Vermelho Púrpura
5 Capítulo 5
17 de novembro de 2014.
É bem difícil me acostumar com o fato de que eu não vou mais ver a Mariana todos os dias. Seria menos pior se isso acontecesse depois que terminássemos o ensino médio. Mas eu até que estou lidando bem com a distância, melhor que a Emma pelo menos.
Ela está muito sumida, estou começando a me preocupar. Mas Mariana disse que antes dela ir as duas tiveram uma longa conversa e que eu não devia me preocupar com isso. Que era tudo passageiro.
Em um curto período de distração brotou muita mensagem no meu celular. Todas da Sabrina.
Ai não. Não curto esse tipo de gente que depois que você fica NÃO DESGRUDA UM SEGUNDO. Tudo bem, eu gosto muito dela. Mas também gosto de respirar. Faz tipo, duas semanas que eu fiquei com ela. Parece que estamos casadas a anos.
Mari insiste que eu devo dar um basta nisso, já que eu não aguento mais. Porém eu não sei como fazer essas coisas sem ser rude. E também acho estranho que a Emma e Mari meio que ficaram bravas por eu ter ficado com a Sabrina. Bravas talvez não seja a forma correta de descrever, mas elas simplesmente não gostaram. Ok, são minhas amigas, mas pera lá né pessoal vamos impor uns limites aqui. Não precisa me tratar mal porque eu quis ficar com alguém. Se a menina fosse ex de alguém, se fosse crush de alguém, mas não. Aliás são duas meninas que, pelo o que eu sei, são heterossexuais. Tenho minhas dúvidas na Emma, mas tanto faz. Só quero que elas parem com essa frescura logo.
Mas em uma coisa eu concordo. Preciso dar um basta. Sabrina é chata demais e eu não sou obrigada a lidar com gente assim.
Meu celular começou a tocar. Adivinha quem é?
— Oiii linda! — Sabrina gritou no meu ouvido.
— Oi — respondi.
— Nossa, que chata — Sabrinal respondeu. ME CHAMOU DE CHATA! Que vontade de xingar até a mãe.
— É, hm, preciso falar com você — respondi.
— IIH NÃO GOSTO DESSE PAPINHO, CAROLINE!
— Também não gosto que você me chame de Caroline.
— O que deu em você? — ela teve a capacidade de perguntar.
Falando sério agora. Não faço ideia de como terminar com ela. "Terminar", porque na verdade nada começou. Vou inventar alguma coisa, deve bastar.
— Olha, gostei de ficar com você. Sério. Mas ao longo dessas semanas... hm... Percebi que estou muito afim de alguém. Apaixonada, quem sabe. Então, desculpa, não da mais pra sair com você.
— É AQUELA EMMA NÉ? EU SABIA QUE TINHA ALGO ENTRE VOCÊS! MARIANA TENTOU ME DIZER ALGO SOBRE VOCÊS! — Sabrina conseguiu me deixar quase surda.
— EMMA?? Ah, é. Ela mesma. Tá? Fique bem aí — respondi.
E Sabrina desligou na minha cara. Amém?
Ok, vamos analisar. Duas coisas: ela dando certeza que é a Emma e ela falando que a Mari disse algo sobre... Eu e Emma?
Gente, não pode ser. Tipo, Emma é uma das minhas melhores amigas. Ela e a Mariana são tudo pra mim. Não consigo ver ela como algo a mais. Nunca tentei, na verdade. Mas será que a minha proximidade com a Emma faz parecer que somos um casal?
Semana passada Emma me perguntou o que eu achava dela cortar o cabelo curto. Curto tipo Emma Watson (ela mesma fez a comparação). E eu disse que achava que ela iria ficar linda, depois disso as bochechas dela ficaram mais vermelhas que nunca. Estranhei, mas achei fofo. Passo tempo demais com ela, direto eu durmo na casa dela e vise versa, mais que a Mariana, já que o pai dela é bem chatinho quando se trata de dormir fora. E também tem aquilo da gente se encarar, que é algo nosso que eu amo. Isso faz a gente parecer um casal?
E eu realmente preciso saber o que a Mari falou pra Sabrina. Tá na lista de coisas que eu preciso descobrir. Ou não. Mari sabia que eu não aguentava mais a Sabrina, ela pode ter falado qualquer coisa pra confundir e fazer ela se afastar. Até eu concordei sobre estar supostamente apaixonada pela Emma.
E falando em Emma, mandei uma mensagem pra ela a umas doze horas atrás e até agora essa menina não me respondeu. Eu só queria saber se ela queria dar uma volta, quem sabe ir no parquinho perto de casa. Nada que exigisse muito. E pelo jeito que as coisas estão, ela iria ficar feliz quando eu falasse que "terminei" com a Sabrina.
Ela não mora muito longe e hoje acordei disposta. Acho que vou dar uma passada lá. Provavelmente ela ficou dormindo todo esse tempo pra não ter me respondido. Ela não se isolaria assim por causa da ida da Mariana.
Andar sozinha a noite me assusta um pouco, mas não é nada que eu não supere. Eu até pediria pra minha mãe me levar lá, mas ela saiu com os pais da Emma. Coisa de pais que são amigos. Por isso mesmo que eu queria sair com a Emma, se pelo menos ela respondesse.
Confesso que eu mais corri que andei, mas é porque eu amo demais o meu celular e morro de medo de ser assaltada. Um carro passou do meu lado tocando música alta e eu quase infartei com o susto. E quem estava dirigindo? Gabriel Bismarck, rapaz novo na escola. Reconheci de longe, deve ser pelo tanto que eu olho pra ele na escola. Ai, tão lindo. Queria ter conversado com ele pelo menos uma vez pra poder pedir carona. E outra coisa, Emma sabe que eu curto ele e me incentiva a ir falar com ele. Anula chances de um casal aqui.
Cheguei na casa dela e não tinha nenhum carro na garagem. Certo, se ela está mesmo apagada no quarto, ela não vai me ouvir chamar, muito menos a campainha. Ainda bem que eu sei que tem uma chave reserva no vasinho de flor perto da janela.
Entrei e tranquei a porta, pra ter certeza de que não vai entrar ninguém aqui com a intenção de nos matar.
Todas as luzes estavam acesas, mas não achava a Emma em nenhum lugar. Nem no quarto dela. Que a propósito estava tão arrumado que parecia que ela não entrava lá a muito tempo.
Até que achei um papelzinho em cima do seu travesseiro. Estava escrito "Desculpa por tudo. E pelo código vermelho".
Código vermelho? Parece coisa de emergência.
Só faltava eu checar um cômodo, o banheiro. Bati na porta uma vez. Duas. Três.
— Emma?
Sem respostas.
— EMMAAAAAAA!!!!
Escutei uns barulhos lá dentro. Será que essa menina dormiu enquanto cagava??
— Emma, favor abrir a porta pra eu checar se você continua viva. Sumiu o dia todo, garota.
Ouvi o barulho da porta sendo destrancada, seguido de um barulho de coisa caindo. Como se ela tivesse aberto a porta e se jogado no chão.
Não sei ao certo o que eu senti exatamente quando eu abri a porta. Mas certamente ver a sua amiga no chão, com um monte de sangue em volta, não traz o melhor dos sentimentos. Eu não fazia ideia do que fazer, dizer. Por impulso, peguei as toalhas que estavam penduradas e amarrei uma em cada pulso de Emma, pra evitar que sangrasse mais.
— Desculpa — Emma sussurrou.
— Shh, não se desculpe — sentei do seu lado e a abracei. O pior é que ela mal tinha forças pra me abraçar.
Limpei a minha mão, que estava cheia de sangue, na minha própria blusa e peguei o meu celular. Eu mal sabia o que dizer pra moça da emergência, mas o importante é que tinha uma ambulância a caminho.
Fiquei ali, no chão, abraçada com Emma. Eu sentia que o abraço dela ficava cada vez mais fraco. Era a sensação de que ela estava indo embora.
Ah não, ela não ia fazer isso comigo.
— Emmaaa, fala comigo. Que tal assistirmos algum filme depois de tudo isso passar?
— Se eu conseguir, claro — ela respondeu.
É, não consegui segurar. Comecei a chorar mais do que quando Fred Weasley morreu em Harry Potter.
— Carol, não chore. Sério... — Emma mal tinha forças pra falar.
GRAÇAS A DEUS A AMBULÂNCIA CHEGOU.
..........................
— Oie — falei quando vi que Emma abriu os olhos.
— ...oi — ela respondeu, bem fraquinha.
— Não deixei você ir. 1 a 0 pra mim — eu disse.
— Que dia é hoje? — ela perguntou.
— Dezenove — respondi.
— Nossa... Você foi pra sua casa né?
— Fui. Seus pais foram pra sua casa pra tomar banho, logo eles estão aqui. Mariana falou que amanhã ela vai estar aqui também — respondi.
— Não queria causar essas coisas.
— Eu sei. Tudo bem, sério. Quer me contar o que é exatamente um código vermelho? — perguntei.
— Ah. Faz um tempo que eu tenho ido pra terapia né, em uma atividade eu tive que criar diversos códigos pra diversas situações diferentes. Quando eu tentasse me matar, era código vermelho.
— Entendi. E você pode me contar o porquê de você ter feito isso?
Queria saber a resposta, pena que uma enfermeira fez o favor de me expulsar dali.
Saindo do quarto de Emma, encontrei seus pais, que correram pra dentro desesperadamente quando eu disse que ela acordou.
Minha mãe estava na sala de espera.
O caminho de volta pra casa nunca foi tão longo.
..................
Odeio lembrar desse dia. Foi tudo tão... frágil. Emma vulnerável.
Tantos meses se passaram, mais uma coisa que eu ainda não sei o porque. Emma nunca me contou o porque de ter feito aquilo. O código vermelho.
Eu não me importava dela não me contar, sério. Ela obviamente ficou mal o suficiente pra querer tirar a própria vida. Eu não queria forçar ela a me contar algo que claramente afeta muito ela.
Mas ela contou pra Mariana. Eu sei disso.
Não queria parecer uma amiga ciumenta, mas eu simplesmente odeio quando me excluem das coisas assim. Eu estava lá no dia e a Mariana que fica sabendo das coisas.
Lista de dias que eu preciso superar: 17 de novembro de 2014 e 26 de julho de 2015.
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