
Ela poderia caçoar de mim… talvez assim ela voltasse a sorrir.
Cara, o que você está pensando? — pensei.
Foi um presente do Sr. Jorge. Não vou fazer desfeita.
Chegando o dia esperado da apresentação, durante o café junto do Sr. Jorge, perguntei:
— Sr. Jorge, aquela moça tem aparecido?
Não falei o nome para ele não pensar que eu estava interessado.
— Beatriz?
— Isso, ela mesma.
— Essa semana ela não apareceu. Está ocupada com algumas aulas.
Pensei… aulas? Afinal, o que ela faz além de ser gerente de um departamento?
Será que está cursando algo na área dela?
Respondi ao Sr. Jorge:
— Entendi.
Paguei pelo café e fui para o trabalho…
Como haviam adiado um evento pelo qual eu seria responsável, decidi sair um pouco mais cedo. Ao finalizar a organização da minha agenda da próxima semana, o ingresso permanecia no mesmo local. Pensei: bom, vou dar uma oportunidade. Parece que hoje estou de bom humor.
Peguei o ingresso, coloquei na bolsa e saí do trabalho. Decidi almoçar no shopping antes de ir para casa e passei em frente à loja onde Beatriz trabalhava. Dei uma olhada pelo vidro, disfarçadamente, mas não a avistei.
— Precisa de ajuda, senhor?
— Boa tarde… Estava dando uma olhada nesse blazer.
— O senhor gostaria de experimentar?
Claramente, o motivo de eu estar olhando pelos vidros não era o blazer.
— Claro, eu adoraria…
Entrei na loja como se nada estivesse acontecendo e peguei o celular para fingir estar ocupado enquanto a funcionária me levava até o provador.
Entrei no provador para experimentar o blazer em um tom creme. Realmente havia ficado interessante. Como tinha uma apresentação naquela noite, decidi levá-lo.
Quando saí do provador, olhei atentamente todos os cantos da loja e não vi Beatriz ali. Fiquei pensativo…
Enquanto a funcionária embalava meu blazer, o telefone da loja tocou.
— Alô, boa tarde…
— Sim…
— Não, senhor. Beatriz está de folga por esses dias. Ela retorna na próxima semana.
O que será que aconteceu? — pensei.
Fiz o pagamento, despedi-me da funcionária e fui embora.
Passei o caminho todo pensando: Desde aquele dia em que a encontrei saindo correndo da cafeteria, não a vi mais…
Espero que esteja tudo bem.
Cheguei em casa com aquilo ainda martelando na cabeça e fui direto para um banho quente.
Tirei a roupa, liguei o som e entrei no banho.
Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo, Beatriz continuava ocupando meus pensamentos. Era estranho como alguém que eu mal conhecia conseguia permanecer tão viva na minha mente.
Fiz a barba, terminei o banho, vesti o roupão e fui me arrumar.
Escolhi uma calça escura, uma camisa azul-clara e um sapato marrom. Coloquei meu relógio e, por último, o blazer.
Borrifei meu perfume italiano favorito.
Parei diante do espelho por alguns segundos… perfeito.
Chegando ao local, apresentei o ingresso. Uma das colaboradoras me indicou o caminho.
Meu lugar era na terceira fileira, próximo ao palco — mais perto do que eu gostaria. Olhei para os lados e para trás, procurando algum outro lugar mais distante onde eu pudesse ficar… sem sucesso. O local estava enchendo rapidamente.
Apesar de estar ali, eu não fazia ideia do que era aquela apresentação. Apenas sabia o local e o horário. Afinal, organizo tantos eventos que procuro fugir desse ambiente.
Tudo pronto para começar.
Ao som do piano, notei que era algo mais clássico. Talvez, no fim das contas, valesse a pena estar ali só por isso.
De repente, as luzes se apagaram. No centro do palco, uma presença entrou em foco. Pensei comigo: não acredito que estou vendo uma apresentação de balé… vamos ter uma conversa séria, Sr. Jorge.
Fiquei inquieto no assento. Aquela pessoa começava seus movimentos suaves, gesticulando com os braços. Ainda não era possível ver o rosto; estava de costas. Seus giros eram rápidos e sutis ao mesmo tempo, como se desafiassem a gravidade. Comecei a me sentir mais confortável com aquela dança.
Seus movimentos aumentaram junto ao ritmo do piano. Por fim, ela começou a desfilar elegantemente pelo palco, aproximando-se cada vez mais… até que:
Eu não acredito no que estou vendo — sussurrei, baixo.
Era Beatriz.
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