Vermes, Cemitérios e Poesia
17 O Coelho Negro
Notas iniciais
Vejo em paredes manchadas de sombras
Sorrisos, tristes infortúnios.
Em vida em vão tive esperanças
De um dia sentido encontrar no vazio.
.
Respiro e suspiro aborrecido.
Cansado estou eu desta existência sombria,
Fadado ao eterno tédio sofrido,
Prefiro eu morrer a viver a vida.
.
Mastigo nojenta apatia,
Moribundos cadáveres de cinzas corroídas,
Carnes, vegetais e sombras temperadas
De ódio pelos que me cercam.
.
Vomito em meu quarto solitário
– Deitado a observar no escuro –
Monocromos de horrores destilados
Piores drogas que álcool e químicos.
.
O monotom do mundo cinza retumba
Em meus ouvidos, em meu coração.
Balança-me inteiro e esfria-me a espinha
A sensação de morte que me supera a vida.
.
E no escuro quarto de minha consciência
Vejo um coelho negro a pular-me a alma.
Espírito anímico e apático,
Decora-me lenta a carne.
.
Lenta e dolorosa é minha partida
–Sorrio eu como um lunático –
Prazer mortal a me inundar as veias,
Sensações sagradas a destruir-me os nervos.
.
E para o inconsciente embrumado minha mente parte
Enquanto minha carne o escuro devora.
– Ah! Coelho do apocalipse! Me leve à Morte! –
As névoas que amanhecem agora meus sentidos
São escuras como minha morte.
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