Versprechen
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Levi
Assim que descemos do carro fui direto para o porta-malas. O olhar do garoto se tornou confuso, ficou mais confuso ainda quando dali de dentro eu tirei uma maleta.
—Vamos_ O apressei.
Para que conseguíssemos entrar na escola já fechada, tive que pegar a chave da secretaria com Erwin. Destranquei a porta e entrei, acendendo as luzes em seguida. O garoto vinha atrás de mim.
Não trocamos palavras no caminho para a sala que iriamos limpar _sala essa que passaria a ser meu gabinete depois de arrumada, consegui isso depois de longas conversas persuasivas com Erwin_ e eu apenas o observava com o canto do olho. Desde que o perguntara o motivo para seu desanimo, parecia que havia ficado mais deprimido ainda.
Culpa. Ô sentimento chato do cacete!
Quando chegamos na sala que já estava quase completamente limpa, o garoto sentou na mesa velha que ali havia. A mesa rangeu abaixo dele, mas nada aconteceu. Coloquei a maleta a seu lado e ele olhou-a curioso, mas fez uma careta quando viu do que se tratava.
—Não começa pirralho, temos que limpar esse machucado_ Murmurei eu, pegando um pacote com gases de dentro da mala, sem olha-lo.
Com calma eu comecei a limpar o corte, observando o tamanho do estrago.
—Vou ter que te levar ao médico Eren, vai precisar dar uns pontos nisso aqui.
—Não precisa.
Abaixei os olhos de seu machucado para seu rosto. Ele olhava para o nada e parecia pensar consigo mesmo.
—Se eu estou dizendo que precisa, é porque precisa_ Resmunguei eu, mas analisei novamente o machucado, me perguntando se havia mesmo necessidade.
—Não. Precisa_ Disse ele, pausadamente.
Encarei seus olhos, suas sobrancelhas estavam franzidas e ele me encarava de volta.
— Tem medo de médicos?_ Questionei eu, cauteloso, não queria ultrapassar aquela linha invisível de coisas que se podia ou não perguntar ao garoto. Já havia feito isso uma vez ao perguntar sobre seus momentos de desanimo.
—Eu... Não gosto de médicos_ Respondeu ele calmamente, mas dava pra ver em seu olhar que era ali que o assunto se encerrava.
Já havia percebido que o garoto tinha uma aversão a médicos, se negava a qualquer custo a ir a enfermaria da escola, não importava se estivesse quase morrendo. Lembro-me também que na primeira vez que lhe dei aula parou de escrever quando lhe perguntei se ele não havia ido ao médico para averiguar uma possível dislexia.
Suspirei.
—O que vamos fazer com esse corte enorme, então?_ Questionei, ainda encarando o enorme rasgo.
—Só faça um curativo, eu melhoro rápido.
Assenti e comecei a cuidar de sua testa, ele nem ao menos estremecia quando eu pressionava o local com a gaze e me perguntei se isso era devido as lutas das quais seu amigo loiro comentara.
—Está acostumado a isso, não está? Quero dizer, você lutou por tanto tempo e...
—Como sabe que eu lutei?_ Questionou ele, interrompendo-me.
Ok, Levi, falou de mais.
—Eu meio que interroguei seu amigo loirinho_ Admiti, sem encara-lo nos olhos em quanto terminava de fazer os curativos.
—Por que?_ Insistiu ele, os olhos verdes vibrantes me encarando.
—Digamos que fiquei curioso ao ver um aluno aparecer na sala como se tivesse sido pisoteado por uma manada de elefantes_ Falei_ seu curativo está pronto.
Ele então desceu da mesa em silencio, sem que eu dissesse nada começou a organizar as coisas. O observei por alguns segundos: parecia que ele havia entrado em um tipo de transe, os olhos estavam perdidos em um ponto qualquer e ele de repente me pareceu bem mais velho do que realmente era, como se tivesse vivido coisas de mais para sua idade.
—Eren_ Chamei eu, desesperado para que o ar cabisbaixo que se apoderara do menino sumisse.
—Hmm?_ Questionou ele, levantando os olhos de uma caixa de papelão que ele esvaziava.
Coloquei a mão no bolso e procurei meu celular, entregando-o logo em seguida. Ele me encarou, confuso.
—Coloque uma música pra tocar, aproveitando que não tem ninguém além de nós e não vai atrapalhar ninguém. Seu celular é quase um fóssil, duvido que pegue ao menos uma rádio_ Falei, sabia que o menino gostava de música pois já o havia visto dançando com os amigos no intervalo, um colega dele tocava violão e o outro colega cantava, o resto de seus amigos acompanhava desafinadamente e dançavam de acordo com a música.
—Mas senhor_ Começou ele, percebi que segurava o aparelho com cuidado, como se tivesse medo de quebrar_ Eu não sei de que música o senhor gosta e...
—Coloque qualquer coisa, não vou reclamar_ Disse eu, por fim.
Ele me olhou por alguns segundos e percebeu que eu não estava apto a negociações. Desistindo ele ligou o aparelho e começou a fuçar, quando vi o garoto estava cantando Britney Spears.
Me foquei em fazer a limpeza, era meio estranho trabalhar com o garoto cantando desafinadamente na minha orelha, mas era bem melhor do que quando o mesmo ficava silencioso.
Suspirei. Não entendia porque me sentia incomodado, a vida do rapaz nada me interessava, eu não tinha necessidade de me preocupar com ele além do necessário entre professor e aluno. Claro que as vezes os professores precisavam intervir na vida pessoal do aluno, em casos especiais, claro, contatar a família... Mas eu era completamente ciente de que não era esse o caso de Eren.
Arqueei as sobrancelhas quando começou a tocar Beyoncé e não pude deixar de rir quando, meio cantando meio dançando, o garoto quase tropeçou.
Ele se calou na hora e me encarou, embasbacado.
—Que cara é essa pirralho?
—Você ri?_ Murmurou ele, olhando-me como se fosse o fim do mundo.
Rolei os olhos.
—Deixa de ser exagerado moleque e volta logo a trabalhar.
Ele assentiu e obedeceu, mas parecia meio abobalhado.
Suspirei, talvez pela decima vez no dia.
O resto da detenção ocorreu de forma calma, com Eren cantando em plenos pulmões e eu limpando, tentando ao máximo não rir da maneira atrapalhada do pirralho. O mesmo, por sinal, parecia fascinado com o fato de que eu não era uma criatura sem coração, fria e calculista que ele achava que eu era, ou seja, eu ria.
—Sempre achei que se fosse pra você rir seria uma daquelas risadas malignas que dão até arrepio na coluna_ Murmurava ele, retirando o lenço que usava no rosto_ E sempre achei que você riria quando estivesse, sei lá, arrancando meus órgãos com uma faca de serra.
Fiz uma careta para o garoto, surpreso que ele estivesse falando tão abertamente sobre mim, mesmo que fosse uma piada. Eren era uma das pessoas que pareciam mais ter medo de mim, as vezes eu podia jurar que ele realmente tinha medo de mim, como se achasse que eu pudesse machuca-lo de verdade.
—Mas, falando sério_ falou ele, me olhando_ o senhor realmente deveria rir mais, você tem uma risada bonita_ Argumentou ele
Me surpreendi. Admito. Não esperava que um dia na minha vida o pirralho fosse me elogiar. Sabia que ele era mais obediente comigo, mas tinha certeza que era por causa das detenções, no fundo, acreditava que eu era, talvez, o professor que o mesmo mais odiasse.
—Professor?_ Olhei para ele_ Eu disse algo errado?
Pisquei uma, duas, três vezes. Que olhar triste e embaraçado era aquele?
—Não_ Respondi_ Por que?
—Não é nada, é só que o senhor ficou quieto por um instante, pensei que..._ Ele não terminou a frase, desviando os olhos.
Apenas rolei os olhos mais uma vez e dei um peteleco na testa do menino, tomando cuidado para não acertar seu machucado.
—Eren, as vezes você se importa com coisas bobas de mais.
—Eu sei_ Resmungou ele, franzindo o cenho. Pela sua cara dava pra ver que não era a primeira vez que lhe diziam isso.
Eu por fim retirei o pano do meu cabelo e acenei em despedida para Eren, que iria pegar um ônibus para o trabalho.
Suspirei olhando aquela bagunça a minha volta e decidi que iria terminar aquilo hoje, depois arranjaria alguma outra coisa para o pirralho limpar, ali naquela escola parecia haver mais lugares sujos do que limpos.
Recolocando apenas o pano no rosto, voltei a limpar.
Quando finalmente terminei já era meia-noite e eu encarei o local orgulhosamente. Amanhã teria que montar os novos móveis e começar a organizar as coisas.
Tirei novamente o lenço do rosto e peguei minha maleta, levando-a de volta para o carro.
Quando cheguei em casa, peguei meu aparelho celular _ que por sinal, ainda estava aberto no youtube, numa música da Madona_ e percebi que haviam varias mensagens de Farlan e Isabel, além de umas muito estranhas da Hanji.
Olhei as mensagens por cima, mas estava sem saco pra responder e decidi que faria isso no dia seguinte. Por isso simplesmente tomei um banho e me taquei na cama.
O resto da manhã seguiu de uma maneira calma, mas meio estranha. Os sonhos continuaram, claro, só que agora também sonhava com um certo garoto de olhos verdes cavalgando em cima de mim e isso com toda certeza não era uma coisa boa. A maneira que eu resolvi lidar com isso? Ignorando. Não era lá uma forma muito eficiente, eu sei, mas era o melhor que eu tinha no momento.
Já o menino seguia da mesma forma, as vezes aparecia mais triste, as vezes menos triste, nunca realmente animado, andando sempre perto dos amigos e da irmã com claros sentimentos pelo mesmo, que pelo que eu havia reparado, era lerdo demais para notar. As detenções seguiam calmas também, havia autorizado o pirralho a escutar música e isso parecia faze-lo se soltar um pouco mais, o que facilitava uma conversa sem punhos fechados e tapas na nuca entre nós dois. Havia reparado também que, como Petra dissera uma vez, o garoto adorava ler.
Isso era realmente inesperado, considerando que o garoto não conseguia se manter muito concentrado em algo por muito tempo e não gostava de ficar quieto no lugar. Ver seus olhos brilhando de curiosidade em quanto me ajudava a colocar os livros nas prateleiras da minha sala foi uma experiência interessante. Ali não haviam livros que o mesmo gostasse, mas não pude resistir a pegar alguns da minha coleção para lhe emprestar.
Suspirei, soltando um bocejo. Meus pensamentos estavam vagando para o garoto de novo. Eu fazia muito isso, quero dizer, pensar no Eren. Não achava isso saudável da minha parte, principalmente considerando os sonhos estranhos que eu tinha e tentava evitar ao máximo, mas não conseguia.
Olhei de soslaio para o relógio. Eram seis e meia e eu já estava pronto para ir a escola naquela sexta-feira quente. E olha que o sol mal havia aparecido e até pouco tempo atrás eu ia dormir batendo os dentes de frio.
Soltando mais um longo e sofrido suspiro, decidi que era hora de sair de casa, iria chegar um pouco mais adiantado a escola, mas não havia problema.
No caminho aproveitei para conferir se não haviam mensagens no meu celular. Como sempre, haviam algumas asneiras de Hanji e Isabel havia se metido em encrencas, de novo. Meus pais me mandaram uma foto de sua viagem no Caribe e Farlan iria começar a lecionar no colégio Rose.
Quando cheguei na escola estranhei o fato de que Hanji não estava à minha espera, mas considerei isso consequência de ter chegado um pouco adiantado. Quando cheguei ao pátio do colégio percebi que não era esse o motivo.
Havia uma aglomeração de alunos no meio do pátio, os professores e até mesmo o diretor pareciam tentar intervir, sem sucesso. Aquilo provavelmente era, pelos gritos de euforia dos alunos, uma briga e eu acho que sabia quem é que estava brigando, tinha uma opinião formada com base no desconforto na boca do meu estomago.
Quando me aproximei do circulo de alunos, ainda com meus materiais em mãos, pude ver que os meus alunos afastaram-se, o olhar temeroso. Os únicos que permaneceram no meio da baderna eram os que eu não dava aula. Agora eu tinha certeza que Jaeger estava no meio, dava pra ver só pela cara desesperada de Mikasa que tentava a todo custo atravessar a muralha de pessoas que formavam um circulo em volta da provável luta.
Suspirei e comecei a puxa-los pelo colarinho mesmo, puxando-os e tirando do meu caminho. Vi pelo canto de olho que Erwin fez uma careta, mas não disse nada. Alguns alunos eram praticamente jogados no chão, outros conseguiam se manter de pé quando eu os puxava e percebendo a situação, o resto dos alunos foi me abrindo passagem sem que eu tivesse que tira-los da frente.
Não fiquei surpreso ao encontrar o pirralho no meio da confusão, fiquei surpreso por vê-lo apanhando sem se quer tentar revidar. Apesar de nossa relação como aluno e professor não ser a melhor, ficara bem claro no primeiro dia que o havia visto que ele era pavio-curto e agressivo, impulsivo e sem alto-controle algum, então posso dizer que esperava, na verdade, encontrar Eren enchendo algum outro garoto de socos. O que encontrei foi um Eren encolhido e levando os braços ao rosto de maneira protetora, coisa que provavelmente provinha de seus tempos de luta, em quanto dois garotos partiam pra cima dele sem dó.
Não lembro de ter algum dia da minha vida, ter me sentido tão irritado. Tentei me convencer que era por aquilo ser um ato claramente covarde, dois contra um já era injusto, muito mais quando o oponente não quer nem revidar, porém eu tinha uma leve impressão que não foi isso que fez duas veias saltarem na minha testa.
Assim como no dia em que havia pego Eren brigando com seu amigo, meti uma rasteira em um dos garotos e imobilizei o segundo. Eren caiu sentado no chão, ofegando, o nariz sangrando.
—Mas que merda está acontecendo aqui?!_ Brandi, forçando o pirralho que havia imobilizado pra baixo quando o mesmo tentou se soltar.
Os professores começaram a dispersar os alunos em quanto Erwiin pedia que eu soltasse o garoto. O soltei com certa relutância, admito.
Em quanto os alunos se afastavam eu dei uma olhada em toda situação. Mikasa e o amigo loirinho de Eren não estavam dispostos a se afastarem, havia um outro rapaz que também não estava disposto a se afastar, lembrava-me que seu nome era Connie. Quando ele percebeu que eu o encarava ele me lançou um olhar assustado, quase desesperado.
O chamei usando a mão. Ele apontou o dedo pra si mesmo como se perguntasse se era com ele que eu estava falando. Assenti, suspirando.
Ele se aproximou, relutante.
—Você tem alguma ideia do que aconteceu aqui?_ Perguntei, por fim.
—É-é, s-senhor... ah, o Eren n-não tem culpa de n-nada_ Começou ele, tremendo mais que vara verde.
—Não perguntei de quem é a culpa, perguntei o que aconteceu aqui_ Rebati e ele se afastou um passo, quase instintivamente.
—É-é que aqueles garotos estavam mexendo com a-a-a Sasha e-e-e eu fui pra cima deles, m-mas Eren logo viu que i-ia dar merda e disse que ia segurar os caras e-enquanto e-eu chamava algum professor_ Disse ele, sem me olhar nos olhos_ Quando a professora P-petra chegou os alunos já estavam t-todos em volta e...
—Não precisa terminar, já entendi a situação.
Soltei mais um suspiro em quanto jogava a cabeça pra trás e encarava o céu, até fazendo as coisas certas o garoto conseguia se meter em confusão. Olhei-o com o canto do olho, percebendo as situação.
Fui em sua direção e me agachei perto dele, tentando avaliar o estrago. O curativo da testa havia saído e mostrava a ferida inflamada que apenas começava a cicatrizar, o nariz não parecia estar quebrado, mas sangrava e o lado esquerdo da bochecha ficaria enorme e roxo em algumas horas.
— Vamos ter que tratar disso garoto_ Disse eu, o obrigando a levantar o queixo para que eu pudesse observar melhor o estrago no nariz_ Não parece quebrado, mas eu não daria certeza e eu preciso refazer esse seu curativo.
—Levi_ Interveio Erwin_ mande o garoto para a enfermaria, se for necessário será encaminhado para um hospital.
Antes que eu o garoto tivéssemos chance de dizer alguma coisa Mikasa negou a ideia, em quanto se aproximava do garoto.
—Ele não gosta de médicos_ falou.
Erwin não disse mais nada, apenas me ajudou a levantar o garoto e a leva-lo para o meu gabinete, já que também não gostava da enfermaria. Mikasa, o loiro e o baixinho careca que parecia se sentir culpado foram no meu encalço, mesmo que tivesse falado várias vezes para que voltassem para a sala.
Erwin, que parecia achar graça da situação, os liberou para que acompanhassem o garoto. Me segurei para não lhe meter um belo chute.
O garoto entrou e sentou-se em uma das poltronas em frente a mesa de vidro e simplesmente relaxou ali. Pedi que Connie fosse buscar algumas coisas na enfermaria e franzi o cenho em direção ao garoto, que limpava o nariz com a manga da blusa.
—Se você sujar essa cadeira...
Ele me ignorou e levou a mão ao nariz, apertando-o, provavelmente checando se estava quebrado. Soltou um claro guincho de dor.
Me aproximei e levantei seu rosto novamente, levei a mão a seu nariz, ele tentou me impedir mas um olhar feio em sua direção o fez abaixar as próprias mãos.
—Aaah ai ai_ Resmungava ele, tentado fugir.
—Fica quieto!_ Ele obedeceu, mas fazia caretas em quanto eu mexia no nariz dele que começava a ganhar uma coloração arroxeada.
Erwin, que estava sentado na minha cadeira como se fosse dono do lugar, observava a cena curioso.
Quando Connie retornou com algumas coisas que eu avia pedido, já que minha maleta de primeiros socorros havia ficado no carro, comecei a tratar do garoto, tratando de limpar os machucados. Enfiei um algodão em seu nariz em quanto ele choramingava ao sentir o álcool no corte da testa.
—Ninguém manda você se meter em confusões_ Murmurei eu, em resposta as suas caretas de infelicidade.
—Mas... Ai ai! Ngh a culpa não foi minha, ai!
—Pare de choramingar_ Resmunguei eu, terminando o curativo e lhe entregando uma bolsa de gelo para colocar no rosto. Estranhei o fato de que ele estava bem mais reclamão que da ultima vez, mas não falei nada _ E eu sei que a culpa não foi sua, vi que não estava revidando, inclusive, se o tivesse feito teria que aumentar suas detenções.
—E é por isso mesmo que eu não revidei_ Comentou ele.
Olhei de soslaio para Erwin, que parecia quase estupefato.
Ouvi um pigarrear e olhei para o outro lado, encontrando um par de olhos asiáticos me fulminando. Suspirei.
—Mikasa, eu não vou matar seu irmão, só estou cuidando dos ferimentos dele.
—Você está judiando dele, não está vendo que ele está com dor?_ Brandiu ela, parecendo enfurecida.
—Mikasa! Já falei pra você, não sou seu irmão mais novo e muito menos seu filho, dá pra parar com isso?
Encarei o garoto de olhos verdes que olhava para a morena com certa raiva. Certo, o garoto era muito burro mesmo, ele realmente não enxergava a maneira como a morena olhava pra ele.
—Eren_ Ele me olhou_ Você é muito lerdo.
—O qu-_ Não deixei que terminasse de falar por que pressionei uma bolsa de gelo em seu rosto.
—Não vai ter muito o que fazer com relação ao seu nariz, só colocar um pouco de gelo também, não acho que esteja quebrado, mas você não parece que vai ir em um hospital para averiguar_ Ele assentiu_ Pode ficar aqui até dar o sinal pra segunda aula.
Ele simplesmente assentiu mais uma vez.
—Vocês dois_ Falei apontando para Armin e Mikasa_ ele vai ficar bem, encontra vocês depois, agora pra fora daqui! Você! Como é seu nome mesmo? Connie? Tem que ir falar com a professora Petra, ela deve estar cuidando daqueles dois que bateram no Eren e agora você precisa assumir a responsabilidade por ter partido pra cima deles e iniciado uma briga, fale pra ela que eu mandei você assinar uma ocorrência e depois eu vejo que castigo vou te dar e você!_ Completei, apontando para o loiro que continuava na minha cadeira_ Fora da minha sala, agora.
Ele apenas riu com meu tom de voz e se levantou, acompanhando os alunos que pareciam relutantes em deixar Eren sozinho.
Já o garoto parecia estar em um outro mundo, o olhar perdido em quanto pressionava o gelo contra a bochecha, de vez em quando ele fazia uma careta de dor.
—Quer algum remédio pra dor?_ Questionei _ eu supostamente não poderia te dar nada, é contra as regras da escola, mas devo ter algo dentro do carro.
Ele negou com a cabeça, se aconchegando mas na cadeira branca. Olhei a manga manchada de sangue de sua camisa xadrez e suspirei.
—Pode tirar isso daí garoto, fica só com a camiseta!
Ele rolou os olhos, mas logo tratou de tirar a camisa e pela primeira vez percebi que nunca havia visto seus braços. Nunca havia reparado nisso, mas sabia que nunca havia o visto sem a camisa pois se o tivesse feito, veria as cicatrizes. Não, não eram cicatrizes de automutilação, mas sim machucados mesmo.
—Ganhou isso quando lutava? _ Questionei eu, pegando seu braço e observando uma enorme e clara cicatriz que passava pela parte de dentro de seu braço.
—Algumas sim_ Murmurou ele, não dando muita atenção as cicatrizes.
—Algumas?_ Insisti.
—Não quero falar disso_ Ele me olhou nos olhos.
Perdi o folego por um segundo. Tinha que haver algo de especial naqueles olhos, não podiam ser naturais, muito menos quando ele olhava para alguém daquela maneira tão... Intensa. Era nesses momentos que eu me perguntava por quais coisas aquele garoto já havia passado, as vezes ele transmitia tanto ódio e dor com um único olhar que chegava a me deixar tonto.
—E esses roxos?_ Insisti, observando os hematomas espalhados pelos braços do garoto.
—Ah, isso é da minha carona, ele faz umas curvas muito malucas e não tem cinto nos bancos, como consequência eu voo em direção as portas_ Riu-se ele.
Arqueei as sobrancelhas.
—Você me fala que sua carona é um péssimo motorista e ainda admiti que não usa cinto? Jaeger, você não acha que tem pouco apresso pela própria vida?
Ele rolou os olhos antes de me responder.
—Apesar de tudo, ele nunca bateu.
Encarei os olhos verdes mais uma vez e por breves segundos me lembrei dos sonhos, todos eles, os que ele morria, os que ele não fazia nada além de me lançar um sorriso espontâneo _sorriso esse que eu nunca havia visto fora dos sonhos_ e os sonhos em que ele cavalgava sensualmente no meu colo.
Pisquei os olhos, tentando afastar esses pensamentos despudorados da minha cabeça. Ele era meu auno!
—Professor Levi?_ Falou ele, chamando minha atenção.
Percebi que ainda segurava seu braço, mas não o soltei, passei o dedo levemente por um grande hematoma roxo.
—Você coloca gelo nisso aqui quando chega em casa?_ Questionei.
Ele negou com a cabeça.
—Sabia que esses hematomas sarariam muito mais rápido, além de que alguns podiam até mesmo nem chegar a ficar roxos se você colocasse o gelo no local em que bateu com antecedência.
—Sério?_ Questionou, curioso.
—Humhum_ Resmunguei, soltando seu braço_ Agora sente sua bunda ai e descanse um pouco. Sorte a sua que eu já estou adiantado com a matéria, senão teria que repor essa aula.
—Desculpa_ Murmurou ele, cabisbaixo.
Soltei mais um suspiro.
—Já falei pra parar de se preocupar com coisas sem importância Eren, agora fica quieto ai_ Me sentei na minha cadeira e me concentrei em montar uma planilha de exercícios que eu ainda não havia terminado.
Ele então tirou os sapatos e se encolheu igual a um tatu-bola na poltrona estofada, fechou os olhos e não demorou pra que sua respiração se tornasse mais pesada, sinal de que estava dormindo.
Com ele ali, dormindo na minha frente, era difícil acreditar que os sonhos eram apenas sonhos. Os sonhos eram tão vividos e coloridos, tão reais... Era como se fossem lembranças ao invés de sonhos e o problema maior não era nem esse, mas sim o fato de que as vezes eu podia jurar que via as coisas, acordado. Isso não era normal, nem um pouco.
Havia tentado pensar em um monte de suposições para aquilo, mas nenhuma delas fazia sentido, nem mesmo esquizofrenia, não era assim que a coisa toda funcionava...
Encarei o teclado do meu computador por alguns segundos, antes de abrir a página do Google e digitar uma palavra que havia surgido em minha cabeça:
“Reencarnação”
Me senti extremamente constrangido ao pesquisar por isso, nunca fui uma pessoa que acreditasse nessas coisas, mas a ideia havia surgido em minha mente a certo tempo e até o momento era a única que possuía alguma lógica.
Sim, eu sei que estava quebrando aquele lance de não pensar e fingir que nada aconteceu, mas era impossível fazer isso com o garoto dormindo ali na minha frente. Além do mais, aquela planilha de exercícios não estava lá sendo muito efetiva e tinha medo de que minha cabeça começasse a vagar para as imagens nada puritanas dos meus sonhos com o garoto, ou pior, para as imagens do mesmo morrendo nos meus braço. Uma parte da minha mente me dizia que essa não devia ser a pior parte, mas eu ignorei.
Na sala a única coisa que se podia ouvir eram nossas respirações e o som do teclado. Como esperado a pesquisa não me trouxe nada de interessante, algumas páginas de vudu e nada mais.
Fui rolando as páginas do Google e indo cada vez mais pro fundo, estava tão entretido em minha pesquisa que quase morri do coração quando Hanji entrou chutando a porta com tudo.
Lhe lancei um olhar feio e depois olhei pro garoto, que mesmo com o barulho, não havia mexido nem um musculo.
Ela, ao perceber que o garoto estava aqui, pediu desculpas silenciosas e se aproximou, sentando-se na cadeira ao lado da de Eren. Apoiou os cotovelos na minha mesa e entrelaçou as mãos, apoiando o queixo nas mesmas.
Sem olhar pra ela eu apenas exclui a aba de pesquisa aberta, deixando apenas o editor aonde eu estava fazendo minha planilha de exercícios.
—O que você quer quatro-olhos?_ Questionei, ainda de olho no computador.
—Quero saber quem é.
—Quem é quem?_ Questionei eu, desviando os olhos do computador para encarar os olhos castanhos por trás da armação dos óculos.
—A garota que roubou seu coração! Ou será que é um garoto?_ Disse ela, animadamente.
—Do que diabos você está falando? E fala mais baixo ou vai acordar o pirralho!
—O Eren? Filho, uma vez ele dormiu na minha aula... Acredite, pra acorda-lo é preciso muito mais do que um grito, me lembro bem do dia, tentamos de tudo, até cosquinhas..._ Falava ela, olhando para o nada como se estivesse se lembrando da situação_ Até que Armin teve a ideia de assusta-lo e começou a falar umas coisas a ver com uns filmes de terror, ele acordou na hora, desesperado, haha, foi bem interessante... Ah! E falando nisso, o que ele está fazendo aqui?!
Aproveitando que ela esqueceu totalmente suas estranhas perguntas iniciais, lhe respondi:
—Ele não gosta de médicos, se recusa a ir a enfermaria, então tratei dele e deixei que ficasse aqui.
—Oh Levi! Nunca imaginei você fazendo uma boa ação!_ Falava ela, parecendo admirada.
Lhe dei um peteleco na testa como resposta.
—Agora, voltando ao assunto_ Começou ela novamente_ Quem é seu ou sua namorada?
Olhei para ela, me perguntando se ela havia enlouquecido de vez.
—Você sabe que eu não namoro com ninguém Hanji...
—Sim, eu sei, eu sei... Aquele lance de sexo casual, mas você tem estado tão feliz nos últimos dias que eu não pude deixar de cogitar a ideia..._ Resmungou ela, me olhando com cara de cachorrinho que caiu da mudança.
—Eu não estou com ninguém Hanji, se estivesse teria te contado, não acha?
—Não, não acho_ Rebateu ela.
Decidi não responder nada, sabia que ela logo voltaria a falar mesmo.
—Então_ Não disse?_ E a Petra? Ela tem claramente um interesse em você, é gentil e tudo mais, por que não tem um pouco de sexo casual com ela, talvez isso vire algo além...
—Não inventa Hanji, não tenho interesse na professora Petra.
Não falei em voz alta, mas eu realmente não me sentia atraído por ninguém desde que cheguei ao colégio Maria, simplesmente não... Me interessava. Será que era o estresse por trabalhar em um lugar com um padrão tão baixo de higiene? Talvez.
—Ah... Uma resposta tediosa, de um homem entediante_ Reclamou ela, soltando um suspiro exagerado _ Mas veja só Levi, não se esqueça que a semana cultural será mês que vem, nós planejamos participar da competição intercolegial para ganharmos um premio que pode, sinceramente, salvar o colégio.
—Eu sei, Erwin me contou que está preparando os clubes, não só para essa competição como para os intercolegiais de seus próprios clubes, como o intercolegial de vôlei e tudo mais. Mas não dou muita esperança, pelo que eu vi a escola não tem suporte para preparar os times._ Comentei eu, me lembrando da pequena quantidade de troféus esportivos que a escola tinha.
—Ah, mas esse ano Erwin conseguiu convencer uns amigos dele a nos ajudarem, além de que muitos dos nossos melhores esportistas finalmente decidiram participar, eles geralmente recusavam a entrar nas competições, alegando que não gostavam quando os professores levavam o que eles acham que é uma brincadeira, a sério_ Sua voz soava animada, ela claramente devia gostar de ver um bando de pirralhos reunidos fazendo baderna_ A única coisa que não conseguimos foi fazer o Eren aceitar a ser o modelo da escola, ele é muito tímido.
Olhei-a curioso.
—Modelo?
—Ah, vai ter uma competição pra ver qual representante das escolas é o mais bonito, por isso precisamos de um modelo entre os alunos. Eren seria perfeito com esses olhos verdes dele, mas quando falei que ele teria que desfilar e tudo mais, fugiu de mim na hora!_ Falava ela.
Eu podia até imaginar o olhar incrédulo do garoto, negando com veemência a possibilidade.
Foi só então que eu percebi o seu olhar pidão.
—Não, não vou convencê-lo a fazer isso_ Respondi, antes que ela se quer tentasse falar.
—Ahh! Leviii! Você é o único que ele escuta! Faça esse favor pra mim, por favooor! Além do mais, isso vai ser bom pra ele também. Você não fica com dó dessa cara cansada dele de tanto que ele trabalha? Os três primeiros lugares ganharão prêmio em dinheiro, além de que vai ter um bando de gente chique que cuida desse lance de contratar modelos_ arqueei as sobrancelhas_ Já imaginou que lindo seria, o Eren em uma capa de revista?
Olhei de relance para o garoto na cadeira, que mesmo com a cara toda ferrada, continuava sendo bonito, bonito demais, por sinal.
—E como você acha que eu vou convence-lo a fazer isso? Se o garoto é tímido eu não posso fazer nada.
Ela me encarou nos olhos, as bochechas coradas de empolgação.
—Levi?_ Eu estava fodido_ Você ainda tem aquela sua câmera profissional?
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