Vermelho Púrpura
4 Capítulo 4
Estou naquele breve momento de reflexão que acontece toda vez que eu acordo pela manhã. Eu odeio quando eu não consigo definir o que estou pensando. No caso, não consigo decidir se o que está acontecendo comigo é bom ou não. Lá vai.
Sabe quando alguém chega e fala "Tenho duas notícias! Uma boa e uma ruim. Escolha qual você quer ouvir primeiro" ? Bem, eu sei que uma é boa. A outra eu estou momentaneamente classificando como: neutra.
Não tenho mais sonhos que a Emma morre. Isso é algo que tenho certeza que é bom.
Os pesadelos em que ela morre foram substituídos por sonhos em que estamos juntas. Juntas de verdade, não estou falando que estamos no mesmo cômodo ou algo assim. Em um momento estamos nos encarando e quando me dou conta estamos nos agarrando.
Esses sonhos estão me deixando nervosa. Não sei o que sentir sobre eles.
Só sei que eu tinha o costume de encara-la sempre, mas agora quando isso acontece já vem na minha mente a imagem dela vindo me beijar, ou vice versa, dai eu olho fixamente para qualquer coisa que esteja próxima. Emma é esperta e ela já notou que eu estou estranha.
Mas eu não posso falar isso pra ela. "Ah, desculpa. É que ultimamente eu tenho sonhado que a gente se pega, dai fico com isso na cabeça. Vai comer essa última batata?".
E já estou abandonando a missão que eu mal comecei, a azul laranja. Emma insiste que aquele vermelho púrpura não é nada. Acho melhor acreditar nela do que ficar alimentando essas dúvidas na minha cabeça.
Ai. AAAI.
Eu ODEIO essas dores abdominais que eu insisto em ter todo dia! (Ótimo sinal de que não sou masoquista). Parece que eu estou levando facadas.
Ontem eu estava na cozinha com a minha mãe, conversando sobre receitas de bolos, quando de repente eu desmaio. Eu não tenho pressão baixa. Já desisti de me entender.
E agora, como forma de distração, vou tomar sorvete com a minha mãe. No famoso shopping, claro. Ela nunca me chama pra essas coisas, então eu sei que ela vai fazer eu carregar sacolas de roupa pra ela. Ela me sustenta, logo, sou um cabide.
Trinta e cinco lojas visitadas para comprar UM PAR de sapatilhas. Exatamente igual a um par que ela tem, só que de cores diferentes. Me recusei a carregar a sacola.
Finalmente na fila do sorvete com ela, alguém me cutuca no ombro.
Senhoras e senhores, Gabriel Bismarck. Ao vivo e em cores.
Quando minha mãe o viu, discretamente saiu correndo pra me deixar a sós com ele. Amo essa mulher.
— Oi! Quanto tempo, não?
Quanto tempo porque VOCÊ quis. Tudo bem não sou rancorosa— pensei.
— Sim! Como você está? — perguntei.
— Bem e você? E a sua amiga, ta melhor?
— Bem também. Ela ficou mal por um tempo, mas agora está melhor — e me beijando nos meus sonhos, ao invés de você. Engraçada a vida, não é mesmo?
— Que bom. Eu senti a sua falta — Gabriel Bismarck disse isso pra mim. Pra. MIM.
— Aah hihihi t-também senti sua falta — respondi gaguejando que nem uma idiota. Não existe um crush que não me deixe assim.
Ele sorriu e tirou o celular do bolso.
— Tenho que ir agora, infelizmente. Te vejo por aí.
Gabriel disse isso e (tambores) ME BEIJOU.
BEEEEEIJOOOOOOUUU!!! (Selinho, mas para mim foi que nem beijo de novela).
E saiu como se não tivesse me causado danos cardíacos. Pude ouvir as risadinhas da minha mãe de fundo.
Peguei o meu celular e liguei pra Mariana.
— Alô?
— MARIANA! OI, TUDO BEM? TO ÓTIMA. LEMBRA DO GABRIEL BISMARCK? ME BEIJOOUU!
— QUE? Você nem tava falando com ele e me conta ISSO!
— E não estava. Encontrei com ele na fila do sorvete. Ele fez isso quando foi se despedir. Mari eu acho que eu vou infartar. O meu coração ele não aguenta o tranco.
— Calma menina. Fico feliz por você. Vai voltar a falar com ele então?— Mari perguntou, não pude deixar de notar o desgosto na voz dela.
— Não sei. Eu já tinha superado, eu acho. E a Emma me falou que ficou sabendo de umas histórias ruins dele, por isso não queria que eu saísse com ele.
— SIM! É, ele é horrível, ouça ela. E a propósito, não fale pra ela isso. O beijo, quis dizer.
— Por que?
— Porque ela te falou que ele é ruim e você aparece com a notícia de que beijou ele. Não precisa contar, já que não vai voltar a falar com ele mesmo. Foi só uma bitoca.
— Olha, não sei... Eu gosto dele, ele nunca me pareceu ser ruim...
— Escuta a Emma! Sério!
— Ela nem me contou que histórias são essas.
— E não precisa. Ela não quer te chatear mais. Só espero que os sonhos de você beijando ela não sejam substituídos pelo Gabriel.
— Af, não me lembre desses sonhos. Ainda me sinto estranha. Ela é muito amiga minha. Não dá.
— E o que tem?? Você era amiga daquela Sabrina e isso não te impediu de ficar com ela.
— O GRAU DE AMIZADE NÃO SE COMPARA! Pare com isso Mariana.
— Tá, parei. Olha, você interrompeu meus estudos. Pode me ligar depois, por favor?
— Posso.
Essas coisas que envolvem a Emma estão começando a me incomodar. Porque eu sei que as duas, Emma e Mari, não estão me contando tudo. E eu conto tudo pra elas.
Fiquei de mal humor e mal respondi a minha mãe, coitada. Ela estava tão animada pra conversar sobre o Gabriel, e eu estou começando a ter implicância do nome. Tudo porque aparentemente ele está causando intrigas com as minhas amigas. E nem entendi muito bem o motivo.
Quando chegamos em casa a primeira coisa que eu fiz foi ir pro meu quarto, tinha sérios assuntos para serem tratados com a minha cama.
Não sonhei que a Emma estava morrendo.
Também não sonhei que estávamos nos pegando.
Sonhei com o dia do código vermelho.
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