Versprechen
4 4
Notas iniciais
Eren.
Não havia o que dizer em relação aos meus colegas de classe. Eles eram, simplesmente, indiscretos. Não sabiam olhar ou cochichar de um jeito que ao menos parecesse que não era intensão deles que eu ouvisse. Ao entrar na sala eles fizeram uma algazarra, primeiramente ficaram quietos, depois começaram a conversar descaradamente, e meu nome era escutado por todo canto.
Suspirei ao me dirigir ao meu lugar. Mesas haviam sido juntadas para que formássemos um grupo e eu me sentei entre Armin e Mikasa, que estavam prontos para me encher de perguntas.
_Eren, o que aquele tampinha fez com você_ Começou ela, os olhos brilhando de preocupação_ Eu não acredito que ele te derrubou daquele jeito! Juro que vou partir a cara dele em duas! Você podia fazer um boletim de ocorrência contra ele, sabia?
Lhe lancei meu olhar cético, tentando mostra-la o absurdo daquelas palavras.
_Eren_ Começou Armin, parecendo mais confuso do que preocupado_ o que você está fazendo aqui?
Não precisei nem olhar pra ele para entender o real sentido de sua pergunta. Mas evitei responde-lo, usando como desculpa que eu estava pegando meus matérias e o colocando em cima da mesa, pronto para me concentrar na droga da folha.
_Eren..._ Insistiu ele.
Soltei um suspiro pesado.
_Eu não sei_ Admiti_ sei que se fosse qualquer outro professor já teria ido pra cima dele ou estaria matando aula, mas... Sei lá..._ Meus olhos focaram-se nas janelas abertas por um instante, em quanto eu observava um pássaro sobrevoar os muros do colégio Maria_ Ele me dá medo.
Silencio.
Minhas bochechas avermelharam-se ao perceber o que eu havia admitido, mas agora não havia mais volta, então apenas me foquei em minha folha, tentando resolver os exercícios.
O silencio constrangedor demorou a passar, e nós, o grupo mais barulhento, estávamos agora chamando a atenção por termos calado a boca. Eu me esforcei em me manter concentrado na folha, ignorando os olhares curiosos dos meus amigos e o sorriso sacana do Jean, mas logo me distrai ao perceber que não estava me dando bem com aqueles exercícios.
Tentei fazer o que o professor havia ensinado na aula anterior, o lance de colocar os dados no canto do papel, o que facilitou, mas eu ainda era o com mais dificuldades do grupo. Acreditava que não era só isso, mas também o latejar dolorido do meu rosto, a compressa ainda estava na minha mão e eu agora mais apoiava o rosto nela do que apoiava ela no meu rosto, o que atrapalhava minha concentração na atividade. Também havia o fato dos estranhos olhos azuis acinzentados ficarem na minha cabeça, assim como aquela terrível sensação de que eu devia temer e respeitar aquele homem. Nunca havia respeitado ninguém na minha vida, não... Talvez durante a infância, tive um pouco de respeito por meu pai, não durou muito, mas...
Tentei afastar esses pensamentos da cabeça e me concentrar na folha, mesmo que os olhos cinzas continuassem a invadir minha cabeça.
Suspirei pesadamente. Tenho certeza de que desde que aprendi que socar as pessoas pode ser o jeito de resolver certos problemas, nunca fui tão humilhado. Afinal, que professor passa uma rasteira num aluno? Claro, que como Mikasa disse, ele não podia fazer isso, eu sabia que por lei ele não podia... Mas continuava a me vir a cabeça aquela sensação de que eu não podia desrespeita-lo, por mais que eu quisesse.
Praguejando coisas comigo mesmo eu tentei resolver mais uma operação, mas ao ver que ela não batia com as alternativas deixei minha cabeça cair sobre a mesa.
_Argh! Por que mesmo que física tem que ser tão difícil?_ Murmurei eu, em quanto meus amigos riam e Mikasa me olhava com aquela cara de “não fica assim”, que ao invés de me acalmar, acabava por irritar mais ainda_ Na verdade, eu não entendo a necessidade de existir a física. Pra que que eu preciso saber desse lance de energia potencial elástica? _ Completei tirando a bolsa de gelo do rosto por um momento.
_Porque se não aprender vai reprovar de ano_ Disse Levi, me dando um tapa na nuca_ E coloca esse negócio na cara se quer que o inchaço diminua.
“De onde você saiu?!” pensei comigo mesmo, já que não havia reparado quando ele havia entrado na sala novamente. Mikasa parecia tentada a cometer um assassinato e eu não duvidava que o corpo do professor poderia ser encontrado boiando num riacho qualquer ou num beco escuro, eu nada disse, apenas afaguei minha nuca em quanto colocava a compressa no rosto novamente.
O professor soltou então um longo e sofrido suspiro, mostrando que fazia questão que eu o ouvisse e então apontou para alguma coisa na minha folha.
_O problema não é a formula, mas você é muito distraído e fica trocando os números.
Olhei atentamente o exercício, percebendo que um 36 havia se transformado em 32 sem motivo razão.
_Agora tudo faz sentido_ Murmurei, incrédulo com minha burrice.
_Depois eu te chamo de burro e você fica todo revoltado_ Murmurou Jean.
Chutei sua canela de baixo da mesa e ele grunhiu. Sorri em resposta.
_Se vocês começarem a se pegar de novo eu juro que quebro o dente dos dois_ Disse Levi, a expressão imparcial, saindo de perto da nossa mesa.
_É, acho que tem razão Eren_ Murmurou Connie, tremendo dos pés a cabeça_ Ele é mesmo assustador, parece que tem... Uma aura maligna saindo dele.
Eu assenti, estremecendo e uma imagem estranha passou pela minha cabeça.
Pisquei meus olhos por alguns segundos, fiquei um pouco tonto e apoiei minha cabeça na mão livre. Inconscientemente fechei os olhos e me senti como se estivesse em outro lugar...
Parecia uma outra época, em um lugar que lembrava algum tipo de castelo ou coisa parecida, várias pessoas me observavam... Por algum motivo eu sabia que estava sendo julgado. Meu corpo doía e eu estava preso, as pessoas falavam a minha volta, mas eu não escutava nada, sentia um estranho desespero crescendo cada vez mais no meu peito.
Senti meus lábios começarem a se mover inconscientemente.
De repente focalizei um par de olhos cinzentos, e antes que desse por mim levei um chute na cara.
Pisquei os olhos com força e novamente focalizei a sala de aula, meio aturdido, meio tonto. Não tinha a mínima ideia do que havia acabado de acontecer e eu estremeci ao me lembrar do estranho par de olhos cinza e o chute certeiro que o mesmo havia me dado no rosto.
O que tinha acontecido? Eu havia sonhado acordado ou algo parecido? Ou eu estava ficando maluco? Lembrei-me então do que havia me deixado aturdido no dia anterior, na entrada da escola; o mesmo par de olhos azuis acinzentados.
Uma ideia remota de que talvez estivesse a ficar louco passou por minha cabeça e eu estremeci ao me imaginar em um hospital psiquiátrico. Só de me lembrar da palavra hospital eu já sentia calafrios, então optei pela ideia menos racional e mais perigosa: Fingir que nada havia acontecido_ uma técnica adquirida por eu ao passar do tempo, ignorar o problema até que não haja mais solução; fiz a mesma coisa com o aquecedor velho que a meses fazia um barulho estranho e pifara na semana passada.
Podia também não significar absolutamente nada, apenas algum delírio pela noite sem dormir ou talvez uma possível concussão pela luta da noite anterior, ou talvez os dois juntos, eu não sabia.
Dei um pequeno pulo na cadeira ao ver uma mão estalar os dedos em frente ao meu rosto, percebi então que estava divagando a tempo de mais.
Suspirei, cansado e lancei um falso sorriso aos meus amigos, tentando tranquiliza-los. Nunca menti bem e não os convenci, mas eles não insistiram.
Eu consegui terminar a equação após colocar o número certo.
.........................................................................................................................................
_Por que ele tinha que ser professor de Matemática também_ Reclamei eu, passando a mão livre pela nuca dolorida, resultado do mais novo passatempo do professor Levi: Me bater.
_Eu juro que vou quebrar os dentes daquele tampinha_ Resmungou Mikasa, por mais que em sala, ela, como todos os outros alunos, tremesse a presença impotente do professor Levi.
Rolei os olhos em sua direção ao mesmo tempo em que estava tentado a retirar a compressa da cara e coloca-la na nuca.
_Eu não preciso de proteção Mikasa.
_Não é o que seu rosto diz_ Rebateu ela.
_1 para Mikasa, 0 para o Eren!_ Gritou Jean rindo e abrindo os braços, como se comemorasse.
Eu nem me importei em retrucar, tinha que ir a biblioteca e ainda ter mais um encontro com o professor para ver como ficariam as aulas e a detenção e ainda pretendia lanchar. Então não me demorei com meus amigos, tratando de ir logo para a biblioteca.
Quando cheguei lá, dona Zeide, uma velha raquítica que não parecia concordar que eu gostasse de livros modernos ao invés de Shakespeare , me lançou um olhar feio, o qual eu retribui de bom grado. Geralmente eu passava bastante tempo a procura de um livro que eu quisesse ler, mesmo que a biblioteca fosse escassa, lia sinopse por sinopse, mas como hoje eu estava com pressa decidi pegar um livro que havia me chamado a atenção na semana anterior.
Depois de pegar o livro eu me apressei a ir a sala dos professores, torcendo que isso demorasse o mínimo possível. Desde meu “sonho” estranho no meio da aula o professor parecia ter se tornado bem mais assustador, mesmo que uma outra parte gritasse que eu lhe devia dar o troco por ter me dado a rasteira.
Minha cabeça ficava bem dividida, e eu optava por não pensar muito no assunto e fazer o que me desse na telha na hora.
Suspirando pesadamente eu apenas me dirigi a sala dos professores e bati levemente na porta aberta, logo encontrando vários pares de olhos que com toda certeza, não queriam me ver ali.
_Agora até o nosso intervalo ele vem atrapalhar?_ Murmurou alguém e eu fechei as mão em punho, pronto ou pra responder ou ir embora e ignorar o professor Levi.
_Eu que o chamei aqui_ Disse Levi, a expressão impassível e uma xicara de café nas mãos._ Anda logo pirralho, entra.
Meu primeiro instinto foi reclamar por causa do novo apelido, “pirralho” já não poderia ser usado para um rapaz de 17 anos, eu tinha certeza. Mas então me lembrei da imagem de sua bota vindo na direção do meu rosto e decidi que o mais seguro era entrar sem dizer nada.
Parecia que os olhos de todos estavam grudados em mim, e isso me incomodava.
Segui o professor até a mesa em que ela parecia estar sentado mexendo em seu computador, acompanhado de Hanji. Não tinha a mínima ideia de como os dois conseguiam permanecer um perto do outro, tendo personalidades tão diferentes.
_Senta ai_ Ordenou ele, apontando para o lugar vazio em quanto se sentava em seu lugar e começava a procurar por alguma coisa em sua bolsa. Eu não sai do lugar e ele apenas suspirou pesadamente.
_Sobre os horários das suas detenções_ Iniciou ele novamente.
_Vou poder pegar as detenções depois da aula pelo resto do mês_ Me apressei em dizer e ele ergueu os olhos azuis para mim.
_Jaeger, sinto muito te desiludir, mas pelo tanto de coisa que você fez, vai pegar pelo menos uns 4 meses de detenção, se não for mais.
Arregalei os olhos, surpreso.
_Mas já que está livre o resto do mês, vamos esperar até lá para vermos seu horário, não gosto de adiar as coisas, mas pelo que eu vejo, você nem sabe que horas vai trabalhar, então... Voltando ao assunto, aqui estão as folhas com os horários das aulas_ Disse ele me entregando um papel cheio de anotações, mas bem organizado_ Como não tenho tantas horas livres assim, você vai ter que participar de algumas aulas com turmas diferentes, em quanto eles fazem o trabalho deles, eu lhe dou a aula. Além do mais, também te tirei de algumas aulas menos importantes como artes e informática.
Murmurei um ok, afinal, a única coisa que eu fazia na aula de artes era dormir e fazer copias do Goku no meu caderno de desenho, então não teria problema.
_Está dispensado Jaeger.
_Sim, senhor_ Disse eu em quanto já me virava e saia da sala. Já na metade do caminho para o refeitório é que eu fui perceber o que eu havia dito.
Piscando os olhos com força, tentei entender porque aquela frase me pareceu tão nostálgica, mas depois de alguns segundos pensando acreditei que era bobagem e voltei a andar em direção ao refeitório, desacreditado do fato de que havia chamado Levi de senhor... Eu tinha medo de lhe faltar com respeito, mas também não gostava de lhe respeitar tanto.
Fale com o autor