Naquela manhã, mesmo com a garoa que deixava as pessoas sonolentas de manhã, levantei-me de supetão, ansioso para ver aqueles olhos tempestuosos. Parei em quanto tentava me enfiar em uma calça jeans e encarei um ponto fixo no chão, lembrando-me que ele queria ter uma “conversa séria comigo”.

Tive que resistir a vontade de voltar para a cama e me esconder do mundo, afinal, quando uma pessoa falava isso em um relacionamento, geralmente era quando queria terminar não era? Então por que ele havia me beijado?

Ah! Foi só eu me lembrar do beijo que eu me senti mais aliviado e feliz, não realmente confiante, mas corajoso o suficiente para decidir terminar de me vestir, Armin me encarava da porta com um olhar reprovador, o que fazia com que eu me lembrasse da conversa que tivemos quando o mesmo percebeu o que estava acontecendo.

Ele foi bem direto quando me perguntou se eu estava ciente da irresponsabilidade daquilo tudo.

É claro que eu era consciente da irresponsabilidade daquilo tudo, Levi também fora muito claro no dia do nosso primeiro beijo ao impor regras sobre como deveria se comportar para não levantar suspeitas, mas eu não estava disposto a perder aquela oportunidade que ele havia me dado, não mesmo, iria fazer valer a chance que eu havia conseguido.

Por algum motivo eu sentia que aquela não era a primeira vez que eu tinha uma chance com Levi, o que era meio bizarro, pois fazia com que eu me lembrasse das conversas sobre reencarnação que eu tivera com Armin e, infelizmente, com Erwin também_ um calafrio assolou meu corpo quando me lembrei do episódio, mas logo decidi ignorar.

Lancei um olhar de esguelha para Armin e fui fazer minha higiene matinal, escovando meus dentes duas vezes só pra garantir, vai que ele inventa de me beijar novamente, meu estomago enchia-se de borboletas com a possibilidade.

Já devidamente arrumado eu encarei meu reflexo no espelho trincado e franzi o cenho em desgosto, apesar de mais alto que Levi_ e olha que a diferença nem era tanta, talvez apenas alguns centimetros?_ ainda possuía a mesma cara de pirralho que eu possuía em meus 13 anos, a diferença é que eu era mais alto e isso me preocupava.

Levi não parecia ser o tipo de cara que gostava de pessoas mais jovens, se não fossem mulheres bonitas, eu só conseguia vê-los com homens maduros e sexy, caras que conseguiam se sustentar como executivos renomados e ainda sim parecerem ter saído de uma revista de moda.

Esses tipos de pensamento me deixavam inseguro, por isso tratei de ignora-los e sai de casa, nem tomando meu café, já que minha mãe ainda o preparava e eu não podia esperar, eu não queria esperar.

Eu queria estar perto de Levi o mais rápido possível.

Sempre fui muito estressado e explosivo, fazia as coisas sem pensar e nunca me permiti ter muitos sentimentos que não se relacionassem a raiva ou ódio, mas era esperto o suficiente para saber que alguma coisa em Levi mexia muito comigo, de uma maneira avassaladora e agressiva. Eu não sabia de onde esse sentimento tinha vindo, para falar a verdade, parecia que ele sempre havia estado ali, mas com o beijo que Levi me deu no dia anterior e os poucos dias em que estive longe dele após sua rejeição eram suficientes para que eu compreende-se que eu estava irremediavelmente apaixonado por ele.

Não demorei para chegar em frente ao lugar que Levi havia me falado, mesmo com guarda-chuva eu ainda pegava um pouco da garoa e por isso andei o mais rápido que eu pude. O parque em que eu estava não tinha ninguém, apesar de ser bonito, ainda era 8 da manhã e assumi que talvez esse fosse o motivo.

Com meu celular recém adquirido eu lhe mandei uma mensagem, lhe avisando que eu já havia chegado. Ele não tardou em responder:

Levi: Tudo bem pirralho, me espere ai na frente.

Vou chegar em 5 minutos, mas vou estar com um carro diferente.

Vou chegar em um carro preto, ok?

Respondi um “ok”, me perguntando ao mesmo tempo pra que uma pessoa precisava de mais de um carro, principalmente ele tendo o carro que possuía, mas decidi não comentar. Esperei ele chegar parado em frente ao parque, fazia um pouco de frio e a garoa incomodava mesmo debaixo do guarda-chuva, mas eu não podia fazer nada sobre isso.

Um carro preto e lustroso se aproximou, parando em minha frente e a janela escura desceu com um ruído, mostrando então um Levi com uma sobrancelha arqueada.

Franzi o cenho em sua direção e em direção ao carro reluzente, nem de longe era tão chique quanto o veiculo vermelho que costumava usar, mas ainda dava pra ver que qualquer um que possuísse um daqueles devia receber um ótimo salario.

Entrei no veiculo com cuidado e logo a janela zuniu, subindo o vidro. Encarei Levi em quanto colocava o cinto.

—O que foi?_ Questionou ele em quanto dava partida no carro e eu me recostava confortavelmente no banco de couro.

Eu nada respondi, pensando em quanto encarava o painel chique do carro.

Nunca havia reparado nisso, mas além da diferença de idade, havia uma enorme _um abismo para ser mais exato_ diferença entre eu e Levi, começando pelo fato de que ele tinha mais dinheiro no bolso do que eu iria ter durante toda minha vida.

Nunca fui do tipo que me importava se a pessoa tinha dinheiro ou não, se ela fosse legal ela era legal e pronto, mas por alguma razão me senti repentinamente inseguro quando essa estranha percepção chegou até mim. Quero dizer, nesse quesito eu era completamente diferente de Levi, em quanto eu economizava para comer no MC Donalds ele devia ir comer em restaurantes chiques e coisas do tipo.

—Eren_ Chamou Levi, a voz mais alta.

Olhei para ele, meio atordoado.

—Por que eu tenho a impressão de que você deve estar pensando merda?_ Questionou ele, parecendo levemente irritado em quanto freava o carro por causa do sinal vermelho.

—Por que você veio com esse carro hoje?_ Questionei eu, sem responde-lo em quanto observava o semáforo ao invés de seu rosto, me sentia nervoso de mais para encara-lo.

Tudo aquilo estava me dando nos nervos, essa história de conversar, Armin me enchendo o saco e me chamando de irresponsável, e agora mais esse lance dele ser rico e eu estar beirando a falência, é, eu estava quase arrancando meus cabelos!

—Aquele outro chama muito a atenção e a maioria dos alunos sabem que eu tenho um daqueles, se por algum acaso te vissem entrando nele não demorariam para pensar em mim._ Respondeu ele, a voz ecoando pelo carro

Eu nada disse e o resto do percurso foi feito silenciosamente.

Eu não sabia o que pensar, meu cérebro não estava cooperando comigo e a única coisa que eu conseguia fazer no momento era roer a unha e me sentir nervoso, evitando o máximo possível olha-lo.

Não sei porquê, mas a chuva tinha se tornado tão interessante repentinamente.

Percebi que havíamos chegado no local apenas quando Levi parou o carro em frente a uma garagem fechada. Curioso eu encarei o apartamento chique que se erguia em meio a neblina. Pressionei um lábio no outro, sentindo meu estomago se contorcer dentro de mim, afinal, o que ele realmente queria falar comigo? Será que Armin tinha colocado ideias na cabeça dele?

Levi pegou um pequeno controle e apertou um botão, abrindo o portão. O carro deslizou garagem abaixo e eu senti um frio na barriga em quanto o carro descia. Que rampa íngreme!

Levi não demorou a encontrar sua vaga, parando ao lado de seu carro vermelho que, sem surpresa alguma, percebi que não chamava a atenção em meio ao mar de veículos chiques estacionados ali.

Em quanto eu descia do carro não resisti em perguntar:

—Quanto era seu salario na escola que você lecionava ?

—Não muito_ Admitiu ele em quanto acionava o alarme do carro_ claro que é mais do que eu recebo agora, mas... Acredito que o que quer saber é de onde saiu o dinheiro pra tudo isso não?

Eu assenti em quanto ele me guiava pra dentro do prédio, logo chamando o elevador.

—Se você escutasse o que seu amigo loiro fala saberia que apesar de trabalhar como professor, sou dono de alguns laboratórios que fizeram pesquisas interessantes e avanços tecnológicos importantes, mas como sei que você não gosta desse tipo de assunto, é só isso que precisa saber.

Franzi o cenho em direção a sua expressão impassível em quanto entravamos no elevador e ele apertava o botão para o último andar, número 60. A porta do elevador logo se abriu e antes que eu percebesse já estávamos dentro do apartamento, meu estomago se contorcendo de maneira incomoda.

Observei tudo ao redor meio embasbacado. Era tudo muito lindo, muito grande e, claro, tudo muito limpo. O chão até brilhava, literalmente refletindo meu rosto.

Antes que Levi tivesse a chance de pedir, retirei os meus sapatos, com o canto do olho vi que ele me lançou um sorriso divertido e ele logo pediu que eu retirasse meu moletom que havia sido molhado, mesmo com o guarda-chuva.

Depois disso deixou que eu olhasse ao redor em quanto levava meu moletom para algum lugar. Continuei observando o lugar meio embasbacado, a decoração moderna bem longe do que eu esperava para o apartamento dele.

—Você parece ter gostado_ Murmurou ele, me assuntando.

Eu apenas assenti, ainda meio embasbacado e encarei seu rosto sério, escutando-o suspirar logo em seguida.

—Senta aqui Eren_ Murmurou ele, sentando-se no grande sofá da casa e dando palmadinhas no mesmo para que eu me sentasse a seu lado.

Me sentei ao seu lado com relutância, a hora da conversa finalmente havia chegado e de repente morder meu dedão se tornou uma atividade muito interessante.

Escutei Levi suspirar mais uma vez antes de começar a falar:

—Olha pirralho, eu realmente não sei como começar esse assunto.