Vergo

4 O Jogo do Amor


Notas iniciais
Mais uma vez, gostaríamos de pedir desculpas pelo nosso atraso ( a Panda Girl jurou que vai parar de me enrolar. Todos nós esperamos que isso aconteça). E gostaríamos de recomendar a leitura desse capítulo ouvindo a música Sing do Ed Sheeran, pois é vergo.

Durante a semana, Leslie, Kate,Verne e eu visitamos vários lugares. Teve um dia no qual fomos em um boliche, e que foi muito legal, inclusive, porque foi eu quem ganhei. Ele era todo enfeitado com luzes de neon, que ficavam legal no Verne.

Nosso último passeio foi a um fliperama, não muito longe da minha casa, o que foi bom descobrir pois eu já tinha um lugar para fugir nos dias tediosos. Joguei uma versão estupidamente velha (um tanto ridícula, pra falar a verdade) do Street Fighter com Verne. Eu perdi na primeira, mas sugeri que fizéssemos uma “melhor de três”e, no final acabei ganhando, de novo. Acho que o Verne não tem sorte para os jogos.

Nesse dia, Kate e Less ficaram nos ignorando enquanto flertavam com o cara que vendia fichas. Até que ele era bonitinho (o cara das fichas, não o Verne). Por fim, fomos tomar sorvete enquato discutíamos sobre o quanto era ridículo jogar uma versão tão desatualizada do jogo.

Até que Verne era legal. Ele gostava dos Lakers e jagavem bem (apesar de perder quase sempre). Devia ter muita paciência para aguentar a Kate, e os olhos dele ram legais.

Não legais do tipo que te faz encarar uma pessoa por meia hora, mas legal do tipo bonitinhos. Eram verdes, não tinha como não reparar. Aliás, devia ser por isso que a Kate o chamava de Verde. Mas eu não sabia o real motivo. Não tive coragem de perguntar o por que do apelido.

E, então, chegou o dia do jogo. Ah, como eu esperei por esse dia! Ver todos os meus jogadores preferidos ao vivo! E o Briant ia jogar. Aquele, com certeza, seria um dos melhores dias da minha vida!

Eu estava quase pronto. Só faltava vestir a minha camisa dos Lakers. Eu amava aquela blusa, só não gostava do fato dos meus braços gordos ficarem aparecendo. Mas era um jogo e eu esperava que o Verne não reparasse nisso. Sem falar que eu estava rezando para que a blusa ainda tivesse servindo em mim, porque já fazia um bom tempo que eu não usava ela. Agora, se ela ficasse pequena, o que eu iria vestir?

Felizmente ela era grande o suficiente, e felizmente eu já tinha me vestido ,pois logo em seguida, Less entrou no meu quarto :

—Olá! Nossa, você está muito gato hoje! Tão arrumado! Isso tudo é pro Verne?

—Less! Para com isso! Só coloquei a blusa do time — eu disse olhando pra blusa e pensando se estaria tão óbvio. E virando-me para ela — E que palhaçada é essa de ficar entrando no meu quarto qualquer hora? Sem nem bater!

— Ai, desculpa seu velho rabugento. — ela disse jogando-se na minha cama — Eu só vim avisar que a Kate ligou e disse que eles já estão vindo pra cá. Estou te fazendo um favor é você me agradece assim. Que absurdo! Eu que sou tão boa pra você, que me lembro de você em todas....

— Para! Já entendi! Muito obrigada senhora intriga. — eu disse fazendo um gesto de deboche.

Ela me olhou de cara feia, mas riu em seguida

— Ah, você falou com o papai que a gente ia sair?

—Ih, ainda não! — ela falou pulando da cama — Acho que ele está lá na sala . Vamos aproveitar pra falar com ele.

—Eu já vou.— falei me olhando no espelho novamente.

—Vai passar mais perfume é ? Ou vai escovar os dentes de novo? Já falei que ele vai se apaixonar só de te ver!

—Ah, sai logo daqui! — falei empurrando Less pra fora do quarto, enquanto ela ria da minha cara.

Bati a porta e comecei a rir também. Apesar de tudo, eu gostava dela. Ela não era igual a sua mãe. Ela gostava de mim também.

E foi só pensar na diaba, que ela apareceu :

— Já não te falei para não bater a porra dessa porta! Além de gordo agora você é surdo também ? Ou é só retardado por natureza? — num sussurro raivoso. Acho que ela só sabia falar assim comigo. Ainda mais porque meu pai, no momento, estava na sala.

—Fala mais alto. Acho que a minha "surdez" está pior hoje.

—Escuta aqui seu moleque — e dizendo isso, agarrou meu braço e cravou aquelas unhas gigantes nele. — Espera — e dessa vez olho pra mim de baixo pra cima e completou — Nossa, mas você está tão arrumado e cheiroso. Você está saindo pra algum lugar é ? Vai encontrar um daqueles seus namorados é ? Pois escuta bem, não inventa de aparecer doente aqui, porque eu mando o seu pai te internar. E aí, adeus vida boa. — ela disse cravando aqueles olhos alucinados em mim.

— Me larga! — falei nervoso.

Ela me soltou e foi para a sala, voltando com a sua farsa habitual. Eu simplesmente odiava quando ela fazia aquilo. Odiava!

Sempre tentei ser legal com ela, desde o dia em que meu pai à apresentou. Se ele gostava dela, por que eu também não poderia gostar? Eu era gentil e carinhoso, e o fato de estar ganhando uma nova mãe era muito legal. Mas, sem saber o porquê disso tudo, ela sempre foi falsa comigo. Me tratava muito bem perto do meu pai e da Less, mas era só deixá-la sozinha comigo, que ela começa a me xingar, me ofender e a gritar e me bater. E tudo acontecia só comigo. Nunca vi ninguém tratar o meu pai melhor do que ela. Sempre atenciosa é prestativa. Fazia tudo que ele queria do mesmo jeito que fazia para a Less. Ela também era uma ótima mãe, e eu não me lembro dela ter brigado e colocado a Less de castigo nenhuma vez em todos esses anos! Dava tudo que ela queria. Mas como já disse, para mim só sobrava as lembranças e as marcas dos momentos em que ela me bateu.

Nunca contei nada para eles. Eles eram felizes, e mereciam isso. Meu pai tinha sofrido muito com a morte da mamãe, e a Less, com um pai, que

nunca aparecia. Eu não queria estragar tudo.

O vermelhidão do braço estava passando, mas a parca das unhas não ia sair tão cedo. O jeito foi esconder com uma camisa jeans por cima da blusa do time. Esconder as marcas e a gordura também.

— O quê você tanto faz ai dentro? Eles acabaram de chegar. — disse Less entrando no meu quarto de novo sem avisar. Já tinha desistido de dizer pra bater. Ela nunca batia msm.

— Papai deixou ? — perguntei olhando no espelho pela última vez. Até a camisa tinha ficado legal. Eu parecia mais descolado.

— Claro né! — e me olhando de cima à baixo disse nervosa — Já chaga! Você demora demais. E puxando o meu braço me arrastou até a porta.

A torcida gritava. O jogo tinha chegado ao fim. E os Lakers, tinham ganhado mais uma vez. O que era previsível, claro.

—Ganhamos! — gritou Verne pulando de alegria — Porra! Sabia que a gente ia ganhar! Ganhamos cara! — disse ele se virando e segurando meus braços me sacudindo.

Pode-se dizer que eu gostava de quando ele me tocava. Mas sem deixar claro a minha alegria por aquele toque acrescentei logo:

— Eu não acredito que vi um jogo deles. E melhor! Que eles ganharam o jogo que eu vi! Eu também estava eufórico. Aquilo tudo, aquela alegria era contagiante.

Fomos saindo do estádio, com aquela torcida alucinada, gritando e comemorando e relembrando todos os passes. Tinha sido um belo jogo. Só quando chegamos na rua, lembramos das meninas. Elas não tinham ficado com a gente, não tinha bancos disponíveis, então tínhamos combinado de nos encontrarmos no fim do jogo.

— Será que elas já saíram?— perguntei olhando em volta para ver se tinha algum sinal delas.

—Acho que sim. Vou tentar ligar para a Kate.

— Tudo bem. Vou ligar pra Leslie. Peguei o telefone e disquei o número dela, enquanto Verne foi se afastando um pouco.

Talvez pra falar algo particular.

—Olá Gordo. Que foi? Viu o jogo? Foi muito bom. Nunca pensei que fosse falar isso, mas foi um dos melhores

— Oi Less. Claro que vi. Eu quero saber é se vocês já saíram. Estão aonde? A gente vai ai pegar vocês.

—Ah, mas nos não vamos voltar com vocês. —Como assim!? A gente tinha combinado de sair para comer depois do jogo, e depois o Verne ia levar a gente. Como você vai embora?

—Eu sei Gordo que a gente tinha combinado isso. Mas é que a Kate encontrou uns amigos dela, e eles nos chamaram pra comer alguma coisa.

— E por que você não me chamou e nem chamou o Verne?

— Por quê você é tão lerdo às vezes Gordon? — e sussurrando no telefone disse — Não são um bando de gente. São dois garotos gatos que chamaram a gente pra sair. Por isso que eu não chamei vocês, bobão.

— Ah, entendi — disse meio sem graça por não ter percebido antes.

— Você é muito bobo mesmo Gordon— ela disse rindo — Mas, eu te perdoou.

—E depois, eles vão te levar embora?

—Claro né!

—Então tá . E, cuidado.

—Eu sei me cuidar. Ah, e aproveita a oportunidade que agora vocês estão sozinhos.

—Leslie!

—E não me conta os detalhes depois. E assim, ela desligou. E eu fiquei me perguntando se tinha garotos mesmo ou se foi só uma bela desculpa para nos deixarem sozinhos.

Acho que no fundo eu sabia a resposta.

—Como elas saem com dois caras, assim do nada?—perguntou Verne.

—Pois é. Ah, quer saber? Deixa essas loucas pra lá.

—É você está certo.

—Bom, e agora? O que a gente faz? — perguntei apesar de já ter uma ideia, pois eu estava morto de fome.

— A gente pode sair pra comer alguma coisa. Estou morto de fome.

— Pode ser. Onde?

—Um lugar gostoso que esteja vazio por favor — ele disse rindo. Não pude deixar de sorrir também.

Acabamos indo para o Alby’s. Verne me contou que ela é uma lanchonete bem antiga e tradicional na cidade. Apesar do estilo meio anos 60, era uma lanchonete bem acolhedora, com seus sofás vermelhos, jukebox e um carro antigo, que eu não sabia o nome, mais que devia ser muito famoso na época do meu bisavô.

Uma atendente nos trouxe o cardápio de patins, e com os lábios extremamamente vermelhos, por causa do batom, mandou beijos para nós enquanto saia dançando ao som de John Travolta.

Verne começou a rir e mandar beijos também. Aquilo me deixo meio desconfortável e pensando que talvez aquele restaurante pudesse não ser tão legal assim.

— Eu adoro isso daqui. É muito legal essa música e esse astral, sem contar que as garçonetes são umas gatas mesmo, não é? — ele disse piscando pra mim.

Eu queria ir embora dali, isso sim.

— É bem legal mesmo. — o que eu podia dizer.

—E o melhor daqui, é porque a comida é boa. Você vai querer o quê?

— Não sei, você escolhe.

—Então tá. Já sei o que a gente pode pedir.

A comida era boa mesmo. Nunca vi hambúrguer mais gostoso. E o Verne parou de prestar atenção nas garçonetes, o que melhorou ainda mais. Nossos assuntos não acabavam, e era algo estranho, e que me deixava cada vez mais maravilhado. Tinha momentos que eu não percebia o que ele tinha falado, pois minha atenção se voltava para o seu sorriso e seus olhos. Era algo novo que estava acontecendo, e eu gostava disso.

— Eu queria pedir um milkshake pra fechar. Só que eu não aguento tomar um inteiro — ele disse. —Divide um comigo?

— Claro, quer dizer, sim tudo bem.

—Ótimo.

A garçonete de boca vermelha, que parecia mais que ela tinha levado um soco do que passado batom, nos trouxe o milkshake, e quando fomos tomar, nossas cabeças se encostaram.

—E, desculpa cara — disse Verne meio envergonhado.

— Sem problema. — completei, sorrindo.

Enfim, tudo estava muito gostoso, e a noite tinha sido maravilhosa. Ou melhor estava sendo.

Depois que saímos da lanchonete, fomos para um parque que tinha lá perto. Não tinha mais ninguém andando no parque. Só nós. Só existia a gente.

Depois de muita conversa é risada, o meu melhor amigo, o silêncio, apareceu novamente e veio nos acompanhar.

—Até que a noite foi bem legal— disse Verne.

Ele estava muito bonito com aquela camisa. E mais descontraído. Acho que ficar perto de mim não era algo mais desconfortável para ele. Não que ele tenha me falado, mas eu sempre percebi que ele ficava esquisito perto de mim. Mas não tiro a razão dele, quem iria gostar de andar com um gordo lesado como eu? Mas acho que ele, no final, gostou.

—Foi sim. E sem as garotas foi bem melhor. Elas falam muitas bobeiras.

—Pois é. Espero que elas tenham tido uma noite legal também.

—Aposto ,o que você quiser, que foi.

—Olha, é uma boa aposta. Pena que eu sei que iria perder.

Ele me encarava enquanto sorria, e isso me deixava nervoso. Pode-se dizer que muitas coisas me deixam nervoso. E para melhorar, ou piorar, a situação, ele ainda passou o braço por cima dos meus ombros e completou:

—Olha Gordon — e virando de frente para mim, disse com todas as letras aqui presentes — Até que você é um cara muito legal.

Não ia conseguir mais esperar, mesmo porque eu sabia que esse era o momento.

Então eu o beijei.

E foi um dos melhores beijos que eu poderia ter dado.

O único problema, é que ele não me beijou de volta.

Em vez disso, me empurrou e me olhou com uma cara assustada e surpresa enquanto limpava a boça com o braço.

—O que você fez!? — perguntou irritado. Eu não conseguia entender o por que daquilo tudo.

O que eu tinha feito?

Acabado de estragar tudo pelo visto.