Vergo
3 Uma Segunda Chance
Notas iniciais
—A gente se vê. — ele disse descendo do carro.
—Tá, pode ser.
Finalmente ele tinha ido embora!
Garoto chato, sem assunto. Ou melhor, ele tem muito assunto, quando é pra se falar de comida.
Comecei a rir com minhas próprias observações. Liguei o rádio, e fui pensando no quão estranho tinha sido a noite e repassando a cena pela minha cabeça.
A Kate me ligando; depois eu descobrindo a armação em que ela me meteu; as meninas indo embora, e no final, eu, o tal do Gordo (gente, qual era o nome dele mesmo?) e umas meninas esquisitas, no fundo do restaurante, olhando para a gente e rindo. Minha noite tinha sido horrível!
Pelo menos a música que estava tocando, era uma música boa. Eu tinha que ter pelo menos algo bom essa noite, nem que tenha sido aquela música. Por isso comecei a cantar.
A música já estava acabando, quando cheguei em casa. E para fechar minha noite com chave de ouro, Kate estava sentada no banco na entrada da minha casa, com um livro na mão. Pelo visto estava me esperando fazia tempo, pois o livro estava na metade.
—Não vou nem perguntar o que você está fazendo ai. Já sei o que é.
— Ótimo! Ai eu não preciso perder mais meu tempo. — ela disse indo pra frente do carro. —Sai da frente. Preciso estacionar.
—Me fala logo Verne.
—E o que eu vou falar? Não tem nada. Ou melhor tem sim. Preciso falar com você!
—Não quero que você fale sobre mim. Fale sobre você.
— Sai da frente logo! — eu disse, já ficando estressado, com essa palhaçada.
—Não. — ela disse.
Ela sabia ser extremamente irritante, o problema é que ela fazia isso sempre. Mas eu sabia o que fazer pra tirar ela de lá. Acelerei o carro, para assustá-la, e deu certo.
—Tudo bem. Eu saio da frente. Desde que você não me mate antes de me contar o que aconteceu. — e saiu dando língua pra mim. Eu também dei. E coloquei o carro pra dentro.
— Você sabe ser bem infantil às vezes. — ela disse, já entrando na garagem.
—Claro, pois fui eu quem mostrou a língua primeiro. – eu disse ironicamente.
—Não mude de assunto ! Diz logo o que aconteceu lá ! — ela disse, se sentando e me olhando com curiosidade.
— Não sou eu que devo explicações. Que ideia foi essa de sair porque os seus pais estavam precisando de você? Por que você inventou isso tudo?
—Ué, pra vocês conversarem coisas de garotos. E meus pais estavam precisando de mim, sim, tá bom?
— Claro, porque minha tia ia muito pedir sua ajuda se precisasse.
—Se o que você queria falar comigo era isso, pra dizer que eu sou incompetente e por isso minha mãe nunca me chama pra ajudar ela, tudo bem, já te respondi. Agora é a sua vez.
— Por que você me apresentou esse garoto? Ele é chato.
— Não é nada, o Gordon é gente boa. — Finalmente eu tinha descoberto o nome do garoto.
—Como um garoto que já está na escola nova à quase um mês, não fez amizade com ninguém? Talvez seja pelo fato dele ser chato e sem assunto.
— Ou talvez porque ele é tímido, e ninguém dá nenhuma chance pra ele. Que nem você está fazendo.
Fiquei sem graça. O pior é que era verdade talvez ele não fosse tão chato assim.
—É pode ser.
—Sai com ele mais uma vez, ai você descobre se ele é mesmo chato ou não.
—É, pode ser.
O telefone de Kate tocou.
—Preciso ir. Tchau, Verde. – e, falando ao telefone — Não consegui nada também.
—Falou comigo? — eu perguntei confuso.
— Não. — ela disse indo embora.
E então eu percebi, enquanto abria a porta, que tinha caído em mais uma de suas armações. E como eu tinha aceito, ela ia marca pra mim encontrar o tal do Gordon de novo. Bosta!
...
—Você tem que parar de ficar na porta da minha casa. Eu mal tinha entrado e Kate já me esperava, no banco, de novo, com o livro na mão. A cena se repetia mais uma vez. Eu tinha que tirar aquele banco dali!
—Por quê? Está com medo das meninas me verem e ficarem com ciúmes de mim? Aposto que você ia adorar ter meninas te disputando. Ainda mais, sendo visto comigo, porque você sabe que eu causo inveja em qualquer um. — ela disse rindo.
—Fala logo. Não posso nem mais voltar da escola e você já está aqui! Aliás,— eu perguntei olhando para ela, e vendo que ela estava bem arrumada. — porque você está vestida assim?
Ela estava bem arrumada, com muita maquiagem. Ela não consumava ficar desse jeito só para me esperar na porta da minha casa. Ela estava aprontando alguma.
— A gente vai pro estádio. Hoje é dia de visitação. Ai eu chamei o Gordon e a Less pra irem com a gente. Como você tem carro, eu disse que você ia adorar nos levar e ir com a gente.
—Como é que é!?
—Ah, e você tem apenas quinze minutos pra se arrumar. Se eu fosse você, andava logo.
—Como você diz que eu vou? Eu não quero ir!
—Mas ontem você disse com todas as letras que ia dar mais uma chance pro Gordon. Quer ouvir? — E dizendo isso, Kate pegou o telefone e colocou minha gravação.
—Você me gravou? Qual é o seu problema!?
—Nenhum, mais eu sabia que se não te gravasse você ia dizer que era mentira, ia inventar desculpas, enfim você sabe como você é. — e olhando para o telefone novamente— Ah, você já perdeu dez minutos. Se eu fosse você, andava logo.
Fui me trocar, espumando de raiva.
—É, agora vai ser difícil de aguentar a Less. Ainda mais que ela encontrou alguém tão parecida com ela. —disse Gordon.
Tínhamos chegado lá, não fazia nem dez minutos, e desde a casa do Gordon até agora elas não tinham parado de falar, nem um minuto. Finalmente, Gordon disse algo em que eu concordava. Ponto pra ele.
—Pois é. Nada contra a Leslie, mas eu achei que só existia uma Kate. E, infelizmente, eu estava muito enganado.
—Ela também interfere na sua vida, e acha que tudo está certo? —Com você também? — eu perguntei espantado
— Achei que era só comigo! Bom, bem vindo ao clube.
—Pode-se dizer que eu já estou nele há um bom tempo.
Começamos a rir. Finalmente achei um assunto (sem ser sobre comida) pra falar com ele. A Kate podia estar certa. Até que ele parecia ser legal.
—Verde, Gordon, venham aqui. Não gostava quando Kate me chamava de Verde, mas fomos.
—O que foi? — perguntou Gordon
—Vai ter jogo dos Lakers.— disse Leslie.
—A gente pode vir Gordo!
—Você também gosta dos Lakers? — eu perguntei empolgado. Ele tinha ganhado uns quinhentos pontos comigo agora.
—Claro! Eles são demais! — disse Gordon.
— Foi de tanto ele falar na minha cabeça, que eu comecei a ver os jogos também. — Leslie acrescentou.
—Bom, então vamos combinar de vir. — disse Kate me olhando
—Você, Kate? Querendo ver jogo do Lakers? Não é você que não gosta de basquete?
— Sim, mas e se a Less vir? Não vou deixar ela sozinha com dois garotos chatos e que só sabem falar de basquete — e virando para o Gordon — sem ofensas.
— Tudo bem. — ele disse rindo. — É melhor mesmo, assim a Less não fica gritando na minha cabeça.
—Então está combinado? — eu perguntei. Era os Lakers! Não perdia por nada. E se, eu só pudesse ir acompanhado com Gordo e a Less, eu ia.
—Fechou! Vamos lá comprar os ingressos, Less.
—Compra bem na frente.— gritou Gordon.
Então começamos a falar sobre os Lakers e como o jogo ia ser incrível! Ele sabia de muita coisas deles, e me disse que tinha um bando de camisas e que o sonho dele era ter uma autografada pelo Bryant.
As meninas compraram os ingressos e se juntaram a nós.
—Só dois bancos em uma fileira e dois na outra. Não vai dar para vermos o jogo juntos.— disse Kate me entregando o ticket.
— Não tem problema, a gente senta em duplas.— disse Gordon.
— Less eu vou sentar com você. Só assim pra gente ficar falando dos jogadores gatos sem eles reclamarem na nossa cabeça.
— Coitado de quem sentar perto de vocês — disse Gordon olhando para mim e rindo.
As pessoas foram chegando para a visita guiada, os guias chegaram e a gente continuou conversando sobre lances, passadas, faltas e cestas. É, até que esse tal de Gordon era mesmo legal. Só merecia uma chance.
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