Notas iniciais
Não me matem, eu voltei! Sim, como sempre o cap ta sem betar. se encontrarem erros me avisem cambada.

12 anos atrás. Cidade Karanese.

A neve caia fortemente do lado de fora da grande casa dos Jaeger, impedindo a entrada ou a saída dos membros da mesma.

O frio se arrastava pela fresta da porta em direção ao pequeno corpinho como uma cobra ataca sua presa, mas a pequena criança de cabelos castanhos e olhos verdes elétricos não ligava, ela estava mais concentrada em se pendurar no alto beiral da janela e observar os pequenos floquinhos de neve caírem, as mãos gorduchas avermelhando-se com o frio.

A casa estava estranhamente silenciosa sem sua mãe ali, a mesma estava presa no hospital no qual trabalhava e seu pai estava estranho desde a noite anterior, quando o pequeno garoto, depois de acordar de um pesadelo no meio da noite e ir ao quarto dos pais, os encontrou no meio de uma discussão. Eren havia aberto a porta do quarto no exato momento em que seu pai estava, claramente, tentando enforcar a mulher.

Na hora a única coisa que o garoto conseguiu fazer foi encarar a cena assustado, para logo em seguida ver seu pai lhe gritando e mandando que ele saísse dali.

Já havia se passado um dia inteiro e ninguém havia lhe explicado nada, mas o pequeno garoto também não tinha coragem de perguntar.

Um pigarro se fez ouvir pelo cômodo e o pequeno corpinho se virou em direção ao pai, que recostava de maneira relaxada na porta.

Eren abriu um sorriso e correu em direção ao pai, mesmo que estivesse chateado que ele e sua mãe estivessem brigando na noite anterior, ainda era seu pai. Para a estranheza do menino, o pai não o recebeu, apenas se virou e saiu andando.

Havia sido nesse dia que as coisas haviam começado, bem ali, naquele gesto pequeno, que o pesadelo de Eren havia começado: primeiro, com a rejeição, depois vieram as palavras duras, as repreensões desnecessárias e as discussões entre seus pais apenas aumentavam.

Depois de algumas semanas é que veio o primeiro tapa. Foi em um dia que sua mãe tivera que ficar no hospital até tarde e Eren sem querer havia derrubado suco de uva no tapete do escritório de seu pai e, antes que tivesse a chance de pedir desculpas um tapa lhe foi desferido nas bochechas gorduchas e com a força o garoto praticamente caiu no chão. Essa foi a primeira vez que o pai de Eren bateu nele, mas não foi a última.

Nos dias que se seguiram o relacionamento entre os pais de Eren melhorou consideravelmente e Carla acreditava que o marido estava mudado, não discutiam mais e o mesmo parecia mais calmo, o episódio que seu filho presenciara não havia voltado a se repetir e isso a deixava alegre, seu relacionamento estava voltando aos trilhos, tomando o caminho certo e tamanha felicidade nublou seus olhos, e, infelizmente, Carla não conseguiu notar as mudanças no temperamento do filho, e quando finalmente o fez, achou que era apenas coisa de criança rebelde.

Já Eren, bem, esse amava de mais a mãe, o suficiente para ainda pequeno, não revelar nada, nem mesmo as cintadas sem razão alguma, os tapas, os apertos nos braços, os puxões de cabelo, Eren nunca falou nada, tudo para proteger sua mãe.

Eren nunca falou nada, nem mesmo na primeira vez que seu pai entrou em seu quarto de madrugada e o obrigou que ali, ainda pequeno, se tocasse, nem nas outras noites.

Eren não falou nada quando os pedidos foram mudando, não falou nada nem mesmo quando seu pai lhe bateu ao recusar suas ordens, Eren nunca contou nada, mesmo com o passar do tempo, mesmo com o passar dos anos.

8 anos atrás. Cidade Karanese

Aos nove anos de idade, Eren, já conhecida como uma criança baderneira e arredia, teve um dos piores dias de sua vida, ou melhor, uma das piores madrugadas de sua vida.

As três horas da manhã foi acordado pelo pai com um puxão de cabelo brusco e sem dó ou piedade foi prensado contra sua cama, a mão grande de seu pai, ainda presa em seu cabelo pressionava seu rosto contra o colchão macio e a única coisa que pode fazer era morder o lençol e esperar pela invasão que não tardou a ocorrer, sem dó ou piedade seu próprio pai o invadiu e naquele momento, em quanto as lágrimas escorriam, Eren acreditou ter perdido toda a inocência que sobrara em si com o passar dos anos.

A partir dai isso se repetiu todos os dias, sem falta, até que aos onze anos, quando o pequeno garoto pegou uma gripe, Carla decidiu que deveria dar uma olhada no garoto e estranhou quando não encontrou o marido na cama.

Carla ainda lembra com exatidão do momento em que andando nos corredores silenciosos começou a escutar soluções e o ranger de uma cama. De inicio ficou confusa e um mal pressentimento lhe assolou o fundo da mente.

Com relutância foi em direção ao quarto de Eren, de onde os sons vinham e chamou pelo garoto: ao abrir a porta do quarto de Eren, teve seu mundo destruído.

Carla nunca se perdoou, desde o momento em que viu seu pequeno ali, sofrendo nos braços do homem que ela acreditara amar, percebeu que falhara em um grande ponto de sua vida e em quanto gritava e tentava tirar aquele monstro de cima de seu filho, a única coisa em que conseguia pensar era em tirar seu pequeno dali.

Grisha não mostrou resistência alguma, saiu do quarto como se nada houvesse acontecido em quanto Carla ficava ali, de camisola, os olhos cheios de lagrimas em quanto observava seu garoto.

E então os pés se arrastaram relutantes em direção ao menino em quanto os soluços começavam a escapar por sua garganta e então ela sentou-se, ali, do lado dele. Com a garganta dolorida pelo choro sofrido ela afagou os cabelos suados e o rosto molhado pelas lagrimas, em seguida apenas abraçou seu menino com toda força que tinha em quanto os dois choraram.

Ela não havia conseguido proteger seu pequeno, sua criança tão doce fora corrompida.

Afinal, como não havia enxergar? Toda aquela raiva, aquela dor! Como não havia percebido que seu garoto estava sofrendo?

Ali, abraçada com sua criança e encarando aqueles olhos verdes tão impactantes, Carla soube que tinha que ir embora, assim como sabia que Grisha iria lhe destruir, iria destruir sua carreira e arranjar um jeito de deixa-la sem nada, mas pouco importava.

Espremendo os lábios um no outro, Carla encarou aqueles olhos verdes com toda a força que conseguiu reunir naquele momento.

—Querido?_ Sua voz saiu embargada e um falho sorriso de reconforto tentou se formar em seu rosto_ Você confia na mamãe?

Eren não respondeu e Carla não ficou magoada, merecia isso.

—Querido_ Ela fechou os olhos com força, as lágrimas escorrendo pela bochecha já encharcada_ arrume suas coisas sim? Nós vamos embora.

Carla deu mais um beijo na testa de Eren antes de se levantar e acender as luzes do quarto e com as lágrimas caindo começou a abrir o guarda-roupa de seu garoto em quanto escutava o ranger da cama, sinal de que Eren se levantara e em seguida escutou o farfalhar das roupas, sinal de que o garoto levantava suas calças.

Em quanto estava ali, arrumando suas malas, Carla pensou brevemente que nunca esteve tão perdida, porém, com o canto dos olhos observou seu garoto e não foi difícil concluir que quem estava mais perdido ali era ele, e não ela.

Quando terminaram de arrumar as malas Carla apenas colocou um jeans e uma camiseta e quando viu, estava na garagem fechando o porta-malas, Eren no banco do passageiro encarava o retrovisor parecendo pensativo.

Carla suspirou e passou a mão nervosamente pelos cabelos amarrados em um rabo de cavalo, por breves segundos achou que desabaria ali mesmo.

Soltou um suspiro profundo e então encarou o teto, fungou uma vez e então decidiu que era hora de tirar seu garoto dali, ele tinha que se afastar o máximo possível de Grisha.

Quando Carla entrou no carro e olhou pra Eren, não soube o que fazer, o que lhe dizer, o mesmo parecia ter entrado em um estado de torpor que Carla não conseguia compreender e antes que deixasse sua fraqueza transparecer, Carla suspirou mais uma vez e ligou o motor, deixando então sua grande e bonita casa para trás, assim como o marido que um dia prometera amar diante do altar.

E então ela simplesmente seguiu pelas ruas da cidade em quanto tentava segurar o choro ao mesmo tempo em que via o céu ganhar uma tonalidade mais clara com o tempo. Carla não sabia para onde ir e o que fazer, não tinha aonde morar ou a quem pedir ajuda, carregava consigo poucas finanças e sabia que sua carreira havia acabado no momento em que colocara os pés para fora de casa, sabia que Grisha tinha poder suficiente para isso.

Em quanto vagava sem rumo na avenida principal, Carla desabou. Com brusquidão tacou o carro para o acostamento e desandou a chorar o que nunca chorara em toda sua vida. Estava tudo perdido, seu casamento, sua carreira, sua família, tudo destroçado e estilhaçado.

Encostando sua cabeça no volante ela gritou, um grito agudo e doido vindo de uma mulher perdida e confusa.

—Como ele pode?_ Chorava ela_ Como ele pode fazer isso com meu menino? Como ele pode...

Uma mão pequena apertou seu ombro de maneira acanhada e reconfortante e então seu choro apenas se intensificou de maneira brutal até que finalmente, transformou-se em apenas soluções e lagrimas, quando o que restara era apenas isso Carla levantou a cabeça e puxou seu garoto para um abraço.

—Me perdoa meu amor, por favor me perdoa_ Murmurava ela, entre os soluções em quanto afagava os cabelos ainda suados do garoto_ me perdoa meu bebe, por favor, meu bebe... por favor, me perdoa.

Os braços do garoto apertaram-se fortemente envolta de seu corpo em quanto o peito de Carla retomava ao subir e descer descompassado e desesperado de alguns segundos atrás.

—Perdoa a mãe meu bebe, por favor Eren_ As lagrimas escorriam em direções distintas em quanto os soluços de Eren começavam a se fazer ouvir_ eu não sabia meu amor, eu não sabia, eu não sabia meu bebe.

—Vai ficar tudo bem mãe_ Respondia ele em quanto a culpa preenchia o peito daquela mulher, a mesma mulher que devia estar consolando seu pequeno.

Quando finalmente se viu mais calma Carla só conseguiu ficar ali, apertando seu filho contra si, querendo impedir que qualquer coisa o fizesse mal.

Com lentidão a morena beijou a testa de seu garoto em quanto o mesmo ainda murmurava que iria ficar tudo bem.

Carla afastou um pouco o rosto e observou aquele menino lindo que onze anos atrás havia saindo de seu ventre, seu garoto. O mesmo havia parado de falar e apenas observava a mãe com os grandes olhos verdes avermelhados pelo choro.

Ela afagou as bochechas molhadas com cuidado em quanto mais uma lagrima escorria e então pressionou os lábios em uma linha dura, soluçando logo em seguida.

—Meu amor_ Começou ela novamente, voltando a pressionar o garoto contra si, recostando-se na porta do carro em quanto apoiava o queixo no topo da cabeça do castanho, o mesmo respondeu com um resmungo_ foi a primeira vez que papai fez isso com você?

Nesse momento Carla não conseguia ver nada, Carla não conseguia ouvir nada, nem mesmo os barulhos dos carros passando conseguiam atrapalha-la.

—Foi_ Respondeu ele e naquela hora ela sabia que ele estava mentindo.

Por breves segundos Carla encarou o teto daquele carro em quanto tentava o máximo possível segurar o choro que insistia em voltar.

—Desde quando?

Eren não respondeu e os soluços de Carla estavam se preparando para ganhar forma.

—Desde quando Eren?_ A voz saiu aguda, embargada e quebradiça.

—Desde os nove_ Respondeu ele com a voz firme e banhada de uma indiferença tenebrosa, já Carla sentiu seu coração descompassar e a respiração falhar por alguns segundos, era como se o mundo tivesse parado _ Pelo menos, é desde os nove que ele começou a me violar, antes disso ele...

—Eren_ Interrompeu Carla, a voz falhando em quanto encarava tudo em sua volta como se procurasse uma solução em algum lugar ali_ Eren, Eren.

Ela apertou mais o garoto contra seu corpo em quanto tentava controlar falhamente seu choro. Carla apertava o garoto contra si como se pudesse protege-lo do mundo e era isso que queria, proteger seu garoto.

Nenhum dos dois saberia dizer quantas horas passaram dentro daquele carro, quantas horas ficaram ali, abraçados, chorando. Eren não saberia dizer por quantas horas ficou ali, sentindo o alivio invadir seu peito em quanto sua mãe lhe fazia carinho na cabeça. Carla não saberia dizer quantas horas ficou ali, se remoendo de culpa, se perguntando como deixara que algo como aquilo passasse despercebido durante anos a fio .

Quando finalmente se viu mais calma, ou pelo menos não tão desesperada, decidiu que era hora de levar seu garoto para comer alguma coisa.

Com um afagar na bochecha e um selar na testa, Carla limpou as lagrimas do filho e as próprias e soltando um suspiro para o nada, após uma respiração profunda sorriu fracamente e se arrumou em sei lugar, colocando o cinto de segurança.

Ela então respirou fundo mais uma vez em quanto os dedos fechavam-se com força no volante.

—Mãe_ Chamou Eren, fazendo-a olha-lo_ Vai ficar tudo bem.

Ela olhou para o garoto por alguns segundos e então agarrou a mão do garoto e entrelaçou seus dedos nos deles, beijando a mão logo em seguida e então soltando-a.

Com mais um suspiro Carla encarou o para-brisa e ligou o carro.

—É meu amor, vai ficar tudo bem_ O carro entrou na estrada e Carla deu mais uma olhada em Eren_ Agora vamos comer que você deve estar com fome, não?