Notas iniciais
Cap não betado, peço desculpas por qualquer erro.

Levi~

O frio que aparentava passar ao lado de fora do carro fazia-me arrepiar só de imaginar, o aquecedor ligado no máximo zunia e já não me era suficiente. Era com pavor que eu imaginava como daria aulas naquela situação sendo que não haviam aquecedores na escola, nem ar condicionado, o que significava que quando o calor retornasse com tudo, também iria sofrer.

Suspirei, lembrando-me que de todos os empecilhos que imaginava encontrar ao começar a lecionar no colégio Maria, nunca imaginei que a temperatura seria um problema.

Olhei o relógio no pulso para confirmar o horário em quanto entrava no estacionamento, sabia que estava na verdade adiantado, mas era um habito antigo.

Já estava praticamente dentro da vaga quando vi Hanji correndo e gritando na minha direção e não pensei duas vezes antes de dar ré e ir procurar uma outra vaga, longe da entrada da secretaria. Percebi pelo retrovisor que ela me perseguia, correndo e gritando meu nome como uma louca e o encontro era inevitável, além de que os outros professores estavam a observar a cena curiosos. Não que me importasse com a opinião deles, mas também não gostava de ficar causando escanda-los sem necessidade.

Estacionei numa vaga no final do estacionamento, me arrependendo ao lembrar do frio que fazia ali fora. Se tivesse parado aonde tinha pensado inicialmente teria que permanecer menos tempo ao ar livre. Desliguei o carro, pegando minhas coisas ao mesmo tempo. Sai rapidamente e já me dirigia a entrada da escola, tentando fingir por mais tempo o possível que não conhecia a Hanji, por mais que todos os presentes na escola soubessem que sim.

_Ah Levi! Para de fugir de mim, tenho algo importante para contar! _ Brandia ela em quanto agarrava meu braço.

Olhei-a de soslaio com meu melhor olhar de “você já está morta”, mas ela apenas riu e começou a contar suas novidades.

_Hanji, não pode calar a sua boca por um minuto!_ Reclamei, já dentro do colégio e a caminho da sala dos professores.

_Ah Levi_ Dizia ela, fazendo um biquinho estranho_ Pares de ser tão mal, lembra quem te convidou pra vir trabalhar aqui?_ Questionou ela.

_Hanji, você não me convidou, apenas falou que aqui precisavam-se de professores_ Murmurei eu, começando a perder a paciência.

_Oh!_ Brandiu ela, num falso ultraje_ Peguei na ferida?!

_Hanji, ferida quem vai ficar é você se não me soltar agora!

No mesmo istante a castanha soltou-me e saiu pouco saltitante a minha frente, apesar de que acredito que o motivo disso não foi minha ameaça, mas sim o fato de que iriamos passar agora pelo pátio aberto da escola_ já que o inteligente que a havia construído tinha feito a sala dos professores do lado oposto ao estacionamento dos mesmos_ e Hanji adorava meter-se entre os pirralhos, que assim que a viam corriam para fazer-lhe perguntas estranhas que se relacionavam ou a sexo ou a outra coisa esquisita.

A muito tempo me perguntava o que é que ela falava para os pirralhos em quanto estava em sala.

Quando chegou um pouco mais a frente, parou repentinamente e seu rosto iluminou-se ainda mais, se é que isso era possível.

Quando cheguei ao seu lado ela dava saltinhos e apontava para um trio de pirralhos que entrava, reconheci apenas dois deles.

_Lembra que eu te falei do Eren, Levi?_ Questionava ela, apontando a um rapaz de cabelos castanhos que estava no meio do trio.

Senti uma sensação estranha ao ouvir o nome mais uma vez. Hanji estava a falar do garoto a dias, dizendo que mal esperava para ver como eu reagiria ao garoto que parecia ser o terror dos professores e claro que eu sempre lhe respondia a mesma coisa, “se me faltar com respeito, castigo-lhe”, o problema é a sensação nostálgica que eu tinha ao ouvir tal nome. Olhei mais cuidadosamente o rapaz de cabelos castanho franzi o cenho ao ver que alguma algazarra passava entre os três pirralhos, Armin e Mikasa _ quais eu recordava das aulas _ estavam envolta dele como se algo estivesse acontecendo.

Vi quando o rapaz de cabelos castanhos se soltou do loiro e olhou em volta, parecendo um tanto desesperado.

Nossos olhos se encontraram.

E meu peito foi preenchido por uma estranha sensação, um calor gostoso e ao mesmo tempo uma dor insuportável, carregado de uma culpa que eu lembrava de sentir em meus sonhos. Os olhos verdes se fixaram nos meus por breves segundos, mas foi impossível não reconhecer aquele garoto... O mesmo dos sonhos sangrentos que eu tinha a anos, os mesmos olhos que me tiraram o sono várias vezes.

Não consegui acreditar no que vi. Eu era consciente de que nunca havia visto aquele moleque na vida, por mais que não fosse lá de ficar prestando atenção nas pessoas que passavam na rua, sabia que mesmo que visse o menino apenas de relance, não conseguiria esquece-lo por causa da estranha tonalidade dos olhos, ninguém com aqueles olhos conseguia passar despercebido. Porém, era impossível negar que reconhecia aquele rosto, era o mesmo dos sonhos, eu tinha certeza. Não sabia como isso era possível e a parte racional do meu cérebro dizia que era melhor nem tentar descobrir.

Já havia lido em algum lugar que éramos incapazes de sonhar com alguém que nunca vimos, mesmo que não lembremos da pessoa, provavelmente teríamos visto na rua ou algo assim. Porém acredito seriamente que ninguém entende o cérebro humano direito, e como essa não era a minha área, não vou tentar descobrir como é que ele funciona agora.

Suspirando, apenas pedi que Hanji andasse logo ou chegaríamos atrasados. Entrei na sala dos professores dei um bom dia para todos os presentes e respondi secamente as investidas indiscretas de algumas professoras, organizei meu material e me sentei em uma das mesas para tomar um café, já que ainda faltavam alguns minutos.

Petra, a professora de português que parecia estranhamente bem vestida para ser professora do colégio Maria, soltou um suspiro em quanto voltava da pequena cozinha acoplada a sala com mais uma jarra de café. As cozinheiras geralmente preparavam uma jarra também, mas todos gostavam do de Petra.

_Pessoal, ele voltou_ Falou ela alto, porém parecendo cabisbaixa.

Pela primeira vez na vida vi Hanji lançar um olhar feio a alguém, porém ela não se pronunciou.

_Hanji, não me olhe com essa cara_ Resmungou Petra em quanto se sentava em nossa mesa após pegar um copo de café_ Eu ainda não sei como você se da bem com ele, na verdade, isso eu posso até entender, não sei como é que faz pra ele te respeitar!

Eu apenas observava a conversa curioso, afinal, já tinha uma ideia de que estavam falando do menino Jaeger, mesmo que ainda não entendesse o motivo de tanta aversão ao rapaz, os professores deixaram bem claro que ele dava muitas dores de cabeça.

_Só não respondo essa pergunta porque, sendo uma professora, já deveria saber a resposta_ Respondeu Hanji e eu quase engasguei com o café ao ver a raiva banhar o rosto dela.

Hanji... Com raiva? Isso era uma experiência completamente nova.

_Hanji, não existe professor, além de você, é claro, que consiga lidar com piadas como balde de tinta na cabeça e cola na cadeira_ Resmungou Petra, sem parecer ofendida.

Olhei para Petra curioso, quer dizer que as brincadeiras do pirralho chegavam a esse nível?

_Petra, eu não sei porque reclama tanto do pirralho_ Comentou o professor Mike, sentando-se em nossa mesa também _ Você não disse que estava se comportando melhor?

_Isso é porque descobri que gosta de ler e...

Mike a interrompeu, rindo e quase engasgando com o pedaço de pão doce que comia.

_O Eren gosta de ler?_ Perguntou ele, olhando-a incrédulo.

Ela apenas revirou os olhos pra ele.

_ E você? O que está fazendo na conversa se pelo que sei, é mais um dos poucos professores que gostam do menino?_ Questionou Petra.

_Ah! Não se engane minha cara, eu não gosto dele, ele é muito desrespeitoso, claro que a maioria dos alunos da escola são _ Dizia ele, parecendo um pouco irritado_, mas Eren bate o recorde, ainda não esqueço o que ele pichou na parede da quadra de vôlei... Voltando ao assunto, não gosto dele, mas não posso negar que ele é um ótimo esportista e não me desafora muito, acho que ele já gritou aos quatro cantos que mão gosta de ficar preso em sala de aula, e por isso, se fica na quadra, não tem o porquê me encher o saco.

_Ele é apenas uma criança com peso de mais nas costas_ Interveio Hanji, parecendo quase magoada que estivessem a falar mal do rapaz.

_Hanji_ Começou Petra novamente_ ele não é o único aluno que trabalha aqui na escola.

Hanji ia retrucar, mas Petra não deixou:

_Além do mais, vamos parar de discutir, estamos é deixando uma má impressão no professor Levi.

Encarei um pouco Petra, não entendendo porque estavam a parar uma discussão que eu estava, na verdade, gostando de ver.

Não me demorei muito mais na sala dos professores e logo me dirigi a sala que daria aula, ainda faltava algum tempo para bater o sinal, por isso apenas me recostei perto da porta em quanto os alunos entravam.

Em quanto eu esperava, consegui escutar o meu nome em uma conversa nada discreta dos alunos, não foi com surpresa que o nome Eren apareceu no meio também. Parecia que todos queriam ver o que iria acontecer, parecia na verdade, que todos esperavam uma guerra ou coisa assim.

Parado ali ao lado da porta, comecei a prestar atenção na conversa e o que mais me chamou a atenção era a voz de um dos alunos, que por algum motivo, tinha certeza de ser do Jaeger. Era uma voz estranhamente familiar e que lhe causava uma sensação nostálgica. Tinha certeza também que era a mesma voz dos sonhos, idêntica.

Não foi com surpresa que eu percebi que os alunos tinham a mesma opinião dos professores com relação ao rapaz e eu batermos de frente, mas não me importei muito. Quando o sinal batel, apenas entrei na sala e os alunos correram para seus lugares, aquietando-se.

Arrumei minhas coisas na mesa e logo comecei a aula.

_Hoje é dia da correção daquela folha que eu lhes entreguei duas aulas atrás, vamos corrigir e tirar qualquer dúvida restante, não se acanhem e perguntem caso não entenderem alguma coisa_ Comecei eu e percebi que os alunos prestavam atenção, bem diferente das primeiras aulas em que tinha que gritar e lhes lançar olhares feios_, antes de começar eu irei fazer a chamada e Sr. Jaeger, venha pegar a sua folha, e faça o favor de se sentar aqui na frente, já que faltou muitas aulas, precisarei explicar o conteúdo para você.

A reação foi imediata, bocas se abriram ou fecharam para prender a respiração, a expectativa nos olhos dos alunos era intensa e eu acreditava que estavam realmente a espera desse momento, porém, diferente do que imaginavam, o menino apenas pegou seu material e sentou-se aonde eu mandei. Lhe entreguei a folha e ele nada disse, porém dava pra ver pela sua cara que ele não gostava da situação.

Tinha quase certeza que ainda não havia reclamado de ter de se afastar dos amigos e virar o centro das atenções por causa de um certo loiro que só faltava se ajoelhar no chão e começar a rezar para que o amigo não fizesse nada de errado.

A sala toda parecia estupefata pela aparente obediência do menino que eu realmente passei a acreditar que aqueles meninos tinham alguma tendência a serem idiotas. Será que tinha alguma chance de todos eles terem batido a cabeça quando nasceram? Eu não duvidava.

_Parem de me olhar como seu fosse um fantasma e fechem a boca, parecem um bando de retardados._ Ralhei.

Alguns risinhos foram ouvidos em quanto as pessoas ajeitavam-se em sua cadeiras, mas ainda pareciam observar a cena, como se esperassem que alguma coisa acontecesse.

Todos olhavam para mim e para o rapaz, que parecia concentrado em tentar entender o que estava escrito na folha, embora acreditava, pela mão que se fechava em punho sobre a carteira, que ele apenas estava tentando me ignorar, porém após realmente ler o que estava na folha suas mãos relaxaram e a confusão passou pelo rosto dele.

Eu, ignorando o rapaz, me apoiei na minha mesa e comecei então a fazer chamada, e ao chamar o nome do rapaz de olhos esverdeados o mesmo não respondeu.

_Jaeger?_ Questionei eu novamente.

_Oi?_ Respondeu ele procurando de onde havia vindo o som.

_Ficar lendo e relendo não vai te ajudar a entender, preciso te explicar a matéria primeiro._ Soltei e apenas coloquei sua presença, sem esperar uma resposta decente a chamada.

Ele não pareceu gostar do tom que eu havia usado, sua mão fixou-se em punho novamente mas ele logo relaxou, depois de claramente fechar os olhos e contar até dez em meia voz, os amigos que o observavam do outro lado da sala apenas riam.

_Quando o Eren explodir eu não quero nem ver o que vai acontecer_ Escutei um deles dizendo em meio aos risos.

O rapaz que ali da frente, também escutou a conversa , virou-se na cadeira e mostrou a língua aos amigos, que riram ainda mais.

_Algum de vocês ainda não terminou todas as questões?_ Questionei eu, aproveitando para cortar a conversa que estava começando a ficar alta de mais e vi que algumas mãos se levantaram_ ok, lhes darei mais 10 minutos para terminar e depois início a correção, qualquer dúvida sobre o exercício, venham me perguntar. Aqueles que já terminaram, já sabem as regras, nada de fones de ouvido, baralho , conversas altas e Sasha, nada de comida em sala de aula_ Vi a menina amuar-se quando lhe disse isso.

Peguei então uma cadeira e coloquei em frente à mesa do rapaz, que levantou os olhos verdes da folha para me encarar, como se estivesse surpreso, porém ele nada falou, mas ainda parecia irritado.

Não me demorei a começar a explicar a matéria e ele ia tentando fazer, com uma certa dificuldade que não pode evitar de reparar. Será que tinha dislexia?

De vez em quando os alunos interrompiam as explicações para tirarem duvidas, e eu prontamente explicava aonde estavam os erros.

Já haviam se passado os 10 minutos e eu ainda não havia conseguido explicar nem um terço do que precisava, por causa da sua dificuldade em entender.

_Só uma pergunta_ Comecei eu_ Tem dislexia?

_Não que eu saiba_ Murmurou ele, concentrado no que fazia

_E já foi ao médico para averiguar?_ Questionei eu, reparando que sua mão, que tentava fazer o calculo, parara de repente, mas logo voltou a escrever.

_Não_ Disse ele, simplesmente, sem me olhar nos olhos_ Mas se quiser pode começar a correção, depois eu dou um jeito de pegar a matéria.

Apenas soltei um suspiro e continuei a lhe explicar.

_Não pense muito no problema, a primeira coisa que tem que fazer é tirar as notas, ver quais os valores que tem, se é massa, altura, gravidade, velocidade, tempo, etc, a primeira coisa que tem que fazer é ver o valores que tem e coloca-los aqui no canto, para não esquecer. Só então você olha o problema.

Ele assentiu e começou a fazer o que eu falei, tendo então mais facilidade para resolver as questões. As questões mais teóricas pareciam ser mais fáceis para ele. Decidi que iria intercalar a correção com aquela pequena aula em particular e comecei a chamar a atenção da sala. No final da aula todos me entregaram as folhas completas, inclusive Eren, por mais que ainda houvessem alguns erros. Os alunos já estavam todos saindo das salas quando tive que barrar o mesmo.

Ele virou-se para mim com cara de que não estava muito feliz, mas não disse nada.

_Tem que fazer as folhas das semanas em que faltou_ Eu disse lhe entregando algumas folhas e ele as olhou surpreso_ Vou pedir para algum professor te liberar de alguma aula em que eu esteja livre para te ensinar a matéria.

_Não precisa, eu pego a matéria de alguém_ Respondeu ele, claramente inconformado em passar mais tempo do que o necessário na minha presença.

_O objetivo aqui não é copiar exercícios Sr. Jaeger, mas sim aprender a faze-los_ Respondi eu.

Por um segundo ele pareceu brevemente surpreso, para então em seguida parecer irritado.

_Olha, eu sei que você é um professor conhecido e tudo mais, mas não adianta fingir que se importa se a gente aprende ou não_ Brandiu ele e seus olhos brilhava de raiva.

Arqueei as sobrancelhas, surpreso pela mudança de comportamento que eu julgava vir da falta da presença de um certo loiro.

_Não fale nesse tom comigo Sr. Jaeger, sou seu professor e é por esse motivo que eu tenho que me importar se vocês aprender ou não. E você está intimado a comparecer as aulas extras para recuperar a matéria, assim como vai ficar em detenção pela sua insolência_ Disse eu e seus olhos piscaram ao ouvir a palavra detenção.

_Eu não poço ficar de detenção!_ Brandiu ele, fechando as mãos em punho.

_Não só pode como vai, e se continuar a falar nesse tom comigo vai ter mais castigos.

Ele então bufou e saiu batendo os pés, igual a uma criança birrenta.

Suspirei pesadamente com a cena em quanto outros alunos adentravam a sala e se arrumam nas carteiras.

_Muito bem_ Comecei eu_ Hoje é dia da correção que eu lhes entreguei na aula...

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O sinal da última aula tocou e não foi com surpresa que percebi que só havia um aluno de detenção.

Eren entrou e sentou-se em uma cadeira perto da janela. Não trocamos nenhuma palavra. Eu decidi aproveitar aquela uma hora para corrigir alguns trabalhos e organizar algumas aulas, em quanto o menino apenas apoiou seus pés na carteira e recostou a cabeça para trás.

Porém ele manteve-se assim apenas nos primeiros minutos, depois começou a mudar de lugar e a ficar inquieto, olhando o relógio e o celular _ na minha opinião, muito ultrapassado para um garoto de 17 anos_ constantemente.

Não haviam passado nem ao menos 15 minutos e eu já estava começando a me sentir irritado e me preparava para mandar que ficasse quieto, mas o celular dele tocou.

_Nem pense em atender esse celular, você sabe que por lei ele não é permitido em sala_ Resmunguei eu, afinal, olhar as horas era uma coisa, mexer descaradamente nele era outra.

O menino me ignorou e atendeu o celular, apoiou o cotovelo na mesa e escondeu o rosto com as mãos em quanto colocava o aparelho no ouvido.

_Oi Shadis_ Murmurou o garoto com uma voz estranha_ Sim, eu sei que estou atrasado para o trabalho... sim... sim, eu sei que... Desculpa é que eu peguei uma detenção_ Ele esteve constantemente sendo interrompido, mas quando formulou a última frase a pessoa do outro lado do telefone começou a falar sem parar e eu conseguia ouvir algumas coisas daqui.

Meu peito se apertou ao ver a cara desesperada que o menino fazia, mas eu nada disse, sabendo que agora que eu já tinha começado a aplicar a detenção, não havia possibilidade de voltar atrás, pelo menos não agora.

_Não! Shadis, por favor, eu preciso desse emprego_ Pausa_ Sim, eu sei... Olha, faltam 45 minutos para terminar_ mais uma pausa_ Por favor, você sabe que eu preciso desse emprego.

Eren ficou mais alguns minutos a escutar um longo discurso que não parecia nada legal e no final apenas murmurou um “ok” entristecido. Ele desligou o aparelho e então apoiou a cabeça na mesa e foi com surpresa que eu vi o rapaz derramar uma lágrima, ao quão apressou-se rapidamente a limpar.

Meu peito ardia e eu sentia que havia algo muito fora do lugar, muito errado acontecendo, como se a situação toda estivesse errada e por breves segundos eu pude jurar que ouvi uma voz me chamando, mas logo espantei esse pensamento e me levantei, aproximando-me do rapaz de olhos verdes.

_ O que você quer?!_ Brandiu ele e se sua voz não estivesse claramente embargada eu teria ameaçado lhe quebrar os dentes, já não havia falado que não era assim que se tratava um professor?

_Pirralho, por que diabos não disse que tinha um trabalho no horário da detenção?_ Rebati eu.

_Que diferença isso faria?_ Murmurou ele contra a mesa.

A pergunta era retórica e isso me deixou confuso.

_Hora, mudaria o horário do seu castigo_ Isso era óbvio.

Ele levantou os olhos inchados e me mostrou sua melhor cara de escarnio, mostrando que não acreditava na minha palavra.

_Por que eu não mudaria?_ Questionei lhe encarando nos olhos.

Ele demorou um pouco para responder, antes disso manteve os olhos nos meus até que ele os desviou repentinamente e eu podia jurar que sua bochecha havia ganhado uma coloração mais avermelhada.

_Para não atrapalhar o seu horário, simples assim_ Resmungou ele, apoiando o rosto nos braços e me lançando seu melhor olhar de “eu te odeio e quero que morra”.

_E que ser imbecil faria um pirralho como você perder o emprego só por causa disso?_ Questionei eu, afinal, a ideia era um pouco absurda. Tudo bem que os professores não eram muito simpatizantes do garoto, mas chegar a esse ponto era ir um pouco longe.

Foi com surpresa que eu ouvi a próxima frase:

_Não é a primeira vez que eu perco um trabalho por causa da detenção_ Disse ele, sentando-se direito e me encarando como se me desafiasse.

_Pois bem, mas eu não sou o professor que lhe fez isso_ Rebati eu, cruzando os braços_ Da próxima vez que não puder comparecer deve dizer o motivo, se fizer sentido, mudo para outro dia ou outro horário.

Ele apenas bufou em resposta e eu lhe dei um tapa na testa.

_Ai! Por que fez isso?!_ Questionou ele incrédulo, ao mesmo tempo em que levava a mão a cabeça.

_Por que continua a me responder desse jeito?_ Questionei em resposta_ E ainda merecia mais um por ter me desobedecido e atendido ao celular.

Ele apenas voltou a deitar-se na carteira, o ar melancólico ainda estava presente, mas não tanto quanto antes.

Eu era consciente de que o menino apenas não me respondia porque estava deprimido, pude perceber em sala de aula que ele era provocado facilmente e não tinha muito controle no quesito raiva, mas decidi não fazer nenhum comentário.

Passaram-se mais 30 minutos e eu já havia voltado para meu lugar e me ocupava em corrigir os trabalhos, porém algo martelava em minha cabeça.

_ Esse trabalho_ Comecei eu, chamando a atenção do garoto_ Você realmente precisava dele?

_Pra falar a verdade, sim, mas vou dar um jeito e arranjar um bico qualquer_ Resmungou ele, embora eu tivesse a impressão que havia algo por trás de suas palavras.

Murmurei alguma coisa em resposta e voltei minha atenção aos trabalhos, mesmo que o sentimento de culpa martelasse na minha cabeça, assim como a curiosidade sobre um possível professor que possuía rancor de mais contra um adolescente.

O sinal tocou e o menino se apressou em sair da sala. Já eu guardei meu material com calma e sai a passos lentos, contente por Hanji já ter ido embora, assim não teria de escutar suas asneiras.