Eren suspirou dentro do quarto vazio, não tão silencioso como de costume, ao longe podia ouvir a risada de Reiner e Berthoudt no quarto de Armin e Annie, os dois não saiam mais de sua casa desde que a loira fora morar ali, eram muito amigos da mesma.

A única luz que entrava no quarto era a da lula, mas dessa vez a conta de luz estava paga, não que isso deixasse o coração de Eren mais leve, não ainda.

Faziam-se exatas duas semanas desde que começara a evitar o professor. Eren nunca achou uma coisa tão difícil em sua vida.

O garoto suspirou, rolando para o lado. A única coisa que evitar o professor tinha lhe trazido até o momento fora dor de cabeça.

Seus sentimentos não diminuíram. Ele não deixou de estar apaixonado pelo professor.

Uma outra coisa também havia chegado com a dor de cabeça: a percepção de que os dois estavam mais amigos do que imaginava. Eren não havia percebido como, de maneira lenta e natural, ele se aproximou do professor. É claro que havia percebido que o mesmo estava menos agressivo e mais compreensivo, mas foi uma enorme surpresa quando o professor voltou a falar com ele da maneira agressiva intimidante do início das aulas. Isso doeu mais Eren do que ele gostaria de admitir.

Até mesmo seus colegas perceberam o afastamento repentino dos dois, mas decidiram não comentar. Por um instante, encarando um arranhado no chão de madeira que era iluminado pela lua, Eren lembrou-se que o professor o chamou pelo primeiro nome algumas vezes, bufou, agora ele não o chamava nem de pirralho, era apenas Sr. Jaeger!

Eren assustava-se com o quão doloroso o processo estava sendo e começou a perceber que desconhecia a extensão de seus sentimentos pelo professor. Isso o incomodava e Eren agradecia por não ter de dividir seu quarto com ninguém. Quando começava a pensar no professor se sentia exposto de mais, como se todos pudessem ver o que tinha por dentro e a ideia não lhe parecia nada legal.

Rolou de lado na cama, abraçando o travesseiro murcho.

Não entendia como podia se sentir assim, tão perdido, ainda mais por causa de um cara que conhecia a pouco mais de dois meses. Observação: Um cara, CARA, ele tinha a mesa coisa que Eren no meio das pernas.

Eren franziu o cenho, lembrando-se de que o amigo sempre achou que fosse gay, por mais que o inocente e delicado fosse Armin.

Rolou na cama de novo, sem um pingo de sono.

Não sabia o que iria fazer da vida, a única coisa que lhe restava era seguir o conselho de Armin, por mais que fosse difícil, principalmente com as detenções em que podia sentir o olhar penetrante de Levi em suas costas.

A quem Eren estava querendo enganar? Tinha a certeza absoluta de que mesmo que ficasse meses, talvez anos sem ver o professor, continuaria com ele na cabeça. Levi instigava algo em si que não sabia reconhecer, um sentimento estranho que não sabia de onde tinha surgido, era quase como se sempre tivesse estado ali, era algo... Antigo.

O menino revirou-se na cama novamente, encarando o teto, irritado. Tudo em Levi o instigava, seus olhos tempestuosos, sua voz arrastada, suas manias e a personalidade dura, a aparência então! Leve era magro, esguio, mas forte e tinha sempre um olhar sério no rosto de traços delicados. Por alguma razão, Eren adorava o corte de cabelo do professor. Tudo em Levi era bonito, até mesmo sua altura era de alguma forma, graciosa.

Eren rolou mais uma vez, afundando a cabeça no travesseiro para abafar seu grito de frustração. Não devia estar fazendo isso, não devia estar pensando no professor e tinh ade se concentrar em afastar os pensamentos.

Contou então até dez e tentou lembrar-se do que Armin havia lhe dito sobre esvaziar a cabeça. Não funcionou. Tentou lembrar-se do que ele lhe disse caso a primeira opção não funcionasse...Era algo sobre se concentrar em outra coisa, distrair-se.

Um, dois, três, inspira... Outra coisa? Sim, outra coisa lhe veio à mente mais rápido do que teria imaginado: O pensamento pavoroso de que só faltava uma semana para a semana cultural e teria de passar os próximos dias andando de um lado para o outro com Hanji e Erwin porque havia aceitado ser o representante da escola.

Eren abafou outro grito no travesseiro e decidiu que era finalmente hora de voltar a dormir.

Levi

Levi encarava o seu computador sem realmente ver alguma coisa. Sua cabeça estava nas nuvens e nem mesmo o barulho dos alunos arrumando as coisas para a semana cultural do lado de fora o incomodava.

Só havia uma coisa que o incomodava no momento, na verdade, uma pessoa.

Eren Jaeger.

O professor estava preocupado com o garoto ao mesmo tempo em que estava com raiva. Não entendia o que havia acontecido, sabia que de uma hora para outra o mesmo havia começado a ignora-lo, simples assim, do nada.

Bom, no fundo não devia se surpreender com esse tipo de ato, com a fama do garoto... Mas não conseguia deixar de pensar nisso. Havia acontecido algo com ele para que se afastasse ou ele simplesmente não queria mais conversa consigo?

Sabendo que não tinha o que fazer, Levi decidiu tratar o garoto com a mesma moeda, mas não conseguia evitar pensar que talvez houvesse algo por trás disso e sentia uma estranha necessidade de saber o porquê.

Levi foi desperto de seus devaneios por leves batidas na porta, em seguida uma voz que o professor reconheceu pediu permissão para entrar. Levi aceitou em quanto arrumava-se na cadeira.

Não tinha a mínima ideia do que aquele pirralho queria agora, talvez ajudar com algo da semana cultural? Se fosse isso iria negar com todas as forças, praticamente obrigara Erwin a dispensa-lo das atividades que envolvessem aquele evento.

Uma cabeleira loira apareceu na porta e olhou ao redor com cautela, como se procurasse alguma armadilha no covil do conde Drácula.

—Sente-se Sr. Arlert_ Levi murmurou, apontando para a cadeira na frente em sua mesa, o loiro obedeceu_ O que te traz aqui?

Levi era direto, não gostava de enrolações. Mas Armin também era assim.

—Eren gosta do senhor_ Disse ele, os olhos determinados e a postura ereta.

Armin havia percebido que Eren gostava mais do professor do que deixava transparecer, o ar meio abalado e distante do amigo nos últimos dias o assustava e tinha medo de que a situação fosse longe de mais, Eren não podia nutrir sentimentos pelo professor sabendo que nunca seria correspondido, mas Armin sabia que não se pode controlar o próprio coração.

— Umm_ Resmungou Levi, confuso, discordando daquela afirmação_E?

—Não professor_ Insistiu Armin_ ele realmente gosta do senhor, de uma maneira que não é permitida entre professor e aluno.

Ele teve o cuidado de manter o tom de voz baixo e casual, não queria que alguém ouvisse sua conversa do lado de fora.

Os olhos de Levi se arregalaram minimamente. Talvez fosse por isso que o garoto o estava ignorando?

—Pedi a ele que evitasse o máximo possível o contato com o senhor_ O professor arqueou as sobrancelhas_ e agora eu quero pedir que o senhor o desiluda, se é que posso chamar assim. Ele já sabe que ficar com o senhor é meio que impossível, mas de qualquer forma, acho que se o senhor o der um fora, ele vai desistir de qualquer esperança restante.

Levi encarou o loiro por breves segundos, incrédulo com aquela conversa. Sim, já tivera alunos e alunas que se apaixonaram por ele, mas nunca alguém veio lhe pedir com tamanha avidez para que desse um fora em alguém. Levi observou o garoto, a posição firme e o rosto tenso... Havia algo mais por trás daquilo, tinha certeza.

E também, por mais que se recusasse em admitir em voz alta, estava feliz pelo garoto não o odiar ou coisa parecida, um sentimento estranho preenchia seu peito, porém a face continuava ilegível.

—Sr. Arlert, agradeço pelo aviso, mas já tive adolescentes hormonais apaixonados por mim antes e não vejo como isso vai se tornar um problema agora, contanto que ele fique no canto dele eu não vou interferir e tenho quase certeza de que ele não ficaria nem um pouco a vontade de saber que o senhor está tendo essa conversa comigo.

Os olhos do loiro lampejaram.

—Professor, sei que pode parecer exagerado_ Continuou o loiro_ mas preciso que o senhor fale com o Eren.

—Por que?_ Questionou o professor, confuso com a insistência do prirralho_ O garoto não tem me causado problema algum, pelo contrario, está seguindo muito bem suas instruções e tem me evitado.

Armin jurou ter ouvido a voz do professor se alterar um pouco com a última frase, mas ignorou e pressionou os lábios uns nos outros, calculando as palavras que viriam em seguir.

Desviou os olhos azuis do professor e olhou em volta, calculando o que podia ou não falar.

—Professor, eu não gosto de falar sobre isso porque é algo particular do Eren_ Os olhos cinza estavam atentos no loiro_ mas ele passou por coisas bem difíceis na infância, bem difíceis mesmo e...

O garoto respirou fundo e lambeu os lábios secos, não gostando das imagens que lhe vinham da cabeça.

—Ele ainda não se recuperou disso, não sei nem ao menos se algum dia ele vai_ Uma pausa_ olha, professor, eu sei que nada disso é culpa sua, mas Eren te considera o único adulto que um dia foi legal com ele e... acredito que ele deva guardar alguma esperança com relação ao senhor, mesmo que inconscientemente. Por favor professor, converse com ele e tire todas essas ideias da cabeça dele, eu estou pedindo.

Levi não soube o que lhe responder, não sabia se ficava curioso ou confuso com as declarações do garoto, havia também, no fundo, uma pontada de preocupação com o que o loiro disse. Pelo que Eren havia passado? O que aquilo queria dizer?

Não tinha ideia, mas sabia pelo olhar do loiro que devia considerar o que ele estava dizendo.

Levi sempre viu Armin como uma pessoa calma, tímida e estudiosa, um pouco covarde talvez. Não era difícil ver a preocupação ou o medo passando pelo seu rosto e sabia que seria um dos poucos a ver o olhar penetrante e determinado que o mesmo tinha agora.

Já o loiro apenas se levantou e saiu da sala sem se despedir do professor.

O silencio reinou na sala por alguns segundos, o professor ainda absorvia toda a situação.

Não, ele sabia que não faria o que o loiro havia pedido, afinal... Não perderia tempo com isso. É, ele não perderia tempo com isso.

O que é isso? Está sendo afetado por aqueles sonhos! Não quer desiludir o garoto? Uma vozinha em sua cabeça zunia, o deixando irritado.

O que é? Você sente algo por ele? Se não sentisse iria lá falar com ele e acabar com isso tudo. Um gemido frustrado saiu da boca do professor.

E se o garoto vier se declarar para você? Vai ter que dar um fora nele do mesmo jeito! Melhor antes de, como Armin disse, o garoto ficar esperançoso. É, Levi tinha de admitir, aquela voz era bem convincente.

Levi suspirou passando os dedos longos no cabelo e decidiu-se. Ele tinha de falar com Eren, o olhar de Armin lhe dizia isso, só não sabia se traria o resultado que o loiro queria.

Levantou-se da cadeira com calma, era melhor aproveitar e fazer isso agora, antes que desistisse. Ao sair da sala encontrou pessoas andando de um lado pro outro, os rostos pintados de acordo com os times e vários alunos carregavam caixas com objetos dentro ou pompons coloridos.

Levi passou com calma por eles, que abriam caminho para o mesmo passar como se ele fosse algum tipo de entidade maligna, já no pátio alunos corriam de um lado para o outro em quanto no centro do espaço aberto montavam o que parecia ser um pequeno palco com uma passarela no meio. Levi arqueou as sobrancelhas, se perguntando de onde havia saído a verba para aquilo.

—Não se preocupe, o dinheiro que conseguimos para fazer isso veio de uma agencia que quer apoiar o concurso entre as escolas e eles gostaram do Eren, viram as fotos que você fez dele_ Falou Erwin, atrás de mim.

Levi virou-se e ao lado do diretor estava o garoto de olhos verdes, encarando aquilo tudo com um ar desesperado.

—Ninguém falou que eu iria ter que desfilar_ Murmurou ele, olhando para Erwin com cara de quem podia desmaiar a qualquer minuto.

Apesar do claro desespero do garoto, ele continuava a evitar se quer uma troca de olhares com o professor.

—Eren_ Chamou o professor, fazendo o mais novo olha-lo_ Poço trocar uma palavrinha com você?

“Não, não pode” pensou Eren, mas mesmo assim seguiu o professor para uma sala vazia distante do pátio. Os dois entraram silenciosamente e ficaram de frente um pro outro, Levi tinha os braços cruzados sobre o peito e um rosto que não revelava nada. Isso preocupava Eren.

—Eren_ Começou o professor, meio sem tato_ eu _uma pausa seguida de um suspiro_ eu preciso que você entenda que não tenho sentimentos por você.

Levi viu o garoto abrindo a boca pra falar algo, mas as palavras não saiam.

—Eren, eu sou seu professor, não é saudável para um aluno nutrir esses tipos de sentimentos por mim, você sabe disso.

O coração de Levi se apertou quando o garoto abaixou o olhar, cabisbaixo.

—Sei que isso pode parecer meio duro da minha parte, mas quero que-_ Levi parou ao ser interrompido pelo mais novo.

—Não_ A voz estava embargada, o peito de Levi doeu com uma pontada forte_ Tudo bem, eu só ... Tudo bem, eu vou ficar bem, só... Eu vou ficar bem _ Falava ele, secando rapidamente com a manga da blusa as lágrimas que começaram a rolar por seu rosto acompanhadas dos soluços baixos.

O peito de Levi ardia de uma maneira até então desconhecida, sua mente emitia um impulso insano para que envolvesse o garoto nos braços e secasse as lágrimas que escorriam e isso deixou o professor confuso por um momento. Já havia partido o coração de homens e mulheres ao longo da vida e nunca havia sentido remorso em recusa-los, sentia-se apenas irritado quando os mesmos começavam a chorar, era um incomodo, mas... Decidiu não pensar nisso e apenas saiu da sala, deixando o garoto sozinho na sala.