Muitas pessoas andando em direções opostas. Interesses diferentes. Objetivos diferentes. Uns só vieram para comer, outros para comprar. De velhos até adolescentes. Influencias capitalistas superam o limite por metro quadrado. E não importa o dia, clima ou qualquer outra coisa, vai sempre ter fila pra comprar sorvete.

Sim, eu estou em um shopping.

Mariana veio nos visitar e para comemorar de maneira completamente diferente e espontânea, viemos para cá.

Emma subitamente está melhor, como se nada tivesse acontecido. Ainda quero saber o que aconteceu, mas não vou tocar no assunto tão cedo.

— Tá, passei meses sem ver vocês e em MESES vocês não fizeram nada de surpreendente. Que decepção — disse Mari.

— Não foi por falta de tentativas — Emma retrucou.

— Você também não fez nada de surpreendente — respondi.

— A minha escola é bem mais difícil que a de vocês. Se eu perco o foco por um segundo eu reprovo — Mari respondeu.

Levei um susto com o celular da Emma tocando. Que toque alto meu Deus. Ela atendeu e em poucos segundos desligou.

— Era a minha mãe me lembrando de ir pagar um negócio pra ela. Fiquem aqui, provavelmente vai ter muita fila.

— Vou ficar aqui mesmo, to cansada — Mari respondeu.

— É sério, não saiam daqui. Não tenho crédito para ligar pra vocês depois.

— Ta bom dona, entendemos. Vai lá — respondi.

No instante que Emma saiu Mariana me encarou como se eu guardasse o maior segredo do mundo.

— O que foi? — perguntei.

— Quero saber tudo. Todos os detalhes — Mari respondeu.

Sobre o que essa menina está falando? Pelo jeitinho pareceu aquelas menininhas que querem saber como foi quando a amiguinha deu o primeiro beijo. Hmmm.

— Ah... Achei que você soubesse. Mas não deu certo o encontro com o Gabriel, eu precisei...

— Que Gabriel o que! To falando da Emma. De como foi quando ela te contou.

Me contou?? Emma fala pra Mariana que vai dizer algo pra mim porém não fala pra ela que não contou nada.

— Hm, você está falando sobre aquilo que ela ia me contar no dia do encontro com o Gabriel, certo? — perguntei.

Mari ficou extremamente séria assim que eu terminei de falar.

— Não acredito nisso! Eu achei que ia dar certo! Nossa Carol eu te odei...

— Mariana! Ela não me falou nada. Eu ia sair com o Gabriel dai eu tive que mudar o curso da noite pra casa dela por causa de um quase código vermelho.

— CÓDIGO VERMELHO?? O QUE?

— ELA NÃO TE CONTOU? Meu Deus. Foi um "quase", calma. Ela ficou mal, tinha coisas pra me falar mas até agora não disse nada. Ela não quis me dizer por algum motivo e eu respeitei isso.

Mari ficou quieta. Por tempo demais até, na verdade.

— É isso que acontece quando eu não estou por perto. Um verdadeiro caos — ela disse, voltando a sorrir pra mim.

— Odeio admitir que é verdade. Desequilibrou as coisas — respondi.

— Desculpa por não estar por perto no dia que aconteceu o código vermelho — Mari disse.

— Não precisa se desculpar. Eu consegui me virar bem.

Antes de Mari responder, Emma apareceu e se sentou do meu lado.

— Oii — ela disse, de um jeitinho bem meigo.

— Oi nada. Preciso conversar com você depois — Mariana disse, parecendo uma mãe mal humorada.

E o resto da nossa tarde foi mais normal do que eu desejava. As vezes a Mari arrastava a Emma pra um lado e começava a dar algum tipo de bronca nela e as duas ficavam discutindo baixinho longe de mim. Enquanto isso, eu encarava qualquer que fosse a vitrine na minha frente, fingindo que não me importo. Mas nossa, a curiosidade está me matando. E A EMMA NÃO ME CONTA NADA. Tudo bem, to ok.

O pai da Mariana a buscou cedo até, eu e Emma fomos embora a pé. Duas mocinhas frágeis andando por aí na calada da noite. Na verdade eu moro bem perto do shopping e a Emma ia esperar a mãe dela ir busca-la em casa. Mas ela quis parar em um parquinho que fica a um quarteirão de casa. Se ela não for me contar agora eu não sei mais o que eu faço.

E o que fizemos? Isso mesmo.

Ficamos brincando em todos os brinquedos como se fossemos criancinhas.

— Lembra de quando nós tínhamos uns onze anos e a gente decretou esse como o melhor brinquedo desse lugar? — perguntou Emma, de pé do outro lado do gira gira.

— Lembro. Não sei o que eu tinha na cabeça, com duas voltas eu já to quase desmaiando aqui — respondi.

— Você tinha um espírito mais aventureiro. Se tornou uma sedentária, que lástima.

Depois disso, Emma ficou me encarando com aqueles olhos enormes dela. Eu sentia que ela tinha algo pra me dizer.

— E você Emma? — perguntei.

— O que?

— Vai enrolar até quando? Pra me contar seja lá o que você ta escondendo.

Emma parou o gira gira. O clima ficou mais sério do que eu estava esperando.

Ela saiu e veio até mim. Achei que eu ia apanhar.

Mas não, ela parou a 0.2 cm da minha cara. Achei que ela ia me beijar.

— Vermelho púrpura faz você lembrar de alguma coisa? — ela estava tão perto que senti sua respiração na minha boca.

— Não — respondi.

Emma se afastou e foi em direção ao banco que havia ali.

Eu magoei ela?? O que é esse vermelho púrpura? Odeio ter uma memória ruim.

Fui até ela e me sentei ao seu lado.

— Desculpa. Gostaria de lembrar o que é vermelho púrpura — eu disse a ela.

— Tudo bem, não é nada importante. Só perguntei por curiosidade — Emma respondeu e me encarou. Seu olhar dessa vez estava triste.

— Gosto de olhar nos seus olhos — eu disse — você é uma das poucas pessoas que eu conheço que não desviam o olhar.

— É difícil, eu confesso. Mas eu também gosto — ela respondeu.

E ficamos nos encarando. E confesso também que fico um pouco nervosa quando fico muito tempo encarando alguém (ela no caso), mas é um nervosismo bom, eu acho.

— Ta. Eu só ouvi umas histórias bem ruins sobre o Gabriel e fiquei muito mal com isso. Fiquei mal pensando no mal que ele poderia lhe causar. E precisava falar isso antes de você sair com ele, tentei fazer chantagem emocional e não deu certo também — Emma disse.

Então era tudo sobre o Gabriel?? Calma lá...

— Hmm, você impediu o encontro de qualquer forma, obrigada. Mas por que isso faria você cometer um quase código vermelho?

— Eu passei mal do nada. Não tinha conexão com isso — Emma respondeu.

— Ah, entendi.

— Podemos ir pra sua casa agora?

— Claro.

O que estou sentindo? Alívio.

Faz sentido ela querer me avisar que ele não era bom... Mas ainda sim sinto que não foi tudo. Esse vermelho púrpura me intriga. Não são duas cores diferentes?? Criarei um nome pra minha missão de passar tudo isso a limpo.

Azul laranja.